Meu melhor remédio
43 Aumentando a família.
Notas iniciais
Por Santana
Acho que impotência seja a palavra certa para descrever o momento. Quando eu contei para os meus pais sobre a minha sexualidade, eles se assustaram de começo, mas respiraram e compreenderam. Minha mãe me abraçou, dizendo que estaria sempre comigo. Meu pai me deu um sorriso sincero e bagunçou meu cabelo. Eu não imagino o que eu teria acontecido caso eles tivessem uma reação contrária a essa. Eu enlouqueceria. Bem, eu quase enlouqueci quando minha avó me deu as costas. Ela me ensinou coisas boas, me deu bons conselhos, mas na hora que eu mais precisei, ela não esteve por mim. Me doeu, doeu muito. A decepção e a mágoa me agarram forte. Hoje, eu simplesmente não quero vê-la. Não sinto vontade. Claro que às vezes eu sinto falta, nós morávamos juntas. Só que não passa disso. Eu nunca quis chegar nela e gritar o quão errada ela era de fazer isso comigo.
Uma coisa sou eu passar essa história. Outra é vez a mulher que eu amo sofrendo do mesmo. Sofrendo pior. Eu me lembro de quando Quinn chegou em minha casa, aos prantos, por ter sido expulsa por causa de sua gravidez. Naquela hora, eu passei a odiar Jude e Russell com todas as minhas forças. Como alguém pode fazer isso com as filhas? Eu não posso acreditar que está acontecendo de novo. E agora... Deus! Eu quis tanto que Brittany se libertasse, fosse sincera. Mas, eu não queria que tivesse sido assim. Será que se eu não tivesse ido com Dani hoje, Britt teria se acalmado e esperado o momento certo? Será que a mãe dela teria escutado melhor? Suspiro, abraçando o corpo da dançarina contra o meu. A porta da sala se fecha, me tirando do transe. Rachel entra sozinha.
– Onde está Quinn? – Franzo a testa.
– Saiu. – Suspira. – Fique tranquila. Eu já dei um jeito nisso. – A morena senta ao nosso lado, segurando a mão de Brittany. – Eu não sei o que te dizer.
– Não tem o que dizer. – Minha namorada encolhe os ombros, cansada.
– Você não está sozinha, ok? San, eu, Quinn, Puck, Marley, todos nós estamos aqui. Casa é o que não falta.
– Nem amigos. – Britt sorri doce. – Eu amo muito vocês. Quando eu sai de lá, eu sabia que eu não estaria sozinha. Só... Machucou. – Sua voz falha.
– São seus pais, meu amor. É claro que machucou. – Beijo sua testa. – Eu vou cuidar de você, hm?
– Eu sei. – Sussurra contra o meu pescoço. Então, olha para os três que estão na sala. – Obrigada, gente. Mas, eu vou ficar com a San.
– Não é uma grande surpresa. – Marley ri, nos contagiando. – Estaremos torcendo pra que tudo dê certo com vocês, já era hora.
– Sim, agora vocês poderão beijar a vontade. – Puck brinca. Eu o agradeço quando ouço Brittany gargalhar.
– E ninguém mais vai dar em cima dela. – Conclui, mordendo o lábio.
– Olha, eu estive lá e vi que Santana não deu condição para Dani chegar perto. – Rachel me defende. Meu coração congela, lembrando que a loira chegou a me beijar.
– Verdade, San?
– Claro. – Sorrio de lado, alisando sua bochecha. – Ela sabe o quanto eu amo você. – Não é mentira.
– Eu queria ter saído com vocês. – Suspira.
– Teremos todo o tempo do mundo agora. – Ela me dá um beijo rápido nos lábios, me abraçando. – Vamos para casa? Vocês podem ir jantar lá hoje. O que acham?
– Acho ótimo. – Marley sorri.
– Por mim, tudo bem. – Puck apoia, segurando a namorada. Olho para Rachel, que parece um pouco distraída.
– Rach? – Britt chama. – Está tudo bem?
– Sim, está. – Ri sem graça. – Então, eu tenho que falar com Quinn primeiro.
– Onde ela está? – Pergunta desconfiada.
– Ela... – A morena limpa a garganta, me encarando. – Ela precisou sair.
– Mais tarde ela conversa com você. – Garanto. Britt assente. – Vamos para casa?
– Vamos para casa. – Sorri.
Por Quinn
Encaro a cidade iluminada, deitando na sombra. Respiro fundo, tentando segurar algumas lágrimas teimosas. Sinto falta da minha família. Por mais que negue, eu realmente sinto. É tão injusto que Brittany passe por isso. É tão cruel. Cubro o rosto com as mãos, impedindo os soluços de me dominarem. Sinto a presença de alguém ao meu lado. Eu sabia que Rachel não aguentaria esperar. Suspiro frustrada, mas me assusto quando percebo quem é.
– Fiquei surpresa quando Rach me disse que você ainda vinha aqui. – Fran sorri triste. – Faz muito tempo.
– Eu nunca deixei de vir. – Dou os ombros, limpando os rastros de lágrimas, envergonhada por ter sido pega.
– Você lembra aquele dia que nós subimos correndo e caímos ali? – Aponta para perto da porta, rindo. Eu rio junto, balançando a cabeça. – Foi culpa sua, como sempre.
– Minha? – Faço cena. – Você que quem quis apostar corrida.
– Você que me provocou, se colocando na frente. – Empurra meu ombro. – Eu gostava muito daqui. Era nosso refúgio.
– Ainda é. – Murmuro.
– Que motivo te trouxe aqui hoje?
– Brittany foi expulsa de casa. – Respondo. – Ironico, não é? – Rio sarcástica. – Depois que eu fui expulsa, nunca mais viemos juntas aqui.
– Eu sinto muito. – Sussurra. – Q, o papai...
– Fran, eu não quero ouvir. Sério. – Corto-a. – Já passou. Já deu. – Ela fica em silêncio, olhando para longe. Eu suspiro. – Fran...
– Eu vim aqui. – Sorri, baixando a cabeça. Eu arqueio as sobrancelhas. – Eu te vi algumas vezes. – Franzo a testa.
– Você veio para NY? – Pergunto, incrédula.
– Sim. – Fecha os olhos. – Eu estava me sentindo muito só.
– Certo. – Bufo. – E eu não.
– Por isso mesmo eu vinha. – Me encara. – Não suportava a ideia de ter que te deixar sozinha.
– Mas, deixou, Frannie. – Falo com a voz embargada. – Isso não importa mais.
– Não importa? E você está chorando por que? Por Brittany? Porque eu acho que você deveria estar lá com ela, ao invés de estar aqui.
– Eu só... Preciso de um tempo. É um assunto delicado.
– Vem cá. – Abre os braços. Eu a olho, desconfiada. – Vem, como fazíamos antes. – Relaxo, deixando-a me abraçar. – Meu bebê. – Rimos. – Eu sei que você sofreu muito com isso e eu sinto muito de verdade por não ter estado por você. – Abro a boca, mas ela não me deixa falar. – Eu te amo tanto, minha irmã. Agora você só precisa ser forte para sua amiga, mostra-la que ela também pode seguir em frente.
– Eu vou tentar. – Sussurro. – Eu quero ajuda-la.
– Você vai. – Me aperta forte. – Sua namorada está preocupada com você.
– Está, não é? – Escondo o rosto em seu pescoço, me sentindo culpada.
– Eu gosto de saber que ela te ama de verdade. – Eu sorrio grande. – Você a trouxe aqui?
– Trouxe. – Mordo o lábio, lembrando aquela noite. – Eu me declarei aqui.
– Foi uma boa escolha.
– Foi um abaixamento de armas. – Corrijo. – Eu me mostrei totalmente.
– Que orgulho eu tenho de você. – Beija minha cabeça. – Você cresceu muito.
– Eu tive que crescer.
– Posso te fazer uma pergunta? – Assinto. – Como você se sente em relação a... Em relação à Beth? – Paraliso, surpresa com o assunto. – Não precisa responder. É só uma curiosidade.
– Eu realmente não sei te responder. – Engulo seco. – Tem coisas que eu não consigo explicar nem pra mim, entende?
– Sente falta?
– Muita. – Sorrio de lado. – É louco, não é? Eu nem a conheci direito.
– Mas, nós nos apegamos antes mesmo. Eu posso imaginar.
– Já pensou em Beth e Elisa brincando juntas? – Pergunto, sentindo meus olhos cristalizarem.
– Nossa, seria surreal.– Sopra o ar. – Elisa te trouxe muitas lembranças, não foi?
– Sim. – Sussurro. – Eu só espero que Shelby dê uma vida incrível a ela.
– Você já descobriu o que ela queria naquele dia? – Lembra.
– Não. – Franzo a testa. – Mas, acho que não era algo importante. Se fosse, ela teria me procurado outra vez.
Por Rachel
Acordo no sofá, de repente. Esfrego os olhos, tentando colocar os pensamentos no lugar. Lembro o que aconteceu e levanto rápido, procurando meu celular. Suspiro, aliviada ao ver o nome da minha namorada na tela.
Obrigada por ter mandado Frannie. Você é a melhor. Daqui a pouco chego. Eu te amo. – Q
Fico feliz (e tranquila) que você tenha gostado, apesar de querer ter ido com você. Estou te esperando. Te amo, Lucy. – R
Escuto passos vindo da cozinha e viro em direção.
– Hey, você acordou. – Marley sorri fraco.
– Pensei que você tivesse ido também. – Levanto uma sobrancelha.
– Quis ficar um pouco mais. Puck precisava resolver umas coisas. – Dá os ombros, sentando ao meu lado. – E eu queria falar com você.
– Pode falar. – Peço, desconfiada.
– Eu sei que você está preocupada por Britt, por Quinn, mas... Tem algo mais, Rachel?
– O que? Como... Não, claro que não.
– Eu te conheço, Berry. – Repreende. Eu baixo a cabeça. – Faz tempo que não conversamos.
– Você que só tem tempo para Puck agora. – Brinco.
– Até parece. – Bufa, rindo. – Não tenta mudar de assunto.
– Shelby veio aqui. – Solto. – Ela queria falar com Quinn e... – Marley desvia o olhar. – O que foi?
– Nada. – Ri nervosa. – Continue.
– Não, até você... Oh, meu Deus! – Coloco a mão no meu rosto. – Ela... Ela foi atrás de Puck também. Então é sobre Beth. Aconteceu alguma coisa? O que ela falou? Ela...
– Rachel, pare. – Me interrompe. – Esse assunto é delas duas.
– E por que Puckerman está metido?
– Porque era a única pessoa que ela tinha contato.
– Sei bem os contatos que os dois tiveram. – Digo irritada. Marley fecha a cara. – Desculpe, eu não quis dizer isso.
– Você fala demais, Rachel. – Bronqueia.
– Não fique com raiva, por favor. – Suspiro. – É chato, ok? Ela é minha... Minha...
– É sua mãe.
– Que seja. – Dou os ombros. – Com Puck ela pode falar, mas comigo não. Ela não quis falar com Quinn porque eu estava aqui. É constrangedor.
– Isso ainda meche com você?
– Claro, Marley. – Encosto no sofá. – Eu não quero que minha relação com Quinn impeça ela de se aproximar da filha.
– Você nem sabe o que Shelby ia falar, Rach.
– E o que ela ia falar? Você sabe, não é? – Marley abaixa a cabeça, mordendo os lábios. – Ótimo. Eu não me importo. – Levanto.
– Acho que vocês deveriam falar com Puck.
Quando eu viro para responde-la, a porta se abre, revelando minha namorada, com a irmã e a sobrinha no colo. Eu sorrio ao vê-las, indo em direção a Quinn. A loira me dá um beijo carinhoso, enquanto Elisa se joga nos meus braços.
– Eu estava com saudade de você, linda. – Rodo-a no ar, escutando sua risada.
– Eu também, tia Rach. – Beija minha bochecha.
– Nós só viemos deixar sua mulher, Rachel. – Frannie sorri. – Já estamos indo.
– Ah, sério? – Faço bico. – Por quê?
– Porque mamãe vai me levar para passear. – Elisa conta, empolgada.
– Você vem me ver depois?
– Venho! – Seus bracinhos me apertam.
– Se despeça de suas tias, filha. – A menina faz o que a mãe pede. – Qualquer coisa, você já sabe. – Sussurra para mim.
– Obrigada, Fran. – Digo sincera. Ela assente, saindo.
Marley aproveita e se despede também, nos deixando sozinhas. Quinn vai ao banheiro e toma um banho, enquanto eu ajeito algo para comermos. Depois que almoçamos, vamos para a cama, deitarmos juntas. Ela passa os dedos suavemente por meus braços e eu brinco com seu cabelo.
– Você está bem? – Sussurro.
– Estou. – Suspira, segurando minha mão. – Eu tenho você, por que eu ficaria mal? – Eu sorrio, virando para olha-la.
– Você quer ir jantar na casa de San hoje?
– Claro. Eu preciso falar com Britt.
– E com Puck. – Murmuro.
– Com Puck? – Franze a testa. – Por quê?
– Shelby o procurou também.
– Deus, foi algo com Beth?
– Marley garantiu que não. – Eu penso um pouco. – Acho que isso vai me envolver mais do que estamos pensando.
– Por que você acha isso, Rach?
– Eles estão evitando muito nos contar isso.
Por Quinn
Nós vamos para a casa de Santana, que agora também é de Brittany. Elas parecem estar bem melhores. Tenho certeza que a latina deu o seu melhor para distrair Britt. Apesar da aparência cansada, elas estão mais tranquilas. Para não perder o costume, me juntei a Puck e Santana para brincarmos com as meninas, deixando-as sem graça. O jantar foi cheio de risada e companheirismo. Cada dia que passa, tenho mais certeza de que, essa sim, é minha família. Sorrio de lado para a dançarina e seguro sua mão, puxando-a para o quarto.
– Queria te pedir desculpas por mais cedo. – Ela abre a boca, mas eu não a deixo falar. – Eu sou muito inconformada com pessoas que tomam o tipo de atitude que seus pais tomaram. – Britt me encara e assente.
– Você passou por isso. – Parece entender.
– Eu sei o quão horrível é. – Faço uma careta. – No inicio é bem difícil, nós queremos gritá-los, ficamos magoadas, choramos. – Rio, irônica. – Com o tempo nós aprendemos a conviver com isso. Não sei se seus pais serão como os meus, eu não posso te garantir nada. Quem sabe eles se arrependam?
– Talvez meu pai. – Sussurra incerta.
– Você está com medo de acreditar nisso, não é? Eu tinha esperança que minha mãe voltasse atrás. – Aperto sua mão. – São pessoas diferentes. Se você acha que ele pode te ouvir, não perca a chance de falar. Você merece uma chance de ser sincera, de se explicar. Você tem Lina, que é um amor, que não vai te deixar na mão.
– Ela me mandou uma mensagem. – Sorri. – Quer me ver.
– Isso é ótimo. Brittany, além de tudo, vocês tem a gente. Queria te dizer que eu sempre vou estar quando você precisar de alguém. Eu sei como é passar por isso, então estarei disposta a te ouvir e te ajudar ao máximo.
– Obrigada, Q. – Me abraça. – O apoio de vocês está sendo perfeito.
– Somos uma família.
– A melhor família. – Ela conclui, levantando.
Nós voltamos para a sala. Eu percebo Rachel distante, balançando o copo com suco sem parar. Me aproximo dela, beijando seu pescoço. Ela relaxa em meus braços, mas não fala nada, apenas me dá um olhar significativo. Eu suspiro sonoro, chamando Puck para perto. O moicano vem, desconfiado. Sou direta, pergunto logo o que Shelby queria. Mas, ele enrola e diz que não pode falar nada.
– Noah, por favor. Ela ia falar comigo.
– Mas, não falou.
– Por minha culpa. – Rachel diz em um tom baixo. – Eu posso sair para vocês conversarem.
– Não precisa. – Seguro-a. – Noah. – Suplico.
– Okay, okay. – Respira fundo. – Shelby está... Bom, ela está... – Limpa a garganta. – Shelby está grávida. – Rachel solta o copo no chão, nos assustando.
– Como... Como assim? Ela não podia... Ela...
– Aconteceu. – Ele desvia o olhar. – O ponto é... É que... O pai do bebê... – Sopra o ar. – O pai do bebê é o Russell.
– O QUE?
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