Meu querido diário
59 Tempestade
Notas iniciais

POV Cascão
Eu não gostava de me meter na vida dos outros, mas desde que a Monica tinha voltado, e ele e a Amanda declarado pé de guerra, ele estava misterioso, quieto, um tanto fechado, comportamentos que eu tinha certeza que estavam relacionados com esse assunto.
--
POV Monica
No geral o evento foi incrível, novas colunas, novos acordos, promoções anunciadas, inclusive a da Magali, espaço para escritores amadores reabertos, e contratos fechados.
Tudo estava indo de vento em polpa, tirando o fato da diretora da minha coluna ter me chamado de canto e perguntado se eu estava bem, o que ela nunca fazia, tudo corria nos conformes, fomos elogiadas pelas matérias, e pela dedicação que tínhamos para com horários e datas de entregas.
Não entendi muito bem o porquê da pergunta, então deduzi que era devido ao meu humor que não andava muito bom, e acho que acertei em cheio, pois mais tarde a Magali me contou que a diretora questionou se eu estava bem mesmo, por andar um pouco introvertida.
Não era por mal, realmente vinha um pouco mais fechada, queria silenciar meus pensamentos deixando minha boca quieta, porém isso acabava atrapalhando em várias coisas, inclusive interferindo nas minhas relações pessoais.
Olhei pela janela e vi que a noite já caia junto com uma chuva fininha, em meio a distração com um susto me coloquei de pé lembrando que tinha um livro para continuar, as músicas do casamento para escolher e matérias para adiantar.
Conversei rapidamente com o DC pelo celular e ele me explicou direitinho tudo que tínhamos a fazer, protestei para separarmos as faixas musicais juntos, mas ele tinha compromisso da Aprel, então preferi não intervir.
Chamei um taxi, que demorou um pouco além do normal para chegar e quando finalmente consegui o pegar, o transito parou, me deixando impaciente, o tempo foi passando, a taxa aumentando e simplesmente não saiamos do lugar. Por algumas vezes olhei pela janela tentando entender a origem daquele congestionamento, mas sem sucesso tornava a sentar agoniada.
Chequei as horas, faltavam dez minutos para as 20h00, estava mais do que atrasada para o que quer que eu fosse fazer, então resolvi pagar e descer, esperar o trafego acalmar, senão todo meu dinheiro iria naquela corrida.
Caminhei um pouco procurando algum lugar para sentar, minha bolsa estava pesada e meu corpo cansado devido ao salto, fazia uma noite fria, e a chuva unida ao vento deixavam ainda mais complicada a vida das pessoas que caminhavam pelas ruas da cidade naquela noite.
Eu estava sem guarda chuvas, sem capa, sem carro, então tentava caminhar sob as tendas das lojinhas até chegar em algum lugar que desse para aguardar sem risco de me molhar mais ainda.
Quando pensei que não podia piorar, a chuva apertou, as pessoas começaram a correr para todos os lados, algumas esbarrando em mim quase derrubando a bolsa que eu carregava nas mãos e o transito piorou tornando minha chance de ir embora para casa quase nula.
Voltei a caminhar com um pouco mais de dificuldade, meu cabelo já havia encharcado, mas pelo menos estava perto do meu destino, no qual lembrei de última hora, meu pub preferido.
Entrei nele correndo, torcendo meu cabelo e abraçando com frio meu corpo molhado, cumprimentei com um sorriso as pessoas que ali se encontravam, e caminhei até minha mesa preferida, no canto do local.
Até que não era uma má ideia escrever ali, aquele lugar sempre me inspirava, e foi nele que tudo começou, lá que havia postado minha primeira história. Pedi uma limonada rosa, tirei as anotações da bolsa, e comecei a colocar minha imaginação em prática.
Por volta das 21h00, chequei o transito que continuava o mesmo, vi a chuva que estava cada vez mais forte, e então voltei para a mesa sentindo meu estomago reclamar, estava começando a ficar com fome.
Sentei novamente, peguei o que já tinha escrito e comecei a ler, corrigindo algumas partes, estava tão entretida, que nem reparei quando alguém sentou na minha frente.
— Acho que isso é seu – Ele estendeu uma limonada rosa cheia, em troca da minha vazia.
— Cebola? O que faz aqui? – Perguntei assustada abaixando as folhas do meu campo de visão.
— Bom – Ele começou a falar, me fazendo reparar em seu cabelo que estava respingado de chuva – O transito está parado, parece que caiu um poste na avenida, estava tentando voltar para casa, como não obtive sucesso, resolvi vir comer, que to varado de fome.
— Ah... – Comentei sem reação querendo rir pela coincidência – Entendo, passei exatamente por isso também.
— Mas pelo jeito você tomou a chuva toda né? Está toda molhada ainda, não está com frio? – Ele questionou preocupado.
— Muito – Respondi a verdade, o ar condicionado do pub misturado a minha roupa molhada, estava me dando calafrios.
— Toma, coloca – Ele tirou o seu casaco e o apoiou sobre meu ombro.
— Não, não precisa Cebola, imagina, vai ficar com frio – Protestei o procurando, mas ele já havia levantado dali me deixando falando sozinha.
— Hey, onde você foi? – Perguntei vestindo o seu casaco, que se não fosse por acaso nosso encontro, pensaria que tinha sido de propósito o cheiro nele de perfume forte.
— Fui pedir algo para jantarmos – Ele respondeu tranquilamente passando as mãos no cabelos, os deixando irresistíveis.
— Mas... Quem disse que estou com fome? – Questionei desviando o olhar.
— Sério? Então tudo bem, vou comer todas as coisas que ele trouxer na sua cara – Ele brincou me fazendo rir.
— Tá, eu como, mas só porque estou tentando chegar em casa faz mais de duas horas, e não comi nada desde então – Contei lamentando.
— Imagino, como foi seu dia? – Ele perguntou como se fossemos superamigos.
— Cebola, você sempre vem aqui? Quer dizer, assim, esse pub era onde eu costumava vir lembra? – Questionei curiosa, naquela hora minha curiosidade falou muito maior que meu bom senso.
— Claro que lembro... E sim, sempre venho, depois que você foi embora, virou um habito... – Ele respondeu fechando um pouco o grande sorriso que trazia no rosto.
— Ah, entendo, pelo menos você cuidou daqui para mim, é meu xodó – Tentei o animar novamente, não queria cair em nenhum papo baixo astral.
— Olha nossa comida ai!!! – Ele comentou, vendo o garçom trazer três bandejas cheias, uma com batatas, outra com petisquinhos de queijo, e a última com frios.
— Eba, eu amo tudo isso! – Comemorei faminta, um tanto sem graça.
—É eu sei – Ele concluiu risonho.
—-
— Venho achando muita coincidência esse monte de encontro nosso – Ele quebrou o silencio que se instalou logo após comermos e rirmos bastante nos lembrando de coisas do colégio.
— É, faz um mês mais ou menos que não nos vemos, mas mesmo assim, sempre nos esbarramos na coincidência – Acrescentei pensativa.
— São caminhos cruzados – Ele comentou rapidamente, deixando a ultima palavra ecoar no ar.
...
— Será que essa chuva não passa nunca? – Mudei de assunto completamente, ficando um tanto deslocada.
— Não estou preocupado, nem um pouco – Ele respondeu estralando os dedos.
— Então... Você só perguntou até agora, por que não me conta da sua vida? – Pedi me sentindo bem por estarmos ali.
— O que quer saber dona Mel? – Ele brincou me encarando.
— Hum, o que quiser me contar – Rebati sustentando o olhar.
— Bom, acho que já sabe que sou professor da faculdade, estou morando sozinho, mas minha casa sempre vive cheia, a Maria aliás não sai de lá – Contou se soltando no assento, dando um gole em sua bebida.
— E a Amanda? – Perguntei descaradamente, afinal já que era para conversarmos, que fosse sobre tudo.
— Às vezes aparece – Ele respondeu secamente me deixando claro que não queria falar sobre aquilo. – E o seu noivo?
— Isso eu já te respondi – Sorri bocejando, vendo que se aproximava das 23h00.
— Aquele dia, ele chegou nem deu para conversarmos – Ele reclamou sorrindo.
— Ele é legal Ce, é carinhoso... Gosta de mim sabe – Contei tentando manter a animação.
— Entendi – Ele concluiu pensativo, com certeza havia captado algo no ar.
— Olha, a chuva já passou! – Reparei pela janela.
— Nossa nem percebemos – Ele se surpreendeu erguendo o braço para pedir a conta.
— Acho que vou embora então, está ficando muito tarde – Comentei tirando minha carteira da bolsa.
— Eu te levo – Ele ofereceu passando o cartão na máquina que o garçom trouxe.
— Não precisa, imagina, eu vou de taxi tranquila – Descartei a ideia na hora estranhando o fato do garçom ir embora.
— Nem pensar, eu te levo, faço questão – Ele concluiu decidido.
— Cebola eu não paguei, quanto ficou? – Perguntei observando o tanto de coisas que tínhamos pedido.
— Não ficou nada, essa foi em homenagem aos velhos tempos – Ele respondeu saindo do local.
Balancei a cabeça dando risada, e o segui para fora, não sabia até onde seria uma boa ideia pegar carona com ele, mas tinha que confessar que estava ansiosa para chegar em casa o mais rápido possível, e que a companhia dele havia sido agradabilíssima, não tinha do que reclamar e nem porque recusar.
Fale com o autor