Meu querido diário
76 Há Tempos
Notas iniciais

— Eu sei maninho, eu lembro o quanto foi difícil, mas ela tem que saber o quanto antes, você não vai conseguir protege — lá pra sempre. – Ela concluiu cabisbaixa.
— Eu sei! Mas isso não me impede de falar com ele primeiro – Respondi decidido, pegando a chave do carro, o celular dela e batendo a porta ao sair, pude ouvir protestos da Maria em minhas costas, mas naquele momento estava decidido, eu iria encontrá-lo.
—-
POV Monica
Não foi uma semana fácil, estaria mentindo se dissesse o contrário, não consegui focar em nada que fiz, nem mesmo em uma matéria importante que eu estava empolgada para desenvolver. A Magali permaneceu compreensiva, me ajudando da maneira que podia, vira a mexe abordávamos o assunto, de forma delicada, mas era raro eu conseguir falar sem que meu estômago revirasse, me fazendo passar mal.
Não evitei o DC, mas ele também não me procurou quase nenhuma vez durante a semana inteira, ficou sabendo por cima dos detalhes e me mandou apenas uma mensagem perguntando se eu tinha gostado do que havia escolhido. Estranhei que ninguém havia tocado no assunto com ele, dos últimos acontecimentos na Noivas&Noivas, nem mesmo sua mãe que havia presenciado tudo.
Mesmo sendo injusta com o Mauricio, a ideia de que ele podia sim saber de tudo, mas tinha escolhido apenas não se importar, não saia da minha cabeça. Na verdade, que diferença fazia? Eu não o amava, e aquele peso foi se tornando insuportável nos sete dias que se seguiram após a prova.
Não tive notícias do Cebola, mas senti saudade dele diversas vezes durante as madrugadas de insônia, nas quais vi o céu escuro se tornar laranja, depois brilhar em seu azul infinito pela janela do meu quarto. Naquelas noites reli meu diário algumas vezes, me peguei rindo sozinha, lembrando de quanto éramos felizes quando estávamos juntos e como tivemos que nos separar de forma brusca, contra nossa vontade, para vivermos nossas vidas longe um do outro.
Soltei a maçã que mordia freneticamente enquanto tentava terminar outro documentário, fazendo-a rolar pelo chão, assim que a campainha do meu apartamento tocou me dando um baita susto. Era sábado de manhã, manhã até demais para uma visita inesperada.
Mirei o relógio sonolenta, ele marcava 07h30, me arrastei do quarto até a sala, observei no olho mágico e me assustei quando vi o meu irmão parado, esperando que eu abrisse.
— Hey! Está tudo bem? – Perguntei assim que dei espaço para ele passar.
— Oi Mo, sim e por aqui? Nossa acho que vim umas duas vezes só no seu apê, maneiro! – Ele entrou reparando na mobília da sala.
— Pois é, e não foi por falta de convite – Fechei a porta e me joguei no sofá, o olhando.
— Já estava de pé essa hora? Achei que te acordaria – Comentou sentando ao meu lado.
— Estou tentando terminar um documentário desde ontem, preciso entregá-lo segunda para a editora – Respondi bocejando. – E você? O que faz aqui essa hora? E com essa roupa?
— Eu estou malhando novamente – Ele respondeu rapidamente, mas tratou de se explicar assim que arregalei os olhos — Moderadamente, dentro do permitido pelo médico.
— Ah bom, já ia brigar com você e contar para a mamãe – O empurrei rindo.
— Aproveitei que estava aqui do lado e vim te visitar – Concluiu coçando a cabeça.
— Essa hora Titi? Se eu estivesse dormindo ia te xingar muito, você sabe disso né? – Perguntei levantando para pegar algo para bebermos.
— Eu sei, mas tem um tempo que estou querendo conversar com você e tive a impressão de que estava me evitando, esperei uma semana até tudo normalizar, ou pelo menos a poeira baixar, para vir aqui – Ele começou a falar me preocupando.
— O que é que a mamãe foi te contar Timóteo? Conheço essa sua cara, não precisa se preocupar, está tudo sob controle – Respondi coçando a cabeça trazendo duas garrafinhas igualmente laranjas.
— Ela só está preocupada Monica, quem sai da loja de vestidos dos sonhos, chorando sem explicar nada pra ninguém?! Eu não vim brigar, vim te entender e te aconselhar – Contou abrindo o suco que o ofereci.
— Foi ela que pediu para você vir? O papai? Ah já sei, a Maga... – Perguntei imitando seu movimento.
— Não, eu vim porque sou seu irmão e sei que não está bem – Concluiu dando um gole.
— Ok! Eu não queria ter feito aquilo ta bom? – Me joguei novamente ao seu lado.
— Me conta o que está engasgado ai Mo, você tem que desabafar com alguém, quem sabe eu não posso te ajudar? – Questionou me olhando carinhosamente.
Respirei fundo e fechei os olhos, tentando buscar coragem para pronunciar as palavras que eu tanto queria e não conseguia.
— Eu só estou sentindo uma coisa ruim, bem aqui – Indiquei meu coração com as mãos — Você não tem ideia, não amo o Mauricio, mas tinha aprendido a gostar dele, só que quando eu reencontrei o Cebola... Titi o que vivemos foi intenso demais, você sabe! E quando ele foi atrás de mim no Rio, eu só queria chorar e nunca mais sair debaixo do abraço dele. – Respirei fundo contendo as lágrimas.
— Hey! Calma, respira, ninguém aqui vai te julgar – Ele comentou vendo que eu tremia um pouco ao contar aquilo.
— O Mauricio...Ele é conhecido Titi, todo mundo essa hora já deve saber que sou sua noiva, e eu não o amo. Não quero passar o resto da minha vida ao lado de um cara que eu não amo! – Conclui abaixando a cabeça – Mas também não queria magoar ele, decepcionar nossos pais, qualquer coisa do tipo.
— Mo, vem cá – Me afagou em seus braços, igual fazíamos quando éramos pequenos – Você não é obrigada a casar com ele só porque as pessoas sabem, porque podem comentar, ou porque viveram um namoro de cinco anos. Você tem que casar por amor, por amar tanto a pessoa que tê-la com você todos os dias será um prazer, será felicidade, companheirismo, coisa que não vejo vocês compartilhando há tempos.
— É... Ele anda bem distante – Comentei baixinho enxugando uma lágrima. – Mas eu fico pensando no impacto que tudo isso causará.
— Você tem que ser feliz maninha, correr atrás dos seus sonhos com alguém que voe junto contigo, não precisa aceitar nada menor que isso, muito menos viver com uma pessoa que não quer por causa do que os outros irão pensar – Concluiu se levantando.
— O que quer dizer Titi? – Perguntei atenciosa.
— Que eu no seu lugar já teria acabado com isso e ido viver o meu grande amor, a história que sempre quis, mas que por diversos motivos não conseguiu, se é que me entende. Dei o endereço de onde você estava porque sei o quanto vocês se amam Monica, um sentimento desse não pode ser deixado para trás – Ele respondeu jogando as garrafas do suco fora.
— Eu... Eu venho pensando nisso há um tempo, fugi da loja, porque me ver naquele vestido, vivendo uma história que eu não sonhava, me deu pânico, desespero. E nessa semana que se passou, só piorou, eu só pensava em quanto queria acabar logo com isso – Enxuguei o rosto olhando para baixo.
— Então está esperando o que? É final de semana, ele não trabalha de manhã, quanto mais você adiar, mais perto do casamento vai ficar... – Lembrou pegando a chave do carro.
Olhei mais um pouco para a aliança que trazia por alguns anos no dedo, respirei fundo e por fim levantei.
— Você me leva na casa dele? – Questionei vendo a hora, se aproximava das nove da manhã.
— Só se limpar bem esse rosto — Ele riu abrindo a porta.
Dei um meio sorriso e corri para o quarto para me arrumar, vi o diário aberto jogado em cima da minha cama e quando li o nome Cebola estampado em uma das folhas, tive mais certeza ainda de que era aquilo que eu queria fazer, estava realmente decidida, a hora de conversar com o Mauricio e acabar com aquele noivado havia chegado.
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