Meu outro Eu

1 Rise, Iris, Rosa.


Primeira manhã de junho e com ela chegou o ar gelado para atrapalhar meu gosto pelo calor o que já me causou irritação assim que me levantei, minha tentativa falha de me aquecer no chuveiro apenas me lembrou o quão pouco eu recebia já que nem um misero chuveiro descente eu podia comprar. Enrolada na toalha úmida corri com as pontas dos pés pelo chão frio até o tapete redondo do quarto onde coloquei meu tenebroso uniforme azul e branco, encarei meu reflexo desajeitado no espelho do guarda roupa, dessa vez havia cortado demais o cabelo ela estava armado até os ombros dando molde ao rosto que carregava um par de olhos grandes e redondos. Antes de sair vesti meu odioso casaco esticado no seio quase estourando os botões.

Cheguei no ponto de ônibus já com meus fones nos ouvidos, não se engane eu não sou antipática ou talvez seja, essa é apenas a forma de ficar no meu mundo, é com a musica em mim que fujo de minha própria timidez. Essa é a minha rotina de todos os dias sem acrescentar ou retirar algo, é sempre a mesma coisa a única diferença é que eu gosto de tudo isso especialmente de quando chego em meu local de trabalho, sim eu sou uma pessoa que adoro trabalhar é como se em meus dias de folga eu não existisse, eu sou caixa de uma banca que fica dentro de uma praça de alimentação em um shopping, enfim como todos os dias entreguei as chaves para Ellena minha companheira de trabalho que se encarregava de abrir a banca enquanto eu buscava nosso café da manhã na deliciosa cafeteria Comando Expresso e em pouco tempo voltava com café barato para Ellena e um chocolate quente para mim completando com um pote de sorvete de açaí que Ellena tanto odiava.

Alem de Ellena e eu trabalhavam na banca mais duas pessoas, Ezequiel era a pessoa que dava vida ao nosso ambiente com seu jeito extrovertido e infantil e eu adorava isso nele o único problema é que normalmente sentíamos atração pelas mesmas pessoas, totalmente ao contrario de Ezequiel era Marcos o gerente misterioso, não sabíamos de onde Marcos veio mas sabíamos que era estrangeiro falava difícil as vezes soava até mesmo engraçado.

Ao me colocar no meu balcão aproveitava para saborear meu chocolate quente espero como todos os dias durante seis meses. Sempre muito pontual ele chega as sete e quinze acompanhado do policial para tomar café, assim como eu eles também tem uma rotina, escolhem a mesma mesa de todos os dias enquanto o Loiro se senta, o Policial vai ao balcão fazer o pedido voltando com uma bandeja com dois copos e pães orientais, durante esses seis meses eu apenas o observava de longe sem saber o som de sua voz, tão pouco saberia seu nome e ao mesmo tempo eu conhecia seus detalhes, a forma de jogar os cabelos para trás com a mão direita quando estava irritado ou até mesmo quando apertava o copo frágil depois de queimar os lábios rosados causando crise de risos no companheiro, foi assim captando seus detalhes que percebi a troca de olhares entre sorrisos em seguida o entrelaçar dos dedos me causando um gigantesco vazio, tal cena me fez desistir de tal paixão impossível por apenas duas semanas antes de nossos olhos se cruzarem pela primeira vez causando uma sensação jamais sentida antes, eu estava me afogando no mar de sua alma enquanto ele roubava a minha.

Nesta manhã primeiro de junho eles chegaram pontualmente como todos os dias, o loiro dessa vez escondia suas tatuagens com um casaco preto sua expressão estava estranha parecia cansado, seu companheiro não parava de falar enquanto ele suspirava encontrando meus olhos em sua direção forçando me a desviar.

—Não olhe demais eles parecem estar discutindo. —Sussurrou Ellena próximo ao meu ouvido.

Ellena era a única que sabia sobre minha obsessão e não me apedrejava como Ezequiel costumava fazer por coisas assim, quanto mais ela dizia para eu não olhar eu olhava e dessa vez não foi diferente. Eles estavam discutindo, parecia ser algo muito serio já que o Policial levantou se jogou algumas notas e moedas sobre a mesa e saiu em disparada com os punhos cerrados levando consigo toda minha atenção, quando voltei os olhos no loiro estremeci, seus olhos estavam em minha direção eu podia sentir a pressão sobre mim e como todas as vezes foquei os olhos em outra coisa encontrando meu açaí bem a minha frente sobre o balcão.

—Prepara o coração menina. —Disse Ellena saindo de fininho pela minha direita.

Não precisava ser um gênio para entender o que Ellena havia alertado, o loiro estava vindo em minha direção, Ezequiel não poderia atende lo já que estava enrolado Marcos lhe daria duas horas de advertência.

—Posso ajudar? —Perguntei quase em um sussurro.

—Jornal de hoje por favor. —Pediu ele me fitando.

—Chegará em meia hora Senhor. —Respondi apertando o pote de sorvete tentando esconder meus olhos no mesmo.

—Eu espero. —Respondeu ele.

Impossível não me surpreender com tal atitude, se tem uma coisa que de primeira já aprendi sobre ele era o fato de não ser paciente. Levantei meu rosto tentando compreender o que estava acontecendo, o universo havia enlouquecido naquela manhã ao encontrar a frente do meu balcão o rapaz que me arrancava horas de sono, ele estava ali com seu par de olhos azuis entre fiapos da franja dourada e pela primeira vez em seu rosto estava estampado um largo sorriso, um lindo sorriso que havia nascido para mim. Tudo parecia perfeito até as forças superiores me lembrarem de um detalhe fortíssimo sobre mim, eu sou altamente desastrada podendo causar um colapso mundial apenas com um suspiro então não foi surpresa alguma meu copo ser empurrado pelo meu desastre derramando chocolate quente em cima das revistas de confeitaria.

—O-Oh meu Deus meu Deus— Soltei levantando o copo e erguendo o sorvete na superfície mais alta— Me desculpe— Pedi desesperada ficando ainda mais envergonhada ao encontrar seus olhos sobre mim.

—Tudo bem querida vá buscar algo para limpar isso eu atendo ele. —Surpreendeu me Ezequiel ao entrar em cena.

—Claro. —Respondi desapontada.

—Tudo bem garoto— Respondeu o homem— Ela já está me atendendo.

—Posso terminar de ver para o Senhor. —Insistiu Ezequiel.

—Prefiro ela. —Respondeu ele atraindo olhares de todos os funcionários.

—Ezequiel pegue o pano no fundo. —Ordenou Marcos.

—Ela vai pagar pelas revistas não vai? —Implicou Ezequiel.

—Não precisa eu pago. —Disse o homem.

—Não Senhor. —Respondi.

—Eu insisto.

Ezequiel deixou transparecer algo que eu nunca tinha visto e eu tinha certeza que não pararia por aqui, seus olhos permaneceram focados em mim até o momento que sua figura desapareceu porta à fora.

—Você toma sorvete no inverno? —Disse o homem chamando minha atenção.

—No calor ele derrete. —Respondi observando meu sorvete sobre suas mãos.

—Posso? —Perguntou ele recebendo minha permissão— Açaí gosto peculiar— Continuou ele provocando delírio em mim apenas ao colocar a pequena colher de plástico eu quase podia sentir a mesma ser empurrada para cima com a língua que eu ansiava em conhecer— Algum problema?

—Não Senhor. —Respondi sentindo o rosto queimar.

Eu deveria desviar o olhar como todas as outras vezes em que nos cruzamos, mas não poderia privar uma futura lembrança tão perfeita quanto a forma em que seus lábios se curvaram em um sorriso altamente sedutor.

—Como se chama? —Perguntou ele trazendo me de volta a realidade.

—Rise.

—Nome diferente. —Respondeu ele me entregando o pote de sorvete— Rise. —Sussurrou ele assim que nossas mãos se tocaram —Me chamo Micael.

—Micael. —Soltei quase em transe.

—Já sei você deve estar pensando que é nome de gente velha não é mesmo?

—Não! —Respondi— É um nome lindo.

Eu não fazia a mínima ideia da expressão que eu havia usado certamente deveria ser algo esquisito já que Micael arregalou os olhos e permaneceu em silencio começando a corar.

—Aqui está o jornal de hoje. —Interrompeu Marcos tomando meu lugar no balcão.

—Quanto deu? —Perguntou Micael retirando a carteira do bolso.

—É para cobrar as revistas também?

—Não. —Interrompi.

—Sim. —Respondeu Micael— Outro dia você me paga um drinque. —Piscou ele.

Micael pagou seu jornal e as revistas destruídas e eu não conseguia entender como isso avançou para tão longe.

—Muito obrigada. —Agradeci de fora do balcão.

—Até logo Rise.

Micael seguiu seu destino enquanto eu permaneci alguns minutos olhando para o nada antes de voltar a normalidade do dia sendo torturada pelos olhares de Ezequiel durante o dia todo.

Meus pensamentos foram tomados revirando os detalhes de Micael, o sorriso bem desenhado, os olhos com um brilho mortal que me fez querer morrer em seu poder sem questionar qualquer ponto de existência, ecoava em minha mente repetidamente a forma em que ele soprou meu nome.

Foi a tarde mais fácil de correr desde que entrei na pequena Banca, quando dei por mim o ônibus já estava encostando para que eu pudesse ir para casa, como de costume me tranquei em meu mundo com meus fones no ultimo volume, o ônibus estava lotado ao contrario do ar que soprava lá fora, aqui eu estava bem com o calor das outras pessoas ao meu redor, percebi que algo estava errado quando o som dos pequenos fones azuis cessaram, com dificuldade por estar em pé no corredor puxei o celular encontrando a musica ainda no play, olhei em volta assustada havia pessoas conversando mas som algum chegava ao meu alcance, minha cabeça latejou forte antes das linhas aparecerem em minha visão e tudo se apagar, acordei em um salto em minha própria cama, esfreguei os olhos custando acreditar na realidade, tudo não havia passado de um sonho do qual jamais passaria disso.

Sabe quando você é criança e sonha algo tão real como ver o brinquedo que deseja ou o doce que é caro demais no mercado para sua mãe comprar, e quando vai obter o tão sonhado desejo acorda? Isso te deixa frustrado ou até mesmo te faz chorar, pois bem ao perceber o que se passava não segurei o choro, seria maldade demais de minha consciência aprontar uma coisa dessa.

Assim que consegui me recompor olhei a tela do meu celular me encontrando quinze minutos atrasada, saltei da cama, abri as cortinas encontrando os fortes raios de sol me provando mais uma vez que o frio da noite passada não era mais que um complemento do sonho, ao vestir a saia do uniforme percebi que havia engordado um pouco o reflexo no espelho me alertava isso e me causava uma sensação estranha ao ver como meu cabelo havia crescido.

Morar longe do centro da cidade só me causava irritação, o próximo ônibus passaria em quarenta e cinco minutos me forçando a gastar com um táxi. A cada esquina dobrada implorava a Deus que não permitisse que Marcos me mandasse embora.

Ao pausar o taxímetro em frente ao shopping tomei outro susto ao ver que só tinha uma nota de cinquenta e uns quebrado na carteira sendo que não fazia nem dois dias que Marcos havia pagado nosso vale atrasado, com o coração acelerado entreguei a nota ao homem recebendo de troco apenas algumas moedas.

Não olhei para lado algum apenas apressei o passo enquanto revirava a bolsa a procura do meu humilde salario, não percebi o quanto isso é arriscado antes de chegar ao topo da escada rolante e tropeçar, antes que meu joelho aterrissasse ao chão senti longos braços me segurar, instantaneamente olhei para cima encontrando um par de olhos negros sombreados pela boina de policial.

—A Senhorita está bem? —Perguntou me o homem.

—Sim. —Respondi me colocando em pé— Deve ser o calor. —Sorri.

—Então fique com isso. —Sussurrou alguém em pé atras de mim—Tenho certeza que vai gostar.

Virei em direção da voz e lá estava ele sorrindo enquanto me fitava com seus olhos de cristais. O suposto Micael colocou um pequeno pote gelado em minhas mãos.

—Obrigada. —Respondi envergonhada.

—Presumo que não se importe de ter nosso segundo beijo indireto. —Sussurrou ele.

—Chega Idiota. —Reclamou o Policial puxando o loiro para longe de mim.

Não precisei olhar os dois se afastarem pouco a pouco para perceber que seguiram discutindo.

Marcos estava atendendo um cliente quando cheguei, estremeci ao perceber seus olhos me olhando de lado, deixei minhas coisas para os fundos e corri para frente.

—Você está bem? —Perguntou me Ellena se aproximando.

—Sim. —Respondi colocando a pazinha com sorvete de açaí deixando o derreter em minha língua pensando no que o suposto Micael havia mencionado.

—Está mesmo bem? —Tornou a perguntar Ellena.

—Claro. —Respondi estranhando a pergunta de Ellena.

—Qualquer coisa podemos ir lá na cozinha conversar.

—O que deu em você hoje Ellena? Eu ein. —Respondi antes de ir atras de Marcos assim que seu cliente saiu. —Senhor Marcos peço desculpas pelo atraso, prometo que isso não vai mais se repetir.

—Está tudo bem?

—Sim, tive uma noite ruim e acabei me atrasando.

—Fora isso está tudo bem?

—Claro. —Respondi estranhando o clima— Aconteceu algo que eu não saiba?

—Que você não saiba Rise? —Respondeu ele enrijecendo o maxilar— Que você não saiba não.

Ellena e Marcos por algum motivo não tiravam os olhos de mim me deixando inquieta. Pela manhã estranhei a ausência de Ezequiel, mas não pude questionar nada já que os dois pareciam estar me vigiando.

Era umas duas e meia quando Ezequiel chegou me deixando horrorizada seu rosto estava ferido, tentei me aproximar mas encontrei Marcos impedindo minha passagem.

—Ele não quer conversar sobre isso. —Disse Marcos— Rise eu não sei se posso manter vocês dois aqui com esse clima se algo acontecer a corda vai arrebentar para o seu lado.

—O que? —Assustei me.

—Prometa que não vai chegar perto do Ezequiel.

—Por que?

—Rise não complica.

—Prometo. —Respondi confusa.

Eu não conseguia entender o que havia acontecido, muito menos eu poderia entender o que eu havia feito para deixar todo mundo com raiva de mim.

Não esperei que alguém além de Ellena se despedisse de mim quando nosso expediente acabou. Seguindo minha rotina de todos os dias tentei preencher lacunas em minha memoria, sem sombra de duvidas eu havia feito algo muito ruim.

Chegando em casa retirei o uniforme grudado ao corpo suado e me joguei sobre a velha banheira, mergulhei o rosto e cabelo na água gelada prendendo a respiração tentando esvaziar a alma.

Deliciei me com um macarrão instantâneo pouco antes de pegar no sono.

Durante meu sono profundo comecei a ter reflexos, parecia ser um sonho bagunçado, era uma festa cheia de luzes assim como as que eu via pela televisão, mas não podia ouvir som algum, eu não conhecia nenhuma das pessoas com quem estava sonhando, mesmo sendo flashes eu sabia que eram todos desconhecidos, aos poucos os flashes diminuíram, por um instante eu pude ver mechas loiras conhecidas, o Policial também estava lá, desta vez trajava algo comum menos gomado o possível. O flash mudou havia um rapaz que parecia me dar leves empurrões, eu não os sentia mas sabia que ele estava fazendo isso, novamente minha atenção estava no loiro agora seu acompanhante estava exaltado, havia mais pessoas em sua roda de amigos, mas nenhum parecia ser seu amigo já que estavam debochando e não ficaram ao seu lado quando a bebida do copo do homem de olhos negros foi jogada em seu rosto, antes que eu pudesse ver algo mais o rapaz desconhecido tornou a me puxar, meu corpo estremeceu ao ouvir a minha própria voz dizer um Não antes de ser jogada ao chão. Assim que minha cabeça bateu ao chão o botão do mudo foi desligado e o som ensurdeceu meus ouvidos enquanto a cabeça latejava.

—Desculpa gatinha eu não queria te machucar. —Disse o rapaz assim que me levantei.

—Não me toque. —Gritei.

Ao perceber que o rapaz insistiria em me perseguir desatei a correr desajeitadamente em cima de um salto que não me lembrava de ter comprado, era algo alto demais coisa que eu jamais usaria muito menos se o chão fosse de pluma como parecia ser agora que eu estava embriagada. Sem saber para onde ir peguei as escadas a minha direita pisando em falso no ultimo degrau encontrando o chão duro a minha frente. O rapaz não havia desistido, repuxei meu corpo ao perceber suas mãos se aproximarem, mas antes que me tocassem alguém foi mais rápido me envolvendo em um par de braços longos e fortes me colocando em instantes em pé.

—Rise. —Disse o loiro sem me soltar.

—Micael. —Choraminguei.

—Ei Irmão me desculpe por essa gatinha assustada ela está estranha hoje. —Disse o rapaz tentando tocar meu punho.

—Primeiro. —Disse Micael empurrando o rapaz— Eu não sou seu irmão— Corrigiu ele— Segundo, se tocar nela mais uma vez você vai sair deste lugar em uma ambulância.

—Que isso cara ela é minha namorada não quero violência.

—Você conhece ele? —Perguntou me Micael recebendo uma reposta negativa— Vamos embora.

—Iris se for com ele não adianta me ligar depois. —Gritou o rapaz enquanto nos afastávamos.

Caminhamos até o estacionamento parando ao lado de uma moto vermelha.

—Coloque isso. —Ordenou ele me entregando um capacete preto fosco.

—Não precisa, posso chamar um táxi. —Respondi— Seu amigo vai ficar sozinho.

—Estou sozinho aqui, mas se prefere ir de táxi fique a vontade. —Respondeu ele cruzando os braços.

—Não é que eu prefira, só não vai ser legal você contar isso pro seu amigo quando você voltar aqui, ele vai ficar irritado— Respondi procurando meu celular na pequena bolsa preta presa em meu ombro— Pode me emprestar seu celular?

—Ele não vai notar que eu sai e se notar isso é problema meu não é? —Respondeu ele se curvando aproximando seu rosto do meu— Seus olhos são tão redondos e dourados que parecem ser olhos de coruja.

—Isso é um elogio? —Questionei sem desviar os olhos.

—Deveria ser?

—Parece me que não— Suspirei— Agora por favor pode me emprestar seu celular?

—Não. —Respondeu ele— Não seja tola já disse que te levo.

Eu poderia estar louca em aceitar que um cara me levasse para casa, mas se tratava de Micael e provavelmente esse seria mais um sonho vivo.

Por maior que fosse meu medo de coisas em alta velocidade, ter meus braços cercando aquela cintura, me fazia querer que a estrada fosse eterna, estranhamente em alguns semáforos vermelhos ele tocava minha mão esquerda antes de acelerar mais uma vez. Tudo foi mais rápido do que realmente pareceu, mas tive tempo suficiente para guardar todos os detalhes.

—Está entregue. —Disse ele assim que retirou o capacete em frente ao meu apartamento.

—Obrigada.

—Na próxima conheça melhor seus amigos.

—Eu não conheço aquele pessoal, eu juro.

—Que seja. —Respondeu ele pegando o capacete que estava em meu poder.

—Vai buscar o seu amigo? —Soltei sobre o efeito da bebida.

—Me conte uma coisa você vive nos observando certo? —Atacou ele derrubando minha reta guarda me deixando envergonhada— Por que mente a você mesma se sabe a verdade?

—Esperança talvez. —Respondi encontrando um brilho nos olhos azuis.

—Isso é meio contra mão não acha? Vai se desapontar.

—Eu não me importo.

—É melhor encerrarmos essa conversa certo? —Respondeu ele colocando o capacete— Até mais Rise— Micael nem esperou minha despedida arrancou e desapareceu ao dobrar a esquina.

Me restando apenas subir ao meu quarto e entender um pouco o que estava acontecendo. Ao entrar em meu apartamento estranhei a grande televisão sobre a estante, passei pela cozinha e cheguei em meu quarto, na penteadeira havia perfumes que eu não havia comprado e roupas e sapatos no quarto que não eram meu, ao me olhar no espelho encontrei uma criatura que provavelmente seria eu mesma com os cabelos lisos, muito bem maquiada com um batom vermelho que eu julgava ser de puta, mas foi ao deslizar o dedo para desbloquear o celular sobre o criado mudo, havia uma foto minha e do rapaz desconhecido da festa e a data era dia vinte e cinco de junho, para onde foram as minhas lembranças dos outros vinte e quatro dias?

Sem entender o que se passava comigo comecei a chorar enquanto procurava respostas por todos os cantos da casa encontrando apenas traços de que eu estava com algum tipo de amnesia.

Durantes alguns dias eu permaneci alerta sobre qualquer coisa, sabia que havia feito coisas que agora não tinha consciência mas preferi guardar isso para mim, as coisas não saíram do controle, aos poucos retornei a minha vida normal a única coisa diferente era o fato de Micael vir comprar jornal todas as manhãs e trocar algumas ideias, pouco a pouco aceitei o fato de termos o mesmo gosto em relacionamentos, afinal eu não poderia fazer nada a respeito.

—Preciso da sua ajuda. —Cochichou Ellena ao pé da minha orelha.

—O que foi?

—Vou conheceu uma pessoa hoje, mas eu não quero ir sozinha.

—Você conhecer alguém? Eu não poderia perder isso— Sorri —Mas não quero nenhum amiguinho okay?

—Certo.

—Onde é?

—Em uma boate na zona sul passo na sua casa é caminho mesmo. —Sorriu ela.

—Okay. —Respondi esperando o próximo cliente.

—Bom dia cara de coruja.

—Bom dia Micael, quer o jornal de hoje? —Sorri.

—Isso mesmo. —Sorriu ele de forma sedutora— Parece animada.

—Estou normal como sempre. —Sorri.

—Verdade é só me ver que seu rostinho se preenche. —Continuou ele recebendo como resposta uma careta— Não me olhe assim Dona coruja.

—Tenho que achar um apelido ridículo para você também Micael.

—Nada é tão ridículo quanto meu nome de velho— Sorriu ele— E outra esse apelido é fofo você não acha?

—Não muito.

—Tome trouxe isso pra você— Respondeu ele colocando o conhecido potinho de açaí na bancada— Dessa vez está inteiro.

—Obrigada. —Sorri.

—Pensei que a Senhorita recusaria. —Respondeu ele desanimado.

—Eu jamais faria isso até por que você me forçaria aceitar.

—Essa era a intenção.

—Sinto desapontar.

—Tudo bem. —Sorriu ele colocando o jornal na mochila— Preciso ir ou o Levi vai questionar por que estou com você de novo.

—Ele não gosta de mim?

—Como ele poderia gostar de quem gosta de mim?

—Você contou a ele? —Perguntei sentindo o rosto queimar.

—Você acha que eu precisei? Ele assim como você é muito detalhista sabe exatamente quem me olha e quem chama minha atenção.

—Sua atenção?

—Preciso ir Rise. —Sorriu ele—Até mais ver.

Micael era assim gostava de mexer com meus sentimentos sem prometer nada em troca me deixando louca, as vezes por horas, mas esse tipo de questão me faria sonhar por muito mais que simples horas.

Me olhando no espelho percebi como seria impossível eu me arrumar como naquela noite, as roupas eram parecidas com a que usava e a maquiagem também menos o batom vermelho e mesmo assim os reflexos eram tão distintos.

Ellena chegou me encontrando tentando baixar um pouco a barra do vestido preto.

—Está linda menina vai até roubar minha paquera. —Resmungou Ellena.

—Jamais. —Sorri enquanto fechava a porta— Falando no seu paquera como se conheceram?

—Grupos da internet.

—Preciso de um paquera. —Suspirei.

—E o Micael é o que?

—O Micael e eu nunca seremos mais do que já somos.

—Por que?

—Ele é Gay gosta de homens.

—Eu sei o que é Gay quero saber se ele gosta apenas de homens.

—Claro.

—Como sabe?

—Ele me disse.

—Bom se ele disse.

Eu nunca entendia quando Ellena entrava nesse tipo de conversa sempre acabava enrolando as palavras e chegando a resultado algum.

Ao chegarmos em frente a boate a reconheci, foi quase impossível não me sentir mal e as coisas dali a diante não poderiam ser piores.

Sentamos em uma das mesas do segundo andar, não demorei para reconhecer o rapaz que estava comigo na foto em meu papel de parede e ele parecia me perseguir com os olhos enquanto beijava uma garota qualquer sem provocar em mim qualquer tipo de sentimento, me animei toda ao ver Micael se divertindo ao meio da pista, seus olhos logo encontraram os meus, estranhei o fato de estar sem Levi e dançando agarrado com uma mulata de cabelos longos, ver tal cena me deixou enojada com um pouco de raiva, tentei ignorar ao máximo já que estava ali para fazer companhia a Ellena.

Demorou cerca de quarenta minutos até o paquera de Ellena chegar seguindo as coordenadas via sms, ao bater os olhos na pessoa não consegui esconder o espanto afinal era uma linda garota de cabelos negros e olhos verdes.

—Daniele essa é minha amiga Rise— Sorriu Ellena— Rise está é a Daniele.

—Prazer Rise a Ellena fala muito de você. —Disse Daniele com ar de empolgação.

—O Prazer é todo meu. —Respondi.

Como eu fui capaz de nunca notar que Ellena tinha esse tipo de gosto, e por que eu estava tão arrasada afinal eu nunca tive qualquer tipo de preconceito e agora parecia não querer aceitar.

—Algum problema Rise. —Chamou me Ellena.

—Nenhum.

—A Daniele estava falando com você.

—O-Oh Desculpe, é que eu sou doida por essa musica. —Sorri, afinal o que eu menos queria agora era sofrer um apagão e fazer coisas das quais não teria controle. —O que dizia?

—Eu disse que quando cheguei aqui pensei que já te conhecia e agora me lembrei de uma garota que conheci no campeonato de futsal da Faculdade.

—Com certeza era outra pessoa— Riu Ellena— A Rise é ruim demais com qualquer esporte é simplesmente uma catástrofe humana.

—Calma ai eu fazia parte da turma do futebol feminino no colégio. —Me defendi.

—Claro você era a gandula.

—A garota foi destaque na competição e saiu de lá com medalha de ouro— Continuou Daniele realmente interessada em me contar algo que eu sabia que não era boa coisa— Se não era você poderia ser sua irmã gémea, eu adorava aquela garota ela nos ensinou muita coisa.

—Não era eu. —Respondi sentindo um olhar ameaçador— Nunca cursei faculdade e sempre fui dois pés esquerdos em Educação Física.

—Eu disse. —Resmungou Ellena.

—Certamente ela deve ser sua parente ou até mesmo uma duplicata. —Insistiu Daniele— Ela desapareceu a algum tempo não temos noticia dela— Sorriu Daniele— Outra coisa em comum entre vocês é o nome, ela se chama Rose.

—Eu não tenho parentes com esse nome— Respondi me levantando— Se me dão licença vou dançar um pouco.

Os olhos de Ellena expressaram tamanha preocupação, mas eu os ignorei e caminhei até o andar inferior onde as pessoas se divertiam. Meus olhos encontraram reluzindo em azul no fundo do salão o bar lotado, sem me importar com o que aconteceria prossegui até o bar encontrando o depois de esbarrar em muitas pessoas.

—O que deseja? —Perguntou o garçom depois de me deixar quinze minutos esperando.

—Uma caipirinha. —Respondi sem ao menos imaginar qual seria o gosto da bebida nunca provada.

—A primeira dose eu não cobro se você me der um beijo. —Respondeu o homem.

—Prefiro pagar o dobro então. —Respondi encontrando em mim uma raiva sem razão.

—Beba logo isso pra ver se melhora esse seu humor Iris. —disse o homem colocando o pequeno copo a minha frente.

O nome pronunciado ecoou em minha mente, o rapaz que estava comigo nessa mesma boate havia me chamado assim, eu não poderia dizer que se tratava de uma Doppelgänger já que fazia parte de minhas memorias perdidas antes de bater a cabeça no chão e retornar minha consciência.

Assim que a bebida desceu pela garganta senti como se já conhecesse o gosto levemente adocicado lembrando uma limonada queimando no fundo da garganta.

—Pensei ter ouvido você dizer que não bebia. —Sussurrou Micael encostando os lábios em meu cabelo sobre a orelha direita.

—Achei que precisava essa noite. —Respondi grosseiramente.

—Aconteceu algo? —Perguntou ele sentando se no lugar vago ao meu lado ainda de costas para o bar sem tirar os olhos da mulata que requebrava como uma boneca quebrada.

—Não, mas me conte como está o Levi. —Ataquei.

—Faltou açúcar nessa sua bebida você continua azeda. —Respondeu ele se levantando e seguindo até a mulher.

Eu deveria ter terminado a minha bebida me levantado e ido embora, mas eu estava com raiva demais e a razão de tanta tortura estava ali bem atrás de mim se agarrando com uma garota. Movida pelo meu masoquismo girei no pequeno banco encontrando rapidamente Micael agarrando a mulher, suas mãos dançavam pelo corpo da mesma me deixando a ponto de bala, não aguentando mais a cena peguei uns trocados na bolsa e coloquei debaixo do copo e segui para o mais distante que meus pés conseguiram me levar em menos de três minutos antes de alguém me puxar pelo braço.

—O que eu te fiz. —Perguntou Micael me apertando contra parede.

—Me solta. —Respondi trincando os dentes.

—Por que está me tratando assim?

—Disse pra me soltar.

—Não enquanto não me disse o que está acontecendo.

—Você não é homossexual? Então me diga o que está fazendo com aquela garota, é tudo fachada?

—Você não sabe nada não é mesmo? —Respondeu ele soltando meu braço sem se afastar.

—Você me disse que gostava de homens.

—Eu não menti.

—Então que palhaçada é essa Micael?

—Você adoraria estar no lugar dela por isso está tão furiosa não é mesmo? —Sorriu ele.

—Não faz sentido você gostar de uma coisa e estar com outra. —Respondi.

—Você se acha inteligente mas não passa de uma garota sem informação alguma— Disse ele agora sem esboçar sorriso algum— Eu não vejo mal algum em gostar tanto de homens quanto de mulheres, mas confesso que poucas me atraem.

Ouvir Micael dizer que também gostava de mulheres deveria realçar a pequena chama de esperança em meu peito, mas o fato de não ter me dito isso antes era por que eu não era capaz de chamar sua atenção e isso apagou por completa minha pequena luz.

—Então eu não faço o seu tipo de todas as formas não é mesmo? —Perguntei sentindo o nó se formar em minha garganta.

—Errado. —Respondeu ele arrancando de mim um olhar esperançoso— Não me olhe assim.

—Por que no dia que demonstrei estar interessada você não me disse tudo isso? —Respondi tentando empurra lo para longe.

—Eu ainda tinha esperanças com o Levi, e eu não posso me relacionar com você.

—Se não pode então por que esta me dizendo tudo isso?

—Por que eu não aguento encarar os seus olhos sem que você saiba disso— Respondeu ele espremendo ainda mais meu corpo contra parede gelada— Foram seis meses para criar coragem encontrar de perto os olhos que me perseguiam, quando você me olha assim até mesmo com raiva eu sei que não devia misturar as coisas.

—Por que? —Sussurrei.

—Está escrito nos seus olhos Rise— Respondeu ele colocando a mão direita sobre a minha nuca agarrando meus cabelos curtos— Você é um perigo e eu vou me dar mal nisso.

Eu jamais aceitaria me esquecer de algo como o que acontecia agora, seria mais um sonho lucido? Não, o gosto da bebida presente na língua de Micael era real. Não havia recordações em minha mente de um outro cara que eu tivesse beijado, por esse motivo tornei Micael o primeiro.

Micael certamente ansiava por isso tanto quanto eu, sua mão apertava meu rosto ainda mais contra o seu deixando nossas línguas explorarem profundamente a moradia de cada uma.

É claro que eu sabia que aquilo era momentâneo e Micael era de todo mundo mas seu coração era exclusivamente de Levi, mas agora eu estava decidida em devora-lo fazendo o bater juntamente ao meu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.