Meu nome não é Kyle
7 Capítulo 6: Problem
Notas iniciais
Eu tinha prometido pra mim mesmo que não iria mais aguentar tudo isso calado, não importasse o quão errado eu estaria. Eu já tinha ganhado um zero em Educação Física e uma semana de detenção. Eu já estava numa fria mesmo, o que tinha a perder? Sinto que se não falar, vou explodir. Sinto um nó na garganta, uma angústia que parece não ter fim, eu quero chorar pelo que aconteceu na quadra. Quero sair correndo daqui e só parar quando chegar em casa. Mas a raiva é maior. É com esse pensamento que me encontro no corredor onde fica a sala do treinador Nava. Do lado de fora está a assistente, acho que o nome dela é Britney, ou seria Brittany? Sei lá. Quem se importa? Não dei a menor importância pras coisas que ela disse quando entrei na sala. Fui logo metendo a mão na maçaneta e abrindo a porta. Lá estava ele, com os dois pés sobre a mesa, as mãos atrás da cabeça e um sorriso de superioridade.
– Olha só... — Disse ele, se recompondo — Não esperava você tão cedo, sua detenção é só daqui umas três horas.
– Me desculpe treinador, ele não se anunciou, já foi logo entrando — Britney ou Brittany começou a dizer atrás de mim.
– Esta tudo bem Bethany, pode aguardar lá fora — Bethany, passei perto. Ela acatou a ordem e fechou a porta, mas ainda podia vê-la pelo vidro ao meu lado, a persiana estava aberta. A sala era grande e cheirava a esses aromatizantes de banheiro. O verde musgo das paredes se misturava com os móveis em madeira envernizada e estofamento de couro preto. Logo acima havia uma prateleira, cheia de troféus e uma foto antiga de um menino grande com uniforme de futebol. Presumo que seja ele.
– Só vim aqui pra dizer que vocês podem montar quantos planos vocês quiserem, podem me bater, podem me machucar, me perseguir. Mas no fim do dia eu ainda serei melhor que vocês, melhor que você.
– Quanta revolta nesse coração, não quer se sentar?
– Estou bem, vai se acostumando a me ver de pé...
– Interessante essa sua camiseta — Disse ele se levantando, e andando logo em seguida. Estava se aproximando devagar, me rodeando, com passos contidos. Como um predador estudando a presa — "i ♥ 80’s" você deve gostar dos anos oitenta, ou eu estou errado?
– Isso é relevante?
– Acho que você realmente não sabe como foram os anos oitenta pra pessoas como você — Ele continuava a caminhar enquanto falava, estava atrás de mim agora, sentia como se ele estivesse me cercando, pronto pra me dar o bote — Eu vivi os anos oitenta, e eu posso dizer com toda a certeza, que não era essa merda como é hoje em dia. Era um lugar seguro pra nós pessoas normais, vocês eram alheios, sinônimo de peste, sinônimo da morte. Você não ama os anos oitenta, eu amo.
– Sabe, eu estou curioso... — Disse me virando, agora estava de frente pra ele.
– Sobre o que?
– Como alguém como você se tornou educador? Tendo em vista que o seu cérebro é do tamanho de uma ervilha. — Mantenho a pose. Mas meus olhos estão me traindo, estão ficando carregados.
– Uau... — Ele riu tão alto que eu estremeci, tremi na base — Já olhou em volta? Todas essas medalhas e troféus. Sou um vencedor, é o que eu faço, foi assim que eu me tornei o que sou hoje.
– Competiu com quem? Com aqueles macacos que a gente vê nas pesquisas das universidades? Ou você era o objeto de pesquisa? Estou confuso.
– Você tem uma língua bem afiada, deveria tomar mais cuidado — Sua feição mudou, agora ele parecia tenso. Irritado.
– Acho que o corpo docente vai adorar saber sobre o jogo de hoje. A associação de pais e mestres também.
– Em quem você acha que eles vão acreditar? Eu sou o professor, eu sou o graduado. Eu sou um dos pilares da sociedade. E você é o aluno fútil, que não gosta de fazer atividades físicas. Em quem você acreditaria?
– Você não pode fazer nada contra mim, só tenho que te suportar por mais um ano, depois disso eu vou estar livre, ao contrário de você. Sua vida nunca vai passar disso. Glória do passado, que hoje só existe no currículo.
– Quer falar sobre currículo? Eu olhei o seu. Olhei seu histórico. Mãe solteira, residente do Brooklyn, aposto que não teve pai.
– Você não sabe nada sobre o meu pai.
– Provavelmente nem você... — Ele era mesmo um cretino, do tipo que sabe atingir a gente na ferida e aperta até sangrar. Eu não sei nada sobre o meu pai, ele morreu antes de eu nascer. Era socorrista. Nunca o conheci, a não ser por uma foto, velha e amassada que eu não tiro da mochila — Sabe por que você é assim? Porque sua mamãe te mimou tanto, que você virou a mão.
– Pra mim já chega... — Tento andar em direção à porta.
– Espera aí — Ele estendeu o braço, bloqueando minha passagem — Ainda não terminei.
– Me dá licença — Tentei sair mas ele me cercou, estava com os dois braços impedindo minha passagem, e tão perto que não havia deixado espaço entre mim e a cadeira que estava atrás.
– O que é isso hein? — Ele riu, senti seu hálito nojento penetrar nas minhas narinas — São lágrimas? Falei do papai e ela ficou magoadinha, quer um lencinho?
– Me deixe em paz... — Disse, tentei sair mais uma vez, ele não se moveu.
– Seu pai tem sorte de estar morto e não ter visto o que você fez no refeitório — Ele continuou a falar, virei o rosto desviando o olhar, ele virou o meu rosto de volta com a mão. Não acredito que ele encostou em mim, não acredito que ele ousou, estou enojado, irritado e chocado, tudo ao mesmo tempo — Se fosse o meu pai você teria apanhado tanto, mas tanto, que provavelmente nem estaria vivo.
– Eu quero sair — Disse, quase rangendo os meus dentes, como ele se atreve a falar aquelas coisas? O pior de tudo é que eu nunca vou saber se é verdade ou não. Meu pai teria me amado? Do mesmo jeito que minha mãe me ama? Ou ele seria como o Nava? Dói não ter a certeza, ela me serviria agora, quero que ele saia da minha frente, quero abrir aquela porta. Não devia ter vindo. Sinto como se aquela lágrima tivesse o peso do oceano. Não consigo segurá-la.
– Nossa! Você chegou aqui tão valente, o que aconteceu com o seu orgulho? — Agora ele não estava debochando, estava sério, firme como uma pedra, um olhar frio como gelo — Sabe o que eu vou fazer com você daqui pra frente? Eu vou ficar em cima de você, cada passo que você der, cada vez que você suspirar, eu estarei lá. Pra garantir que você nunca vai esquecer... O pedaço de lixo que você é. E você vai se arrepender de ter tido a audácia de entrar nessa sala. Ponha-se no seu lugar bichinha nojenta, não existe no mundo um lugar pra pessoas como você e quanto mais cedo você der conta melhor, estou te fazendo um favor... — Ele passa o dedo indicador afastando uma mecha de cabelo grudada no suor da minha testa. — Saia... — Disse quase sussurrando, não posso acreditar que estou chorando. Fecho meu punho com força, se ele ousar encostar em mim novamente, mesmo que de relance vou socá-lo.
– O que foi? Sabe qual é a diferença entre um homem de verdade e uma bicha? Um homem de verdade jamais aguentaria ouvir isso calado. Vamos, reaja...eu só preciso de um motivo...um único motivo pra dar o que você merece...
Eu tremo, mas não é de medo. É de raiva. Não importa o quanto eu me sinta amado, não importa o quanto seja bem resolvido e o quanto me aceite. Nada disso nos resta quando estamos diante de pessoas como o Nava. Sinto as veias do meu corpo todo dilatarem. Sinto o nó preso na garganta apertar, talvez seja um grito.
– Vamos... — Ele dá um tapinha de leve no meu ombro. Então tudo vem à tona, como uma bomba relógio no fim de uma contagem regressiva. Como se uma alavanca tivesse sido acionada, meu punho acerta em cheio seu rosto. Eu o empurro com todas as minhas forças e ele voa em direção a estante de livros. Algumas coisas caem no chão, um porta-retratos e a réplica de uma bola de boliche em cerâmica. Os dois objetos se quebram.
– Venha! — Gritei tão alto, perdi o controle, estou dominado pela raiva — Me mostre o que você sabe sobre ser homem!
Bethany olha a confusão assustada, ela não esta mais sozinha. Há alguns alunos no corredor olhando também. Olho pro Nava, ele parece a princípio chocado com a minha reação, aos poucos seu rosto vai adquirindo outra feição, um sorriso vai se formando. Seu nariz e gengiva sangram, foi soco que eu dei. Ele ri, pega do bolso um pequeno lenço e limpa o sangue.
– Foi um bom soco — Diz ele dobrando o lenço e pondo no bolso novamente — Vai ser útil.
– Você só pode ser um doente mental — Minha voz sai tremula, esganiçada.
– Acaba de cavar sua cova Jude Miller. Não vai se safar dessa.
Jamais imaginaria entrar em uma delegacia, nunca havia entrado em uma antes. Todos os meus documentos eu tinha feito pelo correio, então o ambiente era novo pra mim. Logo após eu acertar o Nava com meu soco, percebi que tinha caído em uma armadilha. Não entendo o que há de errado com ele, um professor querer prejudicar um aluno da forma que ele fez. Tudo isso a troco de nada, não faz sentido pra mim e aposto que não fará sentido pra ninguém se eu contar. Fico repassando as cenas na minha cabeça. Penso nas palavras dele "Se fosse o meu pai você teria apanhado tanto, mas tanto, que provavelmente nem estaria vivo", poderia jurar que vi tristeza em seu olhar quando ele disse aquilo.
Não sei o que isso quer dizer exatamente, poderia ser o professor Nava um desses gays enrustidos, presos no armário com cadeado? Sinceramente eu não faço ideia, e mesmo que seja não acho que ele mereça minha solidariedade. Quando os policiais chegaram na escola, encararam tudo como uma briga normal e um desentendimento rotineiro, mas foi só o Nava mencionar que eu morava no Brooklyn que eles mudaram de ideia. Disseram que eu precisava ir pra delegacia junto do Nava para maiores esclarecimentos. Saquei na hora o que isso significava quando eles pegaram minhas digitais. Queriam saber se eu tinha passagem, se minhas digitais batem com outros crimes, coisas que a policia faz, eu acho.
O primeiro a falar foi o Nava, pouco tempo depois de chegarmos. Ele não demorou meia hora na sala do oficial, quando saiu me olhou de uma forma estranha, parecia confuso e sério. Não sei o que ele ouviu lá dentro, talvez ele tenha levado uma bronca do oficial, eu contei sobre o que houve no jogo e o lance da homofobia pros policiais que atenderam a ocorrência, pode ter sido isso. O problema é que eu já estava na delegacia a quase oito horas, já tinha gastado todas as minhas moedas na maquina de doces, e ainda não havia sido chamado. Ligaram pra minha mãe avisando, pois eu não estava autorizado a usar o celular lá dentro. Só que eu ainda estava lá.
Eu olhava as paredes daquela delegacia com nervosismo, o que queria dizer aquela demora toda? Eu fico vendo policiais andarem de um lado pro outro, acho que houve inclusive troca de turno nesse tempo em que eu estou aqui. Perto de onde eu estou há um policial, ele digita nervosamente as teclas do computador, aquele barulho já esta me irritando e o frio dessa central também.
– Porque vocês deixam o ar condicionado tão frio? — Pergunto, ele me olha por cima da tela do computador — Quem trabalha aqui? O abominável homem das neves? E por favor, o barulho das suas teclas estão me enlouquecendo... — Eu só posso estar louco por falar assim com um policial, mas não sei como agir. Preciso falar alguma coisa antes que eu comece a roer as unhas.
– Vou diminuir a intensidade do ar, e por as teclas no modo silencioso — Ele diz, mas continua a digitar do mesmo jeito escandaloso.
– Isso é sério?
– Não... — Ele responde apático e ao mesmo tempo categórico, me recosto no encosto do banco, sopro ar pra fora dos pulmões.
– Sabe por que estão demorando tanto pra me chamar? Eu estou aqui quase o dia todo... Eu não vou passar a noite aqui, vou?
– Estão esperando o FBI chegar, depois vão te chamar...
– FBI? — Como assim FBI? Por que o FBI estaria interessado em um caso de agressão?
– Estão aqui... — Disse ele, olho a minha direita, duas pessoas se aproximam, um homem e uma mulher. A mulher é loira e jovem, provavelmente uns vinte e poucos anos, ela usa blazer e calça de alfaiataria da mesma cor, preto. O homem aparenta estar na faixa dos trinta, é calvo e parece ser mais sério, ele usa um paletó marrom escuro sob a camisa branca, deixando a mostra o distintivo.
– Olá boa noite — Disse ela, me cumprimentando assim que me levantei — Meu nome é Nathalie Ross e esse é meu parceiro David Collins, somos da unidade de desaparecidos, estamos aqui pra conversar um pouco com você, pode nos acompanhar?
– Claro — Junto minha mochila e os sigo, ela está sendo gentil, mas meu corpo praticamente adormece assim que ela repousa a mão sobre minhas costas, não é preciso ser um gênio pra concluir que se o FBI esta aqui, significa que estou com problemas.
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