Meu nome é Alma

1 Capítulo Primeiro


Notas iniciais
É a primeira história minha que publico em muito tempo... Bom,este é o primeiro capítulo. Espero que a leitura desse capítulo seja prazerosa, e a história os instigue a continuar lendo.

As ondas sonoras provocadas pelos passos ecoavam pelo espaço e o suor frio escorria pelo rosto. A escuridão era notável, além do vento frio produzindo ruídos altos que confundiam qualquer um.
As mãos seguravam com força o objeto metálico com revestimento em couro. Só precisava esperar até o momento certo e...

Era tarde demais.

O corpo caiu pesado no chão, os olhos bem abertos e mortos encarando a escuridão solitária. Talvez o espírito confuso ficasse preso no limbo até que aceitasse a tragédia... Isso não importava.

Alexandre olhou ao redor, a respiração tão calma quanto a própria morte. A situação não o incomodava, apenas o deixava cansado.

E logo os parceiros apareceram e o ajudaram a terminar o trabalho, o dinheiro e a mercadoria que o morto devia foi pego, a penalidade pela traição foi cumprida, e o corpo... Engraçado, eles se garantiram que o corpo nunca fosse encontrado.

A polícia não era um problema grande; agia por cima dos tapetes e eles por baixo. Quase de certa forma, um ajudava o outro. Mas o problema não era dentro, e sim fora... Muitas coisas haviam sido feitas e planejadas em segredo do mundo nos últimos anos, e isso se tornou um pequeno sussurro aos ouvidos de outros países. E esses outros países, apenas alguns, não ignoraram.

Enquanto toda essa tragédia de morte acontecia, com passos rápidos e atentos, e no outro lado do país, uma mulher ruiva fumava um cigarro, vestida com sua lingerie mais cara. O clima tenso graças a uma proposta.

Na cama, o primeiro namorado desde a overdose do marido e, na sala, entretida com programas adolescentes, sua filha, Alma.

Eram uma família pobre, de fato. A renda nos últimos anos viera do trabalho noturno em um bar, onde mãe e filha trabalhavam. Alma especialmente depois da escola, que ela concluíra alguns dias antes. Ela não se importava muito com o fato de trabalhar, afinal, de vez em quando, durante alguns momentos, gostava de ajudar sua mãe e achava divertido interagir com os bêbados e ouvir suas histórias. E ás vezes, até mesmo os bêbados e velhos fregueses achavam divertido ver uma garota adolescente com longos cabelos, como plumas vermelhas, apoiada sobre o balcão com um sorriso enorme e os olhos castanhos, no fundo um pouco atordoados, bem abertos.

A mãe carregava um ar triste, muito triste. Sempre arrastando os pés e olhando baixo, fora obrigada a cuidar de uma família muito cedo, além de ser internada numa clínica de reabilitação para alcoólicos durante quatro meses. Desde então, o ponto auge do seu dia era sua caixa de cigarros e alguma novela antiga na TV, já que dizia que os programas da atualidade eram péssimos.

Não há muito que falar do pai, era o tipo de pessoa que não sonhava absolutamente com nada, apenas vivia a consequência de suas escolhas precitadas. E depois da “grande notícia” sobre um o futuro bebê em poucos meses, teve que dedicar sua vida a longos turnos de trabalho em uma indústria não muito longe de casa, no interior da Romênia. Com o tempo, a solução para seus problemas eram as drogas, e tempos depois de tempos, as drogas deram uma solução nele...

Agora voltemos ao presente e falemos dela; Alma. Era noite, sim. O jornal do rádio falava notícias sobre o país e a TV exibia rostos pintados e pessoas dançando ao som de uma música na moda. O vestido rosa claro de alcinhas lhe caia bem e era confortável. Veio ligeiramente à sua mente se um garoto que achava bonito na época da escola gostaria, mas logo essa ideia passou. Alma tateou com a mão a mesa de canto e trouxe para si um livro que contava sobre revoluções, escrito por uma mulher que vivia no outro lado do mundo.

Se divertiu com algo na TV e riu ao mesmo tempo que sua mãe saia do quarto com o namorado. Alma não gostava dele, o achava um velho gordo esquisito. Não que fosse gordo, mas algo diferente dos corpos magros ou malhados das revistas; como seios gordos e uma barriga mole sob uma camiseta muito mais que justa era.

Desde a morte do pai, Alma nunca mais tocara no nome dele com ninguém. Se lhe perguntavam ou mencionavam algo, ela simplesmente concordava em silêncio, independente da coerência com a situação.

A porta da frente bateu e o vento gelado entrou na sala, era uma tempestade fria em todo o país, e até mesmo Alexandre, entretido com uma mulher na cama, em uma cidade distante que Alma só conhecia por reportagens de TV, sentiu

O vento adentrava as cortinas grossas da janela e perfurava como agulhas a carne. O céu estava nublado, provavelmente nevaria naquela noite. Alexandre levantou e obrigou-se a fechar a janela pivotante, mas parou por um segundo e observou a cidade. Constanta era uma cidade linda, ele achava. Gostava da arquitetura que o lembrava outra época. Na verdade, sempre gostou de coisas que o lembravam de outras coisas.

A mulher na cama não lembrava à Alexandre absolutamente nada, apenas dava-lhe o breve aviso de que ele teria de viajar pela manhã. Porém, mesmo que não lhe lembrasse nada, Alexandre gostava do prazer e do entretenimento que lhe causava. E, além do mais, um corpo quente, sorrisos e carícias naquela noite fria eram exatamente o que qualquer homem queria ou precisava.

Obedecendo ao pedido, Alexandre deitou-se novamente na cama e abraçou o corpo nu da mulher. Não era o primeiro encontro dos dois no mês, e a ideia de construir um relacionamento um pouco mais sério era recebida com uma espécie de repulsa por ele. Ambos sabiam que não era nada sério, e Alexandre pressupôs que o laço entre os dois fosse completamente desfeito durante o tempo que passasse fora da cidade.

Brevemente, enquanto extasiava entre a realidade e o sono, poucas lembranças da noite vieram-lhe à mente. Como a repetição de um golpe nas costas várias e várias vezes, até que o barulho do impacto entre o cano de metal nas costas, nos ossos e na carne parecesse o barulho do impacto em um saco de areia. Seus olhos verdes encaram a escuridão do quarto durante alguns segundos, as pupilas dilatadas um tanto eufóricas tentando captar qualquer sinal de luz.

Mas o quarto estava completamente escuro. E, no meio da escuridão, Alexandre virou-se de costas na cama e encarou o nada, uma ideia de sorriso brotou em seu rosto e, ao mesmo tempo que a neve começava a cair, dormiu.

Alma notara a falta da mãe durante o resto da noite. Sua barriga roncava um pouco de fome. Nada que um pouco de leite quente e as sobras do almoço não resolvessem. O cabelo ruivo estava armado e formava uma espécie de juba sobre sua cabeça pálida. A casa possuía alguns problemas com o aquecedor, de forma que apenas alguns cômodos não estavam absurdamente frios.

Lembrou-se da sua formatura, e de repente, juntando-se a sensação de solidão, a ideia de se formar no ensino médio pareceu sombria. O que ela faria? Trabalharia o resto dos dias com a mãe? Viveria naquela casa velha, se casaria com algum cara “legal” e teria filhos?

“Tudo bem”, ela pensou, “também não preciso exagerar.”.

Ignorou aquele fluxo de pensamento e começou a se arrumar para dormir, o filme norte-americano com um ator que ela não conseguia lembrar o nome, porém gostava,

que estava passando na TV já tinha acabado.

Tirou os travesseiros e seu cobertor do sofá e os carregou até o quarto, onde se jogou na cama, que rangeu. Alma balançou a mão perto do chão e chamou pelo animal, até que sentiu algo subir na cama e ronronar perto de seu peito. Abraçou o gato, que ela apelidara de Azur, e apertou-o contra o peito, mesmo sabendo que o gato profetizava uma vingança maligna contra ela por causa daquilo.

Na manhã seguinte toda a Romênia estava coberta de neve, de forma que Alexandre foi obrigado a esquecer o aeroporto, já que a pista estava congelada, e optar pelo trem.

Alexandre acordara cedo naquela manhã, tanto que às sete já encontrava-se sentado na poltrona da janela, a testa apoiada no vidro frio. Mesmo na última hora, conseguiu uma cabine privada, apenas para ele e o amigo e parceiro de trabalho, Vicent.

As malas eram muitas, afinal passariam pelo menos seis meses fora. Bucareste vivia alguns problemas; algumas informações estavam vazando, e alguns grupos indesejados (de dentro e fora do país) tentavam se aproveitar disso. Mas principalmente pessoas importantes tinham morrido, deixando um caos na cidade e uma cratera na chefia.

Alexandre, como sobrinho de primeiro grau e com um cargo muito bom na hierarquia da organização em que vivia, além da experiência, ganhara a honra e futuramente uma boa quantidade de dinheiro para conter aqueles eventos. E, talvez, se quisesse, até mesmo o cargo recentemente vazio na cidade.

Lhe veio à mente de que Vicent era um bom amigo. Estava com ele desde que se lembrava, até nos momentos em que nem explosões ou tiros resolveriam o problema.

— Aposto duzentos léus que vamos precisar de mais que seis meses em Bucareste. – Vicent era o tipo de homem que sempre mantinha o bom humor, até mesmo em situações desmerecedoras.

Alexandre suspirou e passou a mão pelo cabelo curto e coçou a barba recém feita naquela manhã.

— Assim não funciona, amigo. Nós dois temos o mesmo lado na aposta. – Rebateu, abrindo um sorriso – Faremos assim, para cada mês a mais que passarmos lá, compramos uma garrafa de Whisky ou Vodca.

Vicent sorriu com seu rosto quadrado e relaxou na poltrona. E a medida que se afastavam de Constanta em direção à Bucareste, Alexandre refletia sobre os motivos da viagem. Sabia que não seria simples, que Bucareste não estava sofrendo apenas com ataques internos e espiões. Anos atrás, quando fez o acordo com um certo indivíduo húngaro, que originou um acordo com outro certo indivíduo russo, que originou outros acordos com outros indivíduos e que, assim, desencadeou uma cadeia de ações e reações boas e ruins(no ponto de vista dele), Alexandre sabia que tudo aquilo não continuaria despercebido por muito tempo, e que logo mais grupos de repreensão começariam a aparecer.

E, durante a viagem à Bucareste, Alexandre manteve firme a ideia de que os ataques e o vazamento de informações eram apenas o começo. E que a situação, provavelmente, ele querendo ou não e por mais que se esforçasse para conter, apenas pioraria nos próximos anos.

As ilusões de Alma geralmente passavam na TV após o café. Os olhos atentos admiravam com excitação as imagens de paisagens paradisíacas, cidades tão grandes que Alma não conseguia imaginar e pessoas do tipo que ela passaria horas ouvindo falar. Alma sonhava em conhecer pessoas importantes. Não importantes como o presidente, o Papa no vaticano, ou qualquer coisa parecida, não nesse sentido.

“Se bem que o Papa parece ser uma pessoa interessante”, pensou.

Isso, Alma sonhava em conhecer pessoas interessantes. Tanto que já parara tantas e tantas vezes de fazer alguma coisa para ouvir uma história contada por alguém que não conhecia, ou para espiar dentro das casas, ou para ir à casa de um senhor veterano de guerra que vivia na parte rural da cidade com sua filha, gostava de ouvir sobre como ele lutou pelo socialismo ao lado do exército vermelho, ou como ficou extremamente “puto” quando a União Soviética perdeu a Guerra fria e todos os países membros se separaram.

Bom, Alma mantinha a rotina de visita-lo em alguns sábados até que o velho faleceu. E já fazia alguns anos, então não doía mais. Para Alma, sobrara apenas algumas histórias que lhe faziam sorrir. E foi dele que ela se lembrou naquela manhã, ao ver uma reportagem dizendo que o atual presidente Boris Nicoláievitch Iéltsin, da Rússia, pedira demissão do cargo e deixara clara sua preferência por Vladimir Putin como seu futuro sucessor do cargo.

Assim que o jornal terminou, Alma reparou que sua mãe não voltara para casa e nem levara o dinheiro do bar da noite anterior para o chefe.

Ela passou a mão pelo cabelo bagunçado e armado e encarou brevemente o vazio, tentando afastar qualquer linha de pensamento precipitada.

Andou até o quarto da mãe e se assustou. Estava vazio demais. As portas do guarda roupas estavam abertas demais e a maioria das roupas não estavam lá. Os álbuns de família não estavam na cômoda, nem os remédios, nem os batons, nem nada. Uma sensação gelada começou a crescer dentro de si, e Alma sentiu brevemente seu mundo girar.

Voltou-se para a cama e então para a mesa de cabeceira e viu um envelope com alguma coisa dentro; dinheiro. Não chegava a mil léus. Independentemente da quantidade, isso deixou Alma eufórica.

Alma poderia ainda ser adolescente, mas era realista.

Porém em momentos assim qualquer um tentaria se consolar com algo mais fácil. Alma vestiu suas roupas, alimentou o gato e andou até uns quilômetros até a casa do namorado da mãe.

— Mãe? – Ela gritou repetidas vezes, até perceber, olhando pela pequena janela da garagem, que o carro do homem também não estava lá.

Um dos vizinhos disse que ele saíra na noite passada e ainda não voltara. E só reforçou mais a ideia que se formava na mente de Alma.

Ela voltou para casa e esperou dias e dias, mais de três semanas, quase um mês. Não houve nenhuma notícia.

Uma sensação estranha, que ela não conseguia identificar, crescia dentro de si e fazia seu coração bater mais rápido quase que o tempo todo.

Foi ai que percebeu que Christina, sua mãe, não iria voltar.

Não há exatamente maneiras de explicar a maneira como o ódio cresceu dentro de si, apoderando-se de cada neurônio de seu corpo e multiplicando-se mais e mais. Alguma coisa começou a morrer dentro dela, dando espaço ao desespero. Ela quis chorar, mas não se deu ao luxo disso.

Aos poucos arrumou uma mala com roupas suas, documentos e comida de gato que sobrara no armário, reuniu todo o dinheiro que conseguiu e colocou Azur dentro de sua gaiola.

Alma sabia que não tinha planos, mas não ficaria ali. Isso ela se auto impôs como ordem. Ela sempre quis ver o mar, concluiu.

E naquela mesma noite embarcou em direção à Constanta.

Notas finais
Não vou mentir, amo (e almejo!) comentários! (e favoritações, e tudo mais). Não hesitem em demonstrar suas reações. Postarei o próximo capítulo na próxima semana. Obrigada pela leitura, Atenciosamente, Rafaela