Meu primeiro amor foi como uma flor

2 A primeira vez que saímos juntos


As coisas mudaram na minha vida com o passar dos anos. Meu pai morreu de doença. Minha mãe se matava de trabalhar, para que eu pudesse me dedicar aos estudos. Minha irmãzinha Choco vivia entrando e saindo de hospitais, com sua saúde frágil, e isso até me ajudou a decidir minha futura profissão. Serei um médico, se Deus permitir, pois assim eu mesmo tratarei minha irmãzinha.

— Ma-Ru, apresse-se. Jae-Hee já deve estar lhe esperando.

— Já estou pronto, Jae-Gi.

Park Jae-Gi era meu melhor amigo. Um garoto rico, que poderia ter todo o conforto do mundo e viver cercado de bajuladores, mas que não saía de nossa humilde casinha, pois segundo ele, esse era um verdadeiro lar. Além disso, me considerava seu irmão juramentado, por afinidade. Nós dois sempre apoiaríamos um ao outro.

Terminei de abotoar minha blusa polo listrada. Olhei no espelho e ajeitei os óculos de grau. Não gostava da minha aparência. Era franzino demais. Um rosto delicado demais. Podia até ser confundido com uma mulher. Gostaria de ser barbudo, ao menos isso me deixaria mais másculo.

Desci correndo a viela sinuosa de nosso bairro. Quando se faz o mesmo percurso, ano após ano, os pés já sabem o caminho mesmo no escuro. Jae-Hee me esperava, a garota dos meus sonhos, dona da minha vida, estrela da minha alma, sol do meu destino, luz da minha existência … que mais? Estava sem imaginação para lhe dar títulos e alcunhas. Ela era isso tudo e muito mais. Sempre estive apaixonado por ela, mesmo antes de saber o que era isso. Para ela sou apenas um amigo, pois não passo de um rapaz qualquer, seu vizinho desde a infância, e colega da escola fundamental, mas tenho esperanças de que um dia, ela venha a me amar verdadeiramente, com a mesma intensidade e devoção que lhe dedico.

Ao chegar ao barzinho do Ahjussi Ha-Neul, ela já estava lá. Linda, jovial, elegante e maravilhosa. Usava um vestidinho xadrez que minha mãe havia costurado e lhe dado de presente de aniversário, enquanto eu, pobre estudante carente, só pude lhe dar uma flor roubada do jardim dos padres. Hoje ela estava comemorando sua maioridade. Estava finalmente livre da subjugação dos homens de sua casa, perante os olhos da lei. Nunca mais seria surrada pelo pai, que a tratava como um animal, ou humilhada publicamente pelo irmão mais velho, que vivia entrando e saindo de reformatórios, por seu notório envolvimento em gangs. Além disso, ela podia agora tomar bebida alcoólica e iria prestar o vestibular.

— Oi, desculpe o atraso. — disse esbaforido da correria, enquanto lhe dava um beijinho no rosto.

— Ma-Ru! Agora somos namorados. Não é assim que os casais se beijam.

Baixei os olhos e tentei controlar a emoção com o rosto pegando fogo.

— Jae-Hee, não precisa levar a brincadeira a sério. Quando você disse que podia ser minha namorada, porque nenhuma garota reparava em mim, eu entendi que foi por pena e porque você é minha amiga. Não precisa levar isso adiante.

Atrevi-me a olhá-la. Ela me olhava divertida.

— Bobinho! Você está vermelho. — sorriu — Tudo bem, mas não custa nada fingir que somos namorados. — ela me enlaçou pela cintura — Um belo dia no futuro, nós nos formaremos na faculdade, e por que não? Podemos até morar juntos, em um belo apartamento no centro da cidade. O que acha?

Fiquei confuso e balancei a cabeça afirmativamente, pois não encontrei palavras. Minha fada acabara de me incluir na vida dela, no seu futuro. Nesse momento eu era o homem mais feliz da terra.

Entramos no barzinho humilde que servia comida a preços populares e pedimos mae un tang, um tipo de peixe ensopado, e kimchi, acelga apimentada. Mais uma garrafa de Soju, bebida alcoólica destilada de cereais. Bebi só um pouquinho, pois precisava ficar sóbrio por ela, que se embebedou. Tive que literalmente carregá-la para minha casa, onde dormimos no chão da sala, sob às vistas de minha mãe, para quem éramos apenas jovens irresponsáveis. Eu via de modo diferente. Eu era um nobre cavaleiro protegendo a princesa de perigos após uma bebedeira. Nunca lhe faria nenhum mal, e a tudo me pronticaria para poupá-la de infortúnios e sofrimentos.