Meu final feliz
24 Capítulo 24
André abre as grandes cortinas do cômodo e permite que o sol entre ali, iluminando um cenário para os olhinhos puxadinhos e risonhos de Robin. O homem abre os braços e apresenta o cômodo, permitindo que a criança explore o ambiente com sua curiosidade e é o que acontece.
Todos os movimentos de Robin eram apaixonadamente observados por Zelena de dentro do espelho. A garota corria pelo salão de festas, parava e olhava detalhes da decoração, enquanto sua mãe se encantava com sua graciosidade. Como estava crescida e saudável! Por que o pirata tinha sido tão cruel a ponto de confrontá-las? Por que ele queria produzir dor?
A menina estava linda e esperta, tendo crescido rapidamente. Ou será que havia se passado tanto tempo dentro daquela prisão, que perdera o desenvolvimento de sua pequena? Por que não tinha sentido falta da presença da filha durante aquela clausura? Ela sequer sabia que a menina existia? Mas por que a privaram desse convívio? Por que o pirata a havia adotado?
— Você gosta do pirata?
Robin para de súbito e permite que o pequeno Cupido empreenda fuga para debaixo de algum móvel. Ela se vira para o espelho e lança seu sorriso brilhante que corrompia qualquer tentativa de tristeza.
— Não posso falar com a senhora. Posso falar com a senhora, apenas para falar para a senhora que não posso falar com a senhora. – ela cruza os bracinhos diante do corpo.
Zelena não contém o riso. A menina tinha o senso de humor do pai ladrão e o cinismo do pirata. Seria uma grande piadista ou seria a pessoa mais irritante do planeta.
— Gostaria de conversar com você, pequena Robin.
— A senhora vai conversar comigo sem fugir? Porque se quiser fugir, faça isso agora e deixe-me continuar minha brincadeira com o Cupido.
— Não fugirei. Onde está seu verdadeiro pai?
— Partiu. Mas foi uma partida diferente da sua. – Robin descruza os braços.
— E onde entra o pirata em sua vida?
A menina gargalha e bate palmas.
— Papai Killian? Ele me resgatou de meu berço frio, deu-me banho, comida, amor e trouxe-me para encontrar minha mãe. Mesmo que ela fuja de mim.
Não há resposta para isso.
— Eu decidi que precisava ficar maior para que pudesse me defender contra a solidão, mas meu pai me disse que os adultos são os que mais precisam de proteção. Então decidi ficar deste tamanho mesmo.
Silêncio de Zelena.
— Por que a senhora está aí dentro? Quem a colocou aí e por qual motivo?
— Verena é a culpada por minha prisão aqui. E somente ela poderá livrar-me de meu cativeiro. Poderia convencê-la de que é o melhor a fazer?
Apoiando as mãos na cintura. Robin arqueia as sobrancelhas e assume uma expressão muitas vezes vista no rosto de Killian.
— Vou conversar com Verena...mas também vou conversar com você. Quem está certa entre vocês duas?
— Praga...
Naquele ínterim, Belle vasculhava mais livros procurando alguma forma alternativa de quebrar a maldição imposta por Zelena, tornando sem valor o peso das palavras ditas no momento em que a fumaça amarela tomara conta da outra realidade.
— Poderia dar alguns minutos de sua atenção, Senhorita?
A moça sorri e gesticula para que Dashiel entre na biblioteca. Ela fecha o livro, marcando a página com um pedaço de papel. Ainda não conseguia acreditar que estava tão próxima a um topmodel internacional, simplesmente travestido de oleiro. Ah, o mundo dos contos de fadas!
— Venha sentar-se comigo, Príncipe.
— Sou apenas Dashiel. Sou um agricultor e oleiro.
— Nesta realidade. Mas na sua vida real, criada pelo autor do seu conto de fadas, você é o filho primogênito de um Rei chamado Omar e que foi enviado por um portal, para sobreviver ao Golpe contra seu governo.
Paciência. Dashiel precisa ter paciência para conseguir descobrir a verdadeira intenção daqueles viajantes. Respira profundamente e sorri.
— Regina afirmou que sente empatia por vocês e que todos se conhecem. Ela sabe e sente que vocês são conhecidos...mas não sabe dizer em que período da vida dela, isso aconteceu.
— Quer mesmo saber ou está apenas espionando para confirmar sua teoria de que somos conspiradores?
Unindo as mãos como se fosse orar, Dashiel fica pensativo por alguns segundos. Belle aperta os lábios e sorri sem exibir os dentes. Fala:
— Seu relacionamento com Regina nasceu de um momento de solidão. Tornaram-se amantes e isso despertou a ira em Zelena, que decidiu não permitir que a irmã tivesse um final feliz. Ela criou uma maldição misturando informações de sua mente insana e para resumir: estamos todos presos numa realidade que não é verdadeira e que somente poderá ser cessada, quando acontecer um ato de amor verdadeiro.
— Traduzindo: não sobreviveremos.
A reação de Belle é sutil.
— É triste saber que ninguém ama ninguém neste lado do portal. Pelo menos não sentem aquele tipo de amor que pode salvar.
— Nem o Capitão sente esse tipo de amor pela filha?
— Ele a adotou há poucos dias. Não há como sentir amor em tão pouco tempo. Regina está condenada nesta realidade, porque não despertou amor em quem a cerca. Mas penso que o amor pode surgir de algum lugar de onde menos se espera.
Dashiel abaixa a cabeça e não fala nada.
— Eu sei que não é difícil entender e aceitar minha história, porque nada parece real desde que Regina se tornou Governadora. Criaturas fantásticas, casas assombradas, portais que se abrem, mulher que vira fera, bruxa aprisionada em espelho, navio pirata com capitão secular...criança que cresce rapidamente, estátuas vivas...por isso você não se sobressaltou ao ouvir o que eu disse.
Ele concorda com a cabeça.
— Seu coração sabe que você não pertence a este mundo. Sua mente sabe que precisamos unir nossas forças e quebrar essa maldição de alguma maneira, antes que Regina sucumba. E não pense que será mais fácil para quem ficar para trás, porque saqueadores, assassinos, violadores, traficantes vão avançar sobre os mais frágeis, quando não houver mais Rainha alguma. – Belle toca o antebraço do homem e trai os olhos dele para seu rosto. – Viemos salvá-la porque somos todos da mesma família e sempre aceitamos mais agregados para amar.
O coração de Dashiel se afunda dentro do peito, espremido pela confusão de sentimentos e emoções.
Enquanto isso, noutro ponto do castelo, Killian observa a filha desembrulhar uma pequena estátua e colocá-la sobre a cama. A menina aponta para o Cupido, que se comporta como se fosse uma criança pequena traquina tentando ser obediente.
— Por que trouxe o malandrinho aqui?
— Porque ele pode nos ajudar, papai.
Verena observa a estátua com desconfiança.
— Jamais se esqueça de que ele não é uma criança inocente, Robin. Essa é imagem que os Renascentistas queriam vender. Mas o Cupido é o mesmo Eros.
Robin olha para o pai e estreita as sobrancelhas. O que a mulher estava dizendo?
— Em que este pequeno pode nos ajudar, amor?
— Minha mãe me pediu ajuda para encontrar o espelho...- ela encolhe um dos ombros e sorri para Verena. – Eu disse a ela que quero ouvir as duas versões. Caso encontremos o espelho, há como quebrar a maldição e voltarmos para nossa casa?
Pura impulsão! Tanto por parte de Zelena como por parte de Verena. Duas ensandecidas e inconsequentes tentando defender aquilo que acreditavam ser certo.
— Poderemos tirar Zelena de dentro do espelho, mas quebrar a maldição...
— O meu amigo Cupido irá nos ajudar a vasculhar a casa. Basta que mostremos a ele o que deve ser achado.
Killian se senta na cama ao lado do rechonchudo e os dois se encaram. Estudam-se por longos minutos, como se disputassem quem iria rir primeiro.
— Papai!
— Certo, amor! Vamos confiar em seu amigo sem calças.
Sabendo que precisava cooperar, Verena se aproxima da pequena estátua e cria a imagem do exata do espelho onde havia aprisionado a bruxa verde. Um espelho moderno e sem maiores atrativos, retirado da parede da sala de Regina Mills.
— Você tem exatamente duas horas para conseguir esse espelho. Caso não retorne, eu vou vasculhar este castelo da maneira como um Dark One faria.
Num salto, o pequeno rechonchudo sai da cama e corre para fora do quarto. Robin ia segui-lo, mas um simples não, dito pelo pirata interrompe sua fuga. Ela olha por cima do ombro e amua.
— Certo, o que iremos fazer enquanto o Cupido procura o espelho?
— Vamos ficar aqui dentro, assistindo ao que se passa dentro do castelo. – Killian apanha um espelho grande e o coloca sobre uma cadeira. – Será uma rápida invasão de privacidade.
Revirando os olhos em reprovação, Verena se dirige para a saída do quarto.
— Estarei de volta em duas horas. Vou assediar Dashiel.
— Cuidado para não irritar a Rainha Fera. Ela está com planos muitos interessantes para o futuro consorte e não creio que gostará de ter você no meio do caminho. Além disso, vou precisar de você, antes de tirarmos Zelena do espelho.
— E cuidado com as mãos bobas que saem das paredes! – grita Robin subindo na cama.
Zelosa e irritada, a soldada caminha pelos corredores sabendo que estava sendo observada por centenas de olhos. Sua mante vagueia em lembranças de tempos em que todas as chances estavam a seu favor, bastando estender suas mãos e tocar o homem que estava tão perto. Seria amor ou paixão? Poderia ser possessividade? Controle? Queria dominar todos os passos de Dashiel? Fazer todas as vontades dele? Não fazê-lo conhecer a palavra “Não” em sua vida de luxo, fama e paixões efêmeras, para que ele não sentisse desejo em retornar para seu reino, caso despertasse!
O som de pessoas conversando junto à fonte de águas medicinais, atrai a curiosidade da soldada e ela se senta num ponto afastado e passa a observar o casal que estava mergulhado, em um momento inaceitável de intimidade.
Estranhamente, Dashiel estende a mão e retira os cabelos que cobriam a parte deformada do rosto de Regina. Fala alguma coisa e os dois começam a rir. O que estava havendo ali? Ele estava se acostumando com aquele horror estampado na mulher? Estava blefando? Estava criando algum plano sedutor para burlar as palavras de Zelena?
A Rainha estava de costas e não usava roupas, exibindo sua pele nua e molhada. Mostrava-se pudorenta, com as pernas encolhidas junto aos seios, enquanto que Dashiel não tinha vergonha de sua nudez. Desde que se tornara modelo, aprendera a lidar naturalmente com a falta de roupas durante sessões fotografias e demonstrava manter essa característica, mesmo que inconsciente.
Algo é dito por Regina e isso provoca mais risos no homem. Certamente, a bruxa o havia enfeitiçado para conseguir tamanha proximidade. Ou como Killian havia dito: ele a tratava como se fosse um animalzinho de estimação. Dashiel era acostumado à beleza e não se deixaria seduzir pela alma de alguém. Enquanto estavam em outra realidade, ele sempre se encantava com belos rostos e corpos, e que poderiam apenas lhe proporcionar momentos fugazes de prazer. Por que estaria interessado em uma mulher com rosto marcado por cicatrizes? O que ela poderia ter de especial dentro daquela alma podre?
Mas o intrigante era que os dois se divertiam como se realmente fosse um casal de amantes ou amados. Quando Regina se levanta da banheira natural, os olhos da soldada se arregalam, incomodada e impressionada com a perfeição das formas da mulher. Observa os olhos de Dashiel caírem à meia visão e acompanharem todos os movimentos da Rainha, saindo da água. Ele também se levanta e mostra que seu corpo estava reagindo à proximidade com a Rainha Fera.
Verena faz menção de sair e produz barulho, atrapalhando o momento do casal. Dashiel apanha uma capa e envolve o corpo de Regina, que encara a mulher olhando-a por cima do ombro. E Regina faz questão de virar seu perfil deformado para fitar a intrusa. Aquilo dizia que mesmo sem íris, seu olho enxergava muito bem.
— Poderemos ajudá-la em algo, Verena? – ele pergunta.
— Eu estava apreciando vocês dois. Gosto de ver belos corpos, apenas isso. – ela sai da obscuridade e apresenta-se. – Minha vida inteira, eu convivi com a perfeição das obras navais que meu pai e meus irmãos faziam. Depois, tornei-me responsável pelos desenhos de mapas perfeitos para a navegação. Mais tarde, lidei com a captura dos traços de rostos e corpos bonitos para...telas, digamos assim. Então, não tenho pudores em afirmar que os estava admirando.
O casal se entreolha e sem responder a Rainha sai do local, deixando Dashiel a sós com a soldada. Ousada, atrevida e invasora, aquela visitante.
— Conversei com Belle e soube da existência de outra realidade em minha vida. Responda: o que é real e o que é fantasia em mim? Quem é você dentro deste enredo?
— Sou sua guardiã, Príncipe e o protegi por mais de duas décadas. Falhei quando Regina e Zelena entraram em sua vida. Não tive forças para impedir que você fosse envolvido nessa teia peçonhenta de uma briga que concerne às duas irmãs.
Ele levanta o queixo e estreita os olhos num sorriso debochado.
— Regina e eu éramos amantes?
— Não. Apenas se encontravam uma vez ou outra para uma noite de prazer. Sem compromissos, sem cobranças e sem bilhetes de saudades. Mas ela o elegeu para compartilhar o final feliz da vida dela e causou ódio e ciúmes em Zelena. A merda toda saiu pelas janelas.
— Já que isso não é real, então Regina não será transformada em Fera total.
Verena sorri com a esperança exibida pelo homem.
— Vai sim. Ou deverá ser salva...porém, posso garantir que não são demonstrações pueris de intimidade entre vocês dois, que reverterá o quadro. Ela tem menos de seis meses de vida como ser humano. Depois, a Fera virá à tona e muitos morrerão.
Virando-se para sair, Verena ainda olha para o homem de viés e com desdém.
— Você é um patético. Deveria tratar essa Dismorfofilia, antes que magoe alguém a ponto de produzir dor e morte.
Sem entender o que aquela mulher havia sugerido, Dashiel se deixa ficar ali, apenas observando Verena se afastar nitidamente enciumada com o que vira.
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