Meu nome não é Kyle

10 Capítulo 9: Welcome to the hell


Notas iniciais
Esse capítulo vai apresentar uma personagem muito importante pra trama, Charlotte, a filha substituta.

Foram duas horas e quinze minutos de voo até Columbia, sem contar as três horas que precederam o voo. Eu nunca havia entrado em um avião. Sabe aquela sensação de perigo eminente que sentimos em uma montanha russa, que geralmente dura uns dez minutos? Era tipo isso, só que durante duas horas. Eu conversei muito pouco com eles durante o voo, eu mais ouvi do que falei, todos estavam muito cansados, eu também, mas não conseguia dormir. Eu queria dizer o quanto estava incomodado com o fato de estar indo embora com eles, queria dizer como me sentia, só não sei como fazer isso sem ser insensível com essas pessoas que só o que fizeram durante anos foi me procurar.

Acabei sabendo mais sobre a história do meu sequestro, segundo Daniel, aconteceu em um domingo e ele era o responsável por mim.

– Eu soltei a sua mão por dois minutos, quando me virei você não estava lá — Disse ele, senti a amargura em sua voz quando ele disse aquelas palavras. Ele se culpa, eu sinto.

Aparentemente eu tenho uma irmã, de quatorze anos, que se chama Charlotte. Foi Nicole quem me disse isso, e me contou que havia descoberto a gravidez no mesmo ano em que desapareci. Imagino como deve ter sido difícil passar por uma gravidez naquela situação. Eu sempre fui filho único. O mais próximo de uma irmã que eu tive foi a Joan. Não sei o que penso a respeito disso, não sei mesmo.

Naquelas horas pude pensar em como as coisas acontecem num piscar de olhos nas nossas vidas. Há dois dias eu era apenas um garoto que fazia de tudo pra não chamar atenção pra si. Em menos de quarenta e oito horas eu fui de homem invisível a gay fora do armário, de gay fora do armário a agressor e de agressor a vítima de sequestro. Gente, alguém me explica, por favor, qual foi o momento em que tudo começou a dar errado na minha vida?

Minha vida nunca mais será como antes, eu nunca mais vou percorrer os corredores do West Side de braços dados com a Joan. Nunca mais vou andar de metrô ouvindo minha músicas favoritas enquanto um cara toca violão em troca de dinheiro. Eu nunca mais iria dormir na minha cama, no meu quarto. Eu nunca vou saber o que o sorriso de Chad Wayland significava, nem nunca mais vou ter a chance falar com ele. Nunca mais vou ter nada que fazia parte do meu mundo. Agora eu estava prestes a entrar no mundo de Kyle Marshall e eu estava surtando por isso.

Estávamos percorrendo as ruas de Columbia, eles haviam deixado o carro em uma garagem de aluguel perto do aeroporto, era um Toyota Prius na cor prata. Um carro muito bonito e confortável. Eu olhava a cidade pelo vidro da janela, tentando achar algo que me lembrasse de alguma coisa, mas estava difícil, era como seu eu nunca tivesse pisado lá.

– Sabe dirigir? — Perguntou Daniel me olhando pelo espelho retrovisor de teto.

– Não. Eu até quis tirar a carteira, mas eu não tinha carro pra treinar, então...

– A gente pode dar um jeito nisso — Disse ele sorrindo.

Passamos por uma grande construção de arquitetura moderna, um prédio enorme e bonito, com uma placa colorida escrito "Columbus High School".

– Essa é a escola onde Charlotte estuda, ela é caloura — Disse Nicole — Você também vai estudar aqui.

"Mal vejo a hora" pensei comigo. Não consigo ficar animado com nada disso, é mais forte que eu, como poderia ser otimista sobre tudo isso? não tinha nada a ver comigo. Chegamos a casa deles, ou minha, sei lá. Não havia muros, apenas uma entrada feita em tijolos. Onde havia uma caixa de correio pintada de branco, escrito "Marshal" com letras artesanais. A grama era incrivelmente verde e havia cercas vivas que separava o terreno dos vizinhos. O primeiro andar era de tijolos alaranjados, minuciosamente encaixados. E o segundo andar era de madeira, pintada na cor azul, a mesma cor da garagem ao fundo. Não me lembro de nada disso, como sempre. É como se eu nunca estivesse estado aqui. Tenho que admitir que a casa é linda, tão linda que estou com medo de quebrar alguma coisa — Só eu acho isso tudo um erro? — É o que eu me pergunto internamente, enquanto continuo parado olhando tudo.

– Vamos entrar Kyle? — Diz Nicole pondo as mãos sobre os meus ombros, ela parece mais tranquila agora.

Caminhamos até a porta, eles giram a chave e entramos, a sala é tão linda como a parte de fora da casa. É toda pintada de branco, os sofás são creme e os móveis em marrom envernizado. Tem uma lareira e em cima tem um quadro, nele estão Daniel, Nicole e uma menina que eu imagino ser a Charlotte, ela usa um vestido florido com um blazer rosa por cima. Seus cabelos são loiros como os de Nicole, e seus olhos são verdes como os de Daniel, verdes como os meus.

– Temos que trocar essa foto — Diz Daniel, parando ao meu lado — Você precisa estar nela a partir de agora.

– Kyle você esta com fome? — Pergunta Nicole.

– Não muito...

– Como alguém consegue ficar não muito com fome? — Pergunta Daniel fazendo uma expressão de dúvida, ele sorri pra mim. Gosto dele, eu acho.

– É que tipo assim, eu tenho estágios de fome, tem o "não muito com fome" em que existe fome, mas eu consigo pensar em outras coisas, tem o "Fome pra caramba" em que eu preciso comer se não eu não consigo me concentrar, e tem o último estágio que é o "tremendo de fome" em que tudo ao meu redor fica parecendo com comida.

– Por favor, vamos dar comida pra esse menino, antes que ele nos devore — Disse Daniel entre risos, Nicole também sorri do outro lado da sala e eu faço o mesmo.

– A última vez que eu vi esse sorriso ele tinha menos dentes, Kyle — Daniel para de sorrir enquanto fala, sinto que ele esta se emocionando de novo, só que está se segurando pra não chorar. Será que vai ser sempre assim? a cada gesto simples eu vou lembrar o sofrimento deles?

– Eu posso pedir uma coisa pra vocês? — Pergunto olhando pros dois.

– Claro querido — Diz Nicole, ela se senta no sofá enquanto me olha.

– Eu preciso ser sincero com vocês — Começo a me preparar pra não parecer rude ao dizer o que preciso dizer — Eu estou com vontade de sair correndo e não parar nunca mais, também queria começar gritar bem alto até perder a minha voz, mas ia ser muito ridículo e provavelmente os seus vizinhos não iam curtir muito. Eu pareço um maluco falando eu sei disso, mas tudo isso é loucura demais pra mim. Quero pedir pra vocês me chamarem de Jude, esse é o meu nome agora.

– Mas esse nome não existe — Diz Nicole confusa — Querido, eles não explicaram na delegacia? Seu registro não teve validade.

– Eu sei, eles explicaram, eu entendi isso. Mas só porque não consta no meu registro não significa que não existe. É a coisa mais real que eu tenho — Eles me olham por um tempo — Por favor.

– Eu acho...

– Eu acho que nós podemos fazer isso — Diz Daniel, interrompendo o que Nicole tinha começado a dizer — Todos nós precisamos fazer concessões e eu vou fazer qualquer coisa pra você se sentir em casa.

– Você também esta de acordo? — Pergunto a Nicole, ela parece um pouco contrariada, mas seu olhar é generoso.

– Claro filho, faremos tudo pra ajudar você a ser você outra vez.

Antes mesmo de Nicole terminar de falar, ouvimos a chave girar do lado de fora. Alguém abre a porta. É Charlotte, mas a Charlotte que eu estou vendo é diferente da menina da foto. O cabelo está com escova, bem liso e platinado. Nos olhos tem muito delineador preto e no braço tem várias pulseiras de couro. Ela usa uma bota de cano curto e bico fino, além de meia calça rasgada por baixo da saia de couro e da blusa roxa. Parece um estilo gótico, mas não um gótico depressivo, é como aqueles góticos de passarela. Ela fica surpresa ao nos ver. Mas não mais surpresa que os pais por vê-la em casa.

– Porcaria... — Diz ela sussurrando, mas eu escutei.

– O que você faz em casa Charlotte? Você não deveria estar na aula? — Diz Nicole se levantando, sinto que estou prestes a ver a minha primeira briga em família.

– Que roupa é essa Charlotte? Só falta você nos dizer que não passou a noite em casa — Diz Daniel, ele fala alto e grosso, que eu até estremeço.

– E você ainda tem dúvidas disso? — Diz Nicole, apontando pra garota — Olha a roupa dela, ela acabou de chegar de uma festa.

– Hã... Bom Dia? — Diz Charlotte, sinto vontade de rir, mas me contenho.

– Não seja sínica, quantas vezes vamos ter que falar sobre isso?

– Olha mãe, dá um tempo. Vocês praticamente imploraram por isso, ontem eu cheguei da escola e tinha um bilhete "Tivemos que fazer uma viajem de emergência". Vocês me deixaram sozinha, eu não queria ficar sozinha.

– Estávamos cuidando de um assunto de importância pra essa família — Diz Daniel, ele cruza os braços — Enquanto você estava fazendo sabe-se lá o que, nós estávamos trazendo o seu irmão pra casa.

– O que? — Ela me olha abismada, me encarando com olhar mortal, enquanto balança a cabeça em negação.

– Oi — Disse eu, achei apropriado.

– Vocês perderam completamente o senso de ridículo! — Diz ela, tentando andar em direção á escada.

– Pare aí mesmo mocinha! — Grita Daniel, ele está muito alterado.

– Sério Pai? Vamos começar com toda essa palhaçada de novo? Os repórteres na nossa porta vigiando a gente, mais um estranho pra eu ter que dividir o cereal durante algumas semanas?

– Charlotte...

– Não! Mãe, agora eu vou falar tudo que está aqui! — Charlotte grita, tem lágrimas em seus olhos, agora ela volta sua atenção a mim — Se eu fosse você eu nem ia me acostumando, você deve ser o décimo quinto Kyle que pisa nessa casa e nem é o mais bonito.

– Charlotte... — Diz Nicole, ela esta chocada com a reação da filha, eu também, ela me chamou de feio.

– Quando vocês vão entender? hein? O Kyle morreu. O filho de vocês está morto, e ele nunca mais vai voltar...

– Charllote...

– Porque vocês não aceitam isso? E param de foder com a minha vida pelo menos uma vez... — Ela começa a subir as escadas, mas para de se mexer, logo que a mãe começa a falar em tom mais ameno, Charlotte para com o monólogo.

– Charlotte... filha... Não há engano dessa vez, é o Kyle, sem sombra de dúvidas, ele foi identificado em Nova Iorque pelas impressões digitais...

Charlotte se vira, com os olhos carregados, ela me fita de uma forma diferente, tem uma mistura de surpresa, curiosidade e dor naquele olhar.

– É ele filha, é o Kyle e ele voltou pra nós — Nicole continuou dizendo — É o seu irmão mais velho que você está olhando...Tem alguma coisa que você queira dizer a ele?

Ela seca as lágrimas que tinham começado a escorrer, suspira fundo e desvia o olhar por um tempo, ela volta seu olhar pra mim, com uma expressão dura.

– Bem vindo ao inferno... — Disse ela, categórica, se virando e subindo as escadas logo em seguida.

– Charlotte volte já aqui! — Gritou Daniel, indo à ponta da escada — Charlotte!!

Bem vindo ao inferno, foi o que ela disse, e eu tenho certeza que ela está certa.