Meu nome não é Kyle
16 Capítulo 15: AKA the new guy
Notas iniciais
O primeiro dia de aula era algo que não me preocupava a bastante tempo. No West Side nunca mudava muita coisa, eram sempre as mesmas pessoas e os mesmos rostos. Eu conhecia boa parte das pessoas da escola, mesmo que nenhum deles soubesse muito sobre mim até o episódio do refeitório. Ser mais um rosto comum em meio a multidão tinha lá as suas vantagens. Mas eu estava curioso pra saber como eram as coisas no Columbus High School, confesso que o que mais me atiçou foi a escolha de figurino de Charlotte nesta manhã. O cabelo estava impecavelmente liso e escovado, como ela sempre usava. No rosto, os olhos tinham a maquiagem preta carregada já característica, além de muito pó de arroz e um batom bem vermelho. Jaqueta de couro preta, regata da mesma cor com estampa de cruzes invertidas, salto alto e minissaia rosa choque completavam o look. Às vezes eu tenho a impressão que a Charlotte quer parecer mais velha do que realmente é. A roupa é bonita, não estou dizendo o contrário, mas não me surpreenderia que ela tivesse posto meias ou papel higiênico no sutiã como as pré-adolescentes fazem. Ela tem quatorze anos, não deveria se vestir assim, como alguém tão mais velha.
– Charlotte, você vai a escola ou ao Fashion Week? — Perguntou Nicole ao se sentar na mesa. Segurei o riso, eu diria que ela estava indo ganhar a vida no melhor estilo "Uma Linda Mulher" mas logo tirei esse pensamento da cabeça. É um tipo de preconceito também, afinal de contas.
– Se acha que minha roupa está mais adequada a um desfile... Talvez devesse me pagar ingressos pra um, eu me divertiria bem mais — Disse Charlote, com seu tom de voz ácido e sorrindo com deboche logo em seguida.
– Eu não falo mais nada — Disse Nicole a ela, em sinal de rendição – Faça o que quiser e vista-se como quiser. Somos pais muito mais liberais do que eram os nossos na sua idade. Se meu pai me visse com uma roupa como a sua, na sua idade, ele teria um derrame ou me mataria antes disso.
– O vovô teve um derrame de qualquer jeito, enquanto apostava em cavalos. Só estou expressando meu livre direito de me vestir como quero.
– A propósito, filho você está muito lindo essa manhã — Disse Nicole me olhando, ignorando o comentário de Charlotte — Você fica muito bem de verde, realça seus olhos sem precisar cobri-los de tinta.
A alfinetada que ela deu em Charlotte pude sentir em mim. Eu não estava muito extraordinário essa manhã. Vesti meu jeans mais surrado, porém o mais confortável. Minha camiseta do filme Pássaros, minha camisa xadrez verde escura e meu all star vermelho. Estava pronto pra enfrentar o dia.
– Obrigado, eu me esforço — Respondi.
– Nossa mãe como você é implicante, tive a quem puxar... Aposto que você reinava nos corredores da escola e fica me julgando por isso — Disse Charlotte tomando um gole do suco de laranja, depois limpou a mancha de batom do copo com a ponta dos dedos.
– Reinava mesmo, devo admitir, era a capitã das líderes de torcida. Também tinha as melhores notas, bons tempos aqueles.
– Será que a Bree vai demorar muito? Essa sua nostalgia pela manhã me dá azia.
– Se está achando que vai de carona com aquela menina está redondamente enganada, vai usar o ônibus, faz parte do seu castigo por ter dormido fora de casa aquele dia.
– O que? Mãe... Só perdedores usam o ônibus escolar.
– Deveria ter pensado melhor antes de fazer o que fez.
– Porque você ama destruir minha vida? Já tentou pegar um ônibus com as pessoas daquela escola? Eu não posso mãe. Por favor, não com esses sapatos.
Foi cômico ver Charlotte implorar pra mamãe. Ela adora passar essa imagem de menina rebelde, mas no fundo ela ainda é a menininha deles.
– Estou com dó dos seus sapatos, eu não resisto a sapatos bonitos — Nicole suspirou enquanto despejava o mel em cima das torradas — Vou fazer uma concessão, você pode ir de carona com a Bree, desde que seu irmão vá junto.
– O que? Mãe! Eu não vou ficar de babá dele na escola, pode esquecer! Aposto que ele também não quer.
Charlotte não me quer com ela na frente das amigas. Isso a deixará desconfortável. E "desconfortável" me remete aos sapatos que ela trocou, que por sua vez remetem aos calos que eu cobri com band-aid essa manhã.
– Na verdade eu gostaria de uma carona... — Ela me olha com olhar assassino enquanto falo — Você disse que só perdedores usam o transporte escolar e eu não sou um perdedor.
– Problema resolvido. Seu irmão vai com você, ou pode subir as escadas e calçar um tênis.
Não que eu faça questão de ir com Charlotte e sua amiga. Não mesmo, nem vou ligar de ir de ônibus o restante dos dias. Mas ela merece essa por ter sido uma cretina comigo. Nós já estávamos terminando o café da manhã quando ouço uma buzina. Há um carro conversível em frente a casa. Duas garotas, que eu reconheci do jantar estão nele, uma é loira como Charlotte, a outra tem os cabelos tingidos de vermelho. Andamos pelo caminho de tijolos, sem trocar nenhuma palavra. Mesmo de longe posso ver que as amigas dela estranham minha presença.
– Você se acha muito esperto não é? — Finalmente ela quebra o silêncio.
– Touché, irmãzinha.
– É bom não abrir a boca durante o trajeto — Ela para de frente pra mim — Ou eu juro que engulo você e essa sua roupinha brega.
– Belo carro! — Ignoro as palavras dela e grito para a menina no volante, que faz sinal de positivo pra mim em resposta, ao mesmo tempo em que eu arqueio as sobrancelhas pra Charlotte. Saio da frente dela e a deixo falando sozinha.
– Charlotte, você não nos apresentou o seu irmão. — Disse a Ruiva, ela estava com um vestido preto com detalhes em taxas e presilha de caveira prateada no cabelo — Prazer, sou Lorraine.
– Sou Jude, Jude Miller. Mais conhecido como o garoto novo.
– Pensei que seu nome era Kyle... — Falou Lorraine um pouco confusa.
– Jude é o novo nome dele inteligência rara — Disse a loira com cara de vadia, que esta sentada no lugar do motorista — Ele viveu esses anos todos em NY sem saber quem era. Ignore a Lorraine, ela não costuma usar o aplicativo cérebro. Muito prazer eu sou Bree Chandler — Ela sorri, me olhando através do espelho retrovisor encaixado no para-brisa.
– Muito prazer — Respondo a ela. Sento-me no banco detrás ao lado de Lorraine, que por sua vez não para de mexer em seu Iphone.
Bree com toda a certeza era a abelha rainha do grupo. Eu reconheço uma quando vejo, elas estão por todas as partes. Ela estava usando uma blusinha metade preta e metade branca, estilo Cruela Devil. Além de calça legging preta que parece couro e um sapato de salto cor de rosa. Seus cabelos são curtos, na altura dos ombros, com pontas irregulares e desconectadas. Acima da maçã do rosto, um piercing microdermal completava o visual e a imagem de menina má, a mesma que todas elas queriam passar.
Bree dá a partida no carro. Ela liga o rádio e a música Fancy da Iggy Azalea retumba nas caixas de som atrás de mim. Seguimos em direção a escola.
– Que bom que você trouxe seu irmão hoje Char. Não é sempre que eu dou carona pra uma celebridade — Disse Bree, sei que ela debochou quando falou "celebridade", mas eu não dou a mínima.
– Gente vocês receberam o vídeo da Stacey? — Lorraine tirou os olhos da tela do celular de repente, e começou a falar.
– Que Stacey? — Perguntou Charlotte.
– Stacey Lemond... Aquela que todos dizem ter lábios de Angelina Jolie. Mas que na verdade parece um babuíno.
– Não suporto ela, assim como todas as vadias de torcida que acham que mandam nessa escola — Bree parou no sinal vermelho enquanto falava — Mas que vídeo é esse que você esta falando?
– Que os meninos gravaram no último treino das líderes de torcida, acho que ela nunca mais vai dar as caras na escola depois desse vídeo.
– Pode falar do que se trata primeiro Lorraine? Depois você nos conta os efeitos — Disse a abelha rainha no volante. Lorraine rapidamente começou.
– Parece que desde o inicio da temporada a líder da equipe reclamou que ela estava acima do peso e estava comprometendo a dinâmica do grupo. Então falaram pra ela perder uns cinco quilos se quisesse continuar.
– E isso é relevante por? — Charlotte revirou os olhos, não sei mais se é por minha causa ou por causa da história.
O sinal fica verde novamente. Bree avança com o carro enquanto Lorraine continua a falar.
– Parece que ela estava tomando laxativos pra emagrecer. Então durante o treino, com todos aqueles exercícios, chegou uma hora que ela não pode ser controlar. E borrou as calças lá mesmo.
– Que nojo — Disparou Charlotte, seguido de uma gargalhada cheia de veneno. Eu quis rir também só ao imaginar a cena.
Chegamos no estacionamento da Columbus. Bree estaciona em duas vagas, segundo ela, seu carro precisa de espaço. Nós descemos do veículo.
– Olha lá, traidora no nosso radar — Lorraine aponta pra uma menina que estaciona a nossa frente.
Percebo que a menina a qual ela se refere é Amanda Forbs. Eu a conheci no jantar. Ela desce do carro e aperta o botão que ativa o alarme. Ela parece comum em relação as três meninas que estão ao meu lado. Seu cabelo a princípio parece estar solto, mas então eu noto que uma mecha da frente, foi puxada pra trás e presa com um grampo. Ela usa uma camisa branca, blazer preto com textura aveludada. Calça jeans Skinny azul e sapatos oxford marrons. Amanda joga a bolsa por cima dos ombros continua a andar despreocupada. Acho que ela não percebeu os olhares hostis em sua direção.
– Porque traidora? — Pergunto a Lorraine, fiquei curioso pra saber do que se trata.
– Ela era nossa amiga — Bree se adianta e responde a minha pergunta — Mas tentou ferrar a gente e expulsamos ela do nosso grupo. Amigas deveriam saber guardar segredos.
– Aquele cabelo me deixa deprimida — Lorraine debocha pondo as mãos sobre a testa fingindo um mal súbito.
– Como eu estava dizendo Jude... Amigas deveriam saber guardar segredos. Sua irmã se mostrou uma seguidora leal. Então a adotamos pro nosso grupo. Mesmo ela sendo caloura.
– Sei... Obrigado pela carona meninas. Foi muito legal, agora eu preciso ir até a direção pegar os meus horários.
Giro nos calcanhares e caminho em direção a entrada. As conversas daquelas meninas não me agradaram em nada. Pra falar a mais pura verdade eu detestei elas. Principalmente a Bree, sinto veneno cada vez que ela abre a boca. Com Lorraine nem tanto, porém ela faz tudo que Bree quer pelo que pude perceber. Charlotte por sua vez quer ficar cada vez mais parecida com sua abelha rainha. Não preciso dizer que elas são as más influencias que Daniel havia se referido uma vez durante o jantar. Estou parado na entrada agora, vendo os alunos entrarem e saírem do prédio. Respiro fundo e começo a caminhar, se eu quiser me adaptar, terei que aguentar essa escola e tudo que esta nela.
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