Izabel, a esposa de Yran, estava procurando saber o porquê do marido estar nesse estado.

Aos poucos, Yran contou a ela o que havia acontecido. A situação de Melissa, de Rudolf, e por fim a fala da nova aluna, Gaby.

-Minha nossa...

-Sim. — Yran olhou profunda e soturnamente para a esposa. Enxugou um pouco as lágrimas antes de continuar a falar: — Mais um desses pais que existem por aí, fugindo da responsabilidade e engrossando estatísticas.

-Você é um excelente pai — retomou a esposa. — Se essa sua tristeza é por você achar que pode se tornar como o pai biológico dessa garota, então...

-Não é isso, amor. É que... É de partir o coração saber que em pleno século XXI ainda há alguns de nossos alunos que lidam com pais desse "calibre". Pelo que andei sabendo, a mãe dela é bastante presente na vida e criação da moça. Já o pai... bom, mais clichezão do que isso, impossível.

Izabel riu, ainda que fosse um riso sem nenhuma nota de humor embutido.

-É. Infelizmente, a humanidade ainda conta com alguns ratos assim, misturados entre as pessoas que tentam levar a vida de forma honesta e digna...

Izabel se limitou a passar as mãos nos ombros do marido, consolando-o. Yran já não chorava, mas seu semblante ainda estava visivelmente muito abatido. A história de Gaby mexera com ele mais do que ele gostaria de admitir. Na verdade, todos os problemas de seus alunos, como Gaby, Rudolf, Melissa e outros, eram situações em que ele não conseguia esconder ou disfarçar suas emoções por tanto tempo.

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Ao longo da semana seguinte, a fofoca nos corredores da escola voltou a tomar conta de um assunto em particular: Melissa e sua gestação.

A "aluna modelo" agora era objeto de gozações e especulações de pessoas que tinham pouco ou nada a ver com a situação. Pior, em sua maioria, os alunos que ficavam opinando sobre a vida dela e a situação na qual ela se encontrava, em sua maioria, apenas proferiam algum comentário sarcástico, negativista ou destrutivista sobre ela e a gestação.

Pelo pouco que Yran chegou a saber, seja dos professores, seja por entreouvir as conversas dos alunos, Melissa tinha um namorado fazia alguns meses. Ela não contara a quase ninguém sobre isso, a não ser para algumas poucas de suas amigas mais próximas — razão pela qual a família dela também fora pega de surpresa com a descoberta da gestação. Melissa fazia uso de anti-concepcional, mas havia tomado escondido dos pais uma dose de uma daquelas canetinhas "emagrecedoras" que estavam na moda entre alguns jovens. Aparentemente, conseguira a canetinha de uma aluna de algumas séries acima, também da escola. Achava-se um tanto acima do peso, ainda que fosse considerara por muitos como uma das meninas mais bonitas da escola. A maioria das amigas dela, pelo que o professor de Química podia perceber, diziam que ela não estava gorda, e que ela não tinha que ficar encucada, se preocupando demais com o peso. Pelo visto, as falas das amigas não deram muito certo.

O caso é que Melissa vinha mantendo relações sexuais frequentes com esse namorado já de algum tempo. Ele era terminantemente contra o uso de preservativos, alegando que era "alérgico" ao pequeno item de látex. Até então, nada de extraordinário havia ocorrido — mas, quando Melissa começara a usar a canetinha, um pouco antes do Carnaval, coincidiu com um dos encontros mais recentes dela com o rapaz, em que haviam ido para a cama mais uma vez, "celebrando" o feriado na intimidade dos dois em meio àquele romance sexual.

Infelizmente, o resultado foi de que a canetinha anulou os efeitos do contraceptivo, o que levou a menina a engravidar.

Não eram poucos os alunos, principalmente meninas de outras séries, que agora rotulavam Melissa de "fácil" ou de "puta", simplesmente porque agora todos estavam sabendo que a outrora "aluna exemplar" do Educandário Nossa Senhora das Vitórias, cotada antes até para ser presidente do Grêmio Escolar da instituição, tinha levado uma vida sexual intensa pelos últimos meses. Todos antes se referiam a Melissa como "a santinha" da escola, aquela filha que todos os pais gostariam de ter, aquela aluna que todos os meninos cobiçavam e queriam como sua namorada... aquela aluna que as outras meninas gostariam de ser, algumas até ao ponto de inveja-la ou de cobiçar o "status" que ela tinha na escola.

Era um enorme plot twist saber que a aluna mais exemplar do colégio tinha encontros sexuais quentes e intensos frequentemente, enquanto mantinha uma postura quase que perfeita no ambiente escolar.

Eram comentários como aqueles, carregados de hipocrisia e moralismo fajutos, que Yran achava repulsivos. A menina precisava de acolhimento, não de julgamentos.

Sabiam também, agora, que o tal namorado apenas a enrolara para leva-la para cama e não ter que usar camisinha; afinal, ainda que ele fosse de fato alérgico, existiam preservativos anti-alérgicos. Coincidência ou não, o rapaz parara de responder as mensagens enviadas por Melissa depois do anúncio da gestação. Confiabilidade zero para esse cara, pensou Yran consigo mesmo.

Janusa, a coordenadora do RH da escola, que também era assistente social e psicóloga, certo dia chamou todos os professores para conversar. Na sala dos professores, onde estavam todos reunidos, ela começou a dizer:

-Como todos sabem, da situação que remete a uma de nossas alunas... Estou organizando um momento de orientação para com nossos estudantes. Acerca da conscientização sobre relações sexuais seguras e protegidas, os cuidados que devem ser tomados... e para evitar o uso de instrumentos como as "canetinhas", não apenas para as alunas que fazem uso de método contraceptivo, mas para todos os estudantes em geral. Não se deve utiliza-las a não ser quando recomendadas por um profissional da saúde, adequando para a situação particular do aluno em questão.

Os professores todos concordaram.

-E claro... iremos advertir sobre o bullying, afinal, é de conhecimento de todos que muitos alunos estão proferindo comentários maldosos sobre a aluna. Vamos sanar isso e cortar essa prática o quanto antes.

Dito isso, Janusa acrescentou para os professores que iria organizar essa série de palestras e orientações para o alunado, e que começariam "o mais cedo possível".

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.