Os dias na prisão eram longos e perigosos. Tinha cinco colegas de cela: um estelionatário, um gigolô, um espião industrial, um gângster e um golpista. E eu, um assassino confesso destoava dos outros. No início até me considerava melhor que eles, por ser "inocente". Aprendi após surras e provocações que um único indivíduo não sobrevive à prisão. Os condenados de minha cela aprenderam a se unir e a agir como um coletivo. Mentalidade de gang ou não, é mais fácil sobreviver assim em meio a todo tipo de gente maldosa e perversa, ou que simplesmente não tem mais nada a perder, nem mesmo a própria vida.

Convivíamos pacificamente, evitando pisar nos calos uns dos outros, e esperando o término de nossa pena. Pedi a Jae-Gi que nunca viesse me ver, mas ele teimava em aparecer nos dias de visita, sempre trazendo fotos e cartas de Choco. Ficava triste e compadecido de minha situação, mas nunca me destratou ou foi grosseiro comigo. Se ele soubesse o que fiz na realidade … acho que nunca me perdoaria. Alguns parentes apareceram após minha prisão e anunciaram que estavam solicitando a guarda de Choco, pois ela não tinha mais ninguém para tomar de conta dela. Tive que aceitar o arranjo que fizeram e morri de pena da minha irmãzinha. Fui egoísta e não pensei no bem estar dela, quando resolvi jogar minha vida fora por causa de minha namorada. Essa culpa eu levarei comigo para o túmulo.

Sempre perguntava sobre Jae-Hee a meu amigo. Ele me contou que ela abandonou a carreira de repórter após o casamento com um magnata. Isso me destroçou. Não parecia certo. Não foi isso que planejei. Não era o que tinha em mente. Não acreditei ou preferi não acreditar no que me contava. Minha querida Jae-Hee ainda estava me esperando, ela não me esquecera e nem o sacrifício que fiz por ela. Não minha flor, o meu sol que iluminava minha vida, não a minha fada mágica.

Nunca lhe disse "te amo". Nunca achei que precisasse. Tudo que sempre precisei fazer na vida foi cuidar dela, de seus machucados, de suas lágrimas, de seu estados de espírito, de seus sonhos. Cada vez que passei mercúrio cromo em seus joelhos ralados, meu coração suspirava "eu te amo". Cada vez que segurava sua mão ao seguirmos juntos para a faculdade, meu coração cantava alegremente "eu te amo". Cada vez que lhe falava palavras doces e ternas para apaziguar sua alma, meu coração sussurrava "eu te amo", devagarzinho, para não assustá-la. Meu corpo inteiro vibrava de amor por aquela moça. Minha existência inteira se resumia a adorá-la e amá-la. Por que ela nunca percebeu isso, se todo o bairro e a escola já sabiam?

Nunca aceitei que ela houvesse me esquecido e se casado com outro homem. Então, um ano depois, Jae-Gi me trouxe fotos de jornais e revistas de fofocas. Jae-Hee e o marido, um homem mais velho, batizaram o filho recém-nascido. Pareciam felizes. Lembrei do conselho que dei a Jae-Hee, para que seguisse em frente e nunca olhasse para trás, e fosse feliz. Ela apenas fez o que lhe pedi. Não podia culpa-la por procurar a felicidade nos braços de outro homem. Sendo assim eu a perdoei.

Naquele dia eu chorei pela primeira vez.

No fim de cinco longos anos da minha condenação por assassinato, o homem que fui um dia não mais existia. O subserviente, cordato, meigo, prestativo e inocente Maru se fora. Morreu em cada dia sofrendo e assistindo todo tipo de violência, sendo enganado e enganando os outros. Sendo espezinhado e espezinhando da mesma maneira. Nunca matei ninguém, mas não era mais ingênuo e inexperiente. Talvez pela longa convivência com aqueles tipos, passei a assimilar maneirismos e tendências. Eles sabiam mais da vida e das pessoas do que eu. Nunca lhes falei sobre Jae-Hee, mas sabia a opinião deles sobre mulheres como ela. E não havia nenhuma lisonja nessa apreciação.

Jae-Gi veio me buscar na minha saída da cadeia. Falei por telefone com Choco e lhe prometi buscá-la no interior assim que arrumasse um emprego. Foi uma desculpa bondosa. Que tipo de influência um tipo como eu poderia exercer sobre uma adolescente boba e carente como minha irmã? Nada de bom, eu garanto. Jae-Gi era outra coisa. Ele nunca deixaria de ser meu amigo e sempre me apoiaria em tudo. Até brigou com a família dele para não romper nossa amizade.

Estranho como as coisas são. Um amigo de infância pode ser fiel e leal, inclusive abdicando de conforto e luxo. Já a garota que eu amei, sendo amiga de infância também, não ficou a meu lado porque não podia lhe dar luxo e conforto. Talvez os parceiros da prisão tivessem razão. Talvez ela não passe de uma …

Como é mesmo a música? "Meu primeiro amor foi como uma flor, que desabrochou e logo morreu"? É isso. No fim das contas, as pessoas amadurecem e não se importam mais com amores infantis e românticos, principalmente quando é unilateral e não correspondido. Limpei o rosto que estava banhado em lágrimas e me arrumei para sair e ir procurar emprego. Gostaria de nunca mais chorar por Jae-Hee. Ou por qualquer outra mulher no mundo. Quero que elas chorem por mim agora. Uma mudança nas regras do amor seria muito boa afinal de contas. Retirei uma foto antiga da minha carteira. Uma polaroide do aniversário de Jae-Hee, comigo abraçado a ela, enquanto ríamos como uns idiotas fazendo pose para a foto. Amassei a foto e a joguei no lixo. Ao sair de casa, pus óculos escuros e não me importei mais com o assunto.

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