Meu querido diário
27 Intangível
Notas iniciais

Olhei apreensiva para o que ele estava fazendo, buscando freneticamente na cabeça o que falar, quando senti minha voz voltando, ele jogou uma caixinha de veludo preta na minha mão, me encarou nos olhos mais uma vez, como se quisesse guardar na memória aquele momento, entrou no carro e sumiu por entre a escuridão da noite.
Minhas mãos suavam e tremiam, abri com dificuldade o objeto e meu estomago despencou para o chão quando vi o seu interior, o par de alianças prateadas brilhava sob a luz da Lua. As lágrimas voltaram a escorrer descoordenadas, peguei com cautela a maior delas que a ele pertenceria e vi claramente, mesmo em meio ao choro, o nome Mel escrito em letras cursivas dentro da aliança, ao seu lado a data da festa, data do dia em que nos conhecemos.
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Não saberia dizer por quanto tempo fiquei ali naquela mesma posição, estática. A escuridão ficava cada vez mais intensa a minha volta, e parecia que o tempo tinha parado. As informações tinham se perdido em minha cabeça. E o momento em que ele me entregou a aliança tinha ficado gravado. Ele iria me pedir em namoro. Repeti pela décima vez seguida. E eu simplesmente joguei tudo isso fora.
Uma das coisas que eu mais queria, estava tão perto de acontecer, e de repente tinha ficado longe, distante, intangível. Ele não estava errado, longe disso. No lugar dele faria o mesmo ou pior, ele não tinha se apaixonado por mim, nem pela minha história, nem pela minha inteligência, ele amava a Mel, a faculdade que ela fazia, a maturidade dela, eu era apenas sua aluna, uma menina dando vida a uma personagem.
Tornei a caminhar cabisbaixa para casa, não sabia como, mas ele tinha descoberto sobre o Titi, e eu sabia que em questão de pouco tempo meu irmão também saberia. Só me restava coragem para o encarar, e contar antes que contassem. Somente quando entrei no meu quarto e fechei a porta consegui relaxar. Guardei cuidadosamente a caixinha dentro da minha gaveta do criado mudo, e me joguei na cama olhando para o teto com uma dor surreal no peito. Naquele momento queria chorar, ouvir musica triste e me perguntar mil vezes o quanto fui burra e teria ficado assim por pelo menos mais umas dez horas se meu irmão não entrasse batendo minha porta fortemente na parede me dando um susto. De um pulo me coloquei de pé.
— Tá louco? – Perguntei limpando rapidamente as marcas de choro evidente em meu rosto.
— Eu que tenho que te fazer essa pergunta, ficou louca por algum acaso? – Ele falou em alto tom de voz. Isso sempre indicava briga feia. Todas nossas discussões pesadas foram sob gritos.
— Não grita comigo Titi não sou mais criança, e vai embora que quero dormir, to passando mal – Respondi mau humorada de braços cruzados. Aquela definitivamente não era a hora de conversarmos sobre qualquer coisa, seja lá o que fosse.
— É criança sim, e vai me ouvir. Sou seu irmão mais velho, não vou sair daqui – Ele respondeu se aproximando.
O encarei com raiva, esperando fortemente que a pequena chance dele ainda não saber de nada permanecesse.
— Não quero saber de você perto do Cebola, está me ouvindo? Em que mundo vive, achando que pode fazer o que quiser? Você é uma pirralha, se mete com gente do seu tamanho! – Ele vociferou claramente nervoso andando de um lado para o outro.
— Não se mete nisso Timóteo – Respondi segurando o choro – E fala baixo por que o papai está no quarto.
— Hahaha, você acha que ele não vai saber Monica? O Cebola é seu professor, você só pode ser louca, nunca vou permitir isso – Ele gritou mais alto.
— Titi, quem você acha que é para permitir alguma coisa? – Perguntei me alterando – Você não seria capaz de envolver o papai nisso, deixa que eu resolvo, não preciso da sua ajuda.
— Você não sabe resolver nem seus probleminhas de adolescente, isso envolve gente grande Monica, o papai precisa saber – Ele justificou coçando a cabeça, dava para perceber que não estava em seu estado normal.
— Titi você está de cabeça quente, vamos conversar sobre isso quando estiver mais calmo, por favor, não piora tudo – Pedi quase implorando.
— Devia ter pensado nisso quando foi à festa da minha faculdade escondida, como teve coragem? Te deixei na casa da Denise... Ah e eu sabia que essa menina não era boa influência – Ele reclamou dando um murro na minha escrivaninha – Vive se metendo em encrenca.
— Não envolve a De nisso... Alias como sabe que fui à festa? Quem te garante? – Perguntei tentando distanciar o máximo possível o assunto do meu pai.
— Acha que sou trouxa Monica? Ele me contou desde o começo da “gatinha” que ele pegou na festa, que estavam juntos, que queria algo mais sério, ele nem sonhava que você era minha irmã, e eu também não! Dei conselhos para ele sobre a Mel, não é?! – Ele riu lembrando nervosamente. – Como queria ter te encontrado na festa, você ia passar a maior vergonha da sua vida.
— Eu me apaixonei de verdade por ele Titi, o que tem de mal nisso?! – Perguntei incrédula.
— Tudo Monica! Você é uma menina, ele é um homem. Você se diz tão apaixonada, mas mentiu para ele o tempo todo, nem em São Paulo você morava ainda. Tem que ser muito trouxa pra acreditar em você – Ele me provocou, fazendo minhas entranhas se torcerem de pesar.
— Você é um ridículo... Como pode pensar assim?! – Chorei abaixando a cabeça. – Tudo que sinto por ele é muito real, quer você queira ou não.
— Não importa! Com ele eu já acertei minhas contas, agora vou resolver isso aqui em casa – Ele continuou a bufar como um touro.
— O que quer dizer com isso? – Me assustei, lembrando-me do nariz sangrando do Cebola – Foi você que bateu nele né? Eu sabia, sabia que você era baixo assim.
— Ah... Você já soube?! Acertei o nariz dele, mas queria ter acertado mais, ninguém dos meus amigos se envolve com minha irmã, e agora tenho certeza que ele já sabe disso.
— Te odeio – Me aproximei dando tapas atrás de tapas no seu peito, eles não faziam efeito algum uma vez que o Titi era grande e malhado, mas posso jurar que coloquei toda minha força naqueles golpes.
— Ta louca menina? – Ele perguntou me segurando pelos dois braços e encarando meus olhos – Você é uma criança mal educada, e vai aprender a se comportar nem que seja a força.
— Por que Titi, pra que isso? – Perguntei chorando enquanto me soltava do seu aperto. – Parece que nunca foi adolescente.
— Porque sou seu irmão mais velho, você é menor de idade, e não vai continuar a se envolver com ele, entendeu? Longe Monica, longe dos meus amigos, ele nem deve gostar de você de verdade, é só mais um casinho – Ele me provocou, sabia que aquelas palavras me machucavam e muito.
— CALA A BOCA, sai daqui Titi, me deixa – Gritei tentando conter as lágrimas que agora escorriam sem parar – Não tenho culpa se seu namoro é um fracasso e você quer descontar isso em quem se ama.
Ele deu mais um passo em minha direção e segurou meu braço novamente falando alto.
— HAHAHA, amor Monica? Acha que o Cebola te ama? Você é uma criança, iguais as mil que ele da aula, se liga menina, vê se cresce, isso é crime sabia? Se denunciarmos ele, ele vai preso – Respondeu rindo sinicamente me largando de qualquer jeito.
— Ele me ama, e você não pode mudar isso – Me defendi o empurrando.
— Posso sim, claro que posso, irmã minha não vai ficar se esfregando com professor, que ainda por cima é meu amigo, maior de idade – Ele concluiu se divertindo com meu nervosismo. — Vou te mudar de colégio!
— TE ODEIO Timóteo – Gritei a plenos pulmões tentando fazer com que ele saísse do meu quarto.
— O que está acontecendo aqui? – Meu pai entrou fazendo com que eu me arrependesse imediatamente pelo grito.
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