Sou acordado por uma voz feminina nos alto-falantes da nave, com aquele tom calmo e ao mesmo tempo robótico que as operadoras são treinadas para fazer:

-Atenção passageiros, nós acabamos de sair do buraco de minhoca e estamos nos aproximando do planeta Europa-2. Todos os passageiros com destino á Europa-2 favor descer a nave de desembarque na ala A3, a nave sairá em T menos Dez minutos.

Finalmente meus olhos se acostumam á luz e contemplo o meu minúsculo quarto: Paredes metálicas e brancas, um pequeno banheirinho, limpo e apertado, perto da porta e outra cama logo ao meu lado, onde meu colega de quarto estava ocupado lendo um livro: “20.000 léguas submarinas”.

Meu destino é Europa-2. Meu novo mundo. Um recomeço, uma alternativa para a vida mais corrida e caótica na já congestionada Terra. Eu pego minha mala embaixo da minha cama e deixo junto á porta. Meu colega de quarto olha de rabo de olho e volta para sua leitura, mas não deixa de puxar uma conversa apenas para me atrasar e me irritar:

-Europa-2, hein? Qual colônia vai ficar?

Entro no banheiro e me olho no espelho. O mesmo automaticamente lê minha expressão facial e minha pele com um scanner. Uma pequena tela diz para eu passar uma água no rosto e passar um produto facial no rosto (que ofensa). Eu clico para desligar a pequena tela, mas ela abre uma berrante e colorida pop-up sugerindo um inédito produto facial para o rosto.

-Você não respondeu minha pergunta, garoto. — disse meu colega de quarto, aparentemente interessado demais em minha vida para cuidar da própria.

Eu apressadamente penteio meus cabelos ruivos e jogo uma água no rosto, e então respondo, rispidamente:

-Lambert, Nova Germânia.

Escuto o barulho de uma página virando e um pigarro. Eu saio do banheiro, arrumo a gola da minha jaqueta que estava para cima e pego a mala. E falando em mala, meu colega de quarto resolve puxar assunto quando devo sair imediatamente.

-Sabe, tenho amigos que foram para lá. — Ele revela, num tom monótono e desinteressado.

Eu resolvo interrompê-lo:

-Olha, eu tenho de ir agora... Eu esqueci seu nome.

Ele deita o livro no colo, solta um sorrisinho sarcástico e me encara com seus olhos mortos.

-Peter VonKraft. Eu já lhe disse antes.

E disse. Mas eu estava ocupado demais escutando o novo álbum dos Black Riots ou sonhando acordado sobre Europa-2... E também sou péssimo com nomes.

-Ok Peter. Sou Khail. Khail Machlahan.- me apresento, ou melhor, reapresento, com uma mão na maçaneta da porta.

Peter consente com a cabeça.

-Até outra hora, Khail. — ele então finalmente volta a sua leitura, levantando o livro a altura dos olhos e bocejando alto.

Eu dou um aceno de despedida com a cabeça, puxo a mala, de rodinhas, e saio do meu quarto para o corredor. O mesmo era sujo e metálico logo em minha frente o anúncio verde-limão de um refrigerante de menta. Eu paguei pelo ticket econômico Premium, ou seja, conseguiria um quarto, mas seria perto da casa das máquinas e teria de dividir o quarto com alguém. Eu fui burro o suficiente para achar que essas duas coisas não me incomodariam, mas Peter roncava muito e o quarto era quente devido á localização do mesmo. O calor das turbinas chegava ao corredor quando atingíamos a velocidade da luz.

O barulho das máquinas era imperceptível de dentro do quarto, mas era quase ensurdecedor do lado de fora. Talvez os quartos fossem revestidos com alguma coisa que ajudasse á manter o som do lado de fora, mas eu não sou nenhum engenheiro, pelo contrário: sou um biólogo extraterrestre. Meu trabalho é analisar novas espécies encontradas nos planetas habitáveis encontrados pela companhia espacial. Existem vários como eu, homens em busca de uma nova vida, e eu encontrei uma oportunidade. Após anos estudando biologia o jovem Khail irá sair para um novo planeta, estudar novas espécies e construir família com uma colona bonitinha, de preferência uma loira linda de olhos azuis e sardas. Meu deus, como amo sardas.

Ando pelo corredor barulhento e logo encontro outros passageiros indo na mesma direção: Um velho gordo e barbudo e sua esposa velha de cabelos grisalhos, os dois aparentemente acabaram de brigar e ambos estavam emburrados. Um homem de traços andróginos e afeminados vestindo um jaleco de cientista, que olhava para mim vez ou outra, aparentemente interessado, e uma família de três: Pai, mãe e três trigêmeos sendo dois deles homens e uma garota. Três lindas criançinhas, alegres e serelepes, brincando pelo corredor.

Finalmente nosso grupo chega ao elevador: Um cubo de vidro e metal com um painel touch. Eu digito “A3” no painel enquanto os outros entram. Assim que o último (o velho gordo) entrou no elevador a porta se fechou e imediatamente partiu para a ala A3. Senti o empuxo comum de quando um elevador desce.

Atrás de mim a janela do elevador dava para as estrelas. Os trigêmeos, pequenininhos, ficaram olhando para as estrelas, colados no vidro, para o desespero da mãe que tentava tirá-los de tão perto. Eu olhei para as estrelas através do reflexo da porta de vidro e suspirei, olhando para a constelação das três marias ao longe.

Em poucos minutos estaria aterrissando em Lambert, onde deveria encontrar um cientista alemão chamad-

-Hey, nós já nos conhecemos antes?- perguntou uma fina voz jovem e masculina. Era o afeminado atrás de mim. Eu me viro e olho ele no rosto.

Ele tinha rosto de mulher, olhos femininos e um cabelo curto e espetado. Não fosse a voz um pouco mais grossa que qualquer voz feminina que já ouvi eu diria que era uma mulher travestida, mas não era. Eu realmente me foquei em seu rosto, mas não consegui me lembrar de ninguém.

-Uhm... Não, eu creio que não o conheço. — respondo. Eu desvio o olhar para os trigêmeos tentando descobrir qual estrela pertence nosso já distante sistema solar.

O homem assente com a cabeça e morde os lábios inferiores. Ele então olha para os dois lados e volta sua atenção para o barulho do elevador. Eu faço o mesmo, mas de repente ele resolve insistir.

-Bem, é uma pena, mas eu adoraria conhecê-lo melhor. Vai ficar aonde em Lambert?

Espera um pouco, como ele sabia que eu ia ficar em Lambert? Uma incógnita surgiu em minha cabeça.

-Como sabe que estou indo para... — eu tento falar, mas ele me interrompe:

-Eu chutei, eu também estou indo para Lambert, sou mais um dos cientistas chamados para analisar os artefatos extraterrestres na área montanhosa da Nova Germânia.

As portas se abriram e nós saímos todos do elevador. Logo em nossa frente um guarda de dois metros de altura com uma prancheta nos indicava a saída para a nave de desembarque apontando-a com uma caneta, sem tirar os olhos da prancheta. Um pequeno caminho de luzes no chão preto da nave também ajudava. Em minha frente uma interseção em “T” onde uma seta apontava para a direita.

-Meu nome é Viktor Lopes. E o seu?- perguntou o homem, me seguindo como se eu fosse seu dono.

-Khail Machlahan.- respondi, sem virar para trás.

Viramos para a direita e nos encontramos no que parecia um grande saguão de desembarque: Toda a parede á nossa direita era uma janela enorme de onde podíamos ver o lindo planeta de Europa-2. De longe eu podia ver que era dia nas colônias de Nova Germânia, as pessoas devem estar trabalhando nas fazendas de hidroponia ou fazendo as tarefas do dia a dia na colônia, como cortar lenha para a lareira. Fechei os olhos e por um momento pensei numa lareira, um bom livro e no cheiro de café com biscoitos amanteigados.

Passamos por dois terminais até chegarmos a nossa nave de desembarque. Um guardinha, desinteressado e entediado, com um pequeno bastão vermelho que nos indicava que aquele era o lugar. Ele balançava o bastão em direção da porta, nos dando a noção de que chegamos ao nosso ponto de desembarque. Olhei para ele e quando ele notou que estava sendo observado ele sorriu e acenou positivamente com a cabeça, para não perder a postura. Era óbvio que ele estava apenas fingindo, deveria estar cansado.

Entramos e um funcionário colocou nossas malas no compartimento de carga da nave de desembarque, jogando-as rapidamente lá dentro e completamente ignorando a possibilidade de haver material frágil ali dentro, o que me deixava consternado, mas resolvi não me alterar por isso. Uma funcionária nos apontou as cadeiras. Me sentei na última cadeira, ao lado de uma parede de vidro que ficava atrás dos pilotos, que estavam rindo e conversando. Viktor fez questão de sentar em meu lado. Com certeza ele está atraído por mim, mas não vou ignorar que é bom ter um amigo neste novo mundo, talvez eu esteja apenas sendo sorumbático demais com ele. As travas de segurança desceram em nós, como um brinquedo de parque de diversões, me apertando contra a cadeira e incomodando um pouco. O velho gordo em minha frente ficou apertado e eu podia jurar que ele estava ficando vermelho. Uma aeromoça começou a nos explicar os procedimentos básicos de segurança, com um sorriso plastificado e simpático:

-... Quando chegar à reentrada a nave irá chacoalhar muito, mas não se preocupem, pois isso é normal. Em caso de algum acidente detectado as máscaras de segurança irão cair e vocês deverão colocá-las assim e respirar calmamente. –ela balançou a máscara no ar com uma mão acima da cabeça e com a outra ela colocou a máscara- Em casos de emergência é importante manter a calma e escute seu comandante... –ela continuou explicando, mas não prestei atenção.

Fiquei pensando nas espécies que li sobre nos relatórios sobre Europa-2. Na área de Lambert foram encontrados espécimes de montanha bem raros: Répteis que sobrevivem à neve e climas intensos, que parecem velociraptors, mas são vegetarianos: Comem uma espécie de pinha que cresce na região. As fotos mostram lindas escamas negras, brilhando sob a luz solar, e algumas escamas perto da região nasal eram amarelas ou azuis, deixando listras coloridas envolvendo a cabeça do réptil.

Outra espécie encontrada é o rato neoeuropeu: Um veloz roedor de pelugem bege ou branca que se alimenta de carniça.

A flora de Europa-2 não é muito diferente do que a da Terra, afora alguns poucos casos, como a maçã venenosa de Eva (triste o caso do cientista que a provou e teve seu rosto derretido pelo ácido) e a samambaia gigante. Lembro da mídia e das pessoas especulando e desenhando floras absurdas inspiradas mais na imaginação do que na ideia de uma planta em si.

O barulho da nave se desprendendo da nave-mãe me acordou de meus pensamentos. A nave de desembarque começou á se aproximar de Europa-2. Os pilotos se comunicavam com a nave mãe, mas eu não conseguia escutar: A parede de vidro que nos separava era á prova de som.

-Já leu sobre o pequeno garotinho que encontrou uma base subterrânea em Lambert? – me perguntou Viktor, puxando assunto para a descida.

Sim, eu havia lido sobre. O pequeno Michael de nove anos estava brincando de pique esconde com seus amigos e se escondeu em um dos destroços alienígenas que são casualmente encontrados em Lambert e nos arredores de Nova Berlim. Era um destroço em formato de ovo, totalmente desativado e pesava uma tonelada. O pequeno Michael prendeu o pé lá dentro e ao puxar ele acionou um dispositivo mecânico que o jogou numa galeria subterrânea. Felizmente ele não se feriu, graças à terra fofa e o pequeno rio que passava ali. Ao ligar a lanterna de seu telefone e checar seus arredores, Michael encontrou uma grande e abandonada base subterrânea, cheia de artefatos tecnológicos desativados, ela toda cavada dentro da galeria subterrânea onde Michael se encontrou.

Isso foi há dois anos e agora ele tem onze anos. A família dele está vivendo do prêmio milionário que ele recebeu pela descoberta e a área foi fechada e só pode ser analisada por especialistas.

-O que você acha que era a civilização antiga? Antes de nós terráqueos pisarmos em Europa-2 e começarmos uma nova vida?-perguntei para Viktor, continuando o assunto.

Viktor pensou por um momento e começou a digitar os dedos em sua perna, após um pequeno silêncio cortado apenas pelo barulho dos motores da nave ele se pronunciou:

-Humanoides, com certeza, devido a alguns controles utilizarem teclados de forma convencional embora eles funcionem usando outro sistema diferente do QWERTY além de usarem letras que lembram o alfabeto rúnico. -Viktor fez um formato de anzol com o dedo indicador, mostrando no ar como é o alfabeto rúnico, como se alguém escrevesse arranhando com a ponta do dedo.

A nossa nave começou á contornar o planeta, de forma a entrar numa forma de parábola, seguindo o sentido de rotação do planeta.

-O que você acha que acabou com eles?- perguntei.

Viktor sorriu, mostrando os dentes claros e perfeitos.

-Não é óbvio? Não percebeu como grande parte dos destroços são naves de batalha abandonadas e queimadas e robôs desativados?- ele disse.

-Quer dizer que todos se mataram numa guerra?- indaguei, levantando uma sobrancelha.

Viktor assentiu com a cabeça e respondeu:

-Aposto que foi uma bomba atômica ou de hidrogênio, devido a vários robôs e naves ainda estarem afetados pelo efeito EMP.

Porém ele não tinha certeza. Ninguém tinha certeza. Sem algum livro jogado no canto ou restos mortais da raça anterior ninguém podia dar um sinal verde. De acordo com a datação de carbono os destroços de tecnologia encontrados datam de quase um milhão de anos.

A nave começou a entrar na atmosfera de Europa-2 e começou á chacoalhar. Meu coração começou a acelerar por causa da turbulência e da bola de fogo que se formava em volta da nave. De todos de dentro da nave, incluindo os pilotos, eu era o único nervoso: Era minha primeira viagem. As crianças levantavam as mãos como se estivessem num brinquedo, soltando gritinhos de diversão. A fofura da cena me acalmou um pouco.

O barulho do metal do lado de fora queimando e da nave chacoalhando começou a surgir: A turbulência começou a ficar pior até que finalmente estabilizou. O comandante clicou um botão no painel e começou a se comunicar com os passageiros, num tom alegre e reconfortante:

-Senhoras e senhores passageiros, bem vindos ao planeta Europa-2. A previsão do tempo é de sol com poucas nuvens, mínima de 283.15 Kelvins e máxima de 293.15 Kelvins. Estaremos aterrissando no espaço porto de Lambert em dez minutos. Aproveitem a vista!

Viktor me cutucou e me olhou com olhos curiosos.

-Então, o que você vai fazer lá?- perguntou.

A nave passa por debaixo das nuvens e finalmente posso ver a área montanhosa de Nova Germânia. Eu explico meu trabalho para Viktor: Analisar espécies alienígenas.

-Você já analisou algum espécime estranho antes?- ele pergunta, descansando as mãos em seu colo.

Eu sorri, lembrando do primeiro espécime que analisei:

O primeiro espécime “alien” que eu havia analisado e feito à autópsia foi um pássaro verde-musgo de bico pequeno e curvo, que apelidei de professor, devido a uma mancha negra em volta dos olhos que lembrava uns óculos arredondados. Porém quem havia encontrado o espécime não fui eu, mas um explorador que o enviou para mim em uma gaiola. Quando o passarinho chegou à Terra ele infelizmente já estava morto. Eu ralhei com a companhia pelos maus cuidados, mas não recebi nenhuma satisfação.

Contei a triste história do pássaro. Viktor fez biquinho e depois seu rosto ficou triste.

-Coitado do passarinho.

O comandante colocou uma música clássica no sistema de som, para acalmar os passageiros: Inverno de Vivaldi. Os violinos ecoaram pela nave, reverberando com o vazio, batendo no metal da nave e voltando.

Olhei para o lado de fora, através do painel do piloto, de onde eu tinha uma boa visão: A nave se movimentava em velocidade “cruzeiro” por entre as montanhas nevadas e pontudas da Nova Germânia. A nave passa rente a uma delas e então contorna para entrar num vale. Avistei as pequenas casas suburbanas da área residencial de Lambert.

-Atenção passageiros, bem vindos á colônia de Lambert, NG.- comunica o comandante.

A nave começou a desacelerar e ativar o sistema de pouso. O piloto acidentalmente deixou o sistema de som aberto e o ouvimos contatar a torre de controle:

-Atenção Torre aqui é a nave de desembarque da O.H.M.S Midway, pedindo autorização para pousar, câmbio.

O copiloto rapidamente descobriu que o sistema de som estava ligado e o desligou com um toque. A música voltou a tocar. Eu soltei um risinho com a gafe.

-Vai encontrar com alguém na aterrissagem?- perguntou Viktor. Estranho, pois eu estava pensando exatamente nesta pessoa quando ele me interrompeu pela primeira vez lá no elevador.

Eu boto a mão no bolso da jaqueta e tiro um papel escrito o nome do cientista que deveria encontrar: Klaus Esper.

Uma ficha caiu para Viktor. Os olhos dele arregalaram por um momento, ele reconheceu o nome.

-Grande Klaus!-exclamou Viktor, — Ele é um grande biocientista e pioneiro das colônias. Ele já participou da colonização de Kepler e Janus.

Eu guardo o papel, soltando um sorrisinho de orgulho.

-Sim, ele vai ser meu chefe. — revelo para Viktor. Pude sentir o cheiro da inveja torrando em sua cabeça.

-Sortudo!- exclamou Viktor. –Eu estou trabalhando, ou melhor, fui chamado por, Tetsuo Sakaguchi, especialista em engenharia e tecnologia.

Viktor olhou para mim esperando uma reação, mas o nome não caiu nenhuma ficha em minha mente.

-Desconheço. — digo, deixando-o meio surpreso.

-Sério? O cara que inventou os robôs de... — ele se calou, meio alterado por minha ignorância na área de engenharia.

A nave começou a girar em seu eixo e descer no espaço porto. Pude perceber no horizonte um grande lago, tão limpo que podia ver o reflexo das casas e das montanhas cercando Lambert. Os pinheiros cercavam o lago e o pintavam de verde devido ao reflexo. Aquilo de noite deveria ser um show devido ás luzes das casas. Uma paisagem linda de se ver que me deixou boquiaberto. Meu novo amigo sorrateiramente fechou minha boca, levantando meu queixo com o dedo médio. Olhei para ele e ele sorriu. Fiquei confuso se era um flerte ou não. Desviei meu olhar para a janela novamente e vi que pousamos.

As travas de segurança se abriram e a porta da nave também. Um senhorzinho, careca, grisalho, bigodudo e barrigudinho, funcionário do espaço porto, começou a retirar as malas, também as jogando violentamente para fora, onde outro funcionário as pegava e colocava num carrinho. Dois séculos, evoluções da tecnologia e mesmo assim continuam jogando nossas malas como se fossem sacos de lixo. Imperdoável.

Um terceiro funcionário apareceu e pulou para dentro de nossa nave. Era um homem altíssimo, de queixo pontudo, cabelos negros e vestia um terno preto com uma credencial pendurada em seu pescoço. Pude jurar que Viktor cruzou as pernas para esconder uma ereção. O homem se pronunciou:

-Bem vindos á Lambert, Nova Germânia!- ele sorria, mas não era um sorriso falso, ele realmente amava seu trabalho e o sorriso era honesto- por favor, sigam para o terminal de desembarque para pegar suas malas.

Todos nos levantamos. Um a um os passageiros foram saindo. Eu pisei para fora da nave, fechei os olhos e suguei todo o ar puro que pude. Como era bom. Ar de verdade, não o ar artificial que fiquei anos respirando. Olhei para frente e vi as lojinhas do centro comercial e algumas casas, e mais á frente uma floresta na base de uma montanha. Calculei que estava a cinco andares de altura. O sol estava se pondo, pintando a cidade com uma luz alaranjada. Era algo digno de uma foto ou pintura.

O homem seguiu para o terminal de desembarque e nós o seguimos, contornando o carrinho onde nossas malas estavam sendo violentamente jogadas, em minha cabeça fiquei imaginando mil maneiras de matar, estuprar e depenar o senhorzinho da nave se ele quebrar minhas coisas.

A porta automática do terminal se abriu e pisei no chão de mármore. O terminal era branco, por exceção de seu chão de mármore caro, e dos posters, banners e outdoors. Andei ladeira abaixo até chegar à esteira onde minha mala estava esperando. Eu a abri para checar se alguma coisa havia quebrado, mas estava tudo em ordem. O guardinha parrudo me olhou estranho, mas não fiz muito caso disso.

Todos já passaram minha frente e haviam saído, até Viktor. Eu saí da área de desembarque para o terminal, e logo avistei Viktor conversando com Klaus, quase chegando ao ponto de pedir um autógrafo de joelhos. Eu ri internamente do ridículo e me aproximei. Klaus me viu, acenou e se aproximou, deixando Viktor no vácuo.

-Khail Machlahan!- exclamou Klaus, apertando minha mão. Eu sorri e ele sorriu de volta.

-Klaus Esper, o grande. — brinco. Klaus ri e coça o nariz, virando-se para Viktor.

-Desculpe em cortar nossa conversa, amiguinho, mas precisamos ir. Tenho que apresentar a este homem onde ele vai morar e trabalhar. — explica Klaus, ajeitando seus óculos e dando um tapinha nas costas de Viktor.

Me aproximo de Viktor para me despedir. Ele aperta minha mão e com a outra ele sorrateiramente deixa um papelzinho no bolso da minha jaqueta. Não faço caso de impedi-lo, talvez o contato seja útil depois.

-Até outro dia, Khail. — despede Viktor.

Eu sorrio e aceno positivamente com a cabeça, e então me viro.

Klaus foi em direção do estacionamento e fui atrás. Viktor foi à direção oposta.

O estacionamento era aberto e simples. Não havia medo de furto na pequena colônia de Lambert então não era necessária uma grade cobrindo o estacionamento. Ao invés disso o estacionamento era cercado por uma cerca de pequenos arbustos que chegam à altura da cintura.

Porém o que eu estranhava é que todos os carros eram modelos extremamente antigos. Não lembrava de ver nenhum deles na Terra a não ser em filmes de época. Podia jurar que todos os carros datavam do final do século 20 e início do século 21. Tinha que perguntar para Klaus.

-Porquê todos os carros daqui são velhos? Eles estão usando combustível fóssil como antigamente?

Klaus sorriu.

-Não, todos os carros aqui são reciclados, amiguinho. Como parte da iniciativa para ajudar a retirar o lixo eletrônico e automotivo da Terra. E não se preocupe, o motor foi substituído completamente, nossos engenheiros garantem isso.

Eu aceno com a cabeça para mostrar que entendi, e então Klaus apertou um botão na chave do carro e um carro apitou no fundo da garagem: Uma perua preta e de design quadrado, típico dos carros do fim do século 20.

-Um Volvo Turbo Wagon 760 do ano de 1989. — mostra Klaus, sorrindo orgulhoso de sua escolha.

-Um carro bem simples. Porque não escolheu um modelo mais bonito?- perguntei. Klaus pôs as mãos no bolso do paletó e começou a me guiar para o carro com as mãos em minhas costas.

-Era barato, simples e ninguém queria. O engenheiro que reformou tinha feito para sua mãe, mas ela chegou a falecer e como ninguém quis comprar ele disse que faria bem barato para mim, e assim o fez. — ele explicou, sorrindo, com sua voz morna e professoral. Chegamos ao carro e ele abriu a porta do passageiro para mim. Coloquei minha mala no banco de trás e entrei no carro, Klaus entrou logo em seguida.

O cientista pôs as mãos no volante, suspirou e olhou para mim com sua cara enrugada e feliz.

-Bem vindo ao novo mundo, Khail.

Eu sorrio e coloco o cinto de segurança. Finalmente estava em Lambert, finalmente cheguei a um lugar calmo e lindo. Estava indo trabalhar com o que gosto em uma área calma.

Não era o novo mundo. Era meu novo mundo, minha nova vida, meu recomeço, uma alternativa a destroçada e imunda Terra.

Klaus ligou a ignição e escutei o motor de cristal de dilítio ligando. Ele acelerou o carro e em poucos segundos já estávamos na estrada. Ele virou para a direita em direção do outro lado do lago.

-Vamos primeiro para sua nova casa. Você precisa conhecer a vizinhança, um lugar lindo, é onde ficam os pinheiros mais altos e a sua casa já está mobiliada como pediu. — explicou Klaus.

Eu assenti com a cabeça e fiquei observando a paisagem. Os pinheiros, passando, o lago á nossa esquerda, límpido, de onde eu podia ver peixes e o fundo. Á direita se viam os pinheiros ou algumas ruas comerciais e residenciais.

Chegamos na minha rua: Bachman Road. Uma linha perfeita de casas de um andar, uma ao lado da outra, cada uma de uma cor diferente. Podia ver as crianças brincando e os velhos vendo a vida passar, sentados em suas cadeiras nas varandas de suas casas. Klaus estacionou em frente a uma casa de telhado cinza escuro e pintada de vermelho-rubro: Era minha nova residência. Ele pôs um molho de chaves em frente de meu nariz.

-Vá lá e ponha sua mala lá dentro, precisamos ir ao laboratório ainda. -ele pede.

Eu pulo para fora do carro com a mala numa mão e a chave na outra e passo a passo adentro em meu jardim e então em minha varanda. Ponho a chave na fechadura e sinto a maçaneta de ferro em minhas mãos. Fecho os olhos por um segundo e suspiro, queria aproveitar cada segundo daquele momento. No suspiro eu notei que o cheiro de madeira fresca da porta ainda estava presente, o que agradou minhas narinas. Finalmente abro a porta e entro com o pé direito em casa.

A mobília, como Klaus disse, estava toda lá: A entrada dava para a sala de estar e havia um sofá de lã bege de três lugares, uma TV nova, uma lareira à direita e uma estante. Para a esquerda ficava a sala de jantar com uma porta para a cozinha ao norte dela. Ao lado direito da porta da cozinha ficava o corredor. Calmamente passo pela casa até chegar ao último quarto, onde ficava uma cama de casal, uma escrivaninha para estudos, um armário e um espelho para me arrumar. Eu deixo a mala em cima da cama para arrumar depois e volto imediatamente para o carro: Deixar Klaus esperando ainda mais seria muita sacanagem com ele.

-Linda casa, não?- constatou Klaus, enquanto eu entrava no carro.

Eu aceno com a cabeça e respondo

-Sim, realmente é uma linda casa, Senhor Klaus.

Ele liga o carro novamente e voltamos para a estrada.

Voltamos para a estrada do lago e então pegamos outra estrada que dava para um túnel que passava por debaixo da montanha. Ao sair me deparo com um lugar totalmente diferente: Uma grande planície verde, com grama alta e algumas poucas árvores. Lindo.

-Você tem que ver isso aqui quando neva: Parece que o chão sumiu de tão branco- comenta Klaus.

Fiquei observando a paisagem, mas acabei viajando em meus pensamentos para o futuro. Já fiz novos amigos, talvez conheça uma garota legal... Teria filhos? Aqui seria o lugar perfeito, longe das preocupações da vida na Terra, aqui onde o ar é puro e as árvores ainda são verdes e não há prédios monstruosos ou crime ou corrupção em todo canto. Aqui é tudo calmo, sereno e novo, uma vida que todo homem são gostaria de ter.

Nisso o carro freia bruscamente para minha surpresa e bato meu nariz com força no porta-luvas. Doeu muito, mas não me machuquei. Olho para Klaus: Ele está paralisado e boquiaberto.

Fiquei com medo de olhar para frente, mas eventualmente a curiosidade venceu e olhei: Era um lindo pássaro de pelugem vermelha e pescoço longo. Tinha olhos azuis profundos e olhava o carro com esses olhos curiosos. Ele então se virou e partiu para um campo florido.

Klaus continuou imóvel e olhou para mim. Nos entreolhamos e então dou um toque para ele:

-Atrás daquela ave, vamos! Precisamos tirar fotos!

Klaus imediatamente vira o carro e caímos campo florido abaixo, perseguindo a ave que ao nos perceber começou a correr, sem voar. Fiquei tentando anotar detalhes sobre a ave, mas o carro pulava com o terreno, e então finalmente a ave parou, e nós também.

Eu saí do carro e tentei me aproximar da ave. Ela olhou para mim e levantou as asas, de modo a mostrar superioridade. Eu puxei uma câmera e tirei uma foto. O flash assustou a ave e ela saiu voando, e do nada várias pequenas aves surgiram por debaixo das flores e saíram junto com ela. Tirei várias fotos persegui a ave a pé um pouco, e então me ajoelhei no campo florido, com as pétalas coloridas e penas voando em minha volta.

-Qual nome dará a espécie?- perguntou Klaus, de longe.

-É uma... É uma Fênix!- exclamo.

Anoto o nome “Fênix de Lambert” em um bloquinho e olho para a ave no céu, já longe.

A vida é bela.

Notas finais
Por favor comentem e deixem suas críticas, quanto mais comentários melhor e mais motivado estarei para continuar as aventuras de Khail em Europa-2 :3