Por Rachel

Quinn está linda. Confesso que depois de vê-la eu quis trocar de roupa umas cinco vezes. Mas, eu nunca conseguiria ficar tão bem quanto ela. A loira fica bonita até no blusão folgado que ela veste quando estamos sem fazer nada em casa. Entramos no carro e Quinn me sorri, de algum jeito isso me acalma. É como se ela soubesse o que fazer. Liguei o som, cantarolando as músicas que tocavam. Ela me acompanhava nas que ela conhecia, fazendo piadas nas que não gostava. Estamos a quase uma hora rodando no carro e não faço ideia pra onde estamos indo. Calma. Só respire.

– Você se perdeu ou algo do tipo? – Brinco.

– Estou passando o tempo. – Ela sorri segura e eu a encaro sem entender.– Eu quero que você veja algo.

Assenti em silêncio. Ela estacionou o carro em frente a um prédio grande e bonito. Uau. A gente está na mesma cidade? Como eu nunca tinha visto isso? Ela me puxa, me tirando do transe e eu a sigo. Quinn olha de um lado para outro, como se estivesse procurando alguém. Vejo-a dando um aceno baixo para um dos homens que estavam no balcão da portaria. O homem apenas sorri e balança a cabeça, discretamente.

Quando eu abri a boca para perguntar o que estava acontecendo, Quinn segura um dos meus braços e me obriga a correr junto a ela nas escadas. Mas, o que diabos é isso? Tento parar, mas ela não me escuta e me pede pra fazer silêncio. Meu coração está batendo loucamente. Estamos fazendo alguma coisa ilegal ou algo assim?

De repente aparece uma porta. Imagino que tenhamos chegado ao topo. Ainda não posso falar, meu folego foi embora em toda essa escada. O que é isso? Ela passa uma hora no carro e depois me faz subir não sei quantos degraus e ficar suada. Isso está bem longe de ser um encontro e...

– Oh. Meu. Deus. – Abro a boca levemente quando vejo o que está se formando em minha frente.

A vista é a coisa mais incrível que eu já vi na minha vida. Daqui do alto da pra ver uma parte da cidade. O ambiente é iluminado pelas luzes das ruas. Quinn me ajuda a entrar, revelando uma pequena mesa, com pratos cobertos. Eu tento dizer algo, mas simplesmente não sai.

Ela parece feliz com minha reação. Volto o olhar para a imagem, hipnotizada. Eu pintaria um quadro daqui de cima. Bom, se eu soubesse pintar, eu faria. Uma música, quem sabe? Eu já consigo imaginar todas as notas se formando. Sorri com a melodia suave que alcançou meu ouvido. Sinto vontade de compartilhá-la para o mundo.

– Hey. – Quinn aparece ao meu lado com dois copos de vinhos, me oferecendo um deles. – Queria te mostrar o pôr do sol, mas tive a ideia um pouco tarde.– Murmurou.

– Isso é lindo. – Sussurrei olhando para frente.

– Eu sei. É um dos meus lugares favoritos.

– Quinn, por que nós corremos? Ninguém sabe que a gente está aqui, né? Não podemos ficar, é perigoso e...

– Já basta, Frodo. – Ela me cala, rolando os olhos. – Eu venho aqui sempre e nunca aconteceu nada. Além do mais, Gustavo me avisará se der algum problema.

Imagino que Gustavo seja o homem da portaria. Isso explicaria a comunicação estranha que eles tiveram lá em baixo. Relaxo mais um pouco, apreciando a vista e tomando o vinho, delicioso, por sinal. Suspirei.

– Então, quer dizer que você vem muito aqui? – Provoquei e ela levanta uma sobrancelha. – É o famoso “você faz isso com todas”? – Gesticulo e ela solta uma gargalhada.

– Você está com ciúmes? – Ela ri mais ainda, tenho certeza que meu rosto está vermelho. – Mas, eu venho muito aqui sim, se você quer saber. – Ela me puxa pela cintura, me levando até uma das cadeiras. – Vamos comer.

– Quem fez tudo isso?

– Você pode ser um pouco menos curiosa, Rach.

O jantar estava delicioso. O céu está estrelado, estupendamente perfeito. Onde está meu caderno de anotações essa hora? Aqui é o local exato para montar um cd. Desde que cheguei já fiz cinco músicas, mentalmente. Estamos deitadas no chão inclinado, que formava uma pequena ladeira. E sim, nossas mãos estão entrelaçadas. Meu estomago parece borbulhar, mas dessa vez é uma sensação maravilhosa. Parece que a qualquer momento eu posso despertar na minha cama e saber que estava apenas sonhando. Oh, céus! O que eu estou pensando?

– Eu realmente gosto daqui. – Ela fala depois de alguns minutos de silêncio.

– Você está prestes a me contar sobre os seus casos? – Levanto uma sobrancelha e ela ri.

– Você é a primeira pessoa que eu trago aqui. – Quinn franze a testa por uns segundos. – Bom, eu costumava vir com minha irmã. E Santana sabe da existência, mas nunca subiu.

Não sei o que falar. Quinn nunca me fala sobre a família. Isso quer dizer que agora ela vem aqui sozinha?

– Frannie descobriu. – Ela continuou, quando eu não falei nada. – Nós costumávamos vir aqui antes dela viajar. Esse sempre foi o nosso esconderijo.

– Vocês matavam aula aqui?– Sorri vendo Quinn relaxar. Eu quero que ela se sinta a vontade falando sobre isso.

– Às vezes.– Ela morde o lábio e dá um suspiro. – Mas, vínhamos mais quando Russel chegava bêbado em casa. Era terrível ter que ficar escutando todos os gritos que ele dava na minha mãe. E nós sabíamos que sobraria para a gente no final, sempre sobrava. – Quinn engole seco e eu seguro sua mão. – Então, nós saíamos escondidas e corríamos para cá.

– Eles sabiam pra onde vocês iam?

– Não.– Murmurou. – Acho que nunca nem deram falta.– Ela inspira fundo. – Gustavo sempre libera quando eu quero vim. Me ajuda a esquecer das coisas. Estranho dizer isso sobre o lugar que me traz tantas lembranças, ao mesmo tempo.

– Você sente a falta dela?– Eu coloco uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Ela sorri triste.

– Ela me deixou aqui sozinha.– Tem mágoa na sua voz e eu estremeço. – Eu queria odiá-la, mas não consigo.

– Ela é sua irmã, Q. Você não poderia odiá-la.

– Eu odeio Russel.– Garantiu. – Judy pra mim é indiferente. Não é porque temos o mesmo sangue que precisamos nos amar, Rach.

– Eu sei. Sinto muito.– Ela assente em silêncio. – Por que você me trouxe aqui?– Murmuro sem aguentar a curiosidade.

– Não sei. – Ela franze a testa. –Senti vontade de te mostrar, eu acho. Eu queria te levar pra um lugar onde você me conhecesse. Não vi opção melhor do que essa.

– É lindo.– Voltei a afirmar.

– Não quero que você tenha medo disso, Rachel. Eu sei que você passou por situações difíceis e que agora tem um monte de perguntas na sua cabeça. – Eu encolho os ombros, é incrível a capacidade que ela tem de me ler. – Eu só quero te mostrar a minha verdade. Eu sou isso, sabe? Eu tenho um passado cheio de mágoa, de ressentimentos e isso às vezes me tira do sério. Mas, eu tenho uma parte absolutamente linda dentro de mim. A parte que eu guardo para Santana e Puck, que sempre estiveram comigo. A parte que Marley e Brittany vêm conquistando. E a melhor parte, Rach, que é a sua. Eu te infernizei, mas eu não queria te causar danos. Eu era revoltada, por tudo que eu tinha em casa. Mas, quando sai de lá, melhorei. Meus amigos me ajudaram. Você me ajudou. Eu comecei a te ver com outros olhos, a te admirar. Eu te olho e sinto vontade de te proteger, te abraçar e te encher de carinho. Passei a te amar. – Ela suspira. – Eu posso não ser a pessoa que você sempre sonhou, ou posso não ser... um homem.– Ela franze a testa. – Mas, eu te amo.

Parem o mundo, pelo amor de Deus. Meus olhos começam a arder.

– Eu... Uau! Quinn, eu não ligo que você não seja um homem.– Ela ri e eu me aproximo. – Você não é mesmo o que eu sempre sonhei.– Vejo seu sorriso cair aos poucos. – Você é mais. Você é perfeita. Qualquer pessoa daria tudo para estar no meu lugar.

– Eu sei que você pediu pra eu ir devagar, mas eu precisava muito te falar isso, aqui, no meu lugar. Ainda mais porque você não descobriu da forma certa. Aprenda a não ouvir a conversa dos outros atrás das paredes, Frodo curioso.

– Ei, eu não estav...– Quinn me interrompe com um beijo, lento e suave.– Eu posso me acostumar muito fácil com isso.– Rimos.

Continuamos abraçadas. Agora eu estava com a cabeça encostada em seu peito. Seus braços aconchegavam meu corpo, com carinho, me aquecendo do frio que estava fazendo enquanto anoitecia. Ela contou histórias sobre esse lugar, de como se divertia com a irmã. Meu coração se encolhia quando notava sua voz nostálgica e querendo falhar certas vezes. Isso fazia com que eu a apertasse mais em meus braços, querendo tirar toda a angustia existente nela.

Eu poderia dormir facilmente agora. Estávamos em silêncio, olhando o céu estrelado. Quinn beija minha cabeça delicadamente e eu me pergunto se ela pode ser mais terno. Levanto meus olhos, para encará-la. É como se pudéssemos nos comunicar, apenas assim. Ela se aproxima da minha boca outra vez e eu fecho os olhos instantaneamente. Mas, não sinto seu contato. Seus braços me afastam e eu solto um gemido frustrado por me desfazer do abraço quente. Ela murmura algo que eu não entendo e abro os olhos, confusa. Ela está no celular, sentada.

– Oh, merda. Certo. Tudo bem, tudo bem. – Ela diz apressada, eu sento ao seu lado. – Tudo bem, eu vou dar um jeito. Obrigada por avisar.

Ela desliga e eu a encaro sem entender nada. Quinn levanta e corre até a mesa, puxando-a para um lugar escondido. Eu fico em pé em alerta, assustada por seu comportamento. Tão pouco iria durar?

– Não entre em pânico, certo? Gustavo ligou e disse que os donos do hotel receberam uma chamada e...

– OH, MEU DEUS. Temos que ir embora daqui. – Corri em direção à porta, mas ela me impediu de abri-la. – O QUE?

– Não grite. – Sussurrou. – Alguém nos escutou. Será que dá para se acalmar?

– E o que a gente ainda está fazendo aqui? – Murmuro nervosa. – Vamos embora.

– Qual o mau de uma hóspede querer um quarto ao ar livre? Eu tenho meus direitos. – Ela ri.

– Quinn, você quer ir embora ou vai continuar brincando até os policiais chegarem pra você dá essa desculpa para eles? – Soltei irritada.

– Ah, vamos lá. Não seremos presas, nem mesmo descobertas. Você precisa confiar em mim. – Um barulho é escutado nas escadas e nós pulamos. – Seu tempo está acabando, Frodo.

– Eu confio.

Quinn sorriu largo e me puxou para o outro lado do lugar. Havia uma porta escondida em um canto escuro. Ela tirou uma chave do bolso e a abriu. Minha boca caiu levemente. Entramos no local apertado, parecia ser uma espécie de dispensa. Está tudo escuro e cheira um pouco a poeira. Meu nariz começa a coçar nervosamente. Ela me abraça e eu enterro o rosto em sua camisa. O cheiro de seu perfume aliviou a vontade de espirrar.

– Não tem ninguém aqui. – Falou uma voz lá fora.

– Acho que se enganaram. – Resmungou outra voz.

De repente, a maçaneta é puxada. Senti meu corpo ficar tenso e Quinn me apertou um pouco mais.

– Está fechado. Não tem como entrarem aí. – O homem falou irritado.– Vamos embora.

O som dos passos foi ficando distante e eu fui relaxando um pouco mais. Olhei para a loira que estava mordendo o lábio inferior, segundo o riso. Virei os olhos e soltei uma gargalhada de nossa situação. Quinn me seguiu, rindo alto também. Quando nos recuperamos, ela se aproximou e me deu o beijo que tinha sido atrapalhado minutos antes. Um beijo repleto de vontade e desejo. As mãos dela estavam furiosas na minha cintura. Eu senti o lugar esquentar a cada segundo. Senti minhas costas sendo encostada na parede e gemi em resposta.

Foi quando senti minha blusa ser levemente levantada que um choque me acordou e eu a afastei bruscamente.

– Desculpe. – Os olhos de Quinn estavam assustados.– Por favor, me desculpe. Eu não queria fazer isso. Digo, eu queria. Bom, eu quero, mas não assim. Me perdoe.– Tentou se explicar, nervosa.

– Tudo bem. – Tentei um sorriso.– Vamos sair daqui. Acho que já nos arriscamos demais por hoje.

– Sim, por hoje. – Ela sorriu mais uma vez.

Por Quinn

Descemos com cuidado. E com a ajuda de Gustavo, conseguimos sair do prédio sem sermos notados. A volta foi silenciosa. Rachel encostou a cabeça na janela, e eu me xinguei por dentro. Como eu sou tão idiota a ponto de estragar tudo? Eu precisava da confiança dela e agora não tenho mais. Chegamos em casa, trocamos de roupa e deitamos na cama, ainda em silêncio. Ela estava de frente pra mim.

– Hey, você está bem? – Sussurro, apreensiva.

– Estou ótima, Q. – Rachel sorri bonito e eu amoleço.

– Me desculpe pelo que aconteceu na dispensa, de verdade, eu não...– Falei arrependida.

Quinn, não importa. Não é como se tivesse acontecido sem que eu quisesse. – Ela cora um pouco e eu rio. – Oh, e eu já ia me esquecendo...

– O que?– Pergunto curiosa.

E ela me beija. Talvez nem tudo tivesse perdido, afinal. Sorri no beijo. Quando o ar faltou, ela me encarou com um olhar firme e sincero.

– Você é incrível.– Sussurra, sorrindo.

– Definitivamente, eu posso me acostumar com isso. – Ri ao lembrar as palavras da morena.

Nos aconchegamos em um abraço e ela adormeceu em poucos minutos. Aspirei o cheiro da sua nuca, me sentindo completamente leve... E feliz.

Notas finais
Continuem comentando! :**