Meu pequeno anjo

6 Família distanciada


– Droga — Killian esbravejou pela décima vez só naquela manhã.
Já havia tropeçado numa cadeira fora do lugar duas vezes, bateu o ombro na porta, pisou em uma colher no chão da cozinha e numa poça d'água que havia se formado quando a mãe terminou de lavar a louça e a torneira espirrou.
Esse era um lado ruim de andar descalço, mas como não podia ver, era assim que se localizava pela casa. Sabia que sala de televisão tinha carpete, enquanto a cozinha, corredor e banheiro não. O quarto de hóspedes e da mãe tinha um carpete bem macio, o dele era mais grosso e o de Regina não tinha, já que a mesma não gostava.
Apesar do acidente ter sido feio, não perdeu a visão total, ainda diferenciava alguns vultos e sabia distinguir o claro do escuro. Melhor do que nada certo?
Ainda assim, era dependente de alguém, e isso o irritava muito. Gostava de fazer o que queria, quando queria, mas nessa situação não poderia, e se sentia quase humilhado por isso. Não gostava de pedir ajuda para nada, e se virava da maneira que dava.
Agora por exemplo, esticou a perna para frente até chutar a cama de leve, indo até a mesma. Sabia que se ficasse aos pés da cama e desse três passos para frente encontraria o guarda roupas.
O fez e abriu a terceira, das quatro gavetas que havia ali. Aquela era a gaveta de camisas, na segunda havia bermudas e na primeira cuecas e meias. Decidiu trocar apenas a camisa, por uma com um pano mais grosso pois sentia frio.
Quando estava procurando a etiqueta para saber qua eral a frente, ouviu batidas na porta.
– O que foi? — Falou grosso
– A educação ta batendo na sua porta — Ouviu a voz sarcástica da irmã.
Riu — Mande-a esperar junto com a paciência e o otimismo do lado de fora.
– Incrível como fica mais estúpido a cada dia Kill — Regina respondeu, mas dessa vez com um tom de decepção.
Emma lhe tocou o braço para passar segurança. Entendia que era triste ver o irmão daquela forma, ainda mais o amando tanto e sabendo que antes de tudo isso, ele era uma pessoa boa.
Mas mesmo tentando dar apoio a amiga, não pode deixar de notar em Killian ali parado no meio do quarto, sem camisa. Aquilo sim era a perdição.
– Você emagreceu muito. Está malhando? — A irmã perguntou sentando-se na cama, enquanto Emma tentava imaginar aquele homem gordo.
– Há algumas coisas que posso fazer mesmo sendo cego — disse quando conseguiu colocar a camisa.
Um silêncio pesado e quase que constrangedor dominou o quarto. Killian ficou ali em pé com os olhos voltados para o chão, enquanto Emma e Regina se olharam.
A loira rolou os olhos, tentando de maneira silenciosa, fazer a amiga dizer o que as moveram até ele.
– Kill, vou sair e ir ver Roland... Quer ir? — Regina por fim falou, como se soltasse uma bomba e esperasse explodir.
– Não. Era só isso? — O outro respondeu seco, parado no mesmo lugar.
A irmã não respondeu, apenas saiu e os passos pesados foram a resposta para ele. Em outras palavras, ela o havia mandado ir ao inferno.
Ouviu ainda alguns passos apressados e tão leves que mal eram perceptivos, depois a porta bater e por fim o silêncio novamente.
Killian retornou os três passos até a cama e se sentou na beirada. Hoje o dia seria longo...

[...]

– Eu lhe disse Emma! É um grosso que não se importa com o sobrinho! — A loira ouviu a amiga reclamar no quarto dela enquanto estava deitada na cama.
– Talvez ele esteja com medo — Falou receosa.
– Killian? Com medo? — Ela bufou — Ele é teimoso e não há muitas coisas que lhe causem sequer arrepios.
– A cegueira acaba com muitas barreiras Re, tem que entender o lado dele. — Emma falou pacientemente, vendo a outra ponderar sobre o assunto.
– Ele pode estar com medo de não ser o tio, irmão e filho que gostaria. A culpa não é dele. — Continuou, refletindo em voz alta. Acabou falando mais para si do que para ela.
– Pode ser. — Regina deu de ombros e pegou sua bolsa — Vamos, são quase meio dia e ainda temos que pegar as roupas na loja da minha mãe antes de irmos ver Roland.
– Certo. Só me deixe pegar minha bolsa.
A loira levantou da cama da amiga e seguiu para o quarto, pegou a bolsa e parou na frente do quarto de Killian. Pensou seriamente em bater na porta e convencê-lo de ir, assim ele sairia de casa e poderiam conversar, já que sabia que Regina e Robin estariam paparicando o pequeno, mas desistiu. O conhecia a apenas alguns minutos e o mesmo já havia se mostrado indiferente quanto a presença dela naquela casa. Seguiu escada a baixo, onde encontrou a outra já desligando o celular.
Pelo que entendeu, Roland estava bem, haviam descoberto o que ele tinha assim que os médicos puseram os olhos nele.
A amiga agora estava mais relaxada e puderam sair sem preocupações em demasia.
Regina pegou o carro do irmão, uma pajero prata, o qual já estava parado na garagem há algum tempo.
– Certeza de que ele não se importa? — A loira falou com medo da reação do rapaz.
– Ele pediu que nossa mãe vendesse. Mas só pra variar ela fez pouco caso e esqueceu. — A morena deu de ombros e saiu com o carro da garagem.
Seguiram cerca de meia hora, tempo em que finalmente relaxaram e descontrairam cantando as canções do rádio. Quase pareciam duas adolescentes saindo sozinhas pela primeira vez.
Foram parar perto de uma sorveteria e um motel, logo a frente havia a loja de roupas da mãe. Se chamava Rainha de Copas, com o símbolo do naipe de Copas.
Era uma loja dividida em três sessões, sendo roupas casuais, roupas formais e o último lado de fantasias.
– Temos até 13:30 pra pegar o que queremos okay? O hospital é um pouco distante e queria ver logo Roland.
– Sem problemas. Não quero abusar da boa vontade da sua mãe, então não pretendo pegar muita coisa.
Regina riu — Você me deu muito mais Emma, por favor fique a vontade. Mesmo se abusasse ainda não seria metade do que me deu. — A morena tocou no ombro da amiga sorrindo e a empurrou para dentro da loja.
Emma logo se viu no interior decorado de vermelho e diversas roupas em araras, ambiente bem iluminado e cheio de espelhos.
– Vem, vamos pegar logo antes que ela nos veja. — Regina falou puxando a amiga para um canto com algumas camisas.
– Por que não quer que ela nos veja?
– Por que ela vai querer escolher nossas roupas, e vai encher o raio do saco.
A loira apenas deu de ombros e passou a mão na arara de blusas, puxando duas para olhar melhor.
Regina lhe apresentou todas as peças do estabelecimento, sendo escolhidas na maioria calças jeans, blusas de malha e casacos leves.
– Acho que por hora está bom, se precisarmos de mais voltamos depois. — A amiga falou que passou pelo balcão, deixando anotado cada peça que levaram e seus valores no caixa para que a mãe soubesse.
As sacolas foram jogadas no porta malas e Regina assumiu o volante novamente.
– Regina, sua mãe já viu Roland? — Questionou a loira, lembrando-se que Cora nunca aceitou a união da filha e nem a criança gerada.
– Ela já o viu por fotos. Disse que é lindo, tem meus cabelos escuros e a pele branca como a minha, e no resto se parece mais com o pai. Mas ainda se recusa a chamá-lo de neto. Quer que eu o ensine que ela é a tia, ou madrinha. — Regina falou irritada. Sempre achara uma ideia ridícula.
– E o que fez? Como ele a chama?
– De Cora. Eu disse que ela era minha mãe, logo era sua avó, mas não quer ser chamada de vó.
– Tadinho — Claro que sentia pena, era um garotinho e poderia querer uma avó certo?
– Tadinho não, ele não sente falta dela. Aliás, nunca pergunta dela nem nada. Gosta de perguntar por seus pais. Certa fez me perguntou de poderia chamá-los de avós — Regina riu, passando pela avenida principal, que logo levaria ao hospital.
Emma riu. Sabia que se contasse aos pais, eles amariam a ideia — Vamos conversar com eles depois.
– Ele também pergunta sobre Killian. Vez ou outra pergunta como o tio está e quando vira visitar-nos. — A morena pareceu frustrada — Mas como diria a ele que não o veria? Ainda mais minha família sendo um tanto distante.
Emma apertou a bochecha da outra — Eles vão se encontrar de novo, vai ver. Logo logo. — Deu mais uma apertadinha, a qual fez Regina rir.

O resto do caminho seguiu com uma conversa descontraída sobre os planos para fazerem algo durante as manhãs e tardes em que não estariam no hospital. Emma detestava ficar parada, precisava sempre ter algo para o dia e Regina prometeu que quando não estivessem com Roland, estaria a disposição da loira para o que quisesse fazer.

Notas finais
Comentem para eu saber o que estão achando :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.