Meu imbecil
1 Capítulo 1: Antes de dividir a melancia.
Notas iniciais
Ps: Se tiver algum erro, me diz.
— Protetor?
— Ok.
— Escova de dentes?
— Ok.
— Camisinhas?
— Duda! —A repreendi, com certeza corando.
— Tina, tu sabe que vai rolar alguma coisa! —Duda fechou sua bolsa, ainda com o olhar sobre mim.
Era um ensolarado e seco Domingo de Janeiro. Confesso que eu estava com um pé atrás sobre essa tão esperada viagem para acampar de minha amiga, que na verdade só iria Ela, eu, um paquera dela e outro garoto, que Duda prometerá ser “gente boa”. Eu queria mesmo era passar meus últimos dias de férias plantada em minha cama assistindo algumas series, ou tentando iniciar uma aula de canto que minha mãe tanto desejava.
Talvez fosse seu sonho cortado, e ela queria injetá-lo em um de seus culpados, seus filhos. O caso é: Minha mãe era uma cantora, não das mais famosas, mas ela tinha seu devido conhecimento. Quando ela engravidou de meu irmão e eu – somos gêmeos, mas completamente diferentes, vê se pode?- deixou este sonho de ter sucesso para lá. E agora, infelizmente, ela está jogando tudo para cima de mim, já que meu irmão mal olha para ela dentro de casa, na verdade, ele mal fica em casa.
— Eu estou tão ansiosa que acho que vou explodir! — Ela se jogou em minha cama e cobriu o rosto.
Eu não entendo como sou amiga de Duda, digo, se alguém descrevesse como era sua personalidade, eu abominaria antes mesmo de conhecer: Mandona, egoísta, meio patricinha e extremamente linda. Mas ela realmente é uma maravilhosa amiga, quando não está falando de garotos, maquiagens e como eu me visto como um homem.
Entretanto, eu não me visto.
Só porque minha mãe diz que na verdade teve dois garotos, e não um casal, não quer dizer que eu tenha atitudes masculinas.
Eu não tenho, caramba!
— Vê se não suja meu quarto nessa explosão. —Brinquei sem um pingo de graça.
Ela forçou um riso.
Ouvimos uma buzina lá em baixo e vi minha amiga voar da cama numa rapidez inexplicável, vindo até mim lutando bravamente contra a gravidade, fazendo uma careta tensa.
— Estou fedendo? —Ela jogou seu corpo contra meu nariz, senti meus olhos lagrimejarem.
— Não! — Falei o massageando.
—Estou com algo no dente? Remela?... Diga algo! — Que desespero, mulher!
— Você está linda, Duda. Não se preocupe!
A buzina soou novamente.
— Tudo bem, tudo dará certo! Esse ano terei um namorado lindo, rico e popular. Com fé em Deus, não é, Deus? — Ela repetia isso, enquanto pegava sua bolsa e fazia um sinal com os dedos para eu fazer o mesmo.
Descemos as escadas a mil, eu não entendia a pressa, ou a pressão que ela exercia naquele momento. A pedi para seguir, enquanto eu despedia de minha mãe pela milésima vez, e não é exagero, já que desde o dia em que avisei sobre acampar, ela recitou a “lista do desespero”. Que continha mais ou menos:
*Não comer nada da terra.
*Ficar sempre em grupo.
* Levar mapas.
* Não pegar chuva, por conta da voz.
* Não beijar, por conta da voz. (?)
* Meninos são ousados, ficar distante deles.
E por fim, a mais estranha:
*Só sair da barraca para comer, já que você é tão lesada que se perde até dentro de casa.
Mas tudo bem, isso não era uma mentira. Acho que tenho um lado do cérebro totalmente desligando, fazendo-me ser a menina mais “lesada” que as pessoas daqui conhecem, e elas fazem questão de lembrar-me disso.
— Mãe, eu já estou indo. — Ela estava na cozinha, preparando o almoço.
Por um momento pensei em desistir de ir para comer seu risoto de camarão que tanto amo, mas precisei ser forte.
—Valentina, pelo amor de Deus, tome cuidado... Com sua voz, principalmente. — O que ela quis dizer: Se jogue de uma ponte, morra, volte a viver, arranque sua perna, seus braços... Mas, por favor, preserve sua voz.
— Pode deixar, mãe... — Corei imaginando cenas impossíveis.
— Siga os mandamentos de sua mãe. Boa viagem! — Veio até mim e deu um abraço quente e caloroso, eu não queria solta-la mais nunca.
Mas foi preciso, já que a buzina foi tocada pela terceira vez. Corri até o carro como uma louca, e pus-me para dentro. De primeira, eu não observei nada dentro dele, tentei recuperar meu fôlego encarando meus sapatos. Eu sentia meu coração implorar por uma morte rápida para parar de bater tão fortemente.
— Bom dia. — Sussurrei ainda olhando para baixo, com as mãos no rosto, agora.
Bom, não sou do tipo atleta. E descer aquelas escadas, seguida de correr pela casa até o carro, foi um grande passo para a humanidade, ou a minha humanidade, se preferem.
— Bom dia. — Os garotos disseram em coro.
Mas algo me fez gelar imediatamente. Uma voz. O reconhecimento vagamente de uma voz, na verdade. E não era de Heitor, paquera de Duda, e sim, do garoto ao meu lado. Olhei para o lado timidamente, meus cabelos nos ombros tapavam minha visão assustadora. Tirei-os um pouco, não querendo chamar atenção, e vi o que eu temia ver: Rodrigo Reis. Um frio em minha espinha fez-me engolir seco, e ao mesmo tempo, explodir tudo o que eu havia comido hoje.
Vejam bem, esse garoto... Esse monstrinho... Esse... Bem, ele afogou-me na praia do Forte, quando minha família e eu fomos passar nossas férias. Eu tinha exatamente 10 anos quando o conheci, no hotel. De primeira ele virou “melhor amigo de infância” de Vinicius, meu irmão, até que os dois idiotas inventaram de brincar de desafios.
Drig Reis enfiou minha cara lentamente no mar, a mando de meu amável irmão – Só para deixar bem claro, nos damos super bem- e eu me debati loucamente, desesperada. Até meus pais sentirem minha falta – por incrível que pareça – e irem me salvar. Passei 3 dias no hospital tirando a água salgada de mim, e por fim, nossas lindas férias foram por água abaixo.
Quase literalmente.
Ele encarou-me de lado, com as sobrancelhas juntas e um olhar sério, talvez tentando me reconhecer. Como mudará! Antes, era um gordo, baleia, que sorria relinchando, sempre com a boca suja de comida. Agora ele estava magro, como se estivesse usado crack por toda uma vida, ou corrido da Terra para Marte. Seu cabelo bagunçado, mas percebi que estava com gel. Bem, sou uma ótima observadora pelos cantos. Senti meu rosto corar, já que por vários segundos ele continuou a me encarar, e eu olhando por dentro dos cabelos.
— Essa viagem vai ser show, não vai? — Duda sorriu quebrando o clima.
— Cara, 35 graus. Vamos torrar lá. —Heitor reclamou. — Trouxe a água gelada, Drig?
Minhas suspeitas foram comprovadas, realmente era ele.
— Hã, claro... — Ele pareceu não ter escutado nada. Olhei de relance e o mesmo estava me encarando.
— Então, ‘vamo’ lá, galera! —Heitor acelerou o carro e fomos acampar.
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