Meu porto seguro
33 Meu porto seguro
Notas iniciais
Devem estar se perguntando o que aconteceu comigo e com Sasuke... Primeiro começamos a namorar, o que não foi uma grande surpresa para as nossas famílias. Depois noivamos, mais especificamente quando estávamos quase concluindo a faculdade. Por fim, casamos.
Sasuke, mesmo depois de tantos anos, ainda sofre com as sequelas da doença (ele nunca voltou a praticar esportes como praticava antes, por exemplo, já que não consegue correr ou pular), mas ele aprendeu a conviver com isso e vive a sua vida da melhor maneira possível.
A Mielite que Sasuke teve aos quinze anos nos aproximou bastante, tanto que acabamos descobrindo que o sentimento existente entre nós ia muito além da amizade.
Hoje, quando olho para trás e me lembro daquele garoto tão novo, ativo e cheio de vida que ficou paraplégico da noite para o dia, penso em como a vida pode mudar em apenas um minuto; em como alguém pode ser tão forte a ponto de superar os próprios limites; como uma fatalidade pode, de certa forma, se tornar uma coisa boa e unir duas pessoas.
Ver a força de vontade daquele garoto, ver sua perseverança para voltar a andar e sua fé de que iria conseguir foi realmente tocante e admirável. É claro que Sasuke fraquejou várias vezes, o que foi perfeitamente natural, mas no fundo eu sei que ele sabia que tudo ia dar certo.
Sasuke me fez ver o mundo com outros olhos, ele me ensinou que nós podemos ir além das nossas próprias expectativas e superar todo e qualquer limite. Ele é um vencedor no jogo da vida e eu o admiro muito, vejo em meu marido um exemplo de superação.
Arrependimentos? Não tenho nenhum. Somos uma família feliz, Sasuke é um marido perfeito e me deu uma filha linda.
Sabe o "Felizes para sempre" ? Pois é, ele existe.
[...]
A vida é uma caixinha de surpresas. Uma hora você está bem e na outra pode não estar; as coisas simplesmente acontecem e muitas vezes temos apenas que aceitar.
Quando descobri que ficaria sem andar, pensei que a minha vida tivesse acabado. A ficha demorou para cair, a minha família sofreu por minha causa e eu cheguei a me sentir culpado por isso, tiveram vezes em que eu pensei que o melhor seria morrer de uma vez e parar de dar trabalho.
Não foi fácil me ver dependente dos outros para realizar até as tarefas mais simples. Não é fácil ver as pessoas sofrendo por sua causa, assim como também não é fácil ver que te olham com pena em qualquer lugar que você passa. Reaprender a andar é difícil, fisioterapia é algo doloroso, mas não se compara à dor que eu sentia ao acordar todo dia de manhã e ver que minhas pernas não respondiam aos meus comandos. Era desesperador.
Mas Deus, em sua infinita bondade, sempre põe anjos da guarda em nossa vida, mas não estou falando de anjos invisíveis, mas de pessoas comuns que são feitas de carne e osso. Sakura Haruno foi o meu anjo, hoje conhecida como Sakura Uchiha, minha esposa e mãe da minha filha.
No início, fiquei com medo de que Sakura sentisse pena de mim, fiquei constrangido por ela me ver tão dependente e frágil física e emocionalmente; não me orgulho disso, mas, na época, com toda a minha maturidade de um garoto de quinze anos, pensei em afastá-la de mim, assim como também cheguei a pensar em afastar meus outros amigos. Ainda bem que não consegui. Na verdade, eles não deixaram.
Não exagero quando digo que Sakura me segurou quando eu estava prestes a me jogar no fundo de um poço. Ela não me deixava sozinho, sempre me apoiava, me animava, motivava e dava merecidos puxões de orelha. Ela provou ser uma amiga de verdade, pois amigos estão ao seu lado nos momentos ruins também.
Sofri muito quando precisei retomar minha rotina de aulas. Voltar para a escola e ver todos bem, saber que os rapazes ainda se juntavam para jogar vôlei e não poder fazer o mesmo foi como uma lâmina afiada no meu peito. O lado bom foi que eu descobri quem eram os verdadeiros, aqueles amigos que estavam do meu lado em qualquer que fosse a situação.
Descobri um sentimento novo pela minha melhor amiga, foi chocante descobrir que amava uma garota que um dia foi como uma irmãzinha para mim, mas aconteceu.
Hoje vivo conformado com a doença que tive, tenho minhas limitações, mas levo uma vida normal. Sou promotor de justiça, nada impediu que eu me realizasse profissionalmente, que eu me casasse e me tornasse pai. Dirijo, subo e desço escadas sem a ajuda de ninguém, pego a minha filha de oito anos no colo e não posso reclamar da minha vida sexual... Claro que fiquei com sequelas. Nunca mais pratiquei esportes como antes, não consigo correr, não consigo usar sandálias que não prendam o pé e a minha sensibilidade da cintura pra baixo nunca normalizou, mas essas coisas não são nada se eu olhar para trás e lembrar que já fiquei sem movimento algum nas pernas.
Deixo um recado para todos... Ninguém sabe o que pode acontecer amanhã, então não deixem de viver o hoje. Muitas pessoas reclamam à toa, sem saber que outras pessoas lutam para conseguir fazer coisas que, para a maioria, são coisas simples; como andar, por exemplo.
Nunca tinha pensado em como seria viver sem os movimentos das pernas até me ver obrigado a isso. Tal adaptação não é fácil, mas ninguém pensa nisso, não é mesmo ?! Temos aquela mania de achar que coisas assim nunca acontecerão conosco. Acho que as pessoas deveriam dar mais valor às pequenas coisas da vida, pois todos estamos vulneráveis a fatalidades que podem nos privar de apreciá-las.
Muita gente não tem idéia de como é finalmente dar um passo após ficar meses em cima de uma cama; como é urinar sozinho após usar sonda por bastante tempo; como é se sentar sem apoio para quem mal conseguia se virar de lado... Algumas coisas parecem tão pequenas aos olhos da maioria, mas não são.
Tive a sorte de ter pessoas ao meu lado para me auxiliarem nessa guerra, graças à elas eu posso dizer que sou um vencedor.
Mas teve uma pessoa em especial que, mesmo não sendo da minha família, ficou ao meu lado como se realmente fosse. Sofremos juntos e comemoramos vitórias juntos... Sakura é um presente que Deus me deu, ela é a mulher da minha vida, minha esposa e mãe da minha filha.
Sakura é, sem a menor sombra de dúvidas, o meu porto seguro.
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