Meu nome é Alma

3 Capítulo Terceiro


Notas iniciais
Olá!! Como vão vocês? Segue mais um capítulo dessa jornada, espero que gostem!!!

“Pobre criança que ama estampas e cartões,

O universo é igual a seu apetite extremo.

[...]

Uma manhã partimos com o cérebro em chamas,

O coração repleto de amargos pensares,

E vamos, com o ritmo batido das laminas,

Ninando o infinito nosso no dos mares.”

— Maxime du Camp

A noite fazia-se infinita ao ritmo constantemente e completamente desarmonioso daquele coração. Os olhos bem abertos absorviam as milhões de cores à sua volta e refletiam absolutamente tudo. Duas esferas maciças de cristal, rodeadas de euforia extrema... Vulneráveis, frágeis... mas em toda sua essência física e abstrata, magnificas.

Esplendorosamente incapaz de formular algo coerente, sua mente em um pequeno e gracioso colapso de emoções. Por fora, Alma se fazia feliz.

Alma observava o mundo a sua volta de forma frenética, talvez por causa do efeito causado pela combinação de sono com energéticos e alguma bebida com gosto amargo que havia tomado por auto desafio de controle; queria mostrar para si mesma que não seria uma alcoólatra como sua mãe. Mas depois chegou à conclusão de que nunca mais pensaria em sua mãe... e a partir daquele momento, por mais difícil que fosse, assim fez ou tentou fazer.

Gizella tinha recebido um convite para um estabelecimento onde um amigo estaria, e chamara Alma para acompanha-la, esta que obrigou-se a sair de sua tão adorada cama e arrumar-se o mais rápido possível. Alguma de suas escolhas tinha que valer a pena, e nada valeria a pena se ela não tentasse.

Sorriu em resposta a algum outro sorriso, mas estava tendo uma conversa interessante demais com um dos barman, aparentemente muito centrado, para se importar. Não sabia bem se ouvir o rapaz falar sobre a ascensão do ministro Vladimir Putin na Rússia com outro cliente era considerado uma conversa... alguns diziam que Vladimir reergueria a Rússia e que disputaria com os americanos novamente.

O termo “acompanhante” ou até mesmo “convidada”, de princípio, não fez muito jus a situação, afinal, depois de toda a dificuldade para conseguir entrar no lugar sem ter a idade necessária, foi depositada em um canto qualquer enquanto a amiga desaparecia gradativamente do campo de sua visão.

“Eu tenho quase a idade necessária”, pensou.

Ocorreu que o amigo de Gizella conhecia um amigo, e este conhecia outro amigo que era amigo de um dos sócios do estabelecimento. Fora complicado e irritante, mas em quinze minutos ela estava dentro.

Ocorreu em si um pequeno choque, de forma que Alma jurou a si mesma que nunca mais acreditaria completamente no que via nos filmes. Porém, alguns minutos depois, lembrou-se que foram poucos os filmes que vira para pessoas fora de sua faixa-etária, porque a maioria dos filmes que vira fora na escola. Então isso era uma justificativa, talvez.

A primeira coisa que inundou sua percepção foi a luz, era tão baixa, mas ainda assim era possível a visão do perfil e parte das feições dos sujeitos mais próximos.

“Provavelmente esse é o motivo da luz... Influenciar na proximidade”, e em uma tentativa aparentemente bem sucedida, Alma tentou esconder sua expressão de surpresa em um sorriso bobo.

A fumaça inundava o ar, tantos cheiros estranhos e novos. Incômodos, resumidamente. Esta não seria a palavra, mas Alma não conseguiu pensar em outra para a descrição.

As pessoas em geral pareciam felizes, notou. Mas não era felicidade ou alegria que exalavam. E muito menos foi isto que Alma sentiu.

Mas quis dar uma chance a aquilo tudo. Olhou para Gizella bruscamente, o cabelo solto acompanhando naturalmente o movimento. Gizella conversava aos sorrisos com um rapaz magro, e assim ficou por um bom tempo. Tempo que Alma usou para analisar e encontrar um lugar que achasse agradável. E depois de encontrá-lo, permaneceu nele por um bom tempo.

E então, numa tristeza provisória, sua “conversa" interessante com o barman acabara. Só sobrara a ideia de que deveria se divertir, ou pelo menos tentar, já que começou a perceber que não achava aquele ambiente psicologicamente, e de certa forma, nem fisicamente, agradável.

Alma percebera que o número de ciganos em Constanta era ainda maior que o número de turistas. Teve a ideia de que talvez uma coisa atraísse a outra. De fato, analisando pela segunda vez na noite o ambiente em que estava, podia ver alguns ciganos ali. Estes dançantes entre os flashes das luzes neon.

Levantou-se, estava há mais de uma hora no bar e gastara todo o dinheiro que lhe sobrara. Afinal, sentiu-se envergonhada com o fato de não pedir nada. E por isso, acabou pedindo um pouco até demais.

Procurou por Gizella por todas as partes, até que desistiu e dirigiu-se a um banheiro.

Caminhavam pela rua até o carro, próximos, mas não juntos. Mas, ainda sim, próximos.

Era o que importava.

— Alecksandre...- Bianca sorriu – Sempre me esqueço que você mudou de nome.

— A pronúncia continua a mesma... – Alexandre não queria lembrar-se do motivo da troca ilícita, urgente e secreta de nome. Poucos sabiam dela, apenas os necessários. Mesmo tendo sido uma troca pequena, era útil para burlar alguns sistemas.

— Não vou mais tentar soletrar para o garçom. – Bianca estava envergonhada de certa forma. Gostara da noite, e por algumas horas conseguira deixar de lado o pequeno e turbulento passado que os dois dividiram tempos antes.

Alexandre riu.

— Eu agradeceria. – Abriu a porta do passageiro e fez um gesto para que Bianca entrasse. Depois, deu a volta e sentou-se ao volante. Olhou pelo retrovisor verificando se havia algo ou alguém suspeito, mera força do hábito.

— E então? Gostou da noite? – Bianca tentou parecer natural, mas queria realmente, mas não desesperadamente, saber.

— Ora, já vamos acabar com ela? – Perguntou, com tom desapontado e humorado. Ligou o motor do veículo e acelerou.

Bianca de repente quis mais. Quis provar a si mesma que ele ainda era seu e que ainda a queria, mesmo magra e doente. Pousou a mão esquerda sobre o jeans dele, na coxa, e sorriu.

Se Alexandre Constantin ainda estivesse em Constanta, poderia ter evitado o envio de uma entrega que julgava “simples” , porém de urgência e importância, para a Espanha, pelo sujeito Igor Larsen. Este que fora encarregado por Marco Constantin Simon, soberano deste, de Alexandre e de muitos da organização.

Mas, como Alexandre não estava em Constanta, não pode evitar. E isso ato acarretou em problemas indiretos a ele, mas que, no final, exatamente naquela noite, transformaram-se em problemas que sim, o afetavam de forma direta.

Por profissionalismo, Alexandre já sabia lidar com situações do tipo.

Assim, às 00:41 do dia onze de setembro de mil novecentos e noventa e nove, seu telefone celular recebeu uma chamada que ele não poderia deixar de atender.

Atendeu-o enquanto dirigia, e seus olhos deixaram de prestar atenção na avenida por alguns segundos. Não houve nenhuma catástrofe.

Ouviu em silêncio e terminou com um “sim”. Direcionou o veículo para a direita e, quando questionado por Bianca sobre, disse:

— Vou deixa-la em casa.

Não trocaram muitas palavras até o apartamento, apenas o suficiente.

Acompanhou-a até a porta naquele prédio escuro. Reparou que algumas luzes não funcionavam.

— Não quer entrar e tomar alguma coisa antes de ir? – A pergunta era por educação, não por vontade. Aquela maldita ligação que Alexandre recebera trouxera à tona em Bianca as lembranças dos velhos tempos e dos velhos problemas.

— Eu preciso ir. Vejo você outro dia. – Seus olhos estavam focados em um calendário atrás de Bianca, dentro da casa.

— Vai me ligar?

Tomou nota do telefone dela e guardou no casaco, depois passaria para sua agenda.

— Foi bom te ver. – Beijou o rosto da mulher e a abraçou em um gesto de partida.

Bianca não quis ficar na porta até que ele voltasse para o carro, por isso, assentiu com a cabeça e disse adeus.

Parecia até que estava em um sonho. Mas não estava. Ao contrário.

Alma disse a si mesma que precisava ir, mas não precisava. Ela queria ir? Não sabia.

De certa forma, queria. Porém de outra, não.

Então tentou ser coerente. “Nada vai valer a pena se você não tentar”, repetiu a si mesma pela segunda vez na noite. Talvez a frase lhe desse coragem para encarar a situação.

Deveria mencionar sua idade? Sempre lhe diziam que era jovem! Ou teria ele percebido? Isso deixava-a indecisa, de certa forma mais entorpecida pela forma e pelo charme do ser. De outra maneira, assustada com os sorrisos e agrados.

Era tudo muito novo. Tudo muito rápido.

Tentando parecer distraída, Alma afastou-se um pouco, mas aceitou a bebida.

— Meu nome é Alma. – Respondeu. Os olhos, em momentos como aqueles, adquiriam um tom mais vívido. Lembrou-se rapidamente que deveria perguntar o nome do outro. – E o seu?

O ser sorriu. O ouro na orelha entre os fios do cabelo médio... Este que ondulava levemente nas pontas, tornando o conjunto de todos os elementos uma pequena cascata de fios castanhos escuros.

— Sou Mihai. – Alma sorriu por nervosismo e até mesmo por livre arbítrio. Fazia tempo que não sentia vontade de sorrir. – Ah... ­– Mihai soltou o som como uma espécie de declaração – Que riso bacana.

Alma deixou de lado o drink que lhe fora oferecido em troca da apresentação e tentou ocupar suas mãos com qualquer outra coisa.

— Obrigada... – Soou mais como uma pergunta do que como agradecimento. No entanto, Mihai não parecia preocupado com a resposta.

— Você deveria sorrir mais, não é qualquer um que pode usufruir de um sorriso assim. – A entonação em cada palavra era alegre e extrovertida. De certa forma o fazia parecer com alguém que Alma conhecia há tempos. Tornava a conversa, para ela, um pouco mais agradável. De forma que, junto com todas as outras sensações novas da noite, ao todo, Alma sentia-se estranhamente alegre, quase confundível com felicidade.

— Qual o nome disto? – Perguntou ela referindo-se ao drink. O gosto lhe era familiar, mas não o reconhecia muito bem.

— Vive na Romênia e nunca experimentou palinca?

— Já. Só não me lembrava. – Forçou um pequeno sorriso por exaspero. Por alguns segundos sentiu-se sozinha, e num impulso súbito procurou por Gizella mais uma vez ou por qualquer rosto conhecido, não encontrando nenhum.

Alexandre sentia-se levemente anestesiado. As sentenças saiam de si com uma velocidade impressionante. E seus homens não hesitavam em cumprir suas ordens.

Conforme a noite tornava-se mais densa, a maioria dos assuntos aos poucos foi retornando a seu devido lugar. A entrega fora feita, afinal. Depois de algumas ligações para representantes na Espanha, Alexandre conseguira enviar alguns até o noroeste da Itália para pega-la, esta que jamais poderia ter sido recuperada sem a ajuda de um certo grupo italiano dominante da região, que acabara tendo alguns problemas e incendiado um galpão. Se não fosse por estes, tudo teria desabado. Por isso, Alexandre já sabia que situações como aquelas necessitavam de negociações mais amplas e agradecimentos a parte... E também era um fato que Alexandre cultivava uma certa simpatia por Lorenzo Amorielle, líder do grupo italiano que tanto ajudara na noite.

— E quando precisar de algo... Estaremos aqui – Fora a última coisa que o Senhor Amorielle dissera antes de desligar o telefone.

Alexandre sabia que parte de toda aquela simpatia fora ocasionada por interesses futuros e favores em outras negociações. Mas por ele, tudo bem. Sua simpatia muitas vezes era conquistada da mesma forma. Era assim que o mundo girava.

Procurou pelas chaves do carro e caminhou junto a Vicent até o meio fio. O assunto estava, finalmente, finalizado. O sol manifestava-se no oriente, tornando o céu uma bela mistura de cores e estrelas ainda um pouco visíveis. Nenhum dos dois, todavia, parou para admirar.

— Obrigado pela ajuda, amigo. – Cumprimentaram-se brevemente e destravaram seus carros. Alexandre sorriu brevemente antes de puxar a maçaneta. – E você estava certo.

— Eu estou certo de muitas coisas. – Vicent sorriu voltando-se para o amigo – Poderia especificar? – A noite fora movimentada, e o cansaço lhe tirara um pouco do bom humor.

— Sobre Bianca. – De certa forma lhe provocava orgulho dizer aquilo. Não o fato de Vicent estar certo, mas o fato de sobre o que ele estava certo. Quis sorrir lembrando-se de alguns momentos e sorrisos da noite, porém permaneceu neutro. – Lhe devo uma vodca.

Vicent teria rido se ambos não estivessem tão cansados.

— Tudo bem, eu adiciono à conta.

Alexandre coçou a barba recém feita e deu de ombros. Despediu-se, por fim, e entrou no carro.

Andou pelo corredor sem prestar atenção em si mesma ou em onde estava. Era como estar em casa, e de fato, relativamente estava.

Até mesmo o carpete velho sobre seus pés possuía a mesma textura. As paredes ainda pareciam carregar as energias e as memórias.

A sala que tanto conhecia estava vazia, a poltrona velha de veludo com a manta bege estendida por cima estava lá, desocupada, marcada por queimaduras causadas por cigarros.

Precisava sair, esse pensamento a invadiu subitamente. Sentia-se estranha e vazia, quis gritar, talvez alguém ouvisse e aparecesse. Abriu a porta da frente e bateu com os pés descalços no assoalho antigo. Tudo vazio, tudo tão solitário. Não viu os filhos da Srta. Ionescu brincando na grama, o cachorro do Sr. Popescu não latia atrás da cerca para as pessoas que passavam na rua. As roupas da senhora Oprea não estavam penduradas na janela, muito menos o carro antigo de seu marido na garagem.

Andou pela calçada, depois quase correu. O peito batendo em desespero. Agora estava em Constanta, em frente à onde vivia. Não encontrou ninguém na recepção e subiu as escadas até seu quarto. Silêncio. Tudo sem sinal de vida. Começou a sentir-se estranha e quis chorar.

Sentou-se no chão e olhou para as próprias mãos. Acordou.

Mas não estava no lugar onde costumava acordar.

A cama, de fato, era mais macia. Mas o cheiro e os cobertores não lhe eram familiares. E, para seu súbito desespero, percebeu que não sentia o incomodo monótono de seu sutiã.

Abriu os olhos rapidamente, saindo de qualquer efeito pós-sono que pudesse se encontrar. O cabelo ruivo embaraçado caiu-lhe sobre o rosto e as mãos tentaram arruma-lo.

O lugar era pequeno, de fato. Uma cortina meio aberta separava a cama de algo que parecia ser uma sala com pia. As paredes tinham uma cor branca desbotada. Ao todo, o lugar lhe lembrava um dos quartos alugáveis perto da área central. Os donos separavam suas casas em vários pequenos quartos e os alugavam por preços altos pela localização. Talvez até fosse.

Levantou-se e cobriu o corpo com o cobertor azul, por sorte, suas roupas estavam no chão. Vestiu-as tão silenciosamente que parabenizou a si mesma e pensou que poderia até mesmo tornar-se alguma espécie de agente secreta no futuro. Riu consigo mesma, mas depois voltou para a realidade – e para sua dor de cabeça recém notada.

Lembrava-se de estar com Mihai, de beber alguma bebida doce e repetir a dose algumas vezes e de ainda estar com ele no final.

“Bom...”, pensou “minha mãe vai me matar...”. Tomou conhecimento novamente de seu presente e balançou a cabeça, quase sorrindo. Mas não estava feliz, e sim em um quase desespero. Inspecionou o lugar mais uma vez e abriu a cortina. Sentia-se mal por estar naquelas condições, teve vontade de deitar e se esconder.

Algo dentro de si esperava encontrar alguém ali, mas o “cômodo” era formado basicamente um sofá de camurça em um tom de vinho, com uma TV pequena numa mesa – que provavelmente também servia como mesa de refeições -, e um micro-ondas sobre um pequeno armário com uma pequena prateleira. À esquerda existia uma janela que clareava o cômodo com a luz do dia. O sol brilhava em um céu aberto azul e livre de nuvens. Que horas eram? Dez?

Aquela falta de pessoas lembrou-lhe seu sonho, e aquilo trouxe o breve questionamento se ainda estava dormindo. Mas, por sorte, antes que Alma pudesse processar qualquer outro pensamento, ouviu vozes lá fora.

Abriu a porta e deparou-se com Mihai e algum outro cigano mais velho. Os dois aparentemente prestes a sair do cômodo – uma sala vazia com outras portas na parede paralela.

Mihai tomou a direção de Alma, diferente do outro cigano que continuou pelo mesmo caminho. Usava uma roupa parecida com a da outra noite, jeans escuros com uma camisa acinzentada.

— Ah, Alma. Achei que você não iria acordar tão cedo. – De certa forma a fez pensar que fora drogada. Mas não sentia-se tonta, nem nada fora da dor de cabeça. Sentia-se mal por ter acordado ali, e insegura sobre como voltar para onde vivia com sua amiga e seu gato. Também sentia-se mal pelo que supostamente havia feito, mas guardou todo o seu rancor para si. Mihai não merecia ter que aguenta-lo, ou Alma ainda julgava que não.

— Acho que é melhor eu ir. – Foi tudo o que conseguiu dizer. Não tudo o que havia pensado em dizer, mas serviu. Tentou esquecer que só havia tido um namorado em todo a sua vida, e durara menos de uma semana e que os dois haviam se beijado apenas três vezes e que mal fizera dezessete anos e ele deveria ter pelo menos cinco a mais. Pensou que, se não lembrasse a si mesma quem era, seria mais fácil enfrentar a situação.

— Você me disse que morava ao sul. Quer que eu vá com você? Podemos pegar algum ônibus no ponto. – Alma concordou, mas deveria aceitar? Quis levar em consideração que poderia ter dormido com ele, mesmo não se lembrando daquilo.

— Tudo bem. – Ela disse sorrindo. A blusa de Gizella lhe apertava mais do que gostaria, mas por sorte as mangas eram médias e a tonalidade azul, de forma que, junto com os jeans e a sapatilha, não parecia nem de longe uma roupa para a noite. – O ponto fica muito longe?

Mihai negou e, depois de olhar para Alma por longos segundos, apontou pela janela para algo que Alma não podia ver.

— Quatro quadras daqui. – Suspirou — Você realmente precisa ir? – Sorriu de forma descontraída para ela, esperando algum convite ou proposta.

Alma assentiu e os dois desceram por um jogo de escadas de cimento por três andares. No térreo funcionava uma loja de equipamentos eletrônicos, mas era separada da escada por uma parede e um pequeno portão que abria para a rua.

— Esse lugar é seu? – Perguntou, tentando fugir do silencio desconfortável. O sol fazia seus olhos doerem mais do que já doíam, tornando sua dor de cabeça muito pior.

— Não exatamente. Meu pai é dono da loja e vive lá em cima. Mas eu não gosto de ficar parado em lugar nenhum.

Tomaram a direita e atravessaram a rua. Mihai começou outra frase, provavelmente alguma interrogação.

— E como eu fui parar ali? — Alma disse isso o mais rápido que pôde, antes que suas emoções a impedissem e que seu rosto corasse.

Mihai riu e guiou Alma para a direita novamente, atravessaram outra rua e caminharam pela sombra.

— Sua amiga apareceu e acabamos indo para uma festa de um amigo meu. E nós bebemos um pouco e depois de algum tempo você...

— Sim, ela tinha sumido de novo. – Alma se lembrava daquela parte. Já passava das três da manhã e procurara Gizella com o intuito de irem embora, como não a encontrara, acabara continuando com Mihai. A festa terminara um tempo depois e a ideia de voltar sozinha para casa às quatro da manhã lhe parecia ruim, mesmo em seu estado tão alienado por causa da bebida. Acabou que estava com Mihai de novo, e depois em um carro, e depois no mesmo lugar onde acordara. E então, o mundo girara e Alma perdera a consciência um pouco depois de subir as escadas e entrar no quarto beijando o rapaz.

“Tudo bem”, Alma respirou fundo, “isso é por ter sido tão idiota”. “Espero que ele não tenha feito nada depois disso”.

— Bom – Mihai a tirou de seus devaneios – Pela sua cara, já posso responder. Eu jamais transaria com alguém desacordado. É meio... sei lá, necrófilo?

Alma encarou Mihai por menos de cinco segundos e voltou-se para a rua.

— Então... estamos bem? – Lembrava de tê-lo beijado algumas vezes. E gostara daquilo, mas não achava certo.

Atravessaram mais uma rua e cortaram caminho por uma pequena praça.

— Bem? Por que não estaríamos?

No outro lado da rua algumas pessoas aguardavam sentadas em um banco. Havia a sinalização de que ali era um ponto de ônibus, e, pregado na parede em frente à sinalização, uma pequena placa com os horários. Alma conferiu-a em silêncio. Se pegasse o próximo ônibus, este a deixaria próxima ao Hospital na avenida Tomis... De lá poderia caminhar até o albergue. Com sorte, todo o percurso demoraria menos de uma hora.

— Então, obrigada por me acompanhar. – Alma estendeu a mão e sorriu com a situação. Parecia feliz com a ideia de ir para casa, e também com a ideia de ter beijado alguém. Um momento cínico, Alma julgou. O cabelo ainda estava despenteado, mas aceitável. Os olhos avelã um tanto úmidos por causa do sol, sem contar que ela ainda não escovara os dentes.

— Não quer que eu vá com você? – Alma não podia exigir aquilo. Então disse não, e Mihai não se ofereceu mais. Apoiou-se na parede junto a ela e esperaram pelo ônibus por alguns minutos. – Você vai me ligar?

Alma encarou-o de relance.

-Eu não tenho um telefone.

-Ah... Então como vou ver você de novo? – Parecia desapontado, mas era percebível um certo tom de atuação em sua voz.

— Eu não sei. Acho que Gizella tem um telefone celular, mas nunca perguntei o número. – Realmente não sabia. E também não sabia se era certo vê-lo de novo.

— Entendo. Podemos combinar alguma coisa por ele, então? — Mihai, de forma astuta, moveu-se em direção as pessoas e pediu por um papel e por uma caneta. Esperou por alguns minutos até conseguir e, apoiando o papel na palma de uma de suas mãos, usou a outra para escrever algo por alguns segundos. Por coincidência, o ônibus que Alma tanto esperava virou a esquina e diminuiu a velocidade até parar em frente ao ponto.

Mihai devolveu a caneta e entregou o pedaço de papel para Alma.

— Meu número está ai, me ligue para marcarmos alguma coisa. – Sorriu, enfiando uma mão no bolso – E eu acho que você não trouxe seu ticket. – Entregou-lhe um pequeno cartão de transporte. Alma não possuía dinheiro, então logicamente era o único jeito de entrar no ônibus.

— Obrigada. – Sorriu mais uma vez antes de subir os degraus e passar o ticket no leitor. Atravessou o corredor e acomodou-se no fundo do ônibus. Afinal, seria uma das últimas a descer. Guardou o papel no bolso e olhou pela janela por uma última vez. Mihai parou, em frente à praça e do outro lado da rua, e disse um breve adeus.

Notas finais
E ai, o que acharam? Me digam :) Atenciosamente, Rafaela