Meu nome não é Kyle
17 Capítulo 16 - Not another teen drama
Notas iniciais
Caminhar por todos aqueles corredores era muito estranho. Mesmo tendo consciência de tudo que aconteceu comigo, meu inconsciente se perguntava, de novo e de novo "O que diabos eu estou fazendo aqui?". A cada passo que dava, tudo que eu conseguia pensar era em Joan, e em como eu queria que ela estivesse comigo. Se ela estivesse aqui, com toda a certeza diria algo engraçado e iria amenizar tudo. As vezes eu me pergunto, se algum dia a verei novamente. Pelo menos por enquanto, posso afirmar sem duvidas que Daniel e Nicole não me deixarão viajar até Nova Iorque para visitá-la. Sei que nossa amizade prevalecerá no fim das contas, nós não deixamos de nos falar, trocamos mensagens quase todos os dias, faz pouco tempo que estou aqui, mas mesmo assim não acredito que isso vá mudar. Talvez eu devesse pedir pra que ela passasse uns dias aqui, é o caminho mais fácil.
– A diretora Janet pediu para que entre — Disse a secretária a minha frente, eu estava na sala da diretoria, precisava entregar a documentação restante pra matrícula e pegar meus horários das aulas.
– Obrigado — Respondi a ela.
Abri a porta e a diretora estava me esperando. A sala era ampla, de cor branca e cheirava a aromatizante de lavanda. Tinha uma bandeira dos Estados Unidos ao lado da bandeira de Ohio, a direita da mesa. Todos os móveis eram de madeira antiga e bonita.
– Seja bem vindo Kyle — Ela se levantou com um sorriso e apertou minha mão — Como tem passado?
– Muito bem... — Me sento na cadeira em frente a ela.
– Tem algo pra mim?
– Oh sim, é claro — Tirei da mochila o envelope com o restante da documentação, providenciada em tempo recorde.
Ela abre o envelope e põe na mesa toda a papelada. Tira do bolso do casaco um óculos de leitura, e analisa rapidamente o que dei a ela.
– Esta tudo correto — Abre uma gaveta e coloca tudo lá dentro — Somos um pouco rígidos a respeito de documentação. Mesmo com a liminar que seu advogado trouxe, precisamos seguir as regras não é mesmo?
– Sim, com toda a certeza.
– Eu tenho aqui os seus horários — Ela me entrega um papel — Está tudo de acordo com o que você colocou no formulário de matrícula, mas você poderá escolher algumas atividades extra- curriculares pra conseguir créditos extras durante o segundo período.
– Perfeitamente — Analiso o papel, estão todas as matérias que eu fazia na antiga escola. Tudo do mesmo jeito. Mas talvez eu entre em alguns clubes dessa vez, se gostar de algum.
Ouço o barulho da porta atrás de nós se abrindo. Uma mulher põe seu rosto dentro da sala.
– Me chamou diretora? — Perguntou ela.
– Sim Meredith, entre, por favor — A mulher entrou, e caminhou até onde eu estava.
– Kyle essa é Meredith Quinzel, nossa Conselheira Pedagógica, ela é nova nessa escola assim como você.
– Muito prazer... Você deve ser Jude... — Disse ela semicerrando os olhos — Correto?
– Isso mesmo... — Fico realmente feliz que alguém tenha feito o dever de casa. Gostei dela apenas por ter dito o nome que uso ao invés do que está nos documentos. Meredith era muito bonita, deveria estar beirando os quarenta, mas estava muito bem conservada. Loira de olhos azuis profundos e uma expressão serena no rosto.
– Que bom! Gostaria que fosse até a minha sala após a aula, tudo bem?
– Eu irei sim. Isso é tudo? — Pergunto, pois quero ir até o meu armário antes do sinal tocar.
– Sim isso é tudo — Disse a diretora, me levantei e caminhei em direção a porta.
Deixei a diretoria e entrei no corredor a minha direita. Está cheio de gente aqui, um monte de gente que eu não conheço, felizes e sorrindo como se o mundo fosse uma fábrica de doces. Eu não consigo ser assim, não consigo esquecer de tudo e por o sorriso mais bonito no rosto enquanto todo o mundo ao meu redor está ruindo. Realmente tem muita gente aqui, mas é como se eu estivesse sozinho. Sabe, isso é tão filme de adolescente clichê "O garoto que se sente só em meio a multidão" mas ao mesmo tempo é tão duro e verossímil. Se fosse apenas mais um filme de adolescente clichê seria bom, afinal eles sempre acabam bem.
Abro o armário que me foi cedido. Deposito lá o excesso de bagagem da mochila. Na porta com a ajuda de um imã eu coloco a foto em que eu estou com a minha mãe, sei que é o melhor lugar para deixar, não quero que ela fique a mostra para que Daniel e Nicole vejam que nunca poderei amá-los da mesma forma, mas ao mesmo tempo quero poder olhar ela todos os dias e sempre que tiver vontade sem tem que sentir culpa por isso. Aquele dia eu disse ao Adam como me sentia em relação a ela, e era tudo verdade, mas queria muito poder esclarecer as coisas. Sinto tanto a falta dela.
O dia estava passando normalmente, quer dizer, tirando o fato de ter que me apresentar a cada professor e ouvir de cada um que estão felizes por eu ter reencontrado a minha família, tudo estava na mais perfeita ordem, acho que já estava me acostumando com os olhares cada vez que ouviam o nome Kyle Marshall. Mas eu preciso ressaltar que o ponto alto do meu primeiro dia de aula era o nosso professor de física, Darry Finch, o cara mais gato com quem já tive aula. Elisabeth, a professora de história, parecia mais com uma sobrevivente da mesma, posso chutar sem medo de errar que ela tem uns setenta anos, e já está cansada demais pra conseguir ter ritmo.
Agora estávamos no laboratório de química para uma aula prática. Fiquei fascinado ao perceber como o laboratório daqui é completo, sempre curti mais as aulas práticas, mas eram tão poucas em Nova Iorque que no ano passado eu quase desisti da matéria. Aqui as aulas são em dupla, e existe todo um cuidado em relação a segurança dos alunos, além de termos que usar luvas de látex e óculos de proteção, também usamos um jaleco branco por cima da nossa roupa.
– Kyle, precisamos achar alguém pra ser seu par — Disse a professora Julia, ela era gordinha e loira, usava um óculos vermelho com armação estilo gatinho, e tinha um sorriso fácil no rosto — Hoje você pode fazer par com a Amanda, o parceiro dela faltou...
Amanda Forbes acenou pra mim, ela estava com os cabelos amarrados em um rabo de cavalo improvisado com um laço. Eu caminho até onde ela esta e me sento ao seu lado.
– Olá... Hoje é o seu primeiro dia? — Pergunta ela, enquanto arruma uma mecha de cabelo atrás da orelha.
– É sim...
– Eu reparei. A propósito, o seu jaleco está ao contrário.
– O que? — Olho rapidamente pro meu jaleco. Amanda começa a rir, então percebo que não há nada errado com ele — Muito engraçado...
– Me desculpa — Disse ela, entre risos — Eu não resisti...
– Então, o que é isso tudo? — Digo apontando os vidros na nossa frente. Três deles estão com líquido transparente, que parecem água, e um deles está com um líquido roxo.
– Não sei ainda — Amanda pega um dos vidros com liquido transparente e cheira — Foi a professora Julia que preparou os compostos antes da aula. Mas tenho quase certeza que isso é vinagre.
Amanda anota alguma coisa em seu caderno e começa a cheirar os outros líquidos. A conversa paralela fica cada vez mais alta ao redor, ouço a professora pigarrear bem forte a nossa frente, até que todos fiquem em silêncio.
– Olá classe... — Disse ela escrevendo na lousa "Aula prática número 37" — Vamos dar início agora, a nossa aula prática numero 37. Bom como vocês podem ver a sua frente, dentro desses beckers tem quatro soluções químicas, três delas transparentes, e uma delas na cor violeta.
Em sua mesa, a professora também tem os mesmos materiais. Ela pega o vidro de liquido violeta em suas mãos.
– Quero que prestem atenção em mim agora, em minhas mãos tenho essa substancia, alguém sabe me dizer o que é? — As pessoas mexem os vidros, analisam o conteúdo, mas não respondem — Bom, vou dizer o que é, isso aqui é chá de repolho roxo.
A classe toda solta um coral de risos, ela larga o vidro sobre a mesa e põe as duas mãos sobre a cintura.
– Vocês estão muito divertidos hoje, fiquem vocês sabendo que repolho roxo é muito bom... É rico em fitoquímicos, antioxidantes, riboflavina, ácido fólico. Além de que fica muito bom na salada, e ao contrario do que dizem, não induz tanto assim a flatulência. O refrigerante que vocês tomam no almoço provoca muito mais gases. Bom, voltando a aula, me observem...
A professora despeja parte do líquido no recipiente número um. A água que antes era transparente, vai ficando aos poucos esverdeada, até chegar em um tom bem amarelo. Ela repete o feito no vidro numero dois, que fica azulado. No vidro número três, o composto assume uma tonalidade vermelha. Todos soltam um "oh" em sinal de surpresa.
– Vocês devem ter ficado surpresos em relação ao chá de repolho roxo mudar de cor em contato com a água. Acontece é que não era água nos recipientes, eram soda cáustica, de uso doméstico, mas mesmo assim é forte, então muito cuidado. Também tínhamos bicarbonato de sódio e vinagre de cozinha.
Olho para Amanda, pois ela acertou o que tinha no vidro. Ela sorri pra mim em resposta.
– A tarefa de vocês hoje, vai ser justificar o porque de o líquido mudar de cor, e qual foi o papel desempenhado pelo chá de repolho roxo durante o experimento. Quem resolver a tarefa primeiro, vai ganhar M e Ms e um ponto extra na média final. Valendo a partir de agora...
A professora ativa um cronômetro que estava em sua mesa. Marcando trinta minutos em contagem regressiva. Sei exatamente a resposta pras duas questões, já tínhamos visto isso há algumas semanas no West Side. O que me deixa bem mais tranquilo, pois não estou tão atrasado na matéria.
– Você acertou sobre o vinagre — Digo a Amanda, pegando o vidro com chá de repolho e despejando onde havia vinagre. O líquido fica avermelhado.
– Eu senti o cheiro, vinagre de álcool tem um cheiro forte, por isso eu prefiro o de maçã.
– Então, algum palpite em relação a tarefa? — Tudo bem que eu já sei a resposta, mas quero ter um pouco de assunto com minha parceira de laboratório.
– Sim, eu estive pensando no que ela disse, sabe, sobre o repolho roxo ser rico em ácido fólico, geralmente os ácidos reagem com determinadas substancias.
– Tipo as mais básicas, como o bicarbonato e a soda.
– O vinagre é ácido também, por isso a cor mudou pouco.
– Então a resposta pra primeira pergunta seria acidez — Digo eu, terminando de despejar o líquido no ultimo vidro — A acidez faz com que mude de cor.
– E o repolho serve como indicador de acidez — Ela anota a resposta em seu caderno — Você é ótimo, com o Andrew eu sempre tenho que pensar sozinha. Você se importa de ser meu parceiro permanente? Eu falo com a professora.
– Eu preciso confessar que já tinha visto essa matéria, por isso eu já sabia a resposta, é melhor não trocar de parceiro, não sou assim tão bom.
– Eu não me importo, sabe o Andrew, o meu parceiro. Ele é meu ex-namorado. Nós terminamos e o clima está estranho. Por isso ele tem matado essas aulas. Você se importaria se eu pedisse a ela?
– Não. Vai ser bom ter uma parceira.
– Tudo bem, e obrigada Kyle, por aceitar.
– Pode me chamar de Jude, "Kyle" é estranho pra mim.
– Ok. Então, muito obrigada Jude.
Amanda ergue a mão, e acena sorridente para a professora, sinalizando que já tínhamos as respostas necessárias. Pro meu primeiro dia, até que eu estou me saindo muito bem.
Bato na porta do escritório da senhorita Meredith. Já estávamos no fim da aula, e tudo tinha corrido muito bem surpreendentemente. Meu nervosismo tinha passado, e eu estava mais a vontade.
– Pode entrar... — Ouço-a dizer do lado de dentro. Abro a porta e a encontro sentada. — Entre, por favor, Jude.
Entro em sua sala, atento a cada detalhe. O papel de parede era salmão, com listras brancas na horizontal, tinha também muitos quadros com crianças, todas elas sorrindo nas fotografias. Sento-me na cadeira e a observo mexer em alguns papéis.
– Então, Jude... Me conte — Ela volta seu olhar pra mim — Como foi seu primeiro dia?
– Muito bem, a escola é legal — Respondo a ela, meio ressabiado, duvido que ela tenha me chamado aqui só pra saber como foi o meu dia.
– Você pode ser sincero comigo, se não gostou de alguma coisa, você pode falar. Eu sou a orientadora pedagógica.
– Eu não tenho nenhuma reclamação no momento.
– Jude eu o chamei aqui, porque nós dois temos muito em comum. Quando eu tinha a sua idade, eu também fui pra uma escola totalmente diferente, e as coisas não foram tão simples como aparentavam...
"Você também foi sequestrada?" queria dizer a ela, mas resolvi escutar o que ela tinha a dizer sem fazer comentários. Ela só estava fazendo o próprio trabalho.
– Eu também sou nova aqui... — Continuou ela a dizer — Também estou me adaptando. Sua história não é uma história comum, e isso pode acarretar em alguns problemas de aceitação e adaptação. Estou aqui pra conversar com você sempre que quiser, minha porta sempre estará aberta.
– Eu farei isso...
– Então... Já sabe o que vai fazer depois da escola? — Perguntou ela, cruzando os braços sobre a mesa.
– Vou pra casa.
– Não... — Ela ri da minha resposta — Não após a aula, quero dizer depois da escola.
– Você quer dizer, tipo, depois que acabar a escola? Tipo, depois da formatura?
– Sim, tem pensado em universidades?
– Não muito — Talvez "nunca" tivesse sido uma resposta mais apropriada.
– Sugiro que pense um pouco sobre isso, e venha aqui depois, tenho folhetos de várias universidades que podem te interessar.
– Vou pensar — Balanço a cabeça em sinal de concordância.
– Era só isso, está liberado, não vou mais tomar o seu tempo — Ela abre o fichário e começa a anotar algumas coisas.
Na verdade, em meio a tanta confusão na minha vida. Eu não tinha parado muito pra pensar no que iria fazer depois de me formar. Quando eu morava em Nova Iorque, pensava muito pouco sobre isso. A grande verdade é que eu nunca tinha pensado nisso seriamente, e isso acabou de me deixar incomodado.
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