O sol entrava pela janela imensa da sala principal da casa de Regina.

No soalho da sala, várias pessoas começavam a despertar de um momento de inconsciência. A primeira a ficar desperta é Belle, que se senta no chão e observa ao redor para sair daquele momento de amnésia. Reconhece a sala da mansão da prefeita.

— Estamos de volta! Estamos de volta! – ela rasteja e vai sacudindo um a um para que todos percebessem a vitória de sua expedição.

Num canto, Zelena desperta e procura desesperada por Robin, encontrando-a deitadinha ao seu lado. E não era sua Robin de longos cabelos dourados: era sua pequena bebê perdida dentro de um vestido com muitos tecidos. Avança para o bebê e a protege junto aos seios.

Verena parecia uma bêbada despertando de uma ressaca poderosa. Os olhos estavam inchados e a fotofobia impedia que conseguisse mantê-los abertos. Segura a cabeça entre as mãos e deita-se de novo no soalho.

Próximo à soldada, Dashiel rola no chão e consegue sentar-se. Estava em um estado bem melhor e vai procurar Regina para ampará-la, encontrando-a ainda desacordada. Estava bem e parecia apenas dormir.

Sentado em um dos sofás, Killian já havia acordado e também se mostrava zonzo. Para ele, aquela sensação não era novidade, mas por que se sentir assim sem ter ingerido nem um gole de rum?

— Caso eu soubesse que me sentiria assim...eu teria feito jus e bebido todo o rum que encontrasse pela frente...minha boca está amarga...

Algumas horas mais tarde, ainda agitada e muito acelerada, Belle serve um prato de sopa para seus companheiros. Exceto por Regina que ainda dormia deitada sobre o sofá, todos estavam largados no chão e sem coragem para começar seus comentários sobre a viagem.

— Comam e depois teremos de providenciar banho e quarto para todos. Precisaremos dormir pelo menos três dias seguidos. – Belle apanha Robin para dar-lhe a mamadeira, enquanto Zelena se alimentava.

— Qual frase poderia ilustrar esse momento? – Killian ainda massageia as frontes. Lembra-se de que ainda estava com as duas mãos.

— Ai...puta que pariu...que dor de cabeça...

Todos olham para Regina que se sentava no sofá. Estava horrível, descabelada e com a aparência de um bêbado que acorda na cela de uma delegacia.

— Pouco ilustrativa...

— Ah, caralho...acho que marretaram minha cabeça coma picareta dos anões...eu vou morrer...eu vou vomitar... – Regina joga as pernas para fora do sofá, apoia os cotovelos sobre os joelhos e segura a cabeça entre as mãos. – Não...primeiro eu vou vomitar e depois morrer...

— Vamos ser solidários a você... – ainda com a bolsa de gelo sobre os olhos, Verena sequer se move.

Belle aplaude, gargalha e rodopia. Estavam todos bem e tudo parecia normal.

— Quebramos a maldição!!

— Regina estava enfeitiçada, mas a verdadeira fera estava dentro da alma do Capitão.

A frase de Zelena entra no peito de todos e provoca aceleração em todos os corações. Quem havia pensado na maneira como a maldição tinha sido quebrada? De maneira arriscada e cruel, ele havia apostado alto para que outra pessoa pagasse o preço.

— O que aconteceu lá, Capitão?

— Qualquer frasco que fosse pego pelo Cupido, iria condenar a todos à morte e à destruição de tudo aquilo que conhecemos. Tudo referente ao mundo dos contos, seria transformado em trevas e não seríamos mais do que sombras se esgueirando pelos becos. – inalterado, continua. – Assim como tive a visão sobre a vinda de nova maldição, tive a visão de como viveríamos caso falhássemos na missão.

Nenhuma das pessoas fala algo.

— Eu pensei que Dashiel fosse sentir amor pela Fera, assim como ocorreu na história de Belle e Gold, mas eu me enganei. O tempo passava e nada de algum vestígio do amor verdadeiro. Aquilo me apavorou quando percebi que nenhum de nós poderia realizar a demonstração que nos salvaria.

Silêncio.

— Quando Dashiel me falou sobre a seta dourada, minha alma gritou e encontrei a solução. Entendi porque meu coração exigiu que levasse Robin comigo na missão, sendo que ela estaria mais protegida com as freiras.

Apenas os olhos possuíam vida e todos estavam voltados para o pirata.

— Éramos a equipe mais bizarra e sem vínculo algum. Embora estivéssemos juntos, não posso afirmar que estávamos unidos. E mesmo sendo improvável pelo histórico de Zelena, vi a possibilidade de evocar os sentimentos dela sobre Robin e sobre a história dela com o pai da menina. – ele dá de ombros. – Havia amor ali...da maneira como Zelena sabe amar, mas havia amor adormecido.

— E decidiu matar minha filha...

A resposta é positiva com um movimento de cabeça.

— Eu tinha de arriscar uma vida para salvar muitas centenas. Mesmo o Cupido tendo retirado um frasco qualquer do alforje, eu mantive o frasco com o sangue de Robin, para ser entregue para Clara, ou seja lá quem fosse aquela moça. E de fato, a morte da menina evocou todas as lembranças de Zelena e redespertou o amor.

— Não foi a morte dela, Capitão. Foi o sorriso que vinha do coraçãozinho dela. Robin sorria com o coração e não com os lábios. – ela aponta para Dashiel. – É o mesmo sorriso que ele exibe. São sorrisos raros de serem vistos nos contos de fadas.

— E se sua teoria louca tivesse falhado?

— Eu seria condenado a viver por muitos séculos vendo o sorriso de Robin em todos os dias que sol brilhasse sobre a Terra, sabendo que a entregara à morte, Príncipe.

O silêncio cobre o ambiente como se fosse um edredom frio e imenso. Killian cobre o rosto com as mãos e começa a chorar. E chora copiosamente.

Belle se ajoelha diante do amigo e apoia as mãos sobre os joelhos dele.

— Mesmo que Zelena não a trouxesse de volta com o amor de mãe...eu tenho certeza de que Robin seria recuperada com o amor que nasceu aqui. – ela toca o coração dele, com o dedo indicador. Tudo o que consegue é provocar mais choro.

Duas noites depois no loft dos Charming...

Mary abre a porta ao ouvir o som da campainha e sofre um sobressalto ao ver Killian parado em pé no hall de entrada. Ela quase salta da própria pele.

— Killian?

— Vim trazer o relatório de minha viagem, Alteza. – ele dá espaço com o corpo e permite que Regina se exiba, entrando pela porta.

A prefeita é abraçada com entusiasmo por todos, principalmente por Henry que estava inconsolável com a demora de Emma e dos avós em encontrar um meio de seguir para o resgate.

— Estávamos atados, Killian! – David o puxa para dentro da casa. – Por que nos deixou fora desse resgate? Espere! Onde está seu gancho?

Killian cruza os braços na frente do peito e dá de ombros.

— Fincado em alguma mesa no Reino de Oz.

— Por que nos fez dormir? – Emma olha-o inexpressiva. – Não foi o certo a fazer.

— Digamos de devido às circunstâncias, tive de deixa-la aqui ou teria de matá-la para quebrar a maldição.

Emma se aproxima do pirata e o abraça. É envolvida pelos braços dele e recebe rápidos beijos em seu pescoço.

— Pensei que o tivesse perdido...

— Eu sou um sobrevivente, amor.

— Na verdade, Killian não foi me resgatar. Mas felizmente, mudou de ideia no meio do caminho e tenho de agradecê-lo por tudo o que fez por mim e por toda a equipe. – Regina sorri ao receber mais um beijo de Henry. – Estou muito feliz por estar de volta para minha família.

Inspirando profundamente, Killian se desvencilha de maneira delicada das mãos de Emma e caminha para a saída do loft.

— Aonde você vai?

— Preciso verificar se a nuvem da fumaça trouxe minha Jolly Rogers. – ele sorri sem exibir os dentes. – Depois, preciso ver Dashiel e saber como está lidando com a informações sobre a vida real dele. Pode ser que ele queira ir para Moncaliere para recuperar o reino ou pelo menos resgatar quem sobrou da família dele.

Emma acompanha o pirata até a porta, mas não liberta a mão dele.

— Vou com você e desta vez não tente me fazer dormir. Precisamos muito ficar a sós e conversar.

— Sei disso, amor. – ele olha Regina por cima da cabeça de Emma. – Quando alguém lhe disser para não fazer algo que pode ser ruim, seja menos cabeça dura e atenda. Eu sou mais velho que você e devo ser ouvido. Boa noite a todos!

Duas semanas vão embora...a vida começa a voltar para seus eixos.

Dashiel desliga as luzes do bar e ajuda dois funcionários a fecharem o estabelecimento. Alguns clientes ainda estavam nos arreadores e permanecem conversando por mais algum tempo. O modelo liga o alarme do prédio e vai caminhando para seu carro estacionado num ponto de uma rua mais adiante.

Instintivamente, ele sorri ao ver Regina encostada em um carro. Ela o aguardava e estava ainda mais bonita do que ele se lembrava.

— Perdida? Por que não veio ao bar?

— Acabei de chegar. Está um tanto complicado conseguir me livrar de meu filho e de minha enteada. As pessoas de minha família estão me cercando demais.

— Como está Zelena e Robin?

— Estão morando na cabana dela, nas colinas. Mas estão bem, porque agora Zelena está sendo muito cobrada pelo Capitão, pelo bem estar da menina. O outro filho de Robin, está vivendo comigo.

— Quando converso com Killian, ele não fala da menina. Eu sinto que ele está tentando apagar o amor que sente por ela. Como dizia Camões: a verdadeira afeição, na longa ausência se prova.

Concordando, Regina sorri sem mostrar os dentes. Estava sentindo-se constrangida perto daquele homem.

— Mesmo tentando afastar a garota dos olhos, Robin estará sempre dentro do coração dele. O Capitão ama aquela menina e tenho certeza de que o amor dele por ela, poderá quebrar qualquer maldição que cair sobre nossa cidade.

Levantando as mãos como se tentasse impedir a aproximação de algo, Dashiel alarga o mais iluminado dos sorrisos.

— Nada de maldições por um bom tempo!

— Vai retornar par seu reino?

— Em duas semanas, iremos sim. Killian está providenciando as coordenadas e eu estou aprendendo sobre minha história. Apenas preciso aguardar a volta de Verena e partiremos.

Regina segura os ombros do homem.

— Caso precise de uma equipe maior, pode contar comigo.

— Killian quer somente pessoas sem vínculos familiares, fazendo parte da equipe. A senhora tem uma família a quem deve zelar.

A frase bate de encontro ao peito de Regina e ela sofre com o que ouve.

— Sem vínculos familiares? Mas Killian tem Emma, tem os Charmings, tem Belle e Robin! Há uma família por trás dele!

— Killian está mais solitário do que eu. Então, iremos unir nossas solidões e formar uma equipe. Iremos para Monacaliere e depois somente o futuro dirá o que nos reserva. O tempo funciona de forma diferente nos dois lados dos portais, então, não tenho esperanças de encontrar meu reino existindo e tampouco as pessoas de minha família.

— Lamento...

— Vocês ficaram congelados por vinte e oito anos, mas eu não. Eu envelheci, criei vínculos profissionais, uma vida sem a existência de família, por longos vinte e dois anos. Quanto tempo teria passado em meu reino?

— Não posso responder.

— Ficamos apenas uma semana longe daqui e vivemos uma eternidade em Oz. – ele dá de ombro e segura a cintura de Regina, trazendo-a para junto de seu corpo. – É tão bom sentir seu cheiro e seu corpo perto do meu. Senti tanta falta disso!

Regina se deixa ficar ali quietinha, dentro daquele abraço, roubado aquele calor.

— Sabe que estarei sempre aqui para você, Dashiel. – ela levanta o queixo. – Você pode não ser meu final feliz, mas é o dono do sorriso mais lindo que já vi e que enche o meu coração de tranquilidade e paz. São os sorrisos raros nos contos de fadas e eu fui contemplada em ver um desses sorrisos.

— Fico pensando como o Reino de Oz está agora. O que houve a Amaro, Clara e André?

— Eles nunca existiram, meu amor. Eram meras personagens que preenchiam os vazios para que a história tivesse um pouco de consistência.

Dashiel beija os lábios de Regina e a mantém presa em seus braços.

— Será que a estátua foi mesmo quebrada pelo machado da Fera? Será que o coração foi esmagado para que ela se libertasse?

— Isso, somente a sua volta ao reino de Moncaliere, dirá. Eu amaria ir com vocês, afinal, ter uma habilidosa incrivelmente sexy em sua expedição, pode ser inspirador.

Uma risada maliciosa é a resposta de Dashiel. Sem ter a preocupação de conter seus desejos, ele cola os lábios aos lábios quentes de Regina e a beija sem nenhum pudor. Anima-se ao sentir o beijo ser correspondido.