Meu mundo é você
8 O casamento
Notas iniciais
Sam abriu os olhos lentamente. A poucos instantes atrás sonhava que estava cavalgando livremente por um imenso campo verde, ao lado de alguém que ela preferia esquecer. E agora acordava naquele quarto que odiava. Embora fosse tão pequeno quanto o seu, era mais escuro e sombrio. Não haviam ali suas coisas, nem a janela que dava vista para a aldeia. Apenas um baú para guardar suas roupas, uma cômoda ao lado cama e um pequeno basculante no alto de uma parede.
O que mais a fazia desgostar da ideia de morar ali, não eram os minúsculos quartos destinados aos criados, nem o trabalho extremamente exaustivo. E sim seus reais objetivos naquele lugar. Era uma espiã. Infiltrada no palácio real a procura de algo que ajudasse a por fim nos ambiciosos planos do rei.
Apenas ela, seus pais, Sir Nicolau e mais duas pessoas de sua inteira confiança (Gibby e Robie) sabiam quem era o espião. E de que modo ele se encontrava infiltrado entre os inimigos. Para os demais, Sam era apenas mais uma das serviçais do castelo, trabalhando muito e ganhando pouco, para ajudar a família.
Após espreguiçar-se, levantou esfregando os olhos e higienizou-se. Vestiu um vestido azul e branco, com babados na ponta, prendeu os cabelos cobrindo-os com uma touca branca e finalizou com o avental. Olhou-se no espelho e viu uma garota. Era o que todos viam. Seus dezoito anos não permitiam que vissem algo diferente. Mas era na verdade uma mulher. Capaz de fazer coisas que nem muitos homens seriam.
Saiu do pequeno quarto e deu de cara com Gertrudes, a mais velha das criadas, que poderia ser considerada também a chefe delas. A mulher era baixa, corpulenta e mal humorada. Sam não se espantava, afinal, tratava-se de uma solteirona, que mesmo tendo dedicado sua vida a família real há varias gerações, não obtinha o mínimo reconhecimento. Mas não gostava de admitir e descontava seu rancor nos seus semelhantes, gabando-se de ser a “cão de guarda” do rei.
–Sam, esta atrasada.
–Me desculpe. Não acontecerá mais.
–Assim espero. Assim que acabar de tomar seu café, va encher os toneis, e lave todas as escadarias antes que alguém acorde.
–Sim senhora.
Sam aprendeu em sua segunda semana trabalhando que não adiantava se queixa, se explicar ou nada do tipo. Era “Sim”, “Me desculpe” e “Não irá se repetir”. Ainda estava escuro quando ela caminhou alguns quilômetros até a cisterna e voltou com baldes cheios de água. Haviam outras criadas já fazendo isso, e Sam constatou que Gertrudes só a mandara fazer aquilo para testar sua obediência. E por que não havia mais nada a fazer.
–Velha imbecil. –Disse baixo.
Quando voltou, pegou alguns baldes, sabão e uma enorme escova e se pôs a limpar as escadas. Eram muitas. Apenas três precisavam ser lavadas constantemente. A da entrada, a do salão e a dos quartos. A da ala de criados e das masmorras, não era necessário. Uma varrida de vez em quando bastava. O problema é que as escadarias eram imensas, muitas em espirais, pareciam não ter fim.
Sam já trabalhava no castelo desde os dezessete anos. Um total de dez meses. Tempo suficiente para saber que não devia dizer não ao que Gertrudes mandava fazer. Ela adorava por criados para fora. Seu deleite era ver o sofrimento pelo trabalho exaustivo estampado no rosto de todos. Sam fingia indiferença ao comportamento dela, mas por dentro tinha vontade de esgana-la. Sempre que se atrasava, ou fazia algo errado, era o suficiente para a mulher impor um castigo, dobrando ou mesmo triplicando o serviço. Era assim com todos.
Diferente da velha, havia Spencer. Alegre e bondoso, fazia o possível para interceder pelos outros criados. Gertrudes o invejava por ele ser mais novo e desfrutar de muito mais confiança do rei e sua família do que ela. Spencer podia falar com a família diretamente, e caminhar por todo o palácio, a qualquer hora, inspecionando. Sempre que achasse conveniente, podia falar com o rei e esse nunca ralhava com ele.
A preocupação do rei era, era na verdade, que se um dia Carly viesse a descobrir sua história, poderia se voltar contra ele caso o irmão fosse maltratado. Spencer acabou se tornando mais que um criado. Mas disso apenas o rei, a esposa e outros poucos, muito próximos, como o próprio Spencer sabiam. Para os demais, ele era o preferido do rei por mera excelência dos seus serviços.
–Sam, o que faz aqui? –Perguntou o jovem surgindo do alto da escada do salão.
–O que parece?
–Mas a Doroteia lavou essas escadas ontem... Estão limpas.
–Ordens são ordens, ora. Mas diga-me, irá ao casamento mais tarde?
–Infelizmente não poderei. A princesa se encontra meio adoentada e pode ser que precisem de mim. Diga que desejo toda a felicidade aos noivos.
–O que ela tem? Digo, é algo serio?
–Não nada de mais. Apenas uma febre leve. Mas por via das duvidas...
–Sei, esta bem. Agora deixe-me concluir meus serviços, depois conversamos, sim?
–Tudo bem. Até mais ver!
Após lavar as escadarias, Sam voltou a cozinha onde já estava sendo preparado o café da manhã da família. Sam raramente os via. Só podia arrumar os cômodos quando não houvesse ninguém dentro para evitar que os aborrecesse, o que era muito melhor para ela. Se cruzasse com um deles tinha que baixar a cabeça, e aguardar que passassem. Agir como se fosse um móvel.
Por volta das dez hora,quando terminou de lavar as escadas e as janelas, Sam procurou Gertrudes.
–Senhora Gertrudes, eu gostaria de saber se a senhora já pensou no que eu te pedi.
–Ah, o casamento do seu amigo?
–Sim, hoje a noite. Já havia falado a três semanas atrás, é muito importante. Nos conhecemos desde criança, eu posso recompensar, e...
–Esta certo, va! Mas não ouse se atrasar no dia seguinte, esta me ouvindo?
–Sim senhora, agradeço muito.
–E claro que terá de recompensar essas horas!
–Sim senhora.
–E só será liberada após as seis. Outros cinco já haviam me pedido antes, e não posso deixar que saiam todos tão cedo de vez.
A garota sentiu seu rosto entristecer. Não poderia ver a cerimônia. Assentiu tristemente e saiu dali. Sam havia pedido para ser liberada naquele dia e hora a três semanas atrás. Não havia como alguém ter pedido antes.
As sete horas, ela já se encontrava pronta, na estrada a alguns metros do castelo esperando a carroça do pai. Trajava um belo vestido rosa, simples, mas que lhe caia muito bem. Estava acompanhada de Diego, outro serviçal do castelo, irmão da noiva, que como Sam, não conseguira ser liberado antes por mera implicância de Gertrudes.
Diego era alto, esguio, tinha trinta e quatro anos e ainda não havia se casado. Ver sua irmã caçula passar na frente lhe dava tanto alegria quanto tristeza. Conversavam algumas bobagens enquanto esperavam o transporte que não demorou a chegar.
Mas não era seu pai que guiava, e sim Robie. Ele sorriu insinuante ao vela arrumada, com os cabelos sendo balançado de leve pela brisa da noite.
–Robie, o que esta fazendo aqui? –Perguntou confusa.
–Vim leva-los até a aldeia.
–Mas e o meu pai?
–Me ofereci e ele aceitou. Algum problema, Sam?
–Não, eu agradeço. –Disse confusa – Vamos, Diego.
Os dois subiram na carroça e partiram. Sam estranhou a presença do garoto ali. Haviam terminado o namoro a três meses atrás, em mais uma de suas muitas brigas por Sam ser a espiã secreta. Ele não aceitava, e pediu que ela escolhesse entre o tesouro que a organização prometia e ele. Decepcionada, Sam terminou. Não escolheu o tesouro, e sim a liberdade que o tesouro lhe propiciaria.
A missão, era algo que ela faria em pouco tempo, ele podia esperar. O real medo de Robie era que ela tivesse mais dinheiro que ele. Queria sustenta-la, que ela dependesse dele. Natural. Mas Robie não percebia que Sam não era uma garota comum. Acabou por perdê-la. Mesmo magoada, Sam disse que queria que continuassem sendo amigos, pois confiava nele e gostava dele como se fosse um irmão. Ele lhe virou a cara dizendo que não queria sua amizade.
–O Gibby esta tão feliz... – Dizia Robie. –Vocês precisam ver.
–E a Isabel? –Perguntou Diego.
–Esta tão radiante quanto. Foi uma lástima que não tenham visto a cerimônia...
Os dois foram conversando durante todo o trajeto no qual Sam permaneceu em silencio. Não entendia o que Robie queria. Ele estava a cada dia mais bonito, alto robusto com seus cachos cobrindo sua cabeça. E tinha os olhos. Verdes. e brilhantes como duas esmeraldas. Sam evitava olha-lo, mesmo por que era difícil dada a posição que estavam, mas lembrava de todos os traços do seu rosto. Lembrava também de ver esses traços mudando, formando outro rosto, na primeira vez em que Robie a beijou.
–Chegamos! –Disse Robie pulando da carroça.
Sam saiu de seus devaneios, e desceu rapidamente pelo outro lado, ouvindo o som da musica, e dos gritos das crianças. Quando seus pés tocaram o chão, sentiu Robie segurá-la pela cintura parando sua queda. Uma sensação de déjà vu passou rapidamente em sua cabeça e ela se afastou sorrindo sem graça.
–Vem, que quero ver os noivos. –Disse puxando os dois pela mão.
Sam entrou na aldeia saltitando, e correu ao encontro dos pais assim que os viu. Eles estavam envelhecendo, e isso impulsionava Sam a querer ter dinheiro. Os três passaram um tempo alheio a comemoração, conversando sobre como iam suas vidas.
Quando viu Gibby se aproximar, correu a um abraço em seu amigo, desejando toda a felicidade do mundo. Ele estava muito alto e perdera alguns quilos. Desistira de ser padre aos quinze anos, quando se apaixonou por Isabel. Preferiu passar a vida trabalhando duro para ficar juntos do que viver sozinho na contemplação.
–Eu estou tão feliz por você!
–Podia ser você também, sua boba. –Disse ele.
–Para com isso, hoje é o seu dia! –Disse dando um soco de leve no ombro do garoto. –Me desculpe não ter vindo pra cerimônia, não imagina o esforço pra vir pra festa...
–O que importa é que você veio!
–Eu não comprei nada pra vocês por que não tinha...
–Para com isso, Sam. Vem, a Isabel quer te ver. Ela esta ali dançando com o pai.
A garota, que não passava dos dezessete, era baixa e magra e tinha longos cabelos negros preso num coque. Vestia um vestido de noiva de sabe Deus de quantas gerações. Filha de um camponês que cultivava nas terras de um nobre, a moça humilde, era naquele momento a mulher mais feliz do mundo. Ela e Gibby se conheciam desde criança, mas nunca foram muito próximos. Ela era tímida e quase não saia de casa. Mas todos sabiam que era uma boa menina.
Dentre tantas coisas que aconteciam na festa, algo chamou a atenção de Sam. Robie voltara a cerca-la. Puxava conversa, admirava-a enquanto dançava, e sorria sempre que seus olhos se encontravam. Sentia por Robie uma forte amizade, e sua beleza descomunal despertava algo mais. Porem, ela não sabia dizer se era amor. Ou ao menos algo que a fizesse abrir mão de tudo para ficar com ele.
Amor só sentira uma vez na vida, mas julgava-se curada. Sempre que se pegava pensando em seu antigo amigo, abanava a mente e tratava de fazer alguma coisa para se distrair. Ele estava viajando, se divertindo, e de certo, nem lembrava mais que ela existia. Mas a noite era inevitável. Os sonhos então a torturavam. Acreditava que isso era apenas em função de estar em uma conspiração contra ele. Que logo que acabasse, poderia viver sua vida em paz. Se tudo desse certo, nunca mais teriam que se ver. A ideia lhe confortava tanto quanto entristecia.
Estava sozinha, apreciando a comemoração em um lugar mais afastado, pensando que talvez nunca fosse se casar. Homem algum a aceitaria com aqueles pensamentos e atitudes. E ela não estava disposta a mudar.
–Preocupada? –Perguntou Robie sentando ao seu lado.
–Nem um pouco. Apenas observando a festa.
Sam sabia que a pergunta dele era cheia de segundas intenções. Queria que ela disse que estava com medo, que pensava em desistir. Após pensar algum tempo, perguntou indo direto ao assunto:
–Sabe que me surpreendeu muito hoje? Até ontem não falava comigo, agora se mostra tão cortês...
–Eu fui muito imaturo. Me desculpe estava com raiva.
–Tudo bem.
–E como vai seu trabalho? –Perguntou num tom mais baixo enfatizando a última palavra.
–Até agora nada.
–Agora e sempre. Me desculpe. Outros já tentaram todos esses anos, como você sozinha pode achar algo?
–Não sei, mas vou achar. E mesmo que não ache, eles me recompensarão só por ter tentado.
–Entendo. Mas eu ainda acho que deveria pensar melhor. É tão perigoso...
–Por isso me pagarão de qualquer jeito.
–E se o príncipe retornar antes?
–Impossível. Ele esta estudando e só volta quando completar vinte e um anos para se casar. Se houver casamento.
–Mas é claro que vai haver. Nada que possa encontrar será suficiente para impedir isso.
Sam arqueou a sobrancelha e se calou. Odiava o jeito como Robie sempre a subestimava, e desencorajava. Queria que ela fosse só mais uma das mulheres do povoado, lavando, cozinhando e cuidando das crianças. Completamente invisível aos olhos da sociedade. Que apenas dizia sim ao marido. Que dependia desse para qualquer coisa.
Sam tinha que encontrar algo até pelo menos um ano antes do retorno do príncipe. Esse seria o tempo para organizaram as coias, levarem as provas ao rei IV da Suíça, verdadeiro líder por trás de tudo, provedor dos tesouros pago aos espiões. Ele saberia encaminhar as coisas até o rei da Espanha de modo a frear Frederick VII. Antes se preocupava com o que poderia acontecer ao seu antigo amigo. Sofrer, ser punido ou algo do tipo. Mas depois de um tempo passou a se por em primeiro lugar. Precisava daquele dinheiro, e ele no máximo, apenas perderia a noiva, mas ainda era o futuro rei, podia arrumar outras. E ela teria sua liberdade. Era justo.
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