~ :D Bia Rattighieri seja bem-vinda. Muito obrigada por ter favoritado! ;D ~
...
— E ai como é que foi? – pergunta Clara, assim que chego à escola.
— Bom dia pra você também.
— Ai, chata. Me conta logo.
— Não aconteceu nada, porque eu sai de lá antes de desperdiçar mais tempo – reviro os olhos e vou para a sala, ela bufa e me segue.
Depois de ter uma aula inteira de falatórios sobre o tal encontro com o Lucas e do como foi maravilhoso, e do quanto ele é lindo, e do quanto eu não tenho chances, e do quanto eu fui idiota, e do quanto ele ficou feliz depois da minha saída, eu fiquei com dor de cabeça.
— Todas têm histórias e versões legais do encontro com o Lucas, por que você é a única que não tem? – pergunta Clara meio chateada.
— Isso é porque eu não estou inventando nada – digo o obvio.
— E por que você foi embora?
— Porque todos me humilharam e eu não preciso desses lixos.
— Ai não, o que eles disseram? – perguntou Clara, parecendo triste por mim.
— Esfregaram na minha cara que eu sou pobre e me chamaram de cotista, depois riram de mim – disse tudo de uma vez para não cair na realidade e dureza daquelas palavras.
— Ai Sá, eu sinto muito – ela disse e me abraçou.
— Eu não me importo o suficiente com eles para me magoar – menti, porque eu fiquei magoada, sim.
Ela pareceu acreditar e nós continuamos a fazer a lição. Aff, ninguém merece. Preciso de férias!
No meio da aula de português me chamaram até a direção. Eu fui já sabendo sobre o que se tratava.
— Pois não? – perguntei pra diretora assim que cheguei a sua sala.
— Sente-se senhorita Sabrina – me sentei – eu soube da sua indisciplina ontem.
— Ah sim, mas eu não acho que tenha sido indisciplina e sim orgulho, porque eu ainda possuo algum, mesmo depois de aceitar participar dessa competição odiosa.
— Meça as palavras, senhorita – ela tentou me amedrontar.
— Não faltei com educação, apenas fui sincera.
— Olha, agradeça por estar tendo está oportunidade. Eu não consigo entender o porquê de tanto ódio por essa competição. Qualquer garota adoraria estar no seu lugar, sinta-se especial e bonificada.
— Acontece que eu não sou qualquer garota – afirmei.
— Sabe que eu gostei dela? – ouvi uma voz masculina, vindo de trás de mim.
— Oh sim, senhor Alberto Leicam, é um prazer reencontrá-lo, sente-se, por favor – afirmou a diretora um pouco encabulada.
— É um prazer diretora. E a senhorita deve ser Sabrina – ele disse estendendo a mão para mim.
— Eu mesma – disse e nos cumprimentamos.
— É um prazer – ele disse.
— Desculpe-me, mas não o conheço para dizer o mesmo – sim, eu sei, fui grossa, mas dane-se, não estou a fim de ser gentil hoje.
— Oh, mas que falta de educação a minha. Eu sou o pai do Lucas para melhor entendimento – ele disse com um sorriso.
Ele era alto e de meia idade, apesar de eu não achar muito atraente os “coroas”, ele era bonito, garanto que na juventude foi igual ao filho, lindo. Ele parecia ser muito simpático aos meus olhos, mas só de saber que ele tem um filho como Lucas, me deixa com uma sensação estranha, mas não sei qual.
— E eu sou só mais uma estudante – afirmei por falta do que dizer.
— Eu não diria só mais uma estudante – disse com uma piscadela.
— Eu já posso retirar-me? – perguntei à diretora.
— Não, é agora que começa a reunião.
— Oh sim – disse Alberto – eu gostaria de lhe perguntar algumas coisas. Está disposta a responder?
— Do que se tratam?
— De alguns dados pessoais para a competição.
— Vocês estão perguntando para todas as participantes?
— Oras, já está bom, chega de tantas perguntas, senhorita – interveio a diretora.
— Tenho os mesmo direitos que vocês têm. Já que me questionarão, eu tenho no mínimo o direito de saber do que se tratam.
— Ela tem razão. Pode perguntar a vontade – afirmou Alberto.
— Obrigada.
— E respondendo sua pergunta, não, porque essas perguntas só cabem a você.
Claro que só cabem a mim, sou a única pobre daquele lugar. O que eles vão me perguntar? Se eu passo fome?
— Dependendo do quão intimas forem, eu posso pensar.
— Claro. Então vamos começar – disse ele com entusiasmo.
Ele pegou alguns papeis dentro da pasta que trouxe consigo e os arrumou na mesa da diretora. Conforme eu falava, ele escrevia.
— Quais são seus objetivos de vida?
— Isto é uma entrevista? – rebati com outra pergunta.
— Não, apenas uma curiosidade.
— A curiosidade matou o gato, cuidado – disse, tentando fazer graça. Ele riu, a diretora ficou surpresa e tentou me repreender.
— Mas e então, quais são?
— Se eu dissesse, provavelmente não iria realizá-los, indica psicólogos. Fique a vontade para pesquisar – disse. Na hora eu me lembrei dessa postagem que eu vi no facebook.
— Confio em você, senhorita – disse ele, achando graça.
— Próxima? – perguntei, rindo também.
— Quais são seus maiores ídolos?
— Nenhum.
— Nenhum? Tem certeza? – sua expressão parecia perplexa.
— Sem considerar religião, sim, nenhum.
— A senhorita é religiosa?
— Sim, senhor.
— Suas formações – exigiu.
Eu pensei em não responder, mas depois de um tempo dei de ombros e apensa disse.
— Dois anos de catecismo, um ano de perseverança, um ano e meio de crisma, meio ano de formação para o acolitado e mais um ano exercendo a função.
— Ainda freqüenta a igreja?
— Não tanto quanto gostaria.
— Por que quis entrar nessa escola?
Parecia, e era, uma pergunta comum. Mas para mim é muito pessoal os motivos que me levaram a dedicar minha vida inteira para estar ali. Eu não podia dizer que meu irmão do meio era viciado em droga e que mal conseguia sustentar a si mesmo, quanto mais à família. Não podia dizer que meu irmão mais velho era depressivo, ganancioso, agressivo com a esposa e estava envolvido com agiotas. Não podia dizer que meus pais tentavam manter nos vivos com todas as forças que possuíam, mas passávamos intensas crises. Não podia dizer que meu pai se entregava ao álcool para afogar os problemas e que minha mãe, mesmo sendo forte, chorava todas as noites sozinha.
Eu não podia dizer que entrei naquela escola para conseguir a melhor vaga de emprego existente, para resgatar minha família do fundo do poço. Não podia dizer que a única esperança que ainda possuíamos estava em minhas mãos, naquela mera vaga. Não podia. Eles nunca entenderiam.
— Próxima – disse por fim.
— Mas é a mais fácil que possui – ele disse surpreso, assim como a diretora, com a minha resposta.
— Próxima – repeti, ele deu de ombros e prosseguiu.
— Estilo musical.
— Nenhum.
Mais uma vez eles ficaram estáticos, achando que eu sou louca.
— Como assim nenhum?
— Eu não penso que a música deva ser dividida em estilos, eu penso que ela deve ser ouvida de acordo com seu espírito naquele momento. Não penso que existem musicas ruins ou boas, existem apenas emoções diferenciadas. Não penso que existem cantores melhores que outros e sim vozes que expressam melhor seus sentimentos.
— Então quer dizer que você ouviria funk?
— Sim, se no momento eu estivesse com muito “fogo”, por assim dizer – disse, fazendo aspas com os dedos.
— Compreendo. A senhorita conhece algum cantor?
— Mas é claro. A sociedade não nos diz que para não sermos idiotas devemos conhecer o máximo de coisas possíveis? Não que eu me importe com a opinião dos outros, mas eu sou curiosa o suficiente para querer saber quem é o dono da voz que estou ouvindo.
— Cite alguns nomes.
— Por que o interesse?
— Curiosidade novamente- ele disse, dando de ombros.
— Eu prefiro não matar um gato, mas já que insiste. Legião Urbana, Pitty, Onze20, Projota, Chimarruts, Pollo, Paramore, Paralamas do Sucesso, Red Hot Chili Peppers, Green Day, Evanescence, Charlie Brown, The Wanted, Nickelback, Nirvana, Maroon 5, Stevens, Train, Oasis, Imagine Dragons...
— Já é o suficiente, obrigada – interrompeu-me ele.
— Tudo bem – dei de ombros.
— Qual sua cor preferida? – continuou com o interrogatório.
— Verde.
— Por quê?
— É a cor pela qual enxergo o mundo, afinal, meus olhos são verdes.
— Número preferido?
— Apesar de não crer em superstições, o meu número da sorte é o 4.
— Por quê?
— Todas as pessoas especiais que entram na minha vida têm esse número em seus aniversários.
Ele deu um sorriso ao qual não entendi muito bem.
— Por hoje é só, senhorita Sabrina- ele concluiu guardando os papeis- Deseja perguntar alguma coisa? – concluiu.
— Oh, sim. Se gostaria descobrir minha personalidade, por que não perguntou desde o inicio? É mais fácil que ficar coletando pistas – afirmei e ele riu.
— É, você me pegou. Então, qual sua personalidade?
— O senhor já possui todas as respostas que desejaria?
— Não todas, mas grande parte — afirmou sem saber minha intenção.
— Então me surpreenda falando qual é minha personalidade – disse com um simples sorriso.
— Me pegou de novo – disse gargalhando e se levantou – foi um prazer conhecê-la, senhorita Sabrina – e beijou minha mão.
— O prazer foi meu senhor Alberto – disse, sorrindo e também me levantei – se me dão licença, voltarei para minha sala.
Os dois afirmaram com a cabeça. Olhando agora para a diretora é impossível descrever sua expressão. Ela estava estática e sem palavras. Assim que fechei a porta atrás de mim ouvi o senhor Alberto dizer com um ar de felicidade:
— Com certeza será ela, meu filho estará louco se não for.
Sai dali o mais rápido possível. Eu consegui estragar tudo! Como eu sou uma tola, idiota. Tudo o que eu fiz foi ser eu mesma, achando que ele me odiaria como a grande parte das pessoas, mas não, com ele pareceu surtir o contrário.
Eu espero que ele esteja completamente enganado. Não serei eu, não pode ser, não pode. Sem perceber já estava enxugando as lágrimas. Como aquilo tinha sido tortuoso.
Eu nunca precisei dar detalhes da minha vida como minutos atrás. Ninguém podia me conhecer completamente, mas agora aqueles dois me conheciam, não completamente, mas ainda assim conheciam.
Como eu odeio falar demais. Como eu odeio não conseguir me controlar. Como eu odeio eles por me obrigarem a falar. Como eu odeio o Lucas por ser o culpado de tudo. Como eu odeio essa competição!
Fale com o autor