Somos aquela ilusão que um dia ousara ouvir, ao andar pela casa encontrei seus vestígios, e a minha tormenta ganhou forma, vestindo uma mortalha azul-vinho, comi daquela carne e o azeite azedou, virando meu leite noturno para mantê-la fria, afinal, você é toda a minha criação, criei uma dama para se vestir de monstro.

Toda santa manhã, você ligava o fogo, o fogão se incendiava, abaixava vestindo seu sutiã púrpuro cetim, acendia o cigarro entre as labaredas agressivas e por um momento queria acreditar que aquele fogo apenas queimava sua boca, e não o seu corpo, tão preciso quanto o míssil que me atinge todos os dias.

Com uma visão privilegiada, conseguia observar você arrancar seu bralette, usando seus belos dentes que anteriormente estavam em outro lugar. Esbranquiçados.

Nossa sutileza era de invejar, tigres e onças dançavam tango sobre nossos corpos, costurados aos cadáveres, confundidos com defuntos, pois nossa ligação era tão esdrúxula e transparente, que lembrava-me a doce morte nos engolfando, silenciosa, com uma sinfonia fúnebre e eufórica.

Com dois acentos, dois tragos de cada vez. O olor de seu beijo trazia-me um amor artístico, que ao tocar era perpetuado pelos cantos de outra era, você acreditava na fugacidade, no banner invisível e proibido que nos escondia. Por onde nos perdemos?

Seu som, seu cheiro. Devia ser exposto em algum museu francês, tornar-se hino de um tipo específico, ser grafado em um punhal para sacrifícios ao deus Sol. Enquanto éramos Lua, almejávamos sermos nuvens, e quando tivemos a chance, seu estupefato ego preferiu ser o ar, respirei-te, e quando inspirei em contra-ataque com medo do que havia feito, aprisionou-se nos meus pulmões e morreu asfixiada, moldando-me uma maravilhosa máscara pós-morte, mórbida, sagrada.

Fiz-te um faustoso quadro, preguei-a acima da nossa cama, ao deitar lembro-me de cada toque indiscreto, cada segredo sublime que não ousava me sussurrar. Não havia o que ser feito, quando o mudo conheceu a menina sem braços, não havia nada que pudesse devolvê-lo a voz e crescer braços em pequeninas moças. Restou cintilantes inteirações amorosas, que fizessem escorrer o doce caldo da montanha para banhar costas marinhas e lubrificar, para polvos oceânicos adentrarem.

Você está em tudo, e a minha paixão tornou-se amor, quando meu coração acelera sei que adormece dentro do meu corpo, e a fobia intranscendível toma conta da minha mente, pois há a possibilidade de nunca mais acordar, e isso não chama morte, chama-se Bela Adormecida. Ria, seria o melhor presente, não é natal e nunca será, aquele calendário está junto as suas cinzas.

Junto ao saco plástico com nossas fotos, há um isqueiro, quando acender levara-me com tuas vestes nulas, pelo menos não será suicídio.

BANG!BANG!

O faroeste acabou.

FIM
06/01/15

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