Meu querido diário
69 Temporal
Notas iniciais

Limpei uma lágrima sorrateira que escapou por entre meus olhos, e automaticamente levei meu olhar ao Mauricio, que permanecia no celular entretido, provavelmente conversando com alguém da empresa. Por alguns segundos lembrei-me do que meu pai havia falado minutos antes, sobre ter sido imaturo, e ter priorizado somente o trabalho quando sua família mais precisou. Não sabia o porquê, ou sabia e apenas queria me proteger, mas tinha quase certeza que em uma situação daquelas a escolha do meu futuro marido teria sido a mesma.
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Foi nesse compasso de alegria que os dias não demoraram a passar e as notícias a melhorarem, a cada nova visita era uma conquista diferente do meu irmão, o Titi já estava respirando sem ajuda dos aparelhos, respondendo positivamente a todos os remédios, e alimentando normalmente. Questão de alguns dias a mais para concluir alguns procedimentos e enfim receber alta.
Naquele momento ele já falava, então não faltou tempo para colocarmos todo o papo em dia, tanto da família, quanto dos amigos e namorada. Nossas visitas eram diárias, procurávamos comparecer nos dois horários, revezando entre manhã e noite, para ficarmos com ele em todos os momentos possíveis.
Em uma dessas visitas a mamãe nos contou, para aumentar nossa animação, que voltaria para o Brasil de vez. Havia conversado com a equipe dela e conseguido a transferência para São Paulo. Ficamos tão felizes que mal percebemos que a notícia trazia muito mais novidades do que imaginávamos, ao pronunciar a cidade, sequer me liguei que aquilo significava ir morar com o papai.
Somente quando o Titi me chamou a atenção que eu cai na real, e a felicidade não coube dentro do quarto, entre risadas, muita emoção e abraços a ansiedade nos preencheu, nos deixando eufóricos e contando as horas para podermos comemorar tudo isso do lado de fora.
Em momentos assim eu procurava exterminar as preocupações gerais da minha cabeça, nada do tipo preparativos, casamento e ausência do Mauricio tinham lugar na minha felicidade. Muito menos sentimentos confusos, cansaços devido a correria do dia a dia ou frustrações.
Deixava isso para as noites mal dormidas, quanto deitava a cabeça no travesseiro, onde mesmo com frestas iluminadas pela Lua na janela, o quarto ficava imerso na escuridão, criando pensamentos agitados, fazendo o medo do incerto me atingir na face, transformando qualquer música lenta da minha playlist em melancolia, motivo de choro, até pegar no sono.
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Fazia uma noite escura e chuvosa um dia antes da minha viagem para o Rio, eu estava parada no meu quarto checando aflitamente a mala aberta em cima da cama para ver se faltava alguma coisa, quando ouvi o som de novo e-mail no meu computador.
Olhei para trás curiosa, e reparando ser da Folha sentei em frente a tela para ler. Não saberia dizer quantas ao certo, mas pelo menos cinco vezes li e reli as palavras descritas antes de ter um surto psicológico.
O título do e-mail já trazia estampado o motivo da minha taquicardia “A Aprel em parceria com a Folha, convidam você a ficar por dentro de todos os detalhes do casamento mais esperado do ano”. Com a mão tremula e um tanto descontrolada cliquei nos anexos e assim que abri, senti minha pressão caindo para o pé.
Uma foto minha ao lado do Mauricio estampava a capa da revista Celebridades da editora Aprel, uma das mais cobiçadas pela cidade, eu não saberia dizer quando nem como aquela foto havia sido tirada, mas nada daquilo fazia o menor sentido para mim.
Abri item atrás de item procurando em qual pagina falaria sobre nós e quando achei respirei fundo e me endireitei na cadeira para ler com atenção.
Não havia ficado ruim, a matéria era boa e em grande parte verdadeira, contava um pouco da nossa história. Era incrível como as pessoas encontravam informações da nossa vida mesmo quando não dizíamos uma só palavra. Isso se devia a fama do DC e sua família, que eram muito mais reconhecidos do que eu. De qualquer forma jamais permitiria que aquela revista fosse a venda, uma vez que desde o início havíamos combinado de não expor nossa vida pessoal.
Como se adivinhasse que eu precisava conversar, o meu celular tocou juntamente a um trovão. Dei um pulo de susto pela combinação de sons e por fim atendi colocando-o no viva voz, era a Magali.
— Hey, você não volta hoje não? – Gritei para ultrapassar o barulho da chuva que se agravou de repente.
— Oi Mo... Amiga, estou presa aqui na editora, vou chegar mais tarde, essa chuva parou todo o transito – Ela respondeu calmamente.
— Maga, você sabe que morro de medo de acabar a luz, como vou fazer? Estou sozinha...– Choraminguei saindo da poltrona e me jogando em cima das roupas restantes na cama.
— Chama o DC amiga, pede para ele segurar ai até eu chegar – Propôs carinhosamente.
— Vou fazer isso, apesar de que duvido muito que ele venha. Estou terminando de fazer minha mala – Contei tentando puxar assunto.
— Eu fiz a minha ontem, tinha certeza que ficaria até mais tarde aqui – Ela complementou.
— Ai amiga, me fala que você não está fazendo parte dessa palhaçada da Celebridades – Revirei os olhos, mirando o teto.
— Mo... Uma hora ou outra isso aconteceria, as pessoas perguntam, querem saber – Ela justificou tranquilamente.
— Mas eu não vou permitir que saia Maga, não quero, eles mandaram e-mail pedindo autorização... – Respondi agoniada.
— A gente conversa quando eu chegar ok? To indo jajá, beijos – Ela concluiu desligando em seguida.
Sentei na cama apreensiva, cocei um pouco a cabeça olhando de longe a matéria no computador e por fim disquei o número do DC.
— Alo? Amor? – Ele atendeu rapidamente.
— Oi lindo tudo bem? – Perguntei levantando novamente olhando as roupas agora amassadas.
— Tudo e você Mo? – Respondeu secamente.
— Estou bem e sozinha, você podia dar um pulinho aqui né?! – Perguntei colocando minhas pantufas e caminhando até a cozinha para comer alguma coisa.
— Amor, em meio a semana eu não consigo, você sabe princesa – Tentou amenizar com a voz.
— Mas será que não existe uma excessãozinha? – Choraminguei aflita. – Eu queria só um pouco da sua companhia e sei que esse horário você está em casa.
— Estou, mas super ocupado Mo, repassando todas as informações da reunião. E sim, a possibilidade existe, ela vai acontecer amanhã quando eu for te levar ao aeroporto – Ele respondeu naturalmente.
— Ai Mauricio... Ok, ta bom, tchau! – Desliguei nervosa.
Mesmo sabendo que a chance de ele aparecer era menor que um por cento, uma parte de mim ainda procurava aquele Mauricio que eu tinha conhecido na época da faculdade e havia se perdido com o passar do tempo.
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Comi um lanche, dobrei mais algumas roupas, chequei se para uma semana duas malas eram o suficiente, coloquei o celular para despertar as 7h00, e finalmente peguei em um sono pesado, empurrando todas as roupas restantes nas quais eu não levaria para o chão. Só acordei quando ouvi barulho de porta abrindo e passos pela casa.
A chuva ainda caia torrencialmente, a voz da Magali preencheu o local, atingindo ao longe meu tímpano, mas o torpor do sono consumia todo meu corpo me impossibilitando de responder.
— Amiga, achei que nem estava mais em casa – Ela reclamou acendendo a luz do meu quarto ao entrar.
— Maga, to dormindo poxa – Reclamei colocando um travesseiro sobre a cabeça. – Será que nem isso mais respeitam?
— Nossa... Calminha ai, preciso falar com você – Ela insistiu sentando no puf enquanto tirava os sapatos. – Quando me contratou, deixou claro que amigas amigas, negócios a parte.
— Não pode ser ao amanhecer? Que horas são? 2 da manhã? – Resmunguei sonolenta.
— Monica, são dez da noite – Ela comentou tirando a blusa de frio molhada.
— Ok, ok, acordei ta bom? O que você quer? – Questionei me espreguiçando, percebendo que não teria como fugir das perguntas.
— O DC não veio ficar com você? – Perguntou provavelmente lembrando que eu estava sozinha.
— Não, e isso não é novidade – Respondi amarguradamente. – Mas não quero falar nesse assunto e nem lembrar dele hoje, por favor.
— Imagino amiga... Mas a nossa diretora me chamou hoje pedindo para eu anunciar amanhã na coluna social o casamento – Ela disparou, talvez com medo da minha reação.
— .... Coluna social? – Questionei assustada.
— É... Eles nunca tinham se ligado que o Mauricio que você estava noiva, era o herdeiro da Aprel.... Agora que descobriram, ninguém segura a imprensa — Ela explicou tentando ser o mais solidaria possível.
— Não era bem o que eu esperava... – Falei mais para mim do que para ela.
— Amiga, desculpa, mas não sei porque essa surpresa, vocês dois são conhecidos, do meio da arte, uma hora aconteceria algo do tipo. E você o ama, é o cara que escolheu para viver ao seu lado, o que tem demais? – Perguntou carinhosamente.
— Eu o amo... – Pensei por alguns segundos a mais nessa parte da frase deixando a ultima palavra ecoar no ar frio daquela noite.
— Pelo que eu me lembre sim, era o que você dizia na viagem o tempo todo – Ela cortou meus pensamentos.
— Amiga, se você não se importa eu queria dormir, posso te autorizar tudo isso amanhã? Preciso descansar, estou um caco e nosso vôo sai cedinho – Pedi me jogando novamente na cama, tentando não voltar ao assunto.
— Pode... Descansa que você está realmente precisando – Ela concluiu, levantando do puf, apagando a luz e saindo do quarto.
Virei para o lado abraçando a almofada branca e rosa que ladeava a minha cama, pensando vagamente no impacto que teriam as notícias do meu relacionamento saindo em revistas, e a pressão que seria a partir daquele momento, para que tudo desse mais do que certo.
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