Meu mundo é você
21 Seguindo em frente mas nem tanto...
Notas iniciais
As portas pesadas do guarda-roupa fecharam-se com um baque estrondoso quando o jovem monarca a frente do móvel as empurrou brutalmente com as mãos. Havia dias em que se encontrava num misto irritabilidade, mágoa tristeza e desespero, em função de algo que ocorrera há alguns dias.
Ele olhou-se no espelho e se pôs a pentear os cabelos como de costume, tendo o cuidado de deixar a parte da frente mais elevada, sentindo imensa tristeza ao pensar que não haveria mais alguém para estragar aquele penteado que sempre quisesse irrita-lo, desarrumando os fios com um toque firme e suave ao mesmo tempo, provocando-lhe uma estranha mistura de amor e ódio.
Tentando afastar tais pensamentos, ele deu por concluída aquela etapa e correu os olhos pelo quarto procurando as botas mais limpas de que dispunha e caminhou até a única que encontrou deduzindo que as demais umas estavam guardadas e outras haviam sido levadas para serem limpas.
Enquanto calçava os pés, ele ouviu através da janela o relinchar dos cavalos que provavelmente estavam sendo levados para frente do castelo juntamente com as carruagens e percebendo que estava atrasado, pôs-se a calçar as botas apressadamente, sabia que aquilo aborreceria o pai. A contra gosto, ele havia resolvido acompanhar o pai a uma reunião, de qualquer jeito precisava retomar sua vida que até então parecia consistir unicamente luta diária para esquecer coisas que ele considerava inesquecíveis.
A porta do palácio, o pai do jovem rapaz, já acomodado na carruagem olhou-o com reprovação através da pequena janela e aguardou que ele se aproximasse.
–Freddie, por que demorou? –Perguntou o rei quando o filho entrou na carruagem.
–Estava me arrumando.
O rei fez um breve aceno para o cocheiro e segundos depois, a carroça se deslocava em direção a estrada.
–Leu as cartas que eu mandei? –Perguntou o rei.
–Sim. –Respondeu observando a janela.
–A que conclusão chegou?
–Os aldeões estão certos. –Disse encarando o homem. –Eles nos entregam o que tem e morrem de fome, é isso?
–Não, você não compreendeu. Eles tem de colaborar, produzem não apenas para eles, mas para o todo, compreende?
–Sei disso, mas será que eles sabem? Será que entendem?
–O que quer dizer?
–Acho que devíamos baixar os impostos. Ou cobra-los de acordo com o que cada povoado ou cidade pudesse pagar, não sei tenho pensado numa...
–Numa forma de beneficiar a gente a qual pertence aquela maldita espiã? –Perguntou entre dentes. –É melhor que mude sua postura, Freddie não estou gostando da forma como vem se comportando!
Freddie não respondeu e voltou a atenção a janela e não se dirigiu mais ao pai. Esse ainda tentou conversar com o rapaz sobre os povoados que vinham causando problemas, mas Freddie mal o olhava, torcia os lábios ou dava de ombros sempre que o homem lhe fazia alguma pergunta demonstrando todo o seu desprezo para com assuntos que deveriam representar sua maior preocupação. O rei sentia-se ameaçado.
O filho mantinha os mesmos hábitos, modos a atitudes, mas o distanciamento que apresentava parecia de certa forma, estar ali a mais tempo do que parecia. Lembrava o jeito como ele voltava quando criança dos passeios matinais com alguns livros ou brinquedos, e permanecia disperso em alguns momentos mesmo quando lhe eram ditas coisas importantes. A diferença é que em vez do brilho que o menino tinha no olhar, agora havia uma profunda tristeza no rosto do rapaz.
A carruagem parou na cidade há alguns metros da estrada onde haviam poucas barracas de comerciantes. O príncipe correu os olhos pela pequena aglomeração ao que as pessoas ali baixaram os olhos em respeito, exceto as crianças, algumas riram e acenaram, o que causou no príncipe um estranho ímpeto de devolver o gesto. Sentindo-se estranho, ele desviou o olhar para o pequeno palácio sem deixar de notar a forma como o pai o observava.
–Por que não deixou que a reunião fosse em nosso palácio? –Perguntou enquanto cainhavam.
O rei riu de modo irônico comprimindo o cetro entre os dedos.
–Por que inimigos costumam se infiltrar onde acreditam haver coisas muito importantes.
Freddie assentiu fingindo não perceber a indireta e os dois continuaram a caminhada.
O palácio que se encontrava sob o controle de Serafim conservava o mesmo ar sombrio de sempre mais naquele momento lhe pareceu ainda mais mórbida. Ao ser recebido pelo dono da enorme casa com um ar solícito e um sorriso um tanto forçado, Freddie observou aquelas paredes com mais atenção e só então reparou em duas espadas cruzadas acima de um quadro numa das paredes. A imagem lhe causara certo mal estar fazendo-o apressar a caminhada até a outra sala onde o duque e um general bebiam alguma coisa.
Era uma reunião como tantas outras, as mesmas pessoas, os mesmos assuntos. O general, conhecido apenas por Jean, era o único que parecia ter problemas a relatar ao rei. Serafim tentava se mostrar útil em relação às pequenas revoltas contando como conseguia conter os pequenos conflitos em povoados distantes. O duque Humbert dizia que em suas terras quase não existiam problemas e que as coisas iam tão bem que ele se sentia preparado o bastante para se dedicar a problemas oriundos de outras esferas. Freddie sabia que era ao condado dos Stefan que ele se referia.
–O ministro das terras está avaliando as condições do condado –Dizia o rei. –a situação não está fácil. Semana que vem mandarei o Freddie para lá ele decidirá o que fazer.
–Mas Vossa Alteza faz-se muito importante aqui. –Disse o duque. –Sei que ninguém poderá fazer esse trabalho melhor que ele, mas dada a importância de Vossa Alteza, disponibilizo-me desde já para...
–A menos que sua disponibilidade seja para ficar em sua casa, Haze dispensamos seus préstimos. –Interpôs-se Freddie. –Seu ducado não vai tão bem quanto diz, sei por que minhas fontes de informação são ilimitadas.
Houve um breve silêncio constrangedor.
–Alteza, não precisa ser tão duro. Se é ao plantio perdido que e refere, garanto-lhe que...
–De maneira alguma. Refiro-me ao fato de eu estar a semanas esperando que você organize a reunião com os chefes de territórios aliados para que possam ser discutidas as mudanças que propus em relação às escolas. Acho que eu mesmo terei que fazer isso. Também.
–Ora, alteza enviei cartas, mas eles se mostram relutantes. E eu entendo, afinal deve saber que para algumas pessoas, o conhecimento é completamente desnecessário.
–Sua opinião ultrapassada não me importa, mas enquanto essas pessoas não se sentirem parte desse reino, continuarão se voltando contra ele! Olhe aquelas crianças lá fora. Aumentam de número a cada dia precisam de espaço, de comida, de um alicerce em suas vidas que não sejam dividir o pouco que ganham conosco.
–Está querendo dizer –Interveio o rei. –que pretende...
–Expandir o conhecimento para além dos muros dos mosteiros. –Completou o príncipe. –O senhor me deu autonomia para fazer o que eu quisesse não foi?
–Mas isso me parece insano. Causará ainda mais revoltas.
–Eu sei. –Respondeu Freddie. –Sem conflitos não há mudanças, precisamos de mudanças. Mas serão conflitos pacíficos, eles nos questionarão e nós os ouviremos sempre buscando o bem de todos, não apenas o nosso.
–Alteza, pense bem...
–Cale-se, Haze não é conselheiro da corte até onde eu sei. –Disse rispidamente. –Pai o senhor não precisa concordar comigo é claro, é seu reino. Mas se me quer como substituto é melhor que saiba logo os meus planos.
Trêmulo de raiva, o rei assentiu em silêncio e trocou rapidamente de assunto sugerindo que Serafim mostrasse as cartas apreendidas. As mensagens codificadas eram impossíveis de serem decifradas, mas algumas estavam claras o suficientes para serem lidas. Em silêncio, enquanto observava os três homens ali sentados, o general Jean através de sua vasta experiência, teve a mais absoluta certeza de que assim que tivesse oportunidade, o duque daria um jeito de se livrar do príncipe.
Fazia dois dias que o pequeno grupo deixara a carroça num ponto escondido da estrada e adentraram a floresta apenas com um cavalo magro e alguns pertences presos ao animal. A água a já estava acabando e o cansaço imperava sobre o corpo dos cinco quando o terreno começou a se elevar conforme eles caminhavam e as árvores começaram a tornar-se mais dispersas revelando a presença da ação humana por ali. Alguns metros depois alguns casebres velhos e mal construídos começaram a surgir indicando a proximidade da clareira que procuravam.
O céu já começava a escurecer quando eles finalmente viram num ponto distante, um homem próximo as dezenas de casebres que havia ali. Eram ainda mais pobres do que as que estavam acostumados ver e o fato de a maioria parecer abandonada dada a falta de pessoas nas proximidades, só não tornava o ambiente ainda mais sombrio por causa dos ventos que soprava suavemente balançando as folhas das árvores cujas flores exalavam um perfume agradável que era carregado pela brisa para lugares os mais distantes.
–Venta muito aqui. –Disse Sam retirando os cabelos do rosto.
–Estamos numa colina, o que queria? –Perguntou Lucas.
–Que você tentasse conter o seu mau humor. –Respondeu.
–Estou com fome.
–Não é só você, mas acabamos de chegar então tente ficar feliz, está bem?
Ele assentiu e acompanhou a menina em direção a um homem de aproximadamente cinquenta anos que cortava lenha nas proximidades de uma casa. O homem parou o que fazia e os fitou atentamente demorando o olhar na moça loira.
–Olá! –Disse Robie aproximando-se. –Somos de Paris, estamos aqui...
–Sei quem são. –Adiantou-se. –Estávamos esperando por sir Nicolau e Samantha. É só pra quem temos cabanas.
–Onde está o Simon? –Perguntou Nicolau já aborrecido. –Escrevia a ele...
–Ele morreu. –Respondeu o homem. Há algumas semanas. As cartas que chegavam pra ele estavam sendo entregues a viúva dele até descobrirmos que ela as estava queimando.
–M-mas... –Gibby olhava atônito para os outros. –E todos esses casebres abandonados?
–Abandonados? Meu caro, a maior parte dos homens estão caçando e buscando lenha e as mulheres estão voltando do rio, onde lavam roupas. Desculpem mas é só o que temos.
Sam correu os olhos pelo local e reparou em algumas crianças observando timidamente pela janela. Outro homem, esse mais jovem que o que cortava lenha, vigiava a área em cima de uma cabana que parecia ais resistente que as demais. Oculta pela penumbra, uma mulher ajeitava o que em instantes seria uma fogueira.
–Tudo bem. –Interveio Nicolau. –Lamento pelo Simon depois gostaria de falar coma esposa dele. Agradecemos por nos deixar ficar aqui. Sam fica sozinha os meninos e eu no ajeitamos na outra.
–Pode nos mostrar onde fica o a tal cabana? –Perguntou Lucas. –Estamos bastante cansados.
–São aquelas ali. –Respondeu o homem apontando. –Estão devidamente arrumadas embora só disponham de uma cama cada... A propósito, eu me chamo Thomas.
–Perdoe-nos Thomas. –Disse Nicolau. –É que estamos viajando a um bom tempo esquecemos as boas maneiras. Estes são Lucas, Robie e Gibby e essa claro, a Sam.
–Uma moça muito bela. Sabe, tenho uma filha da sua idade.
–Obrigada. Ficarei feliz em conhecê-la assim que tiver oportunidade.
–Vai ser difícil. Não são todos que aceitam a ideia de passar a vida numa vila pobre no meio da floresta por um problema que gerações passadas tiveram com a família real. –Ele sorriu tristemente. –De qualquer modo, sejam muito bem vindos!
Os cinco agradeceram e se encaminharam as cabanas designadas a eles completamente dominados pela fadigas e agora também abatidas pelas palavras daquele homem que parecia sempre carregar o sofrimento nos olhos.
–Sam, por quanto tempo ficaremos? –Perguntou Robie.
–Não sei. Mas ainda devem estar me procurando. Vamos aguardar mais algumas semanas e então partimos.
–Vai mesmo entregar os papéis que encontrou ao rei Teodoro? –Indagou Gibby.
–Não sei, temo um embate violento precisamos pensar melhor no que fazer. Deixemos isso pra mais tarde, certo?
–Tudo bem, vamos entrar. –Disse Lucas. –Espero que tenha comida lá dentro.
Sam tentou rir, mas o cansaço a impeliu para dentro da cabana sem dizer mais nada aos outros. Era maior do que parecia por fora, a porta possuía um mecanismo que a por dentro o que a tranquilizou bastante, não lhe agradava a ideia de dormir sozinha em meio a uma comunidade estranha mas se não havia outra maneira aquilo ao menos amenizava a situação.
Completamente fatigada, ela sentou sobre o colchão limpo, porém desconfortável sem perceber nenhum desses detalhes abriu a bolsa surrada e retirou de dentro de um livro onde havia escondido documentos que conseguira no castelo e os analisou.
Aquilo não era o que procurava, mas ainda assim era comprometedor o suficiente para deixar o rei em maus lençóis. Tratava-se de anotações pessoais do monarca onde era possível concluir que ele ambicionava se ornar uma espécie de imperador e subjulgar os reduzir a autonomia dos reinos aliados.
Ela suspirou e escondeu novamente os papéis dentro da capa de um livro se perguntando em que momento sua fidelidade para com o próprio povo havia mudado por completo. Sabia que não seria capaz de fazer aquilo com Freddie, mesmo o pai desse sendo merecedor. No máximo o que poderia fazer era deixar o rei Teodoro em alerta, mas jamais entregaria aquelas provas a ninguém, seriam queimadas assim que se sentisse em segurança, por hora eram a única arma que possuía contra o homem que ela acreditava persegui-la.
Ela pôs a bolsa em baixo da cama e em poucos segundos se deixou dominar pelo cansaço sucumbindo a um sono profundo, único momento em que sua mente conseguia fazê-la acreditar que ainda haveria espaço para a felicidade em sua vida.
Algumas semanas depois, quando retornava de uma visita a um amigo adoentado na cidade, Freddie deparou-se, ao entrar no castelo com uma movimentação estranha de alguma criadas e, mais adiante com uma enorme mesa arrumada no salão principal onde outras criadas aguardavam para servir o jantar. Freddie se perguntou o porquê de tudo aquilo e concluiu que devia ser algum convidado que receberiam aquela tarde, o que o deixou aborrecido dado o fao que pretendia descansar.
Ele dirigiu-se apressadamente até as escadas que davam acesso ao quarto afim de se trocar mas foi detido no meio do caminho por um ruído vindo da biblioteca. Pareciam risos, vozes pessoas conversando animadamente sobre algo desconhecido mas que certamente devia ser bastante interessante amanha era a empolgação.
Enquanto ajeitava as mangas do casaco, ele caminhou até o cômodo cuja a porta estava entreaberta e surpreendeu-se diante da imagem que viu. Sentadas ao redor de uma mesa, estavam Carly e uma garota, de cosas para a porta, os cabelos castanhos presos num coque alto e elegante, trajando um vestido cor-de-rosa belo e volumoso.
–Olhe só. –Disse Carly. –Aí está ele, Charlote.
A moça levantou e virou-se com um belo sorriso no rosto que despertou em Freddie uma mistura de surpresa e frustração. De certo modo, estava feliz por ver a prima, que se tornara uma grande amiga, mas causava-lhe um terrível pesar saber que ela não estava ali apenas como amiga. Era como se aquilo representasse o fim, não haveria mais retorno teria que passar o resto da vida ao lado de alguém que não amava.
–Que surpresa. –Disse Freddie sem conseguir sorrir.
–Surpresa? –Perguntou aproximando-se. –Só pode estar brincando, recebi a carta do seu pai há algumas semanas me convidando! Ele disse que você queria me convidar, mas ficou sem jeito, sabe que não precisa disso comigo, estou à frente do meu tempo.
–Sei. –Respondeu com a expressão ainda mais vazia. –Estou feliz em vê-la, como vão seus pais?
–Bem, obrigada. Minha mãe veio está lá em cima descasando, meu pai ficou em Veneza. Estava dizendo a Carly que vocês têm o palácio mais belo que já vi.
–Grazie. –Respondeu Freddie com o que devia ser um sorriso.
–Bom, agora que o meu querido irmão chegou, deixarei vocês conversarem um pouco a sós. Nos vemos no jantar.
A garota deixou o cômodo apressadamente deixando os dois ali sozinhos, Freddie fitando o nada buscado algo que lhe ajudasse a se livrar da terrível sensação de que chegara ao fim da linha. Ali estava a sua noiva, a jovem a quem ele estava destinado a viver por toda vida mesmo antes de nascer, o que naquele momento lhe pareceu no mínimo mórbido.
–Sente-se aqui. –Disse ela apontando a cadeira onde antes estava Carly.
Ele assentiu e esperou que a garota sentar-se e fez a mesma coisa logo em seguida.
–Agora conte-me o que tem feito desde que voltou. –Disse ela com um belo sorriso.
–Nada de mais. –Respondeu. –Apenas tenho auxiliado meu pai em assuntos de pouca importância.
–Sempre tão modesto... Carly me contou sobre o poder que você tem sobre as palavras, acho isso admirável.
–Obrigado, mas a Carly sabe ser exagerada quando quer.
–Pode ser, mas eu já o ouvi discursando entre as pessoas e não diria que ela exagerou em nada do que me disse.
–Agradeço mais uma vez. Mas e você o que tem feito?
–Tenho lido e acompanhado meus pais em muitas viagens. Fico impressionada com a beleza dos mais diversos lugares. Há um vale na Suíça que visto de cima parece uma pintura, é fantástico!
Ela se pôs a falar sobre as viagens que fizera durante o último verão, às mais diversas cidades que compunham o vasto reino de sua família e de como ficava maravilhada com a alegria com que eram recebidos. Charlote se expressava extremamente bem, tinha voz agradável, delicada como ela, que parecia ficar mais bela a cada dia. Uma das coisas que sabia fazer muito bem era cantar, mas raramente o fazia por timidez.
Por alguns instantes, Freddie se permitiu acreditar que seu destino não seria dos piores, a prima era uma moça bonita, distinta e possuía uma boa índole, não poderia ser tão difícil viver ao lado dela.
Mas por mais que se relutasse, seus pensamentos sempre o levavam a recordar da beleza e espontaneidade de Sam, que mesmo em seus trajes pobres, era muito mais bela que Charlote e mesmo sem as instruções e experiências dessa, era mais inteligente. E ele não sabia se deixaria de amar Samantha ainda que ela perdesse em todos os aspectos em que superava qualquer outra garota que ele conhecesse.
Bastava lembrar da forma como as vezes surpreendia-a encarando-o com um olhar fascinado e de como as faces dela coravam quando os olhares de ambos se encontravam. Ela ficava irritada e inventava uma briga, ou qualquer coisa que quebrasse aquele constrangimento entre os dois. Era inútil tentar sobrepor a traição ou a pobreza da garota aos seus sentimentos em relação a ela, eles pareciam aumentar a cada dia.
–Só pode ser castigo! –Murmurou.
–O que? –Perguntou Charlote surpresa pela interrupção. –Acha que não fiz bem em pegar a estrada direta em vez de passar primeiro pelo condado?
–Como? Desculpe, estava um pouco distraído...
–Ouviu alguma coisa do que eu disse? –O sorriso havia sumido dos lábios dela.
–Por favor, me perdoe foi uma breve distração.
–Sei. –Ela levantou-se indignada. –Deve estar mesmo muito cansado, vou deixa-lo descansar.
–Eu sinto muito. –Disse levantando-se. –Podemos conversar outra hora.
Ela sorriu friamente e deu as costas ao jovem que ficou ali, extremamente envergonhado por aquele novo descuido. Não bastasse ter esquecido o nome de uma jovem na própria festa, ocasionando um terrível constrangimento, agora deixara Charlote falando sozinha, estando bem na frente da moça.
Ele sentou novamente na cadeira e esfregou o rosto sentindo-se atônito por toda aquela situação. De certo modo, tentava se convencer de que a ideia do pai não havia sido tão ruim quanto parecia afinal, conseguira se conformar com o casamento uma vez, talvez não fosse difícil repetir o processo.
Mas não percebia que diferente de antes, agora havia o fato de que seu contato com Sam havia sido muito mais intenso, não eram mais crianças, mas sim adultos altamente cônscios do que estavam fazendo. Ele a havia pedido e casamento, sentia-se responsável por ela independente dela ser uma traidora. Principalmente por que no fundo ainda era a menina descabelada com quem por diversas tardes brincara no bosque, o que o fizera perceber que o verdadeiro amor independia da quantidade de ouro que alguém possuía.
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