Meu porto seguro
15 Eu não vou deixá-lo cair
Notas iniciais
Naquele dia, como Sasuke me pediu, eu iria acompanha-lo na fisioterapia. Cheguei na casa dos Uchiha por volta de 15:10, Sasuke já estava pronto e me esperava lá na varanda. O vi pelas grades do portão e ele apertou o botão do controle para abri-lo, assim que entrei fui direto dar um beijo nele.
– Oi Sasuke, quanto tempo ! — Sorri e depois lhe dei um beijo na testa — Que milagre é esse que você não está mofando dentro daquele quarto ?!
– Bem... — Ele sorriu meio sem graça — Eu queria ver o movimento da rua.
– Ah sim. Bem, ainda falta quase meia hora pra sua fisioterapia, vamos lá pra calçada ?! — Indaguei e ele me olhou meio confuso — Vamos lá, por favor.
– Sei não — Respondeu meio cabisbaixo -Aqui tá melhor.
– Ah, não seja bobo — Sem o consentimento de Sasuke, o empurrei até o portão da casa dele — Vamos Sasuke, abre o portão.
– Ah, você é uma chata — Bufou, mas apertou o botão do controle, o portão se abriu e ficamos na calçada vendo o movimento da rua.
O vento estava gostoso, podíamos ver algumas crianças brincando ali perto, aquilo me trouxe lembranças de quando Sasuke, Itachi e eu éramos crianças, costumávamos brincar naquela pracinha de frente para a casa dos Uchiha.
– Do que você tá rindo ? — Ele indagou, tirando-me dos meus pensamentos, eu estava tão concentrada nas minhas lembranças que nem me dei conta de que estava sorrindo.
– Estava me lembrando da nossa infância — Respondi enquanto passava as mãos pelos cabelos dele — Lembra de quando corríamos na pracinha ? Você era uma pimenta, chegava em casa todo machucado e a tia Mikoto começava a brigar, depois você ficava chorando pra ela não passar mertiolate nos seus machucados — Comecei a rir novamente enquanto me lembrava de um Sasuke pra lá de sapeca chorando e dizendo " Não mamãe, vai arder ! "
– Correr... — Sasuke fechou os olhos, parecia pensativo — Será que eu vou fazer isso novamente algum dia ?
Péssima idéia leva-lo lá pra fora, acho que Sasuke também teve lembranças daquele tempo, quando éramos crianças e ele corria pra tudo quanto era lado, subia em árvores e aprontava todas. Não consigo imaginar como deve ser ficar numa cadeira de rodas, com limitações e dificuldades.
Andar parece uma coisa tão simples e tão fácil, as vezes até reclamamos se temos que andar uma distância grande e não paramos pra pensar que pode ter alguém em algum lugar desejando essa simples capacidade de se mover com as próprias pernas.
– Sasuke — Me posicionei de frente para a cadeira de rodas, abaixei um pouco e olhei em seus olhos — Quando é que você vai parar de duvidar de si mesmo ? Quando ?
– Sakura, eu... — Ele suspirou e abaixou o olhar — Desculpa, é que...
– Você não tem que ficar pensando nessas coisas que te colocam pra baixo — Falei com a voz firme — Afasta esses pensamentos negativos da sua cabeça.
– Você tem razão, desculpa.
– Lembra de quando tínhamos uns oito anos e seus pais viajaram e deixaram você e o Itachi lá em casa ? — Perguntei e ele assentiu — Lembra que inventamos de ver um filme de terror de madrugada quando meus pais dormiram ? — Ele assentiu novamente — E quando terminou, o que aconteceu ?
– Eu fiquei com medo e não queria dormir — Sasuke respondeu.
– E então eu falei que estaria do seu lado, e que assim nenhum monstro iria te pegar — Falei com um sorriso no rosto.
– Nós dormimos de mãos dadas, você disse que eu não precisava ter medo — Sasuke esboçou um sorriso, devia ter se lembrado do acontecido, ele era bem medroso e se impressionava fácil.
– Então... — Entrelacei minha mão com a dele, da mesma forma que fiz na noite em que ele estava com medo do filme e não conseguia dormir — Eu tô aqui com você, não precisa ter medo.
– Sakura, é diferente — Ele revirou os olhos — Monstros não existem.
– Na verdade eles existem, mas moram apenas dentro da sua cabeça — Respondi enquanto lhe dava um peteleco na testa — Cabe a você lutar contra aqueles que te assombram.
Sasuke sorriu, foi um sorriso mínimo, mas foi sincero. Ele não era mais aquele garoto que cresceu comigo, perdeu sua alegria e o brilho no seu olhar, Sasuke ficava triste na maior parte do tempo e eu lutava para que ele não ficasse ainda mais triste. Eu gostava de ficar com ele, fazer companhia e jogar conversa fora, assim Sasuke se distraía um pouco. Sei que muitas vezes ele fica constrangido por eu vê-lo tão frágil e dependente, por vê-lo chorar incontáveis vezes por causa de sua condição, mas não me importo, quero estar junto dele e lhe dar forças nesse momento tão difícil.
Quando deu o horário da fisioterapia, tia Mikoto ajudou o Sasuke a entrar no carro; ele tem bastante força nos braços, o que ajuda muito na hora de passar da cadeira de rodas pra algum lugar, embora ele não conseguisse fazer sozinho ainda, mas era apenas questão de tempo para ele se adaptar e ficar cada vez mais independente.
Assim que chegamos na clínica fomos recebidos por Shizune, a fisioterapeuta, ela era muito bacana e muito paciente, até porque conseguia lidar muito bem com Sasuke e para conseguir essa proeza a pessoa tem que ser extremamente paciente, não é pra qualquer um.
Entramos na sala de fisioterapia e um dos enfermeiros colocou o Sasuke deitado numa maca, logo Shizune pegou aquelas plaquinhas que dão choque, colocou um pouco de gel em cada uma delas, levantou, até o meio das coxas de Sasuke, a calça de moleton que ele usava, retirou suas meias e colocou as plaquinhas, o que resultou num Sasuke fazendo careta por causa da sensação de ter algo frio em suas pernas e em seus pés. Eram oito plaquinhas, três em cada perna e uma em cada pé. Shizune começou a mexer no aparelho que controlava os choques, cada plaquinha tinha um fio ligado a esse aparelho, ela ia mexendo e perguntando para Sasuke se ele estava sentindo, se era suportável, se podia aumentar, se estava incomodando... Essas coisas.
Shizune saiu da sala por alguns minutos, me deixando a sós com Sasuke e sua mãe. A tia Mikoto ficou sentada numa cadeira enquanto lia uma revista, já eu, bem, fiquei sentada numa cadeira ao lado de Sasuke que estava deitado na maca.
– Sasuke, isso dói muito ? — Indaguei, referindo-me às plaquinhas.
– Dá um choque de leve, mas não dói — Ele respondeu — O pior é tirar essas fitas.
Ah, é verdade, as malditas fitas. Não era esparadrapo, era uma fita fina que a fisioterapeuta colocava para que as plaquinhas não saíssem do lugar, mas todas as vezes que ia tirar a fita, Sasuke reclamava, dizia que doía, que machucava. De fato ele não estava sensível apenas emocionalmente, a sensibilidade em suas pernas estava voltando, em compensação, tudo lhe machucava.
– Você fica com isso por quanto tempo mesmo ? — Perguntei na tentativa de puxar um assunto para distrai-lo.
– Acho que uns quinze ou vinte minutos. Sei lá, nunca contei — Ele deu de ombros — Sakura, posso te perguntar uma coisa ? — O rapaz indagou meio receoso.
– Claro que pode — Assenti.
– Você não se importa de ficar comigo quase todas as tardes ?
– Porque essa pergunta ? — Fiquei realmente curiosa, será que ele pensava que eu fazia aquilo contra a minha vontade ?
– Porque você poderia estar fazendo outra coisa ao invés de ficar comigo. Tipo, sei lá, saindo com pessoas normais — Sasuke ficou meio triste ao dizer isso.
– O que quer dizer com " pessoas normais " ? — Arqueei a sobrancelha.
– Pessoas que possam sair com você para se divertir. Sei que deve ser um saco pra você ter que me fazer companhia, sei que preferia estar saindo pra uma sorveteria ou pra um cinema — Sasuke fitava o teto, não olhava pra mim enquanto dizia essas palavras totalmente sem nexo — Eu sou seu amigo e sei que você deve estar com pena de mim, mas se você não quiser...
– Pode parar — Eu o cortei antes que ele dissesse mais besteiras — Sasuke, você é o meu melhor amigo, não tô aqui do seu lado simplesmente por pena, tô aqui porque gosto muito de você e quero te ajudar — Segurei no rosto dele e o virei para mim, fazendo-o olhar em meus olhos — Entendeu ? Não fala mais essas besteiras. Você não tá me prendendo. E quanto às " pessoas normais ", bem, você é tão normal quanto qualquer outra pessoa, ter uma limitação não faz de você uma " pessoa anormal ", estamos entendidos ?!
– Sim, estamos — Ele sorriu — Obrigado.
Sasuke era um louco de pensar isso, mas confesso que se fosse eu no lugar dele também teria tido tais idéias. Sei que Sasuke se sente um peso, ele depende do pai e da mãe pra fazer absolutamente tudo, é natural que se sinta triste desse jeito, mas ninguém tem culpa do que aconteceu. Só sei que eu, Sakura, não ligo de deixar de ir pra um cinema com a galera pra poder passar a tarde com Sasuke fazendo companhia, sei que ele faria o mesmo por mim.
Logo Shizune voltou e já foi tirando aquelas coisas das pernas e dos pés de Sasuke, o que o fez resmungar como sempre. Era engraçado como o simples fato de puxar uma fita da pele, algo que pra mim seria indolor, pra ele era quase insuportável. Sua pele estava muito fina, seus calcanhares tinham curativos para não machucarem; já vi a tia Mikoto trocando os curativos, os calcanhares de Sasuke estavam com a pele extremamente fina, chegava a ficar avermelhada, parecia pé de bebê, afinal, ele não pisava mais no chão.
Agora começaria a pior parte : Os exercícios.
A tia Mikoto geralmente ia lá pra fora quando começava, ela não aguentava ver o filho chorando e gritando; isso com certeza deve ser doloroso demais pra uma mãe. E foi só Shizune começar a mexer com as pernas de Sasuke que ele já começou a berrar, o rapaz pedia para parar, mas a fisioterapeuta não podia atender seu pedido, precisava movimenta-lo e aquilo era quase torturante. Como eu já havia previsto, tia Mikoto saiu da sala após alguns minutos, confesso que essa era a minha vontade também, ver o Sasuke gritando de dor sem poder fazer nada pra ajudar era algo terrível, mas eu tinha plena consciência de que aquilo era um mal necessário; ele sentia dores por estar muito sensível, mas não podia ficar sem se movimentar ou poderia ser pior pra ele, poderia ficar atrofiado.
Mexer com suas pernas, com seus pés ou com seus quadris, não sei qual o fazia reclamar mais, eu conversava com ele na tentativa de distrai-lo, mas não adiantava. Aquilo me fazia lembrar de quando estávamos indo com ele para o hospital, nada do que fizéssemos ou disséssemos faria alguma diferença; ele estava sentindo dor e ninguém poderia mudar isso. E três vezes por semana era aquilo, ele tinha que fazer fisioterapia, não tinha outro jeito.
Depois Shizune o colocou sentado na maca, com as pernas para fora, para que ele tentasse se equilibrar. Esse exercício não doía, mas Sasuke o odiava tanto quanto os outros, ele se sentia inseguro e tinha medo de cair. Shizune ficou atrás de Sasuke, enquanto que eu fiquei na frente, não tinha pra onde ele cair, caso fosse para os lados não iria parar no chão, a própria maca o seguraria. Enfim, ele não tinha porquê ter medo, mas fazia aquele drama de sempre pra soltar as mãos.
– Sasuke, pode soltar — Pediu a fisioterapeuta — Você não vai cair.
– Não — Ele dizia enquanto se segurava na maca com as duas mãos — Eu vou cair.
– Sasuke, eu tô na sua frente e a Shizune está atrás de você — Tentei incentiva-lo — Pode soltar.
Tia Mikoto voltou para a sala, acho que parou de ouvir os gritos do filho e resolveu voltar.
– Filho, toda vez é assim — Disse ela enquanto se aproximava de Sasuke — Você sempre faz esse drama, mas nunca caiu.
– Mas eu fico com medo — Disse ele — Sinto que vou cair.
– Mas você não vai — Respondeu a tia Mikoto, ela estava do meu lado, na frente de Sasuke — Se você for cair, nós te seguramos.
Sasuke respirou fundo e soltou as mãos bem devagar, mas não conseguia se equilibrar por muito tempo, foram várias tentativas, eu contava mentalmente por quantos segundos ele conseguia se equilibrar sentado sem apoio, o recorde foi seis segundos. Não demorou muito para que ele ficasse cansado; um simples exercício de tentar se equilibrar sentado foi mais que suficiente pra cansar um garoto que já garantiu vários troféus para a nossa escola nos jogos intercolegiais. Pois é, são as voltas que o mundo dá.
A fisioterapeuta chamou o enfermeiro para que colocasse Sasuke novamente na cadeira de rodas, nos despedimos e voltamos pra casa. Já não era mais tão difícil colocar o Sasuke no carro, ele próprio ajudava bastante.
Assim que chegamos na casa dos Uchiha, fui com Sasuke para o quarto enquanto a tia Mikoto foi preparar um lanche para nós, ambos estávamos famintos.
– Prontinho, chegamos — Falei enquanto colocava a cadeira ao lado da cama dele.
– Obrigado, e foi mal por não cumprir minha promessa — Ele ficou todo desconcertado, falava da promessa que tinha me feito mais cedo, de que não iria gritar durante a fisioterapia, mas eu sabia que ele não iria cumprir.
– Eu te perdôo — Sorri — Quer ajuda ?
– Quero sim — Respondeu.
Eu tinha receio de machuca-lo, mas sabia que ele não conseguiria sozinho, e eu também não iria perturbar a tia Mikoto que estava ocupada.
Primeiramente travei ambas as rodas da cadeira, não queria que nenhum acidente acontecesse ali por simples falta de cuidado. A sonda ficava pendurada na cadeira, a retirei dali e coloquei no colo de Sasuke, depois ergui um pouco as suas pernas e as segurei para passá-lo para a cama, ele levava o próprio tronco, tinha força nos braços o suficiente pra isso, só não conseguia levar as próprias pernas. Ele enfim conseguiu ir para a cama, mas estava todo torto, então ajeitei suas pernas e seu quadril, coloquei travesseiros em suas costas para que ele ficasse sentado.
– Nem foi tão difícil — Falei com um sorriso no rosto (na verdade foi difícil, eu tinha medo de machuca-lo e, por mais que Sasuke ajudasse, ele era pesado pra mim), depois pendurei a sonda na cama, obviamente que com todo o cuidado do mundo, eu não queria acabar puxando aquilo sem querer.
– Odeio essa sonda ! — Bufou.
– Você meio que tem odiado tudo ultimamente.
– Mas é sério ! Isso incomoda demais.
Eu podia imaginar, me lembro de que Sasuke sentiu dor para colocar aquela sonda de alívio quando foi internado, ficar com uma 24 horas por dia deve ser horrível mesmo, não quero nem imaginar a sensação de ter uma mangueirinha enfiada na minha uretra ! Que horror !
– Deve incomodar mesmo — Suspirei e me sentei ao lado dele — Mas ela te ajuda a fazer xixi, então é sua aliada.
– Tsc. Muito engraçado, Sakura — Ele cruzou os braço e revirou os olhos — E eu ainda vou ter que ir no hospital pra trocar essa porcaria amanhã !
– De novo ?
– Tem que trocar a cada quinze dias.
– Ah sim. Quer que eu vá com você ? — Brinquei.
– Ora, se você quiser — Ele respondeu no mesmo tom de brincadeira.
– Então tá, já que você insiste — Respondi e ambos caímos na risada, é óbvio que eu não iria.
Embora meu amigo ficasse quase sempre triste, eu era uma das únicas pessoas que conseguia fazer brotar um sorriso verdadeiro nos lábios dele e isso me fazia um bem enorme. Sasuke me fez enxergar o mundo com outros olhos; uma pessoa que não conseguia mais tomar banho sozinha, se locomover, se vestir... Ver meu amigo passar por essas dificuldades, vê-lo com tais limitações estava me ensinando a dar valor nas pequenas coisas da vida, coisas que podemos perder num piscar de olhos assim como Sasuke perdeu.
Eu estava disposta a ficar ao lado dele, apoiá-lo em todos os momentos, segurar sua mão e não deixá-lo cair. Sei que, assim como no exercício de fisioterapia, Sasuke teria que fazer muitas coisas por si só, mas eu estaria ao lado dele para que ele não sentisse medo, para lhe dar confiança e segurança, para não deixá-lo cair em hipótese alguma.
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