Meu nome não é Kyle

18 Capítulo 17: An afternoon among boys


A placa exposta do lado de dentro do estúdio onde Adam trabalhava me chamou a atenção. Em letras garrafais estava escrito a seguinte frase "Horário de atendimento: Todos os dias das 8 da manhã às 10 da noite. Ás vezes das 10 da manhã às 9 da noite. Ás vezes das 11 da manhã às 7 da noite. Ás vezes não abrimos".

– Eu não entendo essa placa... Como as pessoas sabem que serão atendidas?

– Ah, isso aí? É só besteira do Oz — Disse Adam, parando ao meu lado pra observar — Ele sempre abre. Ele é profissional, mas gosta de parecer rebelde. Faz com que as pessoas o respeitem, então elas geralmente ligam antes de vir.

– Onde esta o seu chefe? — Perguntei.

– Lá dentro — Ele apontou pra porta atrás de nós — Está colocando um piercing em uma cliente.

– Muito legal aqui... — Corri meus olhos em volta, o lugar todo parecia com um uma mistura de garagem e galpão com consultório de dentista. As paredes eram cheias de pôsteres de bandas de rock, como Pink Floyd, AC/DC e Metallica. Também tinha um quadro enorme de um homem nu, com as costas e bumbum de fora, nele tinha uma tatuagem de dragão que cobria o torço e parte do quadril. Observei o quadro com atenção, cada traço, cada curva. Senti uma súbita vontade de poder virar a fotografia de frente e ver o resto.

– Gostou?

– O que? — Me distraí com a fotografia e esqueci que Adam estava ao meu lado — Hã... Eu adorei, sabe essas escamas todas, o desenho. É muito perfeito. — O modelo também, acrescentei mentalmente a frase.

– Foi o Oz que fez, ele ganhou um prêmio em um concurso com ela, ele adora esse desenho.

Sentei-me no sofá de couro preto e peguei o livro de desenhos que Adam me deu pra olhar. Desenhos estes que ele mesmo tinha feito e encadernado. Eu adoro a capacidade que ele tem de transformar algo tão fofo e delicado como um unicórnio, em algo dubio e sombrio de um jeito subliminar.

– Já pensou em fazer uma tatuagem? — Perguntou ele, enquanto rabiscava alguma coisa em seu caderno, no sofá ao lado do meu.

– Já... Mas meu medo de agulhas é tão grande que eu jamais me enfiaria uma voluntariamente. E dizem que dói bastante.

– Não dói tanto assim, tem coisas na vida que doem bem mais.

– Tipo o que? — Folhei mais uma página do livro.

– Levar nove tiros, uma fratura exposta, a dor do parto, um coração partido...

Bem no fim, Adam está certo. Levar nove tiros, fratura exposta, ter um filho... Todas essas dores parecem muito mais dolorosas do que fazer uma tatuagem. Quanto ao coração partido, bom, eu nunca tive meu coração partido, pelo menos não romanticamente, mas do jeito que minha vida está de cabeça pra baixo, acredito piamente que a dor emocional machuca tanto quanto a dor física. Com tudo há um porém, a dor física alivia com a medicação certa. E a dor emocional? Com o que a gente trata?

– Eu meio que concordo com você — Digo a ele.

A porta atrás de nós se abriu. Uma garota de cabelos roxos e undercut saiu de dentro da sala, seguido por um cara gordo e com piercing no septo.

– Não fica tirando ele... — Disse o cara para a menina, imagino que ele seja Oz, o chefe do Adam. A menina ouve com atenção todas as recomendações e concorda com tudo o que ele diz, e então caminha até a saída, indo embora aparentemente satisfeita.

– Ela saiu do mesmo jeito que entrou — Disse Adam, piscando pra mim — Vocês ficaram um bom tempo lá dentro, onde mesmo era o piercing Oz?

– No mamilo esquerdo — Respondeu Oz — E antes que você faça mais uma das suas piadinhas, ela estava com medo, tive que esperar ela ligar pro namorado, e ele garantir que iria ama-la, mesmo se ela perdesse um dos mamilos. Sou um profissional moleque... Ele é cliente novo? — Oz apontou pra mim.

– Ah, não... Eu só vim conhecer o estúdio mesmo — Respondi a ele.

– Esse é meu amigo Jude, ele estuda aqui nessa rua. Vou dar uma carona pra ele até em casa.

– Prazer, eu sou Oscar McFadden, artista chefe e proprietário — Oz me cumprimenta, de perto eu percebo que ele também tem a língua partida em dois, imitando a de uma cobra. Aquilo me arrepia dos pés a cabeça — Mas todos aqui me chamam de Oz.

– Muito prazer — Digo, o cumprimentando de volta.

– Deveria escolher melhor os seus amigos, esse daqui é encrenca — Diz ele, dando um tapinha de leve no ombro de Adam.

– Ele me ama — Diz Adam.

– Ei moleque... Vou tirar um cochilo lá em cima, quando sair tranque a porta.

Oz sobe as escadas, apesar da aparência exterior ser casca grossa eu imagino que ele gosta e confia muito em Adam. Ele praticamente se arrasta até o andar de cima. Devia estar muito exausto. Imagino que ele more aqui também.

– Então... Como foi o seu primeiro dia?

– Nada demais... Basicamente o mesmo que os outros dias, um monte de gente me chamando de Kyle pra lá, Kyle pra cá... Kyle, Kyle, Kyle. Eu não entendo porque tanta dificuldade em me chamar pelo meu nome.

– Talvez algumas pessoas não saibam...

– Ah fala sério, minha cara esteve em todos os noticiários.

– Mas você é Kyle Marshall — Disse ele, enquanto rabiscava — Lide com isso.

– Obrigado pelo lembrete — Folheei outra página e o olhei com um olhar furioso — Foi por isso que me chamou aqui? Pra me fazer lidar com isso?

– Hey! Calma aí cara, não precisa ficar bravo, eu não falei por mal — Adam se levantou do sofá e se sentou ao meu lado — Que valor tem um nome? Você ainda é você, isso ninguém pode mudar. Por que isso te deixa tão chateado?

– Porque eu amo o meu nome — Minha voz saiu irritada, e antes que eu pudesse perceber eu já estava gesticulando — Parece idiotice, mas eu sempre amei o meu nome, e ele é perfeito pra mim. Jude veio de uma das melhores e mais conhecidas músicas que já foram feitas — Largo o livro e cruzo os braços — De onde veio Kyle? hum? Porque Kyle é tão especial? Por que é o nome de um garoto que finalmente voltou pra casa? Por quê? Todo mundo pode achar que isso é só frescura, e que eu estou fazendo drama, mas ninguém sabe como é. Você ter um nome, e depois "POOF" ter outro nome. Mas eu vou dizer como é, Adam. É um saco!

– Ok. Só por favor, não chore — Disse ele, em resposta.

Eu olho fundo nos olhos dele, e ele me olha de volta. Por mais que eu esteja irritado, nesse momento a tensão proporcionada me faz ter vontade de beija-lo. Ele continua a me olhar, e é como um enorme imã me atraindo. Mas ele quebrou toda a tensão quando começou a rir. Rir de um jeito muito engraçado. A ponto de eu mesmo começar a rir também, e me dar conta que, sim, foi um enorme drama toda essa cena que eu acabei de fazer.

– Pare de rir de mim! — Empurro ele, me desmanchando de tanto rir.

– Não consigo.

– Muito engraçado, você ficar aí, rindo das dores da minha existência.

– Você que está me fazendo rir... "Dores da minha existência", corta essa! — Ele continua a rir, e ri tanto que se contorce no sofá jogando as pernas sobre mim.

– Ai meu Deus! — Pego o lápis que ele usava pra desenhar — Se mata! Sério, enfia isso aqui na sua garganta e sangra até a morte...

Após alguns empurrões de brincadeira, ele se joga no chão em rendição. Ele se levanta um pouco ofegante, mas com um sorriso lindo nos lábios. Eu preciso ter muito autocontrole pra não levantar e beija-lo agora mesmo. Simplesmente adoro quando ele sorri desse jeito, e eu o conheço a tão pouco tempo.

– Tem mais alguma coisa que está te irritando Jude? — Perguntou ele, dessa vez sem rir.

– Não... — A resposta não saiu convincente, nem o olhei quando disse isso.

– Já te disseram que você mente muito mal?

– E você diz isso porque me conhece muito bem, não é mesmo?

Ficamos em silêncio por alguns segundos. Acho que fui grosseiro sem ter a necessidade.

– Ok. Desculpa. Não está mais aqui quem perguntou. Se você não quer falar...

– Não, espera... Eu que peço desculpas, você pode rir de mim se quiser — Pego minha mochila e começo a procurar o que quero mostrar a ele — Eu sou um pouco dramático mesmo...

– Olha, se você ficou chateado por eu ter rido. Desculpa. Não tive a intenção.

– Não! De jeito nenhum, foi engraçado mesmo — Continuo a procurar, mas não consigo encontrar, tenho certeza que estava na mochila.

Olho nos dois compartimentos, mas só encontro cadernos e livros que não couberam no armário da escola. Restam apenas mais dois bolsos, e eu continuo a revirar a mochila, e só encontro o que quero no ultimo lugar em que olhei.

– Aqui... — Digo a ele, entregando a foto antiga que tenho do meu suposto pai.

– O que é isso?

– Está vendo o homem nessa foto? Eu sempre o conheci como James O’Connor, meu pai. Essa é única foto que minha mãe tinha dele, ela me deu quando eu comecei a fazer perguntas sobre ele. Disse-me que ele era socorrista e que morreu em um acidente quando ela estava grávida.

Adam observa a foto em sua mão, enquanto abro o aplicativo de busca no meu celular. Pesquiso sobre a notícia do meu sequestro a quatorze anos atrás. Eu encontro o retrato falado do suspeito.

– E esse aqui... — Mostro a tela do celular — É o cara que me sequestrou. Entende agora? São a mesma pessoa, por isso estou tão irritado. Desde que toda essa história começou eu venho tentando convencer a mim mesmo que a minha mãe, a mulher que me criou e que me deu todo o amor que poderia receber, era inocente... Mas eu estou começando a achar que não, e isso me assusta.

– Seu pai estudou na universidade de Columbia? — Perguntou ele, ao me entregar de volta a foto.

– Como assim?

– A foto... — Ele indica o fundo da imagem, algo que eu nunca tinha reparado direito até hoje, parece a frente de uma enorme casa, é há um letreiro — Esse lugar é uma fraternidade, é a fachada da Phi Beta Kappa, fica na universidade de Columbia, mais precisamente na ala grega. E o moletom que ele veste, não está muito nítido na foto, mas é dessa fraternidade também.

– Como você sabe? — Pergunto a ele, enquanto olho a foto mais uma vez. A parte do letreiro que eu achava ser um O na verdade era a letra Phi, no alfabeto grego.

– Quando estava no ano de formatura, meus pais queriam me forçar a cursar direito, e eu visitei algumas universidades, inclusive a de Columbia, porque é perto daqui. Tinha muitas festas lá, fui a quase todas daquele verão.

– Oh meu Deus...

– Oh meu Deus mesmo! Aqueles caras... Eles são lunáticos, eles fazem coisas inacreditáveis pela diversão.

– Não... Adam, isso pode ser uma pista!

– Como assim uma pista?

– Uma pista, até hoje eu nunca tinha tido uma informação tão concreta, eu preciso ir até lá e saber se alguém o conhece...

– Olha, me desculpa, mas essa foto é antiga Jude — Adam franziu o cenho — Duvido que alguém em Columbia sequer lembre dele.

– Tudo bem, mas eu poderia ir até a fraternidade e perguntar, sei lá...

– É mais fácil lembrarem dele na fraternidade mesmo... Mas é melhor você não ir sozinho, eu posso ir com você, se você quiser. Mas não pode ser essa semana, tem que ser na próxima.

– Tudo bem, eu vou pedir pra orientadora pedagógica um folheto da Universidade de Columbia, Daniel e Nicole não vão poder dizer não se for pra algo sobre a universidade, eu acho.

Meu suposto pai, e meu suposto sequestrador pode ter estado perto de mim, muito antes de tudo isso ter começado. Aquela foto representava nesse momento o meu único vínculo com a verdade. Eu preciso descobrir se foi ele mesmo que fez isso. Mas importante que isso, preciso ter a certeza do papel que minha mãe teve em toda essa confusão. Se ela for inocente, como meu coração sempre me disse, preciso provar isso e ajuda-la. Se ela for mesmo culpada, como tudo está apontando, preciso da resposta pra me convencer de uma vez por todas e aceitar a minha nova vida.

Notas finais
Gente eu estou afim de começar aqui um dream cast, tipo, a cada semana eu coloco uma foto de um modelo ou ator que eu acho que eu imagino em determinado personagens. Quem curtir, deixa nos comentários, podem deixar também quem vocês imaginam pros papéis.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.