Notas iniciais
Oi, oi gente. Espero que gostem!

Morrighan entreabriu os olhos ao escutar o repuxar das cortinas em conjunto com o cantarolar irritante. O macho a sua frente abriu um sorriso radiante, quando constatou que a faery estava acordada. Ele, ao ser fuzilado pelos olhos negros de sua dona, alargou ainda mais os lábios pálidos. Deliciado pela constatação de que, com sucesso, provocara nela um início de manhã mau humorado. A moça sorriu em desafio, virando-se na cama.

Com um bufar, agora irritadiço, afastou as cobertas da morena. Esta, se contorceu, sentindo falta do peso das cobertas de linho bruto. O macho estava nitidamente sem paciência para comportamentos manhosos.

— Raposa, você bem sabe que te odeio. Não me faça matá-lo — resmungou ácida se levantando preguiçosamente da cama quente. Mal parecera que ela estava em sono profundo momentos antes.

— Ah, querida Morr. Está equivocada quanto a isso. Você... — ele se aproximou, roçando seu nariz gelado ao dela. Morrighan sentiu o toque suave de seu cabelo — Só irá saber o que te aconteceu quando o meu punhal estiver cravado em seu coração.

— Cretino — apontou, dando alguns passos para trás, por precaução. Era inevitável o sentimento de desconforto quando estava no mesmo cômodo que o macho. Foi direção ao guarda roupa, sentindo sua presença opressora. Raposa soltou um gracejo se curvando em reverência.

O macho arrumou sua postura, adotando um ar sério. A faery vasculhou o móvel distraída, passando a mão pelos poucos vestidos coloridos que tinha. A maioria era chumbo, ou cinza num tom claro. Porém, o que predominava no móvel eram a variedade de camisas soltas e velhas, junto da meia dúzia de calças de montaria gastas e ligeiramente rasgadas no interior das coxas. Ponderava na melhor escolha a se fazer. Queria estar como ela mesma, porém, vestir trapos não era uma opção. Queria se sentir como alguém digno. Não poderia encarar ninguém se sentindo inferior.

— Hoje e nos próximos dias você detém uma grande responsabilidade, Morrighan — se aproximando do batente da porta, encarou-a. A morena piscou as pestanas, fazendo uma cara meiga – não o envergonhar, já sei — completou, antes que o macho tivesse a chance de fazê-lo.

Raposa soltou um resmungo irritado, saindo logo em seguida para os compromissos da manhã. Ele, obviamente, não confiava na morena. E também pudera, Morrighan nunca havia feito nada para que a confiança estivesse presente no relacionamento estranho dos dois.

Finalmente havia chegado o aniversário do acordo. Iria reencontrar a irmã e quitar a sua dívida de sangue. Não tinha dúvidas de que conseguiria esse feito.

Morrighan queria, Morrighan fazia. O universo seria assim para sempre.

Se decidiu finalmente, resgatando do fundo do armário o novo traje de cavalaria marrom. Logo, puxou com os dedos as botas de cano baixas já moderadamente sujas de barro seco. Olhou saudosa em direção ao traje usado e perfeitamente confortável e, ainda por cima, de cor negra. Porém, naquele momento, era oportuno um traje novo.

Morrighan poderia ser das Terras Selvagens, mas não era obrigada a andar como uma mortus. Humanos eram mortus, e ninguém ligava muito para eles.

Limitaevi eram as fadas frutos do relacionamento de humanos e fadas. A população desta, só não ultrapassava a da normaevi.

E, os longaevi eram as fadas completas, cujo seus dois progenitores eram fadas. Eram os nobres, os que tinham o maior poder dentro de Fay. As melhores roupas, comida e tudo o que se podia imaginar.

Ainda havia as normaevi, as fadas comuns. Estas, tinham aspectos animalescos e com a sua insanidade pouco mascarada. Tinham chifres, rabos e uma infinidade de características. Elas eram o resultado do cruzamento das fadas comuns.

Não tinham lar, nem corte. Porém, vivem aqui, nas Terras Selvagens. O abrigo dos desabrigados, sem pátria e párias.

Raposa obtinha as características desse mesmo animal, e foi assim que ele se nomeou, assumindo seus traços com orgulho. A cauda, as orelhas, as unhas pretas e encurvadas. Afiadas diariamente na coluna de ônix preto. Os olhos, porém, eram nitidamente de um macho feérico, conservando a sua racionalidade como ser pensante. Eram astutos, da cor de mel recém colhido.

As Terras Selvagens são a menina dos olhos de Raposa, ele criou seu lar aqui. O macho era normaevi, mas conservava bons contatos. Como recompensa, acabou sendo o auto proclamado Rei daqui.

Apesar de ninguém reconhecer a sua majestade, pensou Morrighan, com desdenho.

Muitos acreditavam que os longaevi eram os mais perigosos. No entanto, Morrighan achava que os limitaevi detinham grandes possibilidades de serem demasiados cruéis, afinal, tinham tanto o rancor das fadas como a inconsequência dos humanos.

Por acaso do destino, Morrighan era uma limitaevi. O que só reforçava ainda mais a sua opinião.

Quando ficou pronta, foi em direção a janela do seu quarto. Examinou o céu azul, sentindo o suave calor do sol esquentar sua pele, procurando seu corvo. Aro sempre fora irascível.

O animal fora uma pequena provocação ao macho feérico, quando comparou-a com o pássaro em um dos raros passeios da infância. Agora, Aro dominava seu coração e tinha a liberdade de voar que tanto almejava. Com um suspiro, se pôs a chamar o corvo como ele a havia ensinado. Respirou fundo, concentrando todo e cada pensamento no nome do pássaro.

Aro

Era engraçado que de todos os dons de faery, justo este se manifestava nela. Ainda mais um dom inútil, pois só lhe servia com corvos e um que estivesse disposto a abandonar uma parte de sua selvageria para tornar-se parte dela. De corpo e alma, Aro a havia aceitado. Morrighan ainda não entendia bem o que significava a parte do corpo e Aro sempre fora esquivo e misterioso nas várias abordagens que tentou para conversar com ele, cortando-a bruscamente e fugindo logo em seguida. Morrighan, depois de algum tempo, notara que sempre que queria fugir dela, o mesmo voava na mesma direção.

Contudo, em relação a alma, eles estavam em um progresso lento, mas ainda sim era um progresso. Fazia três anos que Aro respondera ao chamado e nesse meio tempo, o máximo que conseguira fazer era um breve cutucão em sua mente. Quando tinha afinco e energia o bastante, esse cutucão se transformava em um repuxar. E essa situação só havia acontecido uma vez. Como limitaevi, Morr esperava que o dom se aprofundasse antes que morresse em batalha. O que, naquele momento, era um futuro muito próximo.

Raposa desdenhava de suas opiniões, mas Morr tinha a certeza de que algo estava se remexendo no submundo. Um puxão que vinha da terra, anunciando morte, sangue e caos. Era guerra, tinha absoluta certeza. Não sabia explicar em palavras.

O bater de asas foi o aviso que Morr precisava para começar a falar, sem se preocupar se Aro estava realmente por perto — Aro, irei sair para uma curta viagem. Não sei como vai se desenrolar, então, você pode vir comigo, ó Aro Rei dos Corvos? — meneou a cabeça em chacota. Ela podia sentir o ardido de reprovação que emanava do corvo. Era claro para os dois que Aro a seguiria a onde fosse. Uma conversa silenciosa foi trocada, quando Aro disparou aos céus, o cabelo negro Morrighan balançou, bagunçando alguns fios que ela logo colocou no lugar, transformando o grosso cabelo em uma trança que jogou para trás do ombro.

Desceu a cozinha rapidamente, estava com fome e precisava urgentemente de energia. A presença da dor de cabeça no limiar da consciência era um lembrete dolorido das consequências dos seus atos. Era a sensação de impotência que a atormentava mais que tudo.

Pelos mil infernos, como um simples chamado poderia resultar numa dor de cabeça tão forte?

Foi diretamente aos frutos frescos empilhados. Catou três, mecanicamente arrumando-os na bolsa que carregava a tira colo, então, deslizou suavemente pela cozinha chegando a bancada. Nela, pães e doces esfriavam. Enfiou a maior quantidade que poderia tendo o cuidado de enrolar os doces com cobertura em um pano limpo que achara por ali.

Distraída, não havia notado de que passos se aproximavam. Logo, sentiu uma mão pesada bater de encontro com a cabeça, piorando ainda mais a dor.

— Inferno! — exclamou exasperada. Sua mão, em um gesto automático, se firmava ali, buscando aplacar a dor.

— Menina ridícula, furtando novamente? — indagou a cozinheira. Seus pequenos chifres eram visíveis por entre os cachos cor de uva. No chão, um rabo fino e sem pelos descansava.

— Porque se importa? — falou em um muxoxo sentido. Kenny era uma artista na cozinha e, no entanto, sua graça não fora concedida em ser gentil ou permissiva. Morrighan encarou o seu olhar duro de frente, recuperando a pose altiva que sempre adotara quando não estava completamente só.

— Vou passear e pensei em ter um lanche — concedeu, andando pela cozinha aparentando uma segurança que não obtinha no momento.

— Raposa autorizou? — o suor pegajoso escorreu pelas costas, molhando levemente a camisa branca.

— Ele não precisa saber, não é? — provocou, recuando para a porta dos funcionários que dava diretamente para fora do castelo, que, por acaso, levava a uma trilha.

— Você é um perigo para si mesma Morrighan — apontou, no entanto, seu tom não era de brincadeira. Era sério, brutal e feral. Ela tinha a intenção de machucar, e mesmo assim, falhara. — Não deveria esquecer com quem está lidando.

Balançou a cabeça. A trança seguiu o movimento, escapando alguns poucos fios. As mãos se fecharam em um punho. Suas unhas provocaram meias luas arroxeadas, de tão forte que era o aperto.

— Eu não esqueci, Kenny. Desde que coloquei os pés nesse castelo maldito. Desde que acordo cada manhã com a sensação fantasma de um maldito punhal no meu coração. — se o tom de Kenny era brutal, o de Morr era cruel e malvado. Pior, era malvado com ela mesma.

— Averno, eu ainda nem sei como ele me manteve viva até agora — continuou, presa em sua própria raiva. A mulher mais velha a encarava com amargura. Não havia nada que a prendesse ali, por qual motivo permanecia?

Este, permaneceria guardado no coração de Morrighan. Fechado a sete chaves, o motivo que nunca emergiria para fora de seus pensamentos.

A dor de cabeça se intensificara em um latejar constante. Levou a mão a cabeça novamente, tocando delicadamente com os dedos no ponto sensível do couro cabeludo.

Morrighan estava irritada, falara demais e expusera sentimentos que lutava para guardar dentro de si. Se Morrighan fosse um objeto, seria um baú velho e empoeirado. Cheio de segredos e pensamentos que ninguém se interessava, a não ser ela mesma. Se sua raiva fosse um objeto, esta, no entanto, seria a maldita chave.

Suspirou, cedendo mais uma vez. Era necessário. Repetiu em sua mente incessantemente. Suas costas bateram de encontro a pesada porta de madeira.

— Daqui a pouco, Raposa irá me procurar. Não fale nada e finja que não me viu. Eu irei antes a um local importante sem ele. — ordenou rapidamente, os olhos presos nos de Kenny. Era vital que a mulher compreendesse o que estava em jogo.

Logo, a mesma assentiu séria. Em um puxão rápido e firme, Morrighan se viu nos braços ossudos de Kenny. A mulher a abraçava como se o futuro das duas dependesse de Morr.

Dura, a garota deu tapinhas desconfortáveis em suas costas.

— Você é a protegida dele, menina tola. A joia de sua coroa. — afirmou, afastando Morr de seus braços. Encarou cheia de convicção.

— Eu sou a espada. O truco no jogo — reafirmou, descartando suas frases descabidas. Era realmente descabido tal pensamento.

— Oh, mas é uma menina tola mesmo — balançou a cabeça em negação. Sentia-se nervosa pela menina que viu crescer, temia por seu futuro. — Agora, vá agora. — indicou com um menear a porta. Sem delongas e despedidas, foi, indo direto na mata fechada a procura do corcel que, assim como ela, era selvagem. E assim como Aro, era livre.

Morrighan das Terras Selvagens estava a um passo mais próxima da própria liberdade.