Meu nome é Alma

4 Capítulo Quarto


Notas iniciais
Olá, pessoal. Desculpem a demora para postar, vi que pouquíssimas pessoas leram o último capítulo, então fiquei esperando o número aumentar... rsrsrs É, não aconteceu. Enfim, espero que os que estão lendo estejam gostando.

“Raça de Abel, só bebe e come,

Deus te sorri tão complacente.

Raça de Caim, sempre some.

No lodo miseravelmente. ”

— As Flores do Mal

Encarava apreensiva e aflita a parede vazia de tom pálido e desbotado. Até as rachaduras lhe pareciam interessantes, talvez alguma delas possuísse uma história mais instigante que a sua, pensou.

Tentava fugir da realidade por breves momentos, esquecer o que estava fazendo e o que suas mãos carregaram de onde Gizella trabalhava até ali, em seu quarto. Suava frio, de fato. A coluna pesava e os sons pareciam ser mais estridentes e explosivos.

Tentou pensar em seu gato brincando com uma de suas meias alguns meses antes. Lembrou de tê-lo fotografado várias vezes com a máquina fotográfica que ganhara de aniversário, e acabou lembrando de como a mãe conseguira a máquina. De uma maneira muito parecida com o que Alma acabara de fazer.

Respirou fundo e empurrou a bolsa cheia de seus supostos novos pecados para baixo da cama com as mãos, arrastando-se até a pequena pia e o balcão, onde colocou comida para Azur e bebeu um pouco de água tirada da torneira.

Seu cérebro latejou forte e Alma quis socar as paredes. Estava tonta e fraca e dolorida. Seu estomago roncava, mas Alma julgou que não queria comer nada.

Olhou pela janela por alguns momentos, viu o muro do prédio vizinho e algumas pessoas transitando para dentro do albergue pelo pequeno beco que nascia da rua. Fechou a janela e andou pelo escuro, arrancando as roupas que lhe incomodavam e abraçando seus travesseiros na cama, jogando várias folhas com desenhos não acabados no chão, fechou os olhos e tentou dormir.

Desenhar tornara-se incomum nos últimos anos. Porém, as vezes o impulso voltava. Como naquele dia.

Cada som ou ruído impedia que acalmasse sua mente. Porém o cansaço, por fim, venceu.

Não teve sonho algum, e só acordou quando Gizella abriu a porta e acendeu as luzes, um pouco antes da hora do jantar.

— Você parece estar morta. – Comentou a garota.

Alma recusou-se a ver a luz e cobriu o rosto usando o cobertor estampado.

— Estou.

Sentiu o cheiro de comida, e parecia agradável para seu estomago.

— Eu gosto desses desenhos – Gizella comentou aparentemente recolhendo os papéis do chão. Desenhar era um hobbie para Alma desde pequena, adorava aquarelas e pinturas em quadros e qualquer coisa que possuísse forma e relativamente cor. – Onde você guardou os outros que trouxe para cá?

Alma sentou-se na cama e passou a mão pelo rosto e cabelo. Apontou, como uma criança sonolenta, para a cômoda de madeira no canto do quarto. Todas as suas roupas estavam amarrotadas em uma das gavetas dela. Alma guardava seus desenhos em um envelope antigo com muitos carimbos, a pessoa que lhe dera jurara a Alma que o envelope e os carimbos eram do início da época em que o país fazia parte da URSS... Alma não sabia o que os carimbos significavam ou para que serviam, mas gostava do todo que formavam. E mais: o envelope lhe fora dado como “presente” do senhor veterano de guerra que morrera anos atrás.

Gizella guardou os desenhos para Alma e deitou-se na cama ao lado.

— Onde você guardou a bolsa?

— Embaixo. Na cama. – Alma respondeu andando até o banheiro pequeno, fechou a porta e olhou-se no espelho por alguns minutos. Ligou o chuveiro na água morna e examinou de perto um dos azulejos quebrados, raspou o concreto com a unha e sentiu-o na ponta dos dedos. Lavou o rosto e penteou o cabelo antes de lava-lo no chuveiro, passou alguns minutos ali. Sua cabeça ainda doía, de forma que a maioria dos pensamentos eram automaticamente afastados.

Quando saiu, viu Gizella mexendo na bolsa, separando algumas coisas e colocando mais alguns medicamentos dentro desta. As duas comeram em silencio e assistiram um pouco de um programa na TV.

— Eu preciso sair. – Ela disse de forma monótona, levando os fios de cabelo para atrás das orelhas. – Quer vir comigo hoje?

Alma olhou para a amiga por breves instantes e lhe sorriu.

— Ir onde?

— Conhecer um amigo, ele vai me arrumar algum dinheiro.

Alma quis rir, mas concordou e perguntou por um remédio para sua dor de cabeça.

— Bebeu mais do que devia? — Gizella saltou da cadeira e procurou por uma cartela de comprimidos.

Alma ficou desconfortável pela falta de interesse, ou até percepção, do seu sumiço na noite anterior. Manteve suas orações para si.

Em poucas horas, as duas desciam de um ônibus e caminhavam por uma avenida até chegar a uma rua estreita, Gizella carregando a bolsa que antes Alma levara para casa. E mais um pouco depois; um novo ambiente.

— Este é Pablo. – O apresentado encarou Alma por alguns instantes, lhe parecia que aqueles olhos castanhos estavam à procura de algo. – Pablo... – Gizella estendeu a mão e apertou o ombro de Alma – Essa é Alma. – E riu – Uma amiga.

Pablo sorriu de forma fechada e cumprimentou a nova conhecida.

— Você é bem-vinda. – Fechou a porta da frente, mas Alma não prestou atenção. Vislumbrou a mistura de cores em quadros na parede. O chão de madeira era manchado de tinta em algumas partes, um cavalete perto da janela, uma prateleira de ferro com frascos que Alma não pode distinguir o conteúdo, um sofá marrom com um manto e algumas poltronas, uma mesa de canto ao lado da porta e uma de centro perto do sofá.

Voltou a encarar os quadros. Um deles lhe parecia conhecido, jazia no chão, apoiado em um canto da parede. Um casal se beijava em um banco de praça sob um chão molhado, cercados por arvores com folhas que lhe lembravam o outono. Mas tudo era tão colorido, tão vivo!

Acomodou-se em uma poltrona perto do quadro, na esperança de poder toca-lo uma hora ou outra antes do fim da visita.

Olhou novamente para Gizella e para Pablo, tentando captar os acontecimentos ocorridos naquele pequeno espaço de tempo.

Gizella depositou a bolsa em cima da mesa e a abriu, exibindo mais de dúzias de medicamentos com rótulos de todas as cores. Tirou uma lista do bolso e entregou a Pablo.

— Isso tudo fecha a lista de agosto. – A garota sorriu e jogou-se contra a poltrona.

Pablo olhou o conteúdo da bolsa por alguns momentos e sorriu de retorno para Gizella, que saiu da sala para ir ao banheiro.

— De onde você é? – A pergunta foi dirigida a Alma, mas esta demorou um tempo para perceber.

— Siret. – Respondeu arrumando o cabelo para trás do rosto- Fica a uns quinhentos quilômetros daqui.

— Não conheço. É bonito?

— Depende do que você julga como beleza. – Alma fez força para sorrir – Eu não voltaria para lá.

— E o que a trouxe para cá?

Os olhos de Alma fitaram o nada por alguns segundos, respirou fundo e engoliu em seco. Talvez não soubesse como responder.

— Queria ver o mar. – Foi a única resposta cabível que encontrou. E era até verdade, mesmo a escolha de Constanta ter sido completamente um mero impulso.

Pablo pareceu pensativo por alguns instantes. Alma voltou ao seu antigo fascínio e continuou olhando para os quadros em uma tentativa para distrair-se. O silencio lhe incomodava um pouco.

— Gostou dos meus quadros?

— Gostei. Você fez todos?

Ele riu, como se a pergunta fosse idiota.

— Claro. Eu vendo alguns também, é uma distração.

— Você vive disso? – Alma gostara da ideia, talvez pudesse fazer o mesmo.

— Pra que tantas perguntas? Me diga, por que tanto interesse? – A voz saiu séria, como se as perguntas fossem demais.

Alma não sabia como responder. Pensou em dizer que era apenas por curiosidade, ou que estava tentando conversar, ou não sabia mais o que. Pensou em algo objetivo e relacionado.

— Eu desenho. – Colocou o cabelo para frente e olhou para baixo – Pintei algumas vezes também.

Gizella voltou para o cômodo e continuou de pé.

— Então, se quiser me visitar mais vezes, lhe ensino algumas técnicas. – Abriu um sorriso galanteador.

— Nós já vamos. – Gizella avisou – Me mande um SMS se precisar de mais alguma coisa.

A troca foi rápida, Pablo buscou um envelope pequeno e entregou a Gizella. Assim, os dois se despediram e Pablo acompanhou Alma e a amiga para fora.

Alma olhou para o céu profundo da noite e desceu os degraus de cimento escuro até o chão, decidiu-se sobre seu novo objetivo súbita e impulsivamente. De forma que era quase necessário executar este o mais rápido possível.

Mal era madrugada, mas Alma invocava sua própria ansiedade. Sozinha, na rua, avançou pela avenida molhada e entrou em um dos circulares da cidade.

Alexandre ria enquanto observava Jhonatan resolver um cubo mágico. Jhonatan chegara de viagem mais cedo, e ambos voltavam de uma pequena reunião com um comerciante de certas cargas.

Alexandre dirigia sem pressa para, depois de dias, terminar um assunto antes começado. Não por ele, mas por um indivíduo que supostamente, e anteriormente, trabalhava para as mesmas causas que eles.

— Como você resolve esse diabo em dois minutos? –Jhonatan estava quase irado. Não entendia a combinação para juntar todas as cores ao mesmo tempo, ou então juntar uma e conseguir mantê-la para juntar as outras.

— É fácil, qualquer um consegue. – Gesticulou com a mão, fazendo sinal para que Jhonatan continuasse a tentar.

Atravessaram alguns quilômetros em silencio, a noite era clara e limpa, não deixando de ser fria.

Jhonatan vivia em uma cidade pequena da Austrália, alegando que o mundo era mais compreensível e vivível por lá. Alexandre descordava. Gostava da ideia de que a Austrália era um continente pouco povoado e até bem preservado, mas a ideia de viver isolado não o carecia. Queria paz, talvez até monotonia, mas gostava da sensação de estar perto e inciso no mundo. Talvez a agitação da vida respondesse perguntas e ocultasse outras, talvez ele quisesse pensar ou não pensar. Aquele não lhe era um pensamento frequente, todavia, qualquer coisa pode lhe bater na cabeça a qualquer momento.

— E Consuelo, como está? – Quis tirar de Jhonatan o objetivo de resolver o cubo. A concentração toda levemente o irritava.

— Minha esposa? Bem, como mais estaria? Vaso ruim não quebra – Jhonatan riu – Ela mencionou você esses dias. Não prestei atenção. Amo aquela mulher. – Possuía um ritmo de fala rápido e alto, combinado de um senso de humor desproporcional ao seu cargo.

Pararam em frente à uma casa média e de aparência simples em uma área afastada. Um carro estava estacionado na garagem, e a luz da sala transparecia pelos poros da cortina. Alexandre abriu a porta sem bater e olhou sério para os homens que jogavam cartas.

— Quer entrar? Pietro apostou um beijo da namorada. – Um dos homens ofereceu e riu, soltou fumaça de charuto no ar e bebeu um pouco de algo que parecia vinho.

Pietro sorriu de forma desajeitada. Era jovem, senão 18 anos, um pouco menos que isso. Acompanhava o irmão mais velho naquela noite, afinal, estava sendo inserido aos poucos no universo onde todos os homens ali trabalhavam.

— Quero ver ele antes. – Alexandre virou as costas e andou até o fim de um corredor estreito, abriu a porta da direita e acendeu a luz.

— Não fala nada há um dia e meio. – O mesmo homem de antes respondeu atrás de Alexandre – Então deixamos Raul brincar com aquelas injeções hoje para ver se o rapaz falava.

— Funcionou? – A pergunta saiu reta, sem entonação ou sentimento. Achava o jeito como alguns homens ali trabalhavam desnecessário em alguns momentos. Mas Alexandre mesmo duvidava, naquele momento, que poderia ter feito melhor. Porém, também duvidava que o método de seus homens houvesse funcionado.

— Você acha que ele ainda estaria aqui se tivesse funcionado?

Alexandre balançou a cabeça e o homem saiu. Fechou a porta e olhou ao redor. O chão de madeira possuía partes quebradas, o lugar era escuro e fedia. Uma janela com grades no alto da parede seria o único meio de ventilação, porém esta estava fechada.

Ajoelhou-se em frente ao corpo deitado em um colchão fino e sujo e esperou algum movimento.

Estava acordado. Olhou para Alexandre com os olhos escuros e turgidos, o rosto manchado e com algumas feridas abertas.

— Você sabe quem eu sou? – Alexandre perguntou.

O rapaz tentou cuspir-lhe na face, mas mal conseguia movimentar os lábios. A saliva escorreu pelo queixo e as lagrimas escorreram por seu rosto. Balançou a cabeça em um sim.

— Ótimo, assim tudo será mais fácil. – Alexandre coçou a parte da pele em que os novos pelos da barba nasciam. Observou a fisionomia ferida do jovem, os dedos sem unhas e algumas partes do corpo com a carne exposta – Faremos assim, eu pergunto e você responde. Se não responder, não vai morrer. Claro que não. Mas lhe garanto que será bem pior. – Queria ser direto – E além do mais, me disseram que sua mãe e irmã vivem no Texas, elas gostariam de receber uma lembrança sua. – Alexandre tocou de leve a orelha do rapaz e sentiu a mão fria e molhada do mesmo. — Vai resistir?

O rapaz não respondeu, talvez não soubesse o que responder. O corpo estava tão magro quanto um esqueleto e Alexandre podia jurar que as articulações se contorciam.

— Você foi acusado de traição. Você assume?

— Já respondi isso – Tossiu algumas vezes, os lábios possuíam feridas, o que podia significar que ele mesmo os mordera por algum motivo.

— Trabalha para a FIST desde o começo?

O rapaz tentou rir.

— Vocês nunca vão ter acesso a minha família – falou com dificuldade. Demorou um longo tempo respirando até continuar — não tem como. – O rapaz tombou o rosto para o lado, abraçando o próprio corpo semi nu.

— Talvez alguns de nós já tenham acesso, e até mesmo convivência. Mas não vamos delimitar nossa adorável conversa a isso. Sei quem você é, o que faz e todo o resto. E o mais importante: Você sabe quem eu sou. Tem algo a me dizer antes de eu sair por aquela porta? – Soou levemente ameaçador, mas não era seu objetivo.

Mais um longo tempo se passou, cujo único som que Alexandre podia ouvir eram os chiados do peito do rapaz.

— Me tire desse quarto e eu consigo livrar você dos outros, há muitos homens do meu lado na sua cola, seu destino já está programado nas nossas máquinas. Me tire daqui e posso tentar mudar isso. – os lábios tremiam e estavam roxos. Ele abriu a boca para passar a respirar por ela, a língua estava visivelmente inchada.

Alexandre suspirou longamente e estalou as costas cansadas.

— Esse não era o nosso acordo. – Levantou e juntou suas mãos com uma pequena nova ideia. Se o rapaz queria brincar, não seria ele quem negaria. – Então agora faremos assim, preciso que me prove que pode ser realmente útil — Abriu a porta e pediu a Jhonatan seu cubo mágico. Jogou-o em direção ao rapaz e lhe sorriu – Me devolva isso resolvido em uma hora que sairá desse quarto.

Fechou a porta e acenou para um dos homens que fazia a guarda. Se sentou na mesa onde os companheiros estavam e acendeu um charuto para si mesmo, enchendo um copo com vodca.

— Aposto cinquenta. – Levantou seu maço de cartas e tragou o charuto por alguns segundos. Cheirava a canela e cravo, e o ar tornava-se cada vez mais denso.

— Uh, descobrimos que a FIST possui infiltrados em Moscou e São Petersburgo, já avisamos Vladmir. Ele tomou algumas providencias e enviou alguns homens para a Ucrânia, é uma área com pouco dos nossos homens, mas de muito uso. Estamos desconfiando que teremos alguns conflitos lá.

Alexandre riu.

— Não acredito que a Ucrânia ainda não tenha sido dominada por americanos. – Comentou.

— É frio, companheiro! Os americanos não suportam o frio russo!

Jogaram por uma hora, Jhonatan era quase o vencedor. Os homens já riam mais alto e a TV muda no canto da sala chuviscava algum canal que exibia o noticiário.

Alexandre pediu licença e andou até o quarto novamente, olhou para o cubo e balançou a cabeça em reprovação.

Não esperava que o rapaz reagiria daquela forma, chorava em um canto e suplicava-lhe “por favor”.

— Eu posso provar que sou capaz, só me tire daqui. — O rosto estava vermelho e suado.

— Não posso. – Alexandre olhou novamente para o cubo e respirou fundo. Focou sua atenção no rapaz e pensou no fim de outros homens como aquele. Alguns morriam sendo patriotas, sem dizer uma palavra. Outros falavam até demais. Outros tentavam enganar, outros choravam e outros faziam todas as ações anteriores. No final, quase sempre os problemas causados por esses homens eram sempre maiores que no início. – Esse não era o nosso acordo.

Saiu da sala pela última vez e fez um sinal breve a outro homem. Voltou para sala e sentou-se, antes de um único grito explodir por toda a casa. “Não”.

A maioria dos homens continuou com o comportamento intacto, reconhecendo a relativa insignificância da última suplica.

O único alterado foi Pietro.

Pareceu incomodado, exaltado, irado, amedrontado, ansioso ou como a beira de um colapso. Os olhos escuros vasculharam os rostos por uma expressão mínima de comoção. Mas todos continuavam jogando e bebendo e fumando, desatentos a ele.

Exceto Alexandre. E Pietro petrificou-se quando seus olhos cruzaram com os dele. Olhava-o como um animal preste a ser abatido ou doente, com certa pena e, no fundo, com uma pequena desconfiança florescente sobre o ser.

Todavia, Alexandre sorriu para o jovem e levantou seu copo com vodca e gelo, virando todo o liquido em um gole e jogando algumas cartas no centro da mesa.

Abriu os braços em um gesto vitorioso e bateu na mesa.

— Venci.

— Maldito seja! – Jhonatan urrou com outros dois homens. E riu.

Alexandre recolheu o dinheiro sobre a mesa e olhou brevemente para Pietro enquanto o irmão deste falava.

— É, irmão. Acho que você vai perder a namorada. – Gargalhou – Não foram muitas que suportaram aos encantos do Alex depois de um beijo.

Pietro continuava com a mesma expressão, mas forçou um sorriso.

— Tudo bem, rapaz. – Alexandre depositou o copo sobre a mesa e guardou o dinheiro todo na carteira – Você fica me devendo um favor no lugar da namorada.

Virou as costas, cumprimentou todos e saiu.

— Você realmente teria deixado o rapaz livre se tivesse conseguido resolver o cubo? — Jhonatan questionou quando voltavam ao carro.

— Claro que não.

— Mas você disse isso a ele.

Alexandre olhou para o amigo e apertou seu ombro.

— Eu disse a ele que o deixaria sair do quarto, e não que o deixaria livre ou vivo. – Virou-se e destravou o carro – Odeio quando minhas sentenças são mal interpretadas.

Era tarde e estava escuro e frio. O céu nublado e o ar úmido tornavam a iluminação da cidade quase impercebível para Alma.

Olhou ao redor mais uma vez e arrependeu-se de suas escolhas. Agarrada a um telefone público, não sabia para quem ou o que discar. Tinha medo de voltar para casa sozinha; estava muito escuro e muito longe.

Se condenou por sua estupidez, como poderia achar que encontraria o centro de especialização profissional aberto àquela hora da noite? Como poderia ter achado que poderia esperar sentada nas escadarias até o amanhecer apenas para colocar seu nome na lista de inscrição para o curso de artes plásticas?

Como poderia achar que sabia onde aquele lugar ficava?

Certamente era uma idiota, pensou ela mesma.

Olhou ao redor novamente. Prestou atenção em um casal voltando de algum lugar e adentrando uma residência. Tentou imaginar quem eram e o que faziam.

O homem poderia ser um holandês rico que viveria na França, em um apartamento que tivesse vista para a Torre Eiffel. Seria casado com uma francesa, mas sempre inventaria viagens de negócios e sairia com moças mais jovens e bonitas. A mulher que o acompanhava seria uma delas, poderiam ter se conhecido a pouco tempo e ele lhe pagado o jantar. Ela mostrava-se excepcionalmente feliz.

Alma sorriu com sua própria imaginação e colocou suas mãos dentro dos bolsos, numa tentativa de esquentar-se.

Seus dedos tocaram algo com textura lisa. Alma levou o objeto para onde pudesse enxergar e lembrou-se; possuía o número do telefone de Mihai.

Recapitulou sua situação. Não possuía dinheiro para um taxi e o transporte público não circulava depois das onze. Pegara o último circular do dia para chegar até perto dali e descera o resto do caminho a pé.

E Mihai possuía um carro.

Sentia-se uma covarde. Voltar para casa sozinha seria absurdamente perigoso, dizia a si mesma. Olhou novamente para o papel com o número e, hesitante, discou vagarosamente número por número no telefone.

Cada toque do telefone causava-lhe uma explosão de sensações. Sentia que iria desmoronar, que suas pernas ruiriam ali e ela não conseguiria mais respirar.

Respirou fundo e alto e distanciou o telefone do rosto.

— Quem é? – Ouviu um sussurro baixo vindo do mesmo.

Agarrou-se ao telefone novamente e perguntou a si mesma se realmente deveria fazer aquilo.

— Mihai? – Sua voz saiu tremula – É a Alma. – Deveria perguntar se ele estava bem? Ou coisa do tipo? – Você... pode me dar uma carona? – As palavras saíram rápidas.

Houve um silêncio durante poucos instantes.

— Onde você está, Alma?

— Na Aurel Vlaicu, perto de uma floricultura. – Procurou por alguma sinalização ou coisa parecida – Eu não sei o nome da rua perpendicular. Tem um terreno grande com arvores na frente, não sei o que é.

Ouviu Mihai rir alto do outro lado.

— Tem um posto de gasolina perto?

Alma olhou aos arredores novamente. Existia um posto, mas estava fechado.

— Acho que sei onde é. Me espere em frente à ele, então. – Mihai ficou em silencio novamente – Chego em vinte minutos.

Alma desligou o telefone público sem despedidas. Apoiou a cabeça contra o revestimento frio do mesmo e respirou fundo.

E de certa forma, aqueles vinte minutos lhe pareceram uma eternidade.

Notas finais
Gostaram? Se manifestem :) , Rafa
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.