Meu querido diário
3 Cortinas ao vento
Notas iniciais

Cheguei em casa estava totalmente apagada e silenciosa, sinal que minha mãe não tinha chegado ainda, desconfiava as vezes de que ela estava namorando, ou com algum affair, tinha dias que chegava muito mais tarde que de costume, mas ai eu lembrava que ela ainda gostava muito do papai e talvez isso a bloqueava um pouco. Pra falar a verdade também nunca soube o por que se separaram ao certo, na época eu era pequena e não entendia muito bem, mas agora sempre que eu pergunto desviam o assunto, ai para não ser inconveniente eu não insisto. O Titi só para me irritar fala que sou muito nova pra saber disso, ele gosta mesmo de me encher.
Quer saber? Eu não entendo mesmo isso de relacionamento, paixão, essas coisas parecem muito complicadas, e eu já sou complicada demais pra me envolver, também por isso barro o Toni o tempo todo.
Tem gente que sempre sonhou com o príncipe encantado, e cresceu sabendo tudo sobre relacionamentos, essa pessoa definitivamente não sou eu, ou pelo menos ainda não encontrei algum cara que despertasse essa vontade em mim.
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Ah, e o Titi, fala que sou muito nova, só ele na minha idade se sentia o mais velho de todos, lembro como brigava com todo mundo que falava da sua idade, como ele é sem noção.
Enfim, me apressei para não me atrasar, acendi quase todas as luzes da minha casa, mania que tenho, não gosto nada de escuro, principalmente quando estou sozinha, e subi pra terminar de arrumar minhas coisas para ir pro meu pai.
Carreguei meu fone sem fio o máximo que consegui para ouvir no caminho. Sempre que surgia a oportunidade do Titi fazer um questionário sobre a minha vida ele fazia, desde como estou na escola, até sobre meninos, coisa que eu não suporto contar pra ele. Ele acha que é meu pai, pode uma coisa dessa?!
Abri minha mochila e continuei a colocar mais algumas coisas por lá, estava muito frio, temperatura um pouco abaixo do normal para a primavera, como tenho um quarto lá na casa do meu pai, deixo roupas, e boa parte de coisas que utilizo por lá, sendo assim minha bolsa tinha só o que eu achava que faltaria.
Ouvi com um susto alguém abrir a porta e um arrepio passou rapidamente pelo meu corpo, olhei para a janela que junto com o vento causava uma impressão estranha nas cortinas, corri e peguei a primeira coisa para me proteger que encontrei no chão, uma bota com salto fino, encostei-me à parede do meu quarto e ouvi aflita passos se aproximarem.
Sério, eu gosto de filmes de ação, suspense, mas não acho nada legal quando acontece comigo, até sou daquele tipo corajosa, que enfrenta tudo que vê pela frente, mas, pra essas coisas não, pra isso sou mega medrosa. Dentre coisas que tenho medo estão aranhas, escuro, florestas a noite, barulho no andar debaixo, ir ao banheiro no meio da madrugada, na verdade tenho até uma mini listinha disso no meu diário.
Tentei afastar esses pensamentos da minha cabeça e continuei parada encostada na parede com o coração acelerado e minha bota na mão, se alguém chegasse e visse a cena iria rir com certeza, se não fosse trágico seria cômico.
Ouvi os passos mais próximos, respirei fundo juntando coragem, e quando eu virei pronta para atacar, vi meu irmão olhando com cara espantada para o objeto em que eu segurava com força.
— Você ia me atacar com uma bota? – Ele me perguntou segurando a risada
— Não – Eu respondi de imediato a soltando... – Ta, eu ia, foi a primeira coisa que encontrei – Respondi querendo rir também, agora até que parecia engraçado.
— Ual, quanta coragem – Ele concluiu rindo e me abraçando em forma de cumprimento – Falai baixinha está pronta? Vamos rápido que tenho que buscar a Aninha depois.
— Baixinha Titi, ainda com esse apelido chato? Sabe que não gosto que me chamem assim, e sim estou pronta– Eu peguei minha mochila e o segui pela porta afora. — Nossa o papai não tinha mudado de carro?– Eu perguntei enquanto trancava a porta de casa.
— Ele mudou, e eu fiquei com o antigo dele – Ele me respondeu mostrado como estava em novo estado o antigo corsa preto – Dei um upgrade nele.
— Hum, que ótimo agora já pode ser meu motorista particular – Eu brinquei entrando na frente e colocando o cinto. — E melhor ainda, isso quer dizer que quando eu fizer 18 ganho um novo, já que o antigo foi para você.
— Só se for em sonho maninha, quando você puder dirigir, o que falta um bom tempo, esse vai para você e o novo para mim, lógico, ah e só sou motorista das minas da facul – Ele riu engatando a primeira.
— Ah vamos ver então, deixa a Aninha saber disso – Eu comentei enquanto pegava meu tablet para jogar, a viagem era longa.
— É só brincadeira pirralha, nem inventa de contar – Ele concluiu voltando ao seu estado normal, o irritante.
— Calma, só vou jogar seu chato – Eu respondi mostrando a lingua e colocando o fone o mais rápido possível.
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Estávamos quase chegando, depois de um pouco mais de quatro horas de viagem, quando ele parou em frente a uma casa que não reconheci, por alguns segundos achei que a Aninha tinha se mudado, mas minha resposta veio em menos de um minuto depois.
Dois dos amigos deles saíram de dentro da casa com algo que imaginei ser um vídeo game nas mãos e o Titi saiu do carro para falar com eles. Perguntou se eu queria sair, mas fiz o contrário, me afundei no banco e continuei meu jogo, eles eram realmente chatos demais, sob a sombra não consegui reconhecer quem era quem, ou se ao menos eu os conhecia, mas também não ligava pra isso.
Pra falar a verdade eu não conhecia quase nenhum amigo do meu irmão, de pequena ainda brincava na sala quando eles estavam por lá, mas depois que cresci, evito ao maximo dar de cara com eles pela casa, lembro de um nome, o Xaveco, porque desde pequeno ele já ia lá na casa do papai, e acho que só. Dei sorte do carro ser insulfilmado, assim não teria que cumprimentá-los só por educação.
Demorou um pouco mais de meia hora para o Titi voltar pro carro e eu já estava reclamando um montão, o frio com o cair da noite se intensificou e eu tremia um pouco. Eram quase meia noite e eu nem se quer tinha visto meu pai ainda.
— Precisava demorar tudo isso? – Perguntei tentando aquecer minhas mãos.
— Para de reclamar, você devia me agradecer, vim pegar meu vídeo game de volta pra você jogar lá em casa – Ele me contou mostrando o saco nas mãos.
— Ah, que fofo, nem parece uma atitude sua – Eu brinquei passando o game para o banco de trás – Agora vamos, por favor? Ah e porque eu iria querer jogar seu vídeo game? O Papai sempre me faz ver filmes com ele até tarde.
— Pelo menos assim você não me enche o saco – Ele concluiu jogando por água abaixo o carinho repentino que senti por ele.
— Ah eu sabia que tinha uma segunda intenção – Eu comentei virando os olhos – Vai me conta porque quer me manter ocupada? Eu nem fico na sua cola, vou ver o papai e não você.
— Ah tá bom!!! – Ele respondeu voltando a dirigir – Seguinte, amanhã o papai tem uma feira da tecnologia para ir, ele vai palestrar pela empresa e eu tenho a festa da minha faculdade, a não ser que você queira participar de uma feira corporativa, acho que o vídeo game vai cair bem – Ele concluiu fazendo meu estomago despencar.
— Ah não acredito, por que não me avisaram antes? Eu viria no próximo final de semana – Eu respondi cruzando os braços.
— A feira é rápida Monica, o papai não pode faltar, e eu não posso te levar comigo, então você pode chamar suas amigas lá, como é o nome da menina de cabelo loiro mesmo? Debora? – Ele perguntou rindo, sabia que estava me chateando.
— Denise, Titi, você sabe muito bem o nome dela, e por que não posso ir com você? – Eu perguntei começando a imaginar como seria incrível participar da minha primeira festa de uma faculdade.
— É pra rir né? Você tem 17 anos, é menor de idade, não vou me responsabilizar por ninguém – Ele tinha o dom de cortar meu barato.
— Sou mais madura que você, não preciso que fique responsável por mim, é mais fácil o contrario, o que que custa me levar? – Eu perguntei brava.
— Monica, é uma festa de faculdade, e alem disso você acha que ia ficar fazendo o que lá? Conversando com meus amigos? Não sonha, você vai ficar esperando o papai em casa e pronto, ele volta antes das 22 horas e está com saudade de você – Ele finalizou com ar autoritário.
— Aff, você pensa que é meu pai né? Que saco, tem só 5 anos a mais que eu, e final do ano que vem faço 18 – Eu argumentei de braços cruzados.
— É mas ainda tem 17, e ainda não te levaria se tivesse 18, então não e fim de papo – Ele concluiu estacionando na frente da minha segunda casa.
A casa continuava do mesmo jeitinho, ainda com a garagem grande na frente, e o quintal de fundo, escondidos atrás do grande portão branco ladeado de mármore.
As ruas estavam escuras e frias, caia um leve sereno sobre nosso cabelo, tratei de correr para dentro, sem olhar para o Titi que já tinha conseguido me irritar, como sempre.
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