Meu mundo é você
14 De novo
Notas iniciais
Ele abriu os olhos desejando voltar a dormir por pelo menos mais dois dias. E ao acordar, ter esquecido por completo o que fizera durante a noite. Não bastasse ter beijado uma criada, ainda havia colocado a moça numa situação difícil, atacando contra a sua honra. Estava tudo muito confuso. Durante o beijo, foi como se o seu corpo estivesse em chamas, por mais que tentasse negar, havia gostado do que fizera e o fato dela ter correspondido lhe encheu de uma alegria inexplicável.
Sentia ódio de Sam. Ela era uma criadinha que se aproveitava da amizade que tinham quando ele era apenas um garoto ingênuo e se deixou encantar pelo brilho dos seus olhos azuis, pelo belo movimento dos seus fios loiros, pelo seu sorriso, sua inteligência sagacidade, senso de humor e muitos outros atributos. Era uma pessoa digna de ódio e desprezo, disso ele estava convicto.
Lembrava-se de quando, ao tentar rouba-lhe uma fruta (que ele nem ao menos lembrava qual era), ela caíra por cima dele e la permanecera por vários segundos. Ele não fez grande esforço para sair. Gostava do contato com ela e se aproveitava de suas brigas para desfrutar da proximidade que elas lhe proporcionavam. Quando conseguiu se levantar, a fruta caiu e rolou pro outro lado e nenhum dos dois fez nenhuma menção de pegá-la. Permaneceram se olhando nos olhos, ela ainda sentada sobre suas pernas, sozinhos no meio do bosque. Estava quase escurecendo e mais uma vez os lábios dela lhe causavam um grande magnetismo. O pio de uma coruja a assustou fazendo-a levantar com um sorriso confuso e divertido. Lindo.
–Devia tê-la trancafiado na masmorra! –Resmungou descendo da cama. –Quem ela pensa que é para me beijar? Se ela não tivesse feito aquilo, eu não teria perdido a cabeça, sei que não.
Após se higienizar, Freddie começou a se vestir apressadamente. Precisava tomar alguma providencia, garantir que ela ficasse em silencio, e mais do que nunca que ela saísse dali. Isso era necessário, por que ela era alguém que ele odiava e precisava manter distante, e não porque, o quer que sentisse por ela, o fazia esquecer de suas posições sociais. Essa era a ideia que Freddie se esforçava para construir em sua mente.
–Não Sam. –Dizia Gertrudes. –Terá que esperar um pouco. O baile de boas vindas do príncipe é daqui a uma semana, precisamos de todas as criadas. Depois ainda terá que aguardar até que eu encontre alguém para ficar em seu lugar.
–Mas eu preciso ir embora.
–Por que?
–Por que eu quero! Não aguento mais a rotina, entenda é muito exaustivo.
–Terá que suportar. Sei que pode, é jovem. Agora deixe de reclamar e va descascar as batas.
A mulher voltou a fazer anotações, referente aos pagamento das criadas, ignorando a permanência de Sam ao lado da pequena mesa. As outras cinco mulheres que cozinhavam e limpavam a enorme cozinha, assistiam caladas sem entender o que havia dado na jovem que até ontem não apresentava qualquer sinal de exaustão em relação ao trabalho.
Ela voltou a descascar as batas, resignada e desolada. Queria desesperadamente sair dali, mas precisava ter calma. Se precipitar poderia evidenciar alguma coisa. Se perguntava o que havia dado nela para ter feito o que fez. Sentia-se estúpida por permitir que as grosserias de Freddie lhe despertassem tamanha atração. Por que ele não poderia simplesmente fingir que ela não existia?
Um rapaz alto entrou na cozinha um tanto esbaforido, com duas correspondências nas mãos. Aproximou-se de Sam com um sorriso simpático e disse que havia um tal Robie do lado de fora querendo falar com ela. Ela assentiu prestando atenção nas cartas. Uma era destinada ao rei, e outra a Freddie. Algo lhe dizia que precisava saber o que havia no conteúdo da carta destinada ao rei. Não importava, aquilo já não seria mais necessário.
Assim que Gertrudes saiu da cozinha, Sam esperou as outras mulheres se distraírem e saiu. Quando descia os degraus da porta da cozinha, já no lado de fora, avistou Robie perto da estrada, aguardando-a. Ele sorriu insinuante ao vê-la, e se aproximou com as mãos nos bolsos.
–Oi.
–Eu estou trabalhando...
–Nossa!
–Desculpa. Eu to um pouco nervosa. O que houve?
–Seu pai pediu pra avisar que esta de partida. Volta daqui a alguns meses. Queria se despedir.
–Ele vai ver o conde?
–Sim. Algo sobre o plantio parece que não foi bom esse ano...
–Obrigada. Quando ele vai?
–Amanhã.
–Não posso prometer, mas verei o que posso fazer, há muito trabalho aqui. Vão fazer um baile para vossa alteza. –Disse girando o globo ocular.
–Falando nele... –Disse olhando por cima do ombro de Sam. – Eu já vou indo. Dizem que o humor do príncipe não é dos melhores...
–Tudo bem.Até mais ver, obrigado.
Robie sorriu para Sam, e após fazer uma breve reverencia ao outro rapaz que se aproximava, montado em um belíssimo cavalo branco, subiu na carroça e se foi. Sam soltou um longo suspiro antes de se virar. Não foi necessário. Ele se prostrou em sua frente com um ar mal humorado.
–Achei que fosse paga para trabalhar.
–Bom dia, alteza.
–Va selar um cavalo.
–Mas vossa alteza já esta...
–Um dia eu espero que pare de questionar minhas ordens. Va selar um cavalo e me encontre no bosque. Precisamos conversar. Se alguém lhe perguntar, diga que eu ordenei que fosse a cidade me compra um... Pente.
–Um pente?
–É. Eu sempre desconfiei que você desconhecesse a existência desse objeto.
–Ora, o que quer dizer?
–Já percebeu que é a única que deixa o cabelo pra fora da touca?
–Apenas minha franja!
–Justo na frente. Quando se inclina sobre alimentos que prepara há um grande risco de que alguns fios caiam sobre eles.
–Não, não há. Eu passo uma pasta neles, os fios ficam mais pesados e não caem. E também prendo a parte de cima com uma faixa!
–Va selar o seu cavalo. Não gosto de esperar.
Sam teve que se controlar para não rir. Sempre que ele mudava bruscamente de assunto era por que havia se dado por vencido. A ideia de conversar com ele longe dali não lhe desagradava de um todo. Apenas se preocupava com suas atitudes impulsivas em relação a ele. Quando voltou, já montada ele não estava mais na estrada.
Sam seguiu até a clareira onde costumavam se encontrar. Sair do castelo lhe fez muito bem. As paredes úmidas da cozinha e de seu pequeno quarto a sufocavam, e ela não lembrava a ultima vez que cavalgou pelo bosque, sentindo o vento no seu rosto.
Na clareira, Freddie estava de pé, encostado em um tronco e a olhava atentamente enquanto ela se aproximava. Seu rosto não demonstrava absolutamente nada, e isso a irritava. Se aproximou com a mesma expressão fria e perguntou enquanto descia do cavalo:
–O que deseja, alteza?
–Primeiramente dizer que não tive a intenção de agir daquela maneira transloucada ontem a noite.
–Eu é quem peço desculpas.
–Naturalmente. Não preciso dizer para ficar em silencio, não é?
–Não. Também queria dizer que após o baile, eu irei embora. Você esta certo, não é bom que eu fique aqui.
–Aquele é o tal Robie? –Perguntou com uma súbita tranquilidade. Sam já o mencionara antes, e mesmo sem ver o garoto, passou a não gostar dele apenas pelo que Sam contava.
–É. –Respondeu confusa. Não entendia o propósito de tal pergunta. –Ele veio me avisar sobre a partida do meu pai.
–Não me interessa. –Respondeu dando de ombros. –Não volte a interromper seu trabalho para flertar.
–Eu não estava fazendo isso! –Disse chocada. –Vossa alteza esta indo longe demais!
–Baixe a sua voz. Veja como fala comigo.
–O que acha que eu sou? Esta me ofendendo! –Agora havia certa tristeza na voz da garota.
Desconcertado, Freddie se perguntou o que dizer. Os olhos da garota encheram-se subitamente de lagrimas. Ainda que ela estivesse flertando, isso o devia deixar aliviado. O isentava de culpa ou responsabilidade por ter se envolvido com ela. Mas o jeito como o rapaz olhava pra ela lhe causou um ódio mortal, quase incontrolável. Mas cometera um erro ao dizer aquilo com tamanha frieza. A beijara numa noite, e a agora a acusava, sabendo que não havia a menor possibilidade de repar o seu erro.
Ela já ia embora, quando a segurando pelo braço, ele a olhou nos olhos de forma suplicante.
–Tudo bem, sei que ele só estava lhe trazendo noticias do seu pai. Não precisa ficar assim.
–Me solte! –Disse puxando o braço com violência. –Não tem o direito de me destratar.
–Não te destratei! Quer me dizer que não existe nada entre vocês?
–Não! Não existe! Ele é um amigo, muito querido que me trata como um ser humano! Você me escorraça como se eu fosse um animal!
–Não te trato assim! Como você quer que eu te trate?
Não era um a pergunta irônica, ele realmente não sabia como agir em relação a ela. Se arrependeu pela pergunta, que demonstrava parte de sua fraqueza em relação a ela. Sam enxugou impacientemente as duas lagrimas que caia e o encarou mais calma. Ele parecia aturdido e preocupado com sua súbita crise de nervosismo. Freddie se aproximou receoso, pondo-se na frente dela e sem saber o que fazer segurou a mão da garota. Ela levantou os olhos surpresa com o gesto, e não percebeu a proximidade que havia entre eles. Ele parecia querer dizer algumas coisa, mas não disse. Aproximou os lábios entreabertos, fechando os olhos lentamente.
–Isso é errado. –Sam balbuciou com dificuldades, fazendo-o retroceder.
Ele baixou a cabeça, encostando suas testas. Abriu os lábios, ainda tentando dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Sam fez um movimento lento deixando seus rostos colados, ignorando o quão arriscado era aquilo. Mais pra ela que pra ele. Ele poderia se livrar dela facilmente, até mesmo prende-la se assim desejasse, ou apenas ir embora deixando-a sozinha com seus sonhos impossíveis novamente. Mas quando voltou a si já tinha os lábios unidos aos dele, bem como todo o seu corpo num abraço extremamente apertado. Aquilo era errado, proibido, quase um crime. A língua dele entrelaçava-se a sua lhe proporcionando um prazer indescritível, e ela se viu sem forças para afasta-lo.
Aos poucos, eles afastaram os lábios em busca de ar ainda ávidos por mais.
–Isso é errado... –Repetiu ofegante.
Freddie fez um movimento tencionando se afastar, mas Sam o beijou novamente. E depois ele a beijou, até que ela finalmente reuniu forças e se afastou. Estava tremula e ofegante, se odiando por ter permitido que ele se aproveitasse dela tão facilmente. Ele não fez menção de impedi-la parecia ainda mais envergonhado e arrependido. Sem dizer mais nada, ela subiu no cavalo e partiu. Freddie tentou pedir desculpas, ou qualquer outra coisa, mas achou melhor que ela se fosse, poderia se desculpar depois.
Foi um erro terem ido para o meio da florestas sozinhos. Não eram mais crianças e a as coisas haviam mudado. Freddie lembrou-se de quando cogitou a possibilidade de toma-la como esposa. Se perguntava como podia sentir tanta atração por aquela garota simples. Não era apenas uma amizade, era mais, muito mais. Mas daria um jeito de se livrar daquele sentimento, afinal não havia nada que não pudesse fazer.
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