Meu porto seguro
13 Lar, doce lar
Notas iniciais
Finalmente, após um mês e alguns dias, Sasuke recebeu alta e foi para casa; eu já não aguentava mais vê-lo naquele hospital, estar em casa, num ambiente familiar, faria bem a ele.
Fui até a casa dos Uchiha para vê-lo, Sasuke tinha saído do hospital por volta de 13:00, o relógio já marcava 14:15, ou seja, ele já estaria em casa. Cheguei lá e já fui logo dando de cara com Itachi, o moreno estava com uma aparência mais contente, embora ainda estivesse visivelmente abalado.
– Como vai, Itachi ? — Indaguei com um sorriso no rosto.
– Vou bem. Estou voltando para a faculdade agora — Ele respondeu, como se quisesse desviar do assunto.
– Não quero te atrasar, mas... Você falou com o Sasuke ?
– Sobre ?
– Bem — Respirei fundo, não é possível que ele não sabia do que eu estava falando — Você ficou mais de um mês sem ver seu irmão, vocês nem conversaram ?
– Falei com ele assim que chegou do hospital — O olhar, antes sempre contente de Itachi, agora estava triste — Foi bem rápido, ele falou que estava melhorando e isso me alegrou, mas ver o meu irmão naquela situação ainda é doloroso para mim...
– Entendo... — Eu o abracei, algo que o surpreendeu, pois Itachi não esperava por isso, mas retribuiu o gesto — Itachi, você sabe que sempre pode contar comigo, né ?!
– Eu sei, Sakura, eu sei...
Nos olhamos e sorrimos um para o outro, em seguida o moreno saiu para a faculdade, ele já estava meio atrasado e eu não queria atrasá-lo mais ainda.
Caminhei até o quarto de hóspedes que seria o quarto de Sasuke por um tempo. A casa dos Uchiha tinha dois andares, o quarto de Sasuke ficava no andar de cima, para não terem que subir escadas com ele, tia Mikoto colocou as coisas dele no quarto de hóspedes que ficava no andar de baixo. Tenho certeza de que isso o irritou muito.
Assim que entrei no quarto, o vi na cama com as costas escoradas num travesseiro, agora ele já não ficava mais o tempo todo deitado; ainda usava sonda, estava com os braços cruzados e a cara emburrada.
– Você saiu do hospital hoje, devia estar mais feliz — Falei enquanto fechava a porta para, em seguida, me aproximar dele e dar-lhe um beijo na bochecha.
– Eu queria ir para o meu quarto ! — Ele respondeu bravo.
– Sasuke, as suas coisas todas estão aqui, seus pais devem ter tido um trabalhão pra arrumar esse quarto de maneira que ficasse parecido com o seu. Seja mais compreensivo, não dá pra subir escadas com você.
Tia Mikoto realmente foi super caprichosa, deixou o quarto de hóspedes bem parecido com o de Sasuke, tudo para que ele se sentisse à vontade. As prateleiras com sua coleção de mangás, a televisão e o x-box, seu violão e sua guitarra; com exceção da cama e do guarda roupa, ela levou todo o quarto de Sasuke para aquele.
– Eu sei, mas... — Sasuke estava triste, voltar para casa não o animou como eu pensei que animaria — Eu queria o meu quarto, a minha cama.
– Bobo, essa cama é de casal, é melhor que a sua — Falei num tom divertido e ele riu.
– É que é difícil voltar para casa e saber que tudo vai ser diferente.
– Por enquanto sim, mas logo você se acostuma — Peguei em sua mão esquerda que estava com um pequeno curativo, daqueles que colocam após um exame de sangue, com certeza Sasuke estava com ele ali porque tirou o soro — Olha Sasuke, você vai se acostumar e as coisas vão voltar ao normal, você só precisa ser paciente.
– Eu tento ser, mas é complicado. Tudo é difícil, tudo é diferente !
Suspirei pesadamente. Caminhei até a pequena estante que ficava de frente para a cama de Sasuke, abri uma portinha e peguei alguns jogos.
– Que tal ? — Indaguei sorridente.
– Sakura, não tô no clima pra jogar.
– É só porque você sabe que vai perder pra mim — Tentei, pelo menos, incentivá-lo a se divertir um pouco — Vamos jogar Mortal Kombat ? Eu juro que não vou apelar com a Sindel.
– Sakura, eu não quero — Bufou.
Dando-me por vencida, coloquei os jogos perto da televisão e voltei para perto de Sasuke. Sentei-me na cama, colocando os pés dele no meu colo, fiz isso com muito cuidado, pois se antes o moreno não sentia absolutamente nada, agora era totalmente o oposto, ele estava sensível até demais.
Fitei seu rosto, Sasuke continuava com aquela cara emburrada. Ah, garoto difícil !
Delicadamente, passei as unhas pela canela dele, Sasuke fez uma careta e eu parei.
– Machucou ? — Indaguei preocupada.
– Machucar não machucou não, mas... — Sua expressão era de incômodo, desconforto — É uma sensação estranha.
– Pelo menos você já está sentindo.
– É, mas estou sentindo até demais — Ele suspirou — Parece que tudo que encosta nas minhas pernas causa dor.
– Tanto assim ?
– É — Ele assentiu — Eu jamais pensei que coisas simples, como tomar banho debaixo de um chuveiro, pudesse ser algo tão ruim.
– Como ? — Indaguei, eu estava curiosa sobre como ele se sentia e era um prazer ouvi-lo.
– A água me machuca, principalmente se estiver fria, a sensação é de que tem alguma coisa queimando a minha pele.
– E a água morna ? Te machuca também ?
– Não, a morna não machuca, o que machuca é a água caindo do chuveiro, assim que bate em mim a sensação é horrível.
– É só não deixar caindo muito forte, e também tem aquele chuveirinho.
– É a minha salvação — Sasuke falou cabisbaixo, sei que aquela não era à única dificuldade que ele enfrentava.
Olhei para seus pés sobre o meu colo, estavam com curativos, mas não estavam com curativos por estarem machucados e sim para evitar que machucassem. Sasuke já não pisava mais no chão, consequentemente, seus calcanhares estavam com a pele muito fina, então, para evitar feridas foram feitos curativos. E não era só isso, ele teve que aposentar calças e bermudas jeans por um tempo, não podia usar roupas com tecido que pudesse machucar, e, como agora tudo o incomodava, usar jeans nem pensar, apenas calças ou bermudas com tecido fino ou de moleton.
– Então, quando volta pra escola ? — Indaguei.
– Não quero voltar — Respondeu. Droga, nenhum assunto o animava !
– Sasuke, as provas finais estão chegando.
– Eu já tô passado desde o terceiro bimestre — Deu de ombros.
Sasuke sempre foi um bom aluno, somando as suas notas dos três bimestres ele já tinha atingido a meta para passar de ano (no mínimo 24 pontos), ou seja, não estava se preocupando com isso.
– Mas você não pode ficar sem a nota do quarto bimestre no boletim — Alertei — E outra : Você tem atestado médico para os dias que faltou enquanto estava internado, mas agora você já saiu do hospital. Sabe que falta reprova, né ?!
– Você tá parecendo a mamãe — Ele revirou os olhos — Não quero ir para a escola, não quero as pessoas me olhando com pena.
– Deixa de ser bobo, ninguém vai te olhar com pena — Falei convicta, tentei ser o mais convincente possível, embora eu soubesse que realmente iriam olhá-lo dessa forma — Voltar para a escola, ver seus amigos, isso tudo fará bem a você.
– Não sei não... — Ele falou com o maior desânimo do mundo.
– Sabe o que vai fazer mal pra você ? — Arqueei a sobrancelha — Ficar mofando dentro de um quarto, isso sim vai fazer mal pra você.
– Sakura, eu não sei se você percebeu, mas eu não tenho ânimo pra nada.
– Ai garoto, como você é difícil — Bati na minha testa — O que eu posso fazer pra você se sentir melhor ?
– Bem... — Sasuke ficou com o rosto corado — Por enquanto só fica aqui comigo.
Aquilo me fez abrir um sorriso enorme, Sasuke já não tentava mais me afastar, ele gostava de me ter por perto. Sei que no início foi um grande trauma e que ele ficou triste, envergonhado, não queria que eu o visse tão frágil e dependente, mas ele notou que eu não me afastaria dele de jeito nenhum. Eu sabia que teriam momentos em que ele se revoltaria e acabaria descontando em mim ou na sua mãe, mas eu jamais o culparia por isso, pois não estou na sua pele e não sei o que exatamente se passa com ele.
Me levantei de onde estava e fui para mais perto de Sasuke, sentei-me ao seu lado e ele apoiou a cabeça no meu ombro.
– Quanto tempo faz desde que ficamos tão pertinho um do outro pela última vez ? — Indaguei enquanto passava a mão pelos cabelos incrivelmente lisos de Sasuke.
– Assim, desse jeito, acho que foi lá na fazenda — Ele respondeu — Sabe, se eu tivesse escutado você e pedido para ir ao hospital assim que as dores começaram, talvez nada disso tivesse acontecido.
– Não vamos pensar no que poderia ou não ter acontecido, está bem ?!
– Mas foi culpa minha, eu poderia ter evitado...
– Shiii — Eu o cortei — Sasuke, ninguém sabe se poderia ter sido evitado ou não, mas já aconteceu.
Eu não quis falar, mas Sasuke poderia ter cem por cento de razão. Muito tempo foi perdido e enquanto isso a doença só se agravava, mas ninguém sabe o que poderia ter acontecido. Quem garante que os médicos iriam descobrir a Mielite logo de cara ? Uma doença incomum, cujos sintomas se assemelham a várias outras doenças, provavelmente não seria descoberta logo de cara, mas imagino que o estrago não seria tanto se ele tivesse falado com a tia Mikoto assim que começou a sentir dor.
– Eu sei, mas eu fico pensando nisso — Ele falou aflito, a pior coisa que poderia acontecer seria o Sasuke começar a se culpar pela própria doença.
– Então não pense, a culpa é do agente causador da doença, e não sua.
– Sabe... Eu acho que vou voltar para a escola — Essas palavras de Sasuke me surpreenderam.
– Volta mesmo, eu sinto a sua falta lá.
Seria uma difícil adaptação, mas Sasuke não iria poder fugir de algumas coisas coisas pelo resto da vida, voltar para a escola era uma delas. Eu sequer podia imaginar qual seria a reação de Sasuke, mas eu tinha que estar preparada para tudo, independente do que acontecesse, se sua reação fosse boa ou não, eu iria estar sempre do seu lado para apoiá-lo e jamais deixá-lo fraquejar ou perder as esperanças.
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