Meu mundo é você
7 Um gesto, três palavras
Notas iniciais
–Não!
–Eu não lembro de ter te dado alternativas!
–Eu não quero ir!
–Mas você vai!
Dentro de um dos casebres da aldeia, em um quarto, uma discussão se acirrava. Ela se dava em torno de uma questão ja resolvida. Qual das duas ali presentes, levaria uma cestas de maçãs ao palacio. E embora ja estivesse decidido, a garota incubida para a função se mostrava relutante em acatar o que lhe foi ordenado.
A mulher deu um longo suspiro e se aproximou da cama passando a mão nos longos cachos loiros da filha. Ela não parecia estar fazendo suas birrar rotineiras, e sim realmente triste. Desde que fora noticiada a partida do príncipe, ela parecia ter se abalado. Pam tinha certeza que era por que se aproximava o momento dela entrar em ação, ela estava aflita. Mas era necessário, futuramente, ela seria muito grata por tudo aquilo.
–Sam, isso lhe ajudará a conseguir se infiltrar no castelo.
–Eu não quero me infiltrar no castelo, tente acreditar, não pode ser eu.
–Por que não?
–Por que... Ah por que não! E alem do mais eles me conhecem, eu entreguei maçã la a vida toda.
–Mais um motivo. Eles tem confiança em você.
–Mas é que...
–Mas nada. Levante e va levar a cesta de maçãs que eu preparei. Seja gentil e tente agir como uma garota, ao menos uma vez na vida.
A garota olhou resignada da cesta para a mulher e levantou o tronco. O dia estava ensolarado, anunciando a chegada da estação das flores. As quarta-feira seriam bem vazias de agora em diante. Mas também, já devia esperar por isso. Talvez aquela fosse a ultima oportunidade que ela teria de vê-lo, ainda que fosse de longe.
–Tudo bem.
A mulher sorriu vendo a garota levantar se arrastando da cama. Em alguns minutos estava pronta. A mãe fez questão de vesti-la com um vestido menos surrado e lhe fazer uma tranca na esperança de abrandar os modos masculinos da menina que em tanto contrastavam com sua aparência frágil. Ela era perfeita, quem desconfiaria dela? A menos que ela saísse exibindo suas habilidade por ai.
Era do interesse de muitos na aldeia que Sam ingressasse no castelo. O motivo, nem mesmo ela sabia ainda, mas não havia ninguém mais apto que ela. Desde criança, se destacava por sua força. Seu corpo apresentava uma resistência maior que os demais ao frio, e pra completar, ouve o episódio da floresta. Apenas aos quinze anos os treinamentos eram iniciados. Mas Sam pareceu nascer treinada. Corajosa e ágil era perfeitas aos planos de Sir Nicolau.
Sir Nicolau era um duque suíço, que enfrentara toda a guerra travada entre França e o seu país e após a, refugiara-se com a família num povoado nas terras francesas. Após conseguir trazer grande parte do seu vilarejo em travesseias perigosas, formou um pequeno povoado. Mas desejava reaver seus direitos, suas terras e para isso pretendia usar o que sabia acerca de toda aquela história.
Sam subiu na carroça e o viu, sentado na sua cadeira a porta de uma pequena venda que havia no povoado. O velho raramente falava ao ar livre, mas quem frequentava, afirmava que ele falava e muito nas reuniões secretas.
Na estrada, observou que algumas carruagens começavam a passar apinhadas de bagagens. Pelo jeito ele iria demorar. Talvez só voltasse depois de casar. Sam não gostou de pensar desse jeito. Não entendia o que acontecia, mas isso lhe incomodava.
Em frente a praça do castelo havia outros como ela, com trecos desejando uma boa partida ao príncipe. Havia também as carruagens do restante da corte, certamente um banquete era oferecido enquanto os plebeus aguardavam embaixo do sol. Sentiu vontade de dar meia volta e se retirar dali o mais depressa possível. Caminhou com a pequena cesta e percebeu que alguns olhares se voltaram. Todos de jovens rapazes.
Uma garota linda como ela, com uma longa trança sobre os ombros, uma linda cesta de maçãs nas mãos. Muitos já haviam-na alertado quanto aos pretendentes que não tardariam a surgir. Não gostava dessa ideia. Viu Robie e Gibby a alguns metros e se aproximou.
–Que saco, não? –Ela falou se aproximando. -Um garoto vai viajar e nos somos obrigados a trazer coisas sabe-se Deus pra que.
–Não somos obrigados. –Disse Robie. –Estamos agindo por interesse.
–Não tenho interesse em nada aqui. Fui obrigada sim.
–Como quiser. –Respondeu Gibby. –Mas com uma ajudinha de um nobre facilitaria minha entrada num mosteiro.
–Pra que quer entrar num mosteiro?
–Quero estudar para ser padre!
–Entendo... Boa sorte.
A garota se dirigiu até as escadas, anunciou-se a um criado, depositou a cesta aos pés do homem e deu meia volta.
–Não vai esperar pelo rei?
–Pra que?
–Ele vai falar com a gente. Ele e o príncipe, vamos ficar pra ouvir.
–Não mesmo. Olha eu to morrendo de fome e acabei de deixar uma cesta de maçã pra gente que tem tudo! Isso é estranho!
–Você é estranha! –Disse Gibby.
–Olha quem fala... Adeusinho!
Sem deixar Gibby ou Robie responder, Sam caminhou até a carroça e subiu sem olhar para as janelas do palácio. Não soube se seguraria as lagrimas se o fizesse. Balbuciou um “Adeus, alteza” inaudível e partiu.
Nunca mais veria seu amigo que mais odiava. Nunca mais. Ele iria pra longe, e se algum dia regressasse não a reconheceria mais, e talvez fosse melhor assim. Ela tinha apenas duas opções de vida: Casar ou seguir os planos da família. Queria viajar, conhecer o mundo, viver aventuras, mas sem compromissos com nação ou noivo algum. Freddie também dizia querer isso. Vai ver eram mais parecidos do que imaginavam.
Na estrada, quando enxugava algumas lagrimas mais teimosas, teve a sensação de estar sendo seguida. Achou que fosse impressão e continuou, até perceber um vulto por trás das arvores. Parou a carroça, desceu e caminhou na direção do vulto. Quando viu do que se tratava, sentiu o medo dar lugar ao aborrecimento. O garoto desceu do cavalo e caminhou até sair do emaranhado de arvores por onde cavalgava.
–Oi. -Ele disse com a voz mais doce que ela ja ouvira.
–Não devia estar no palácio?
–Vi quando você saiu. Meu cavalo anda mais rápido que essa...
–Carroça.
–Então ta. Mas que é pavorosa é.
–Você é um idiota.
–Perdeu o medo da guilhotina aldeã?
Sam se aproximou da beira da estrada, onde ele estava apoiado em uma arvore.
–Nunca esteve falando serio quando me ameaçou não é?
–Não. –Disse rindo cinicamente. –Mas você acreditou como uma tola.
–Eu vou sentir saudades de você.
Freddie abriu a boca pra dizer um “eu também”. Conteve-se. Não podia se expor daquela forma, uma coisa era admitir que não gostava de degolar pessoas, outra era deixar as lagrimas rolarem pelo rosto revelando que sentiria ainda mais. Um “eu também” resultaria nisso.
–Eu sei. –Foi o que ele disse.
Sam sorriu tristemente e se aproximou pensando se o abraçava ou não. Percebeu que ele recuou, e isso lhe deu a certeza de que era uma péssima ideia. Nunca foram dados a abraços, ou gestos carinhosos, eram sempre xingamento e tapas, no caso dela, ou ameaças e cócegas no caso dele. Odiava quando ele fazia isso, talvez fosse melhor que devolvesse os tapas, mas ele se mostrava incapaz.
–Thau. –Disse dando alguns passos para trás.
–Thau. –Respondeu ele.
Sam caminhou rapidamente em direção a carroça, e apoiou os braços na madeira tentando subir. Quando tentava levantar o corpo, sentiu uma mão segurar seu braço. Seus pés tocaram o chão no mesmo instante. Virou-se confusa e se deparou com a imensidão que eram os olhos dele. Mas os olhos dele não miravam os seus. A principio sim, mas depois foram descendo até sua boca. Sentiu um calafrio na espinha que chegou a doer. Sentiu medo, angustia, curiosidade e outra coisa que ela não sabia o que era.
Se perguntou se ele seria capaz. Sam queria pedir que ele se afastasse, estavam expostos no meio da estrada, aquilo poderia custar caro para ela. Mas antes de conseguir pensar, sentiu a pressão dos lábios dele sobre os dela, e ao invés de repelir, fechou os olhos e segurou o rosto dele com as duas mãos encaixando os lábios nos dele. Sentiu as pernas fraquejarem, e se ele não estivesse segurando-a pela cintura, cairia.
Ele possuía um aroma e um sabor doce, envolvente, era a melhor sensação que ela já experimentara. Era como se estivesse flutuando, tudo a sua volta não existia mais. Mas existia. Alguns segundos depois, ela desvencilhou-se assustada, e se afastou. Ele estava tão absorto quanto ela.
Talvez mais, pois ela ao menos conseguiu subir na carroça e ir embora apos um timido sorriso igualmente correspondido. Suas mãos tremiam ao puxar as redeas, imaginando ele na estrada sozinho, parado. Sentiu vontade de fugir com ele. A vontade dele no momento não foi diferente.
Então percebeu que não disse nada a ele apos o beijo, achou que tivesse dito, mas se deu conta de que apenas sorrira. Um sorriso torto e nervoso. Queria ter dito, que gostou, não importava que ficasse difamada. Queria ter dito algo que ela nem sabia o que era. Mas não foi preciso. Aquele gesto resumiu as tres palavras não ditas por ambos, que revelavam o que eles sentiam, mas não foram capazes de dizer.
Fim da primeira parte.
Fale com o autor