Meu querido diário
13 Reflexo no espelho
Notas iniciais

Quando mais uma vez eu estava prontinha em frente ao espelho que pendia atrás da porta do quarto da De, ouvi uma buzina pela janela. Respirei fundo, me despedi dela, peguei as folhas do primeiro capítulo de uma história de amor que escrevi, e sai ao encontro dele.
— Olá mocinha linda – Ele me cumprimentou assim que entrei no carro, com um beijinho.
— Oi Ce, tudo bem? – Respondi carinhando seu rosto.
Sentir a barba por fazer dele, me deixava com um aperto no coração imaginando o que aconteceria quando ele soubesse de tudo, ou quando todos descobrissem. Imaginava até quando poderia olhar tranqüila para aquele sorriso que me derretia inteira.
Na empolgação do reencontro mal percebi uma mensagem da mamãe dizendo que precisávamos conversar. Guardei o celular dentro da bolsa, com a atenção voltada para a reação dele assim que o entreguei o capítulo. Podia jurar que os olhos dele brilharam quando leram a sinopse, isso era um bom sinal não era?!
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— Ual, por que nunca me mostrou isso antes? Você manda muito bem – Ele falou assim que terminou de ler a primeira folha.
— Você só leu uma pequena parte, nem é tudo isso, faço por hobbie – Comentei sorridente. – Mas obrigada.
— Mel, isso é lindo, é muito mais que um hobbie, você devia tentar ver a reação do público sabia? – Ele perguntou admirado. – Tenho certeza que vão amar.
— Como assim? Ah Ce, você é a segunda ou terceira pessoa que eu mostro minhas viagens, não acho que todos gostariam – Respondi lembrando automaticamente que só a Maga e a De já tinham visto o que eu escrevia.
— Não, não são viagens, você tem talento – Ele sorriu virando para a segunda folha.
— Obrigada de verdade Ce – Sorri corando. – Falando assim, eu até acredito viu.
— Que ótima, porque é para acreditar mesmo, Mel, você conhece o site Wpad? Nele você pode postar suas histórias publicamente, e ver a reação dos leitores, conversar com eles, até mesmo buscar editoras que apostam em autores novos e publicar um livro – Ele contou animado – As vezes a própria editora acha sua história e entra em contato com você propondo um livro.
— Nossa, já pensou? Quer dizer, eu até penso em ser uma grande jornalista, mas um livro seria um sonho realizado – Imaginei pensativa.
— Por que não tenta postar algo lá? – Ele perguntou ansioso. – Você é boa Mel, tem que acreditar no que faz, eu li uma folha e já me apaixonei pela história, e olha que sou bem critico hein.
— Hum... Prometo que vou pensar ta bom? – Falei estralando os dedos.
— Vem cá – Ele me puxou para perto, fazendo eu me deslocar do meu banco e invadir sorrateiramente o dele, passou suas duas mão por entre meus cabelos, e me beijou, do jeito que só ele sabia, um beijo intenso, daqueles que ficavam gravados na memória.
Nossos lábios se separaram calmamente, e sorrimos um para o outro. Ele não precisava me falar nada, aquele olhar dele já me dizia o que eu hesitava em perguntar, ele sentia o mesmo que eu. Podia ver sua alma através do seu sorriso, e sua sinceridade através dos gestos. As vezes me perguntava se eu merecia realmente tudo isso.
— Vamos? Hoje vou te levar pra almoçar no meu restaurante preferido – Ele comentou ajeitando-se no banco novamente e colocando o cinto.
— Oba, estou com fome, onde fica? – Perguntei o imitando, ajeitando meu batom.
— Fica uns 40 minutos daqui, mas gosto muito da comida de lá e da companhia, então vale a pena – Ele comentou dando partida no carro – Ah e vamos comemorar o seu futuro livro.
— Ok – Conclui rindo – Ao meu futuro livro!
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Já estava achando que ele tinha me seqüestrado quando paramos no estacionamento de um restaurante na beira da estrada quase uma hora depois e ele estacionou assobiando. O exterior do local era lindo, lembrava claramente aqueles ranchinhos ladeados de lagoas e barulho de grilo. Tinham mini pontes que se sobrepunham aos laguinhos que decoravam o caminho até a entrada.
Via se peixes sobre a água clara de lá, o local passava paz, e tranqüilidade, torci para que o interior fosse assim também. Mais surpresa do que a beleza do local me trouxe, foi quando ele segurou minha mão tranquilamente, entrando acompanhado comigo no restaurante e cumprimentando os garçons que pelo jeito já o conheciam.
— Bem-vinda a um dos meus restaurantes preferidos de toda a vida – Ele me apresentou abrindo os braços e escolhendo a melhor mesa que eu podia querer para nos sentarmos.
Ela era ao lado de grandes vitrais que se estendiam do teto até o chão, deixando à mostra toda a beleza do jardim do local. Por dentro ele era tão incrível quanto por fora, os detalhes deixavam tudo ainda mais bonito. No meio do restaurante via-se a continuação do laguinho lá de fora e o barulho que a água corrente reproduzia acalmava a todo ambiente.
— Ual Ce, que lugar lindo – Eu admirei sorrindo. – Onde encontrou esse tesouro?
— Meus pais sempre me traziam de pequeno aqui, quando íamos viajar parávamos para almoçar – Ele me contou chamando o garçom.
— Nossa, nem sei o que dizer, obrigada por me trazer – Agradeci verdadeiramente.
— Digamos que você merece – Ele respondeu segurando em minhas mãos, sorridente.
Naquele momento me senti péssima, queria ter respondido com o mais bonito dos meus poemas, mas não consegui, o que passou na minha cabeça foi o fato de eu estar mentindo, e ele não saber sequer meu verdadeiro nome.
— Mel? – Ele me tirou do transe apertando uma de minhas mãos – Está tudo bem? O garçom está esperando para saber o que quer beber.
— Ah... Desculpa, é que esse lugar é tão incrível, quero uma limonada rosa por favor – Respondi voltando a atenção para ele, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Fico feliz que esteja gostando, quando pensei no que faríamos hoje, esse lugar me veio diretamente na cabeça, sempre que quero espairecer, ou pensar venho para cá também – Ele contou olhando pelo vitral.
— É, realmente sensacional essa vista – Concordei seguindo seu olhar.
— Sensacional é de um jeito inexplicável termos nos encontrado, e hoje estarmos aqui juntos – Ele respondeu segurando uma de minhas mãos por cima da mesa.
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Não preciso nem dizer o quanto foi incrível nosso almoço, comi o melhor risoto que já provei na vida inteira, rimos muito juntos, ele me contou sobre o time, sobre as expectativas dele e sobre ter largado o emprego para estagiar na área. Pediu para eu lhe falar exatamente tudo sobre como descobri meu amor pelas palavras, e eu cheguei até a lhe contar que tinha um diário.
A conversa, a companhia, o lugar e o beijo, tudo extremamente especial, ele me deixou em frente a casa da Denise as 20h00 me deu outro beijo de tirar o fôlego e foi embora.
Dessa vez não entrei, nem bati na porta, esperei o carro sumir de vista e apertei o passo para casa. Cheguei consideravelmente rápido, passei pela sala cumprimentando meu pai e o Titi que assistia a mais um de seus jogos hipnotizado e subi para tomar banho.
Só quando cheguei no quarto que lembrei de olhar meu celular para checar as mensagens, era surreal como eu esquecia das coisas quando estava ao lado dele.
Vi uma chamada perdida da mamãe, e uma mensagem dela dizendo que precisávamos conversar... Pois é, minha suspeita se confirmou, ela estava estranha e eu estava prestes a descobrir o que era.
Como ia embora no dia seguinte, respondi que conversávamos depois, pluguei o celular no carregador, e voei pro banho quente, sonhando com aquele dia incrível.
Sai do banho e admirei meu reflexo no espelho embaçado, era assim que minha vida amorosa se encontrava naquele momento, era assim que o Cebola me conhecia, totalmente desfocada, sem sequer perceber uma lágrima escorreu e se juntou a toalha que enrolava meu corpo, limpei com uma das mãos a outra lágrima que insistiu em cair logo em seguida. Eu sabia o que tinha que fazer, mas o medo me impedia de tomar qualquer decisão naquele momento.
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