Meu querido diário
67 O barulho do silêncio
Notas iniciais

— Desculpa – Ouvi uma voz atrás de mim que reconheci ser do Cebola.
— Pelo que? – Parei na hora e virei para encará-lo de frente.
— Por ter te acordado, fui mexer o ombro... – Ele respondeu levantando.
— Não tem problema, eu que peço por ter me apoiado – Corei levemente.
— Acho que a cirurgia já acabou – Comentou reparando que na verdade todos se encontravam próximos ao médico, provavelmente sedentos por noticias.
Não esperei por mais nada, caminhei apressadamente em direção a eles, e antes que de chegar pude ler a resposta da cirurgia em seus rostos.
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— ... Foi um sucesso!!! – O Dr. Concluiu assim que me aproximei – Ele passa bem, está se adaptando rápido aos medicamentos de recuperação, alias se minhas contas estiverem certas em pouco tempo acordará, claro terá que permanecer internado, para acompanhamento, e continuidade de medicação, mas no geral está tudo bem.
Respirei fundo, como se depois de muito conseguisse sentir o oxigênio preenchendo meus pulmões novamente, aconteceu tudo muito rápido, mas todos nós sorrimos quando o papai envolveu minha mãe em um grande enlaço, selando-o com um beijo de comemoração. Em meio a felicidade e euforia da noticia os dois se emocionaram, e absolutamente nada daquilo foi questionado por ninguém que ali estava, pelo menos não naquele momento.
Sem pensar, olhei para o Cebola que sorria igualmente paralisado e o abracei, ele me tirou do chão retribuindo o ato. Lágrimas descontroladas desceram pelo meu rosto e com as mãos tremulas e geladas segurei em suas costas, pude sentir por alguns segundos que era ali que eu queria estar.
Assim que o soltei, contemplei os rostos felizes que me rodeavam e imediatamente senti um alivio indescritível no peito, uma leveza e principalmente uma gratidão pelas minhas orações atendidas. Meu irmão estava a salvo, bem, havia sobrevivido a uma cirurgia de risco e eu naquele momento exalei alegria.
Estava ansiosa para vê-lo, mas as visitas só seriam liberadas ao amanhecer, meus pais permaneceram no hospital, e eu resolvi voltar para casa, pra dormir um pouco e posteriormente retornar para lá. Despedi-me do pessoal e segui para a porta do local, peguei o celular para chamar um taxi quando senti alguém se aproximando.
— Mo você vai com o Mauricio? – Aninha perguntou saindo logo atrás de mim, arrumando o zíper da bolsa.
— Ah... Não, ele não pôde vir, mas estou chamando um taxi exatamente agora – Respondi sem tirar os olhos do celular.
— Vamos compartilhar um? – Perguntou sorridente e eu lembrei instantaneamente que ela também estava sem carona, uma vez que sempre andava com meu irmão.
— Claro, é até melhor porque está bem tarde. Quer ir lá para casa? – Ofereci calmamente ainda tentando localizar pelo aplicativo.
— Agradeço Mo, mas vou tomar um banho, deitar um pouquinho na minha cama, e depois voltar para cá – Respondeu bocejando – Desde quando tudo isso começou, não consegui dormir direito nenhum dia.
— Ah, imagino, mas esse pesadelo acabou. Em breve encontraremos ele novamente acordado – Conclui a abraçando de lado com um sorriso carinhoso.
— Hey, vocês vão agora também? – Ouvi uma voz saindo de dentro de um carro no qual eu conhecia muito bem.
— Oi Ce, vamos sim, vamos dormir um pouco, tomar um banho, para voltar mais tarde – Respondi agachando na direção da janela.
— E estão esperando alguém? – Ele questionou olhando para os lados.
— Não, eu estava chamando um taxi – Contei mostrando o celular.
— Então vamos, eu deixo vocês em casa – Ele propôs educadamente.
— Não, nem pensar Ce, sério mesmo, você já fez muito por nós hoje – Falei a verdade – Eu até já encontrei um taxi aqui perto.
— Claro que não Mo, não tem essa de limite, jamais deixaria as duas sozinhas nessa escuridão, vamos– Insistiu destrancando as portas.
Olhei para a Aninha e percebi instantaneamente seu semblante cansado, virei novamente para o carro dele, analisei por segundos a situação e por fim resolvi aceitar. Fiz sinal para ela que rapidamente se aproximou e entramos para ir embora.
Seguimos o caminho em silêncio, minha casa era próxima da dela, então ele não sairia muito da rota. A madrugada permanecia gélida, o sereno caia torrencialmente obrigando o Cebola a ligar o para-brisa do carro. Uma película fina de chuva cobria as janelas do automóvel, limpando todo e qualquer vestígio de poeira que antes se instalava por ali. Hora ou outra eu checava minhas mensagens para ver se o Mauricio estava acordado ou se havia pelo menos lido a que enviei mais cedo, mas em nenhuma das tentativas obtive sucesso.
Sem perceber paramos em frente a uma casa que ha tempos eu não via, mas reconheci ser a da Aninha, que com um pulo se despediu, desceu fechando a porta e correu para dentro tentando não se molhar.
Ele esperou que ela trancasse a porta totalmente para só então dar partida no carro e seguirmos novamente nosso rumo. Fiquei imaginando onde estaria a Amanda todo esse tempo que ele passou com a gente, não tinha coragem de perguntar, e sabia que não deveria me meter, mas aquela semana que havia passado dava para sentir que algo diferente tinha acontecido.
Foi somente então que reparei na mão direita dele, onde antes havia uma aliança agora permanecia apenas a marca de um anel muito usado. Fiquei tão surpresa, que ele percebeu imediatamente para onde eu olhava.
— Terminei o namoro – Ele comentou como se adivinhasse meus pensamentos.
— Ah... Sério? Desculpa o mau jeito – Respondi corando.
— Não se preocupa, uma hora você ficaria sabendo, só não achei conveniente te encher com isso num momento como esse – Ele comentou batucando no volante esperando o farol abrir.
— Mas... Você está bem? – Perguntei delicadamente.
— Ah, sim. Já não vinha mais dando certo, era só questão de tempo mesmo – Ele me respondeu sinceramente.
— Entendi, sinto muito – Conclui um tanto sem graça reconhecendo a rua em que havíamos acabado de entrar, era a minha.
— Está entregue – Ele comentou com um sorriso no rosto.
— Obrigada Ce, mas uma vez obrigada por tudo. Nem sei como te agradecer por ter ajudado tanto assim a minha família – Agradeci carinhosamente.
— Não precisa agradecer Mo, eu faria mil vezes se fosse preciso – Respondeu bondosamente.
— Você tem um coração enorme, não merece se machucar – Falei sem entender muito bem o porquê, mas sentindo que devia.
— Não vou... E você também não deveria – Ele rebateu, provavelmente sacando que algo estava acontecendo entre mim e o DC, que não havia aparecido uma vez sequer no hospital.
Um silencio constrangedor se instalou no carro naquele momento, eu deveria ter respondido alguma coisa, mas não consegui, me limitei a forçar um meio sorriso, abrir a porta do carro e descer, acenando até ele sumir de vista.
Era o que ultimamente vivia fazendo, fugindo das perguntas a respeito do meu noivado, e tentando ao maximo não explodir, ou misturar os problemas com o Mauricio.
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Como se adivinhasse que sua ausência havia virado pauta entre minha família e amigos próximos, a campainha tocou, assim que terminei de me trocar, revelando meu noivo do outro lado da porta com um buque de rosas na mão. Dei uma sacudida no cabelo ainda molhado devido ao banho, e a abri após checar pelo olho mágico a quem se referia.
— Resolveu aparecer? – Perguntei o cumprimentando com o selinho e dando espaço para ele passar.
— Bom dia para você também amor – Ele respondeu colocando sua pasta em uma das poltronas e me entregando as flores perfumadas – Estou morrendo de saudade, vim ficar um pouco com você.
— Obrigada pelas flores – Agradeci verdadeiramente lhe dando mais um selinho, ele sabia que eu amava ganhar rosas, principalmente aquelas que vinham com fita prateada dando um toque especial ao ramo.
— Elas estão tão lindas quanto você – Ele elogiou me dando vários beijinhos – O que está afim de fazer hoje? Estava pensando em irmos almoçar fora.
— Meu irmão está bem, a cirurgia foi um sucesso – Comentei o lembrando dos últimos acontecimentos, enquanto ajustava o buque em um vaso.
— Verdade! Sabia que ia ficar tudo certo, quando vai visitá-lo? – Ele perguntou me abraçando e dando um beijo em minha testa.
— Vou daqui a pouco, vamos juntos? – Perguntei erguendo a cabeça que antes estava em seu peito.
— Vamos, eu te levo – Concordou imediatamente para minha surpresa.
Eu também estava com saudade, principalmente de ter os momentos nossos que eram raros, nos quais saímos para jantar, para ver um filme, ou conversávamos, mas não podia deixar de visitar meu irmão que acordaria em breve, estava fora de cogitação. Sendo assim não demoramos muito para descer, entrar no carro e seguir rumo ao hospital.
— E sua viagem está de pé ainda? O meu pai comentou que vai ser uma inauguração super importante lá no Rio – Ele questionou acelerando o carro do jeito que me deixava tensa.
— Sim, vou pegar as passagens ainda essa semana, estava só esperando meu irmão ficar bem – Respirei fundo, respondendo calmamente.
— Que ótimo, tenho certeza que vai gostar, a filial do Rio é a maior e mais bonita depois da sede em Ouro Preto. Vai fazer a preview do seu próximo livro em grande estilo. – Ele sorriu pegando em uma de minhas mãos.
— E você vai comigo? – Perguntei de repente o deixando surpreso – Aproveitar para conhecer a nova instalação?
— Ah... Não, você sabe Mo, não posso deixar as coisas aqui sozinhas, e tenho... – Ele começou a se explicar, mas logo o cortei.
— Tem os eventos, os funcionários... E mais um milhão de pessoas. Sempre isso. Você mudou sabia Mauricio? – Reclamei me arrependendo, não queria ter aquele tipo de conversa naquele dia, muito menos naquela hora.
— Mudei como? Eu continuo o mesmo, só com um pouco mais de tarefas – Se explicou parando no farol.
— Um pouco mais de tarefas... Você passa o tempo todo na empresa, quando casarmos vai ser assim também? – Questionei deixando a conversa fluir.
— Não acredito que está implicando com o meu trabalho, quando as pessoas se casam, as coisas mudam, se adaptam, vai dar tudo certo. – Ele concluiu decididamente.
— Espero!!! – Respondi vendo que nos aproximávamos do prédio do hospital.
— Eu te amo Mo, não quero que tenha uma má impressão disso, só estou tentando adaptar minha rotina a minha nova vida – Ele passou uma de suas mãos pela mecha solta do meu cabelo.
O observei quieta, abrindo um meio sorrisinho ao seu toque. Eu gostava dele, aprendi a gostar daquele jeitinho confuso, do modo como me tratava, da forma calma que lidava com as coisas, ele equilibrava meu jeito impulsivo, minha intensidade de sentimentos. Mas naquelas últimas semanas muita coisa havia acontecido. Se ele ao menos soubesse do barulho que envolvia aquele meu silencio.
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