Meu mundo é você
11 Café da manhã
Notas iniciais
Ela caminhou com um sorriso indecifrável e sentou numa cadeira ficando de frente para o jovem que tivera a leitura interrompida por ela. Não parecia disposta a ler ou perguntar mais nada a respeito da viagem que não fosse o essencial para ela. E que se não perguntou antes foi por que não sabia que não ficaria bem.
–O que houve?
–Nada. –Ela respondeu tranquilamente. –Mas ontem você mal falou dos Smiths...
–Estão bem. –Ele fez menção de voltar a leitura. –Até demais.
–Ah, Freddie deixe de ser insensível, como esta o Vincent?
Freddie deixou um sorriso de falsa surpresa escapar dos lábios e mirou a irmã que parecia constrangida com a situação e muito aborrecida com ele. Mas logo retirou o sorriso do rosto e assumiu um ar paternal e severo.
–Esta bem. Não devia ficar perguntando por ele a mim, não são mais crianças...
–Mas pelo visto você não vai sair dos oito anos de idade. O que custa? Só dizer como ele esta!
–Bem, Carly. Agora tenha um mínimo de compostura e procure algo de interessante para ler em vez de ficar perguntando por rapazes. Não fica nada bem.
–Não perguntaria se você me dissesse! –Ela levantou furiosa se encaminhando para a porta. –Há uns amigos de papai na sala que desejam falar com você.
–Por favor, diga que estou descansando...
–Não. –Retrucou emburrada.
–Então não falo o que o Vincent pediu pra dizer...
–Eu volto num instante. –Ela saiu quase correndo com um sorriso tímido no rosto.
Freddie sorriu observando a irmã sair depressa e ansiosa. Pensou em Charlote. Seus traços delicados, seus cachos negros caindo sobre o rosto. Tinha uma voz fina e geralmente sua voz soava baixo. Era sem dúvidas muito bela, e casar com ela não seria um sacrifício tão grande. Alem disso, tinha uma obrigação a cumprir. Ele não era uma pessoa comum, estava convicto de que não podia casar por motivos comuns. Mas desejava sentir de fato, algo mais forte em relação a ela. Uma paixão que fosse alem de um sentimento fraternal. Muito se esforçava para isso sem sucesso.
Deixou o livro de lado e se pôs a caminhar pela biblioteca em busca de outros. Quando percebeu, já se encaminhava para a janela. Dali,se tinha uma visão mais ampla da estrada e uma ponta do bosque. As lembranças começaram a encher sua mente de uma forma cruel, e ele voltou a sua cadeira tentando retomar a leitura.
Haviam seis malas e dois baús abarrotados de roupas, sapatos e objetos que ela sequer saberia identificar. Aproveitava a oportunidade para procurar pistas. Não havia absolutamente nada por ali. Começou então a guardar as roupas em ordem tentando não se distrair com o perfume que as coisas dele exalava. Sam já havia aceitado a ideia de que mais cedo ou mais tarde acabariam por se cruzar. Ele provavelmente não falaria com ela, e se falasse não seria mais que um “oi” frio e indiferente. Era melhor assim.
Não era fácil para ela estar ali, em diversos aspectos. Assim que ele lhe deu a ordem, pensou em pedir a outra criada que fizesse isso, sob a desculpa de estar fazendo outra coisas, mas achou melhor acatar a ordem que lhe foi dada. Pensava no que ele diria se a encontrasse ali. Era uma sensação dual. Queria vê-lo e não queria. Nos dois casos seria bom e ruim. Sam estava tão confusa que algumas lágrimas rolaram pela sua face sem que ela percebesse. Era demais pra sua mente.
–Se esse idiota não tivesse voltado agora... –Murmurou. –Mas não, ele tinha que aparecer!
Quando deu o serviço por terminado, saiu sorrateiramente do quarto tendo o cuidado de verificar se ele não estava por perto. Se perguntava até quando aquela situação iria durar. Ela tinha um pressentimento de que tudo seria mais difícil agora. Não sabia explicar por que, mas tinha, e raramente se enganava.
Por volta das oito da noite, uma luxuosa carruagem estava parada na frente do castelo. Freddie desceu as escadas tentando conter a ansiedade. Seria sua primeira aparição em publico desde que voltara, e ele mal podia esperar para ser bajulado a ponto de se aborrecer. Era possível afirmar que aquele rapaz acreditava não se distinguir de um deus.
–Você demorou. –Disse Carly assim que ele sentou no banco ao seu lado. –O seu amigo não vem?
–Preferiu ficar lendo no quarto.
–Você não esta esquecendo de me dizer nada?
–Ah claro. O Vincent disse que até hoje ri daquele dia em que você caiu após tropeçar no vestidos.
Carly fechou a cara aborrecida com a gargalhada que Freddie soltava e assim permaneceu durante todo o passeio. Teve de se conter para não chorar. Não era justo que seu jeito desastrado chamasse mais atenção que o seu rosto e suas roupas. Sempre pareceu que Vincent gostava dela, mas pelo visto, estava enganada. Nem mesmo uma carta escrevera durante tantos anos.
O teatro real era uma antiga construção no estilo barroco. Com uma grande escadaria na frente, abrigava dentro todo o luxo parisiense. As cadeiras vermelhas e luxuosas serviam de assentos as mais renomadas pessoas da corte. Aquela noite, a opera importava menos do que a presença do príncipe recém-chegado. As moças queriam vê-lo, em função de sua beleza. Os nobres queriam cumprimenta-lo de modo a obter sempre suas vantagens políticas. Mas ele se limitava a um breve aceno com a cabeça, não importava quem falasse com ele.
Ele entrou caminhando ao lado da irmã, com um lindo sorriso no rosto e subiu ao camarote de honra.Sentaram-se e observaram os pais tentando se desvencilhar de algumas pessoas nas escadas. Freddie mantinha seu magnífico sorriso, que naquele momento era mais de deboche do que de gentileza. O desespero daquelas pessoas em se apresentarem a sua majestade o fazia sorrir.
Voltou-se para Carly, mas ela tinha o semblante sombrio, ainda por causa da piada. Freddie não acreditava que houvesse melhor partido para Carly do que Vincent, mas ele parecia muito indeciso, e isso fazia Freddie temer que Carly acabasse magoada, caso ele se intimidasse na hora de fazer o pedido a ela. Afinal, não era qualquer uma.
Sentiu um pouco de pena, mas não via motivo para tanto.
–Carly, melhore essa cara, vão pensar que veio obrigada!
–Estou pouco me importando pra o que eles pensem.
–Pois devia. Ora, não fique assim pelo o que eu te disse. Não espera que eu alcovite um namoro entre você e o Vincent não é?
–Quem disse que quero namorar com ele?
–O papai e a mamãe estão chegando. –Disse se voltando para o palco com um sorriso agradável.
Quando a orquestra começou a tocar, Freddie relaxou um pouco esquecendo os seus problemas por algum tempo. Lembrou-se de quando conversava com uma amiga de infância sobre tais apresentações. Ela nunca havia visto uma, mas mostrou enorme fascínio quando ele se pôs a descrever o que sabia sobre música clássica na época. Geralmente ela fazia pouco com o que ele contava, mas nas poucas vezes em que o levava serio, adquiria um brilho especial no olhar que sempre o fascinava. Parecia se transformar em outra pessoa.
–Não fosse tão pobre poderia ir a uma... –Dizia sorrindo sarcasticamente.
Ela não respondeu. Abaixou o rosto e se pôs a brincar com algumas folhas que havia perto dos seus pés. Estavam sentados a sombra de uma imensa arvore, em uma manhã nublada. Após desistirem de perseguir um coelho, em função de uma aposta, sentaram-se exaustos.
–Hã... Eu não quis ofender...
–Esta com pena de mim, Freddie?-Ela levantou o rosto com uma expressão desafiadora.
–Não!
–Esta sim. –Ela sorria diabolicamente.
–Ah eu não sou grosso como você.
–Repete.
–Grossa! Não se atreveria a me bater.
Ela avançou pra cima do garoto puxando-lhe os cabelos com força, arrancando dele mais risos que gritos. Ele pedia que ela parasse sem convicção alguma, surpreendia-se ao não se sentir repugnado sempre que ela estava tão próxima. Fazia mais de um ano que mantinham uma amizade, e ja era comum os ataques dela. Da primeira vez se enfezara o bastante a ponto de gritar de forma rude com ela. Acabou pedindo desculpas mesmo sendo o agredido. Com o tempo descobriu que só havia um jeito de lidar com ela.
Com um pouco de esforço, ele a deitou sobre a relva e a cobriu de cócegas. Ela ficava vermelha de tanto rir, e pedia aos gritos que ele parasse. Era a vez dela de se desculpar. Muitas vezes, quando isso acontecia, e ele ficava prendendo-a com os braços, Freddie sentia imensa vontade de juntar os lábios aos dela. Sentia certa culpa por tais pensamentos, mas era inevitável. Ele não sabia explicar, era mais forte do que ele, ao observar aquele sorriso tão belo que ela tinha.
–Desculpe.
–Desculpada. –Ele levantou deixando-a livre. –Mas que isso não se repita.
–Então não de lugar...
–As vezes me pergunto por que não corto sua cabeça.
–Por que sabe que eu voltaria pra puxar seu pé.
–Deve ser. Vem, vamos achar o coelho.
Freddie suspirou em sua cadeira luxuosa se perguntando por onde andaria Samantha Puckett. Provavelmente nunca mais a veria. Perguntar por ela a quem quer que fosse seria suspeito, ele preferiu deixar que um dia, ao caso soubesse qualquer noticia da garotinha que vendia maçãs. Que ela estivesse bem e feliz, conservando seu lindo sorriso.
Os dias se seguiram sem novos acontecimentos. A única coisa que Sam conseguia encontrar eram papeis completamente insignificantes e até mesmo textos poéticos que o rei escrevia. Todos horríveis. As vezes, durante a noite, passava horas verificando em cada cômodo que tinha acesso, cada gaveta, esconderijos secretos em paredes, vasculhando, verificando, mas não encontrava absolutamente nada.
Procurar uma espada, que até onde sabia, havia sido roubada de um reino para incriminar outro não pareceu ser uma tarefa tão fácil quanto ela achou. Mas ainda acreditava conseguir alguma carta ou documento que provasse a culpabilidade de monarca a quem ela servia. Sam nunca se sentiu francesa. Nunca sentia pertencente a lugar nenhum, e isso as vezes lhe causava mal estar.
Em uma manhã chuvosa, ela acordou cansada por passar a noite vasculhando. Higienizou-se, escovou os longos fios capilares muitas demoradas vezes e vestiu-se. Embora não fosse muito vaidosa, Sam gostava de se manter limpa e bem arrumada, isso era uma das poucas coisas que lhe fazia bem. Era o único sentido no qual podia cuidar verdadeiramente de si.
Ao sair do quarto, encontrou a cozinha já tomada pelas outras criadas. Pôs-se a trabalhar arduamente em companhia delas, enquanto conversavam sobre diversos assuntos. Foi quando Eliza, uma mulher de meia idade, magra e de voz esganiçada começou a falar:
–Vossa alteza não mudou nada. A mesma gentileza de antes, não é? –Perguntou com ironia, referindo-se a uma ordem que ele lhe dera de modo áspero outro dia.
–Fale baixo mulher! –Pediu outra criada. – Quer ir pra guilhotina por traição? Ele ainda é jovem, depois muda.
–Muda coisa nenhuma, dissimula, isso sim. –Respondeu Amália, uma senhora baixa e corpulenta, quase sussurrando. –Trabalho aqui a vinte e cinco anos, eu o vi nascer. Aquele rosto de anjo pode enganar a qualquer um, menos a mim!
–O que queriam? Ele é o futuro rei, ora...
Sam assistia a discussão calada, absorvendo cada frase. A maioria defendia Freddie afirmando que se tratava apenas de um adolescente cujo poder lhe subira a cabeça, ou mesmo dizendo que sua beleza compensava a arrogância dele. Mas algumas afirmavam que de fato ele não era boa coisa. Sam sentiu ímpetos de defendê-lo, mesmo concordando plenamente com as que falavam mal.
Já eram nove da manhã quando as bandejas começaram a ser preparadas. Quando Gertrudes veio ordenar que levassem á mesa, obervou que a fila estava incompleta. Poliana adoecera e se encontrava de cama. Não faltavam substitutas, mas todas se mostravam em demasias dispostas a substituí-las. Sabe-se Deus por que, elas consideravam uma honra servir a família real. Gertrudes acabou por escolher a única que parecia relutar, mantendo o rosto baixo na tentativa de passar despercebia.
–Sam, leva a ultima bandeja. –Ela ordenou.
–Estou um pouco ocupada, eu...
–Certamente o que esta fazendo não é mais importante que servir a família real. Agora ande!
Sam suspirou resignada e pegou a bandeja com quatro grandes tigelas onde havia uma espécie de cereal dentro. Caminhou junto com as outras até a sala de jantar. Pensou que se ficasse com o rosto baixo, talvez ele não a reconhecesse. Freddie mal olhava no rosto de pessoas que ele considerasse inferior, certamente não observava o rosto das criadas.
A mesa ainda estava vazia. Elas arrumaram tudo, e quando acabaram, as cinco ainda ficaram aguardando que eles descessem, comessem e terminassem. Tinham que ficar disponíveis pro caso de precisarem delas.
A demora parecia consumi-la por dentro, enquanto o céu parecia querer desabar la fora. Quando ouviu o ruído dos longos vestidos se arrastando pelo o corredor, estremeceu. Os passos se aproximaram, e aos poucos, eles foram entrando, alguns conversando baixo entre si. Primeiro veio Carly sozinha. Depois o casal, e por ultimo, O monge e o príncipe. Sam se perguntava como ele havia conseguido ficar ainda mais bonito. Tentou ignorar o calafrio que a presença dele lhe causou, atribuindo aquilo aos raios que caiam la fora.
De certo, nenhum deles lançou um misero olhar, tampouco um bom dia a nenhuma delas. Para a sorte de Sam, Freddie sentara-se de costas para ela. Era difícil descrever a sensação. Os cabelos brilhantes e sedosos, a mesma cor dos olhos dele projetados há alguns metros dela lhe davam uma sensação indescritível. Tudo que queria era perguntar o porquê daquele ultimo ato no dia em que se despediram. Nada alem do motivo. Em hipótese alguma acreditava que havia sido correspondida em relação aos seus sentimentos.
Uma criada tocou o braço de Sam com os cotovelos retirando-a dos seus devaneios. O monge Paul havia derrubado um pouco de suco sobre a mesa. Tudo o que saltou foi um muxoxo impaciente. Nenhuma das outras empregadas fez menção de limpar, pois isso competia a ultima da fila. Ela mesma. Em um canto distante, havia uma mesa com alguns panos para tais situações. Timidamente, ela se dirigiu até la e após pegar um de tecido felpudo virou-se para a mesa. Quando retornou para efetuar a limpeza, teve de dar a volta ficando de frente para Freddie.
Carly falava alguma coisa sobre um vestido que encomendou a meses atrás, e estava atrasado enquanto Freddie comia um cereal com uma elegância desnecessária. Todos fingiam prestar atenção, enquanto se perdiam em seus próprios devaneios. Mas Freddie de fato a ouvia. Ele tinha um sorriso discreto e a olhava com atenção enquanto comia um cereal com uma elegância desnecessária. Mas seu sorriso sumiu no instante em que ele parou a colher no ar ao lançar um rápido olhar a jovem que limpava a mesa.
Notas finais
http://www.youtube.com/watch?v=q13B1dfUqk8&feature=related
foi o que eu achei da época kkkkkk
Então, por favor deixem seus reviews, e até a prx!!
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