Dashiel estava sozinho no silêncio do ambiente social do loft, olhando a chuva caindo lá fora. Entre um gole de vinho e outro, ele tentava afastar as imagens do sonho assustador. Tinha sido horrível ver aquela menina suja, com rosto de boneca e sem seus olhos, sentadinha e chorando em uma cama. Mas tinha sido ainda pior, ver Regina machucada e tentando entrar pela janela de um quarto que não existia.

O que sua mente queria dizer? Regina e ele já se conheciam de outra ocasião? Ela havia surgido apenas para evocar lembranças? Quem era Regina? O que ela realmente escondia e por que ele sentia tanto horror ultimamente, por ela?

Mesmo com o ambiente pouco iluminado, Dashiel consegue identificar a presença de algo vivo, movendo-se num dos outros ambientes do galpão transformado em loft. Ele sente seu coração gritar, mas não se move. Controla sua respiração e permite que sua curiosidade o conduza, mantendo seus olhos fixos naquilo que via apenas com sua visão lateral. Quando virava a cabeça, não percebia nada.

Fica imóvel e permite que a presença se torne mais intensa e mais próxima dele. Sua respiração e seu coração o denunciavam, embora ele tentasse mostrar-se forte. Porém, quando vira o rosto para olhar nos olhos do intruso escuro e rastejante, o rosto ferido de Regina e seus olhos de fera é tudo o que consegue ver.

Regina sai do banho e vai procurar o celular, chato, tocando e tocando. Ao olhar na tela, identifica uma chamada a cobrar e de um número desconhecido. Havia pelo menos oito chamadas.

— Que atrevido! – ela decide sanar sua curiosidade. – Certo, quem está brincando ao me ligar a cobrar?

“Não desligue, por favor! Sou eu, Dashiel!”

— O que houve, meu querido? – ela se desespera e recorda-se das imagens que tinha visto no apanhador de sonhos.

“Preciso de ajuda e não sabia a quem recorrer! Estou no meio do nada e acabei de chegar a uma oficina na beirada da estrada! Por favor, venha me buscar, porque não quero dormir em casa! ”

Horas depois, Regina entrega uma caneca com chocolate quente para Dashiel já devidamente banhado e aquecido em um roupão atoalhado. Ele não parecia estar confortável ainda.

— Está com fome?

— Não. O chocolate está suficiente.

— Eu liguei para a pessoa a quem me pediu e ela irá trancar sua casa. – Regina se senta ao lado dele no sofá, acaricia os cabelos rebeldes molhados e penteados para o alto da cabeça. – Pode me dizer o que houve com você?

Ele a olha e seus olhos parecem ser maiores.

— Quem é você e o quer comigo? De onde nos conhecemos? Por que veio até mim? O que vivemos antes desse encontro? O que você tem para me dizer?

Olhando-o como se outra cabeça estivesse crescendo sobre o ombro dele, Regina tenta sorrir, mas aquelas imagens nítidas impedem que ela relaxe.

— Por que está assim? Acredita que forcei nosso encontro para trazer alguma coisa do passado à tona? Pensa que quero alguma cobrança?

Ele concorda, movendo a cabeça.

— O nosso encontro foi ao acaso e eu nem sabia de sua existência, Dashiel. Um dia, resolvi perguntar ao Sr. Internet quem você era e “voilá”! Conheci o modelo, os perfumes, os cosméticos e vários trabalhos seus. Mas isso não me entusiasma, porque...

— Foi por sua causa que fugi de minha casa! Eu vi você como se fosse um fantasma ou uma lembrança de algo que está adormecido em mim. – ele a interrompe. – O que eu fiz a você, no passado? Eu a feri brutalmente e agora veio vingar-se? Por que não me lembro de tê-la agredido a ponto de fazê-la sangrar ou deixa-la rastejando?

O rosto de Regina assume uma expressão de horror.

— Não fez nada disso comigo! Caso tivesse erguido a mão contra mim ou contra meu filho, eu o teria trucidado! – ela coça a cabeça e fica pensativa. – Em algum momento de seu passado, existe alguma brecha algum espaço em branco que não consegue explicar?

— Meu passado é feito de lacunas, Regina. Tenho imagens de um orfanato frio e escuro...vejo adultos entrando nos aposentos e isso me desperta medo. Nada sei sobre minha adolescência, até retomar minha consciência da juventude, quando conheci minha Agente.

Digerindo as palavras de Dashiel, ela percebe que tudo começava a fazer sentido naquelas peças soltas. A teoria de Killian estava correta e todas aquelas lembranças eram pequenos fragmentos que alguém havia posto em sua mente, para não deixá-lo tão perdido no mundo onde havia sido atirado pelo portal.

— Você já agrediu uma mulher, em seu passado?

— Só se fiz isso em minha adolescência nas ruas. Talvez para me defender...

— Você viveu nas ruas?

— Minha agente me conheceu nas ruas. Eu era um homem bem jovem e ela me acolheu...deu-me a chance de um trabalho digno e eu cresci como profissional. Consegui graduar-me, viajei pelo mundo, conheci pessoas...

Regina não responde de imediato.

— Por que me associa à brutalidade?

Ele abaixa a cabeça envergonhado. Não a associava à brutalidade, porque ela era doce e macia. Mas não havia como negar que o medo crescia em sua alma, quando se aproximavam.

— Depois que eu comecei a sentir esse medo quando estou junto a você, tenho sido acometido de sonhos em que vejo ferida. Foi você quem veio rastejando e sangrando para mim, esta tarde.

Um sorriso lindo surge nos lábios de Regina. Ela estende a mão e toca o rosto do amante.

— Mas não fui eu. Algo em sua mente está confuso demais e está associando minha imagem a alguma coisa ruim que lhe aconteceu. Caso você confie em mim, poderemos encontrar juntos as respostas para sua aflição. O que me diz?

Dashiel fecha os olhos e roça o rosto barbado na palma da mão de Regina.

— Não pude pensar em outra pessoa, quando me senti acuado.

Barulhos de saltos de sapatos atraem a atenção do casal. Era Zelena quem entrava na casa, carregando Robin protegida por um imenso guarda chuva. A ruiva alarga um sorriso ao ver o casal e depois faz uma careta, enviando a mensagem de que sabia de sua invasão.

— Desculpem-me...eu posso voltar outra hora...

Regina gesticula e convida a irmã para conhecer Dashiel.

— Esta é minha irmã Zelena e a minha sobrinha Robin.

Os lindos cabelos ruivos de Zelena logo despertam a lembrança da menina chorosa sobre a cama. Eram cabelos como os de Zelena, que caiam sobre o rostinho da boneca sem olhos.

— Venha, Zelena, quero que conheça Dashiel de Moncaliere.

— Fiquem à vontade para continuar o namoro. Eu vou levar Robin para o quarto e vocês nem perceberão que estaremos no andar de cima!

Cínica! Dissimulada! Enganadora!

— Havia uma menina ruiva em meu pesadelo. Ela escondia o rostinho e chorava, mas quando me olhou, tinha a cabeça de uma boneca da porcelana velha e suja, e não tinha globos oculares nas órbitas.

— Posso imaginar o horror. – Regina olha na direção da escada.

Noutro ponto da cidade, Belle se atreve a entrar no navio do pirata. Não era como da primeira vez em que o medo controlava seus músculos. Agora era diferente, porque aquele era um território amigo e confiável. Ela era responsável por Killian, porque ele aceitara que precisava ser salvo para conhecer o verdadeiro amor.

— Killian! Está aí?

— Aqui embaixo, Belle!

— Está pelado?

— Estou!

— Oba! – ela desce correndo os degraus e começa a gargalhar, achando graça na própria brincadeira.

Lá na cabine, Emma e Killian riem com a brincadeira.

— Você é tão boba! – Killian comenta e levanta-se para receber a visitante. – Venha comer uns biscoitos da sorte que Emma me trouxe.

— Quer se livrar dos meus biscoitos? – Emma se finge de ofendida.

Belle afasta a tigela com os biscoitos para alivio de Killian e coloca sobre a mesa, um livro grande, com desenhos feitos em tinta escura, representado as gravuras de uma história.

— Achei a história do nosso príncipe atemporal!

Emma e Killian se debruçam sobre o livro de páginas grandes.

— De fato é um conto de fadas, que ocorre em algum lugar longe da nossa Floresta. Fala de um reino criado por Omar de Moncaliere, um jovem príncipe que se casou com a jovem Anadette e com quem teve três filhos: Dashiel, Ranald e Dora. Bom, até aí nada demais, porém...

— Porém...

— O reino era próspero e as riquezas minerais brotavam em abundância, o que abriu brecha para a cobiça de outros governantes. O Rei Omar e Anadette governaram de forma a permitirem que as riquezas pudessem ser apropriadas por quem quisesse carregá-las. Com o passar dos tempos, Dashiel assumiu o posto de governador e impôs regras rígidas para que estrangeiros pudessem se apossar das riquezas.

— Bem contemporânea, esse conto. – comenta Emma.

— Sim. Dashiel se tornou poderoso e admirado, porém despertou ódio e cobiça. Prometido a uma jovem da nobreza, ele rompeu o noivado por estar enamorado por uma bela camponesa. – Belle sorri. – Ela se parece com você, Emma!

Killian aponta para a página do livro.

— Então, surge o elemento fantástico da história: uma maldição é posta sobre o príncipe e ao tocar o corpo da amada, ela se transforma em uma estátua de pedra, mas com a alma lá dentro. Enterrada viva. Dashiel passa a ser perseguido por aquela a quem havia sido prometido, porque a jovem fez um pacto com a magia escura e passou a assombrá-lo, amedrontá-lo, intimidá-lo e aproximá-lo de mortes horrendas.

Por alguns segundos, o silêncio e o horror toma conta do casal de namorados. Eles encaram Belle com expressões surpresas e indignadas ao mesmo tempo.

— Isso é não é nada bom. – o pirata fala sem entonação.

— Aproveitando-se da situação, Dora e Ranald, irmãos de Dashiel, deflagram um Golpe de Estado e tomam o trono e o posto de Governador. A Rainha Anadette é poupada, mas Omar e Dashiel são enviados para a prisão, julgados e condenados ao desmembramento. Teriam braços e pernas amarrados puxados por cavalos, que iriam cada um para um lado...

— Não precisa de detalhes, Belle. – pede Emma.

— Pois bem! – Belle ergue o dedo indicador. – A história não termina e as páginas ficam em branco. Por que? Por que alguém alterou o rumo que o autor havia dado.

A pequena sorri vitoriosa e vencedora.

— Sua teoria está certa, Killian! Nosso amigo é o príncipe e a história do livro para no ponto do envio dele pelo portal. – Belle apanha seu tablete e o liga para exibir algo ao casal de amigos. – Vejam isso: na atualidade e em nosso mundo, Dashiel de Moncaliere é um homem com 42 anos e debutou como modelo aos 20 anos de idade. Então, ele está neste mundo há vinte e dois anos...mas por quanto tempo na realidade do reino dele?

— As memórias dele...

— Todas falsas e posso afirmar que quem o trouxe para cá, ainda o está protegendo. Vocês podem descobrir porque já foram Dark Ones! E tenho certeza de que Killian ainda possui vestígios desse tempo, dentro do corpo.

Emma olha para Killian e levanta as sobrancelhas, exigindo explicações de algo conhecido por outra mulher que não fosse ela.

— Não sei do que ela está falando, amor. – ele pisca um olho e mostra-se constrangido.

— Sabe sim! Eu fui escrava, depois me casei e tive um filho com um Dark One. Jamais se esqueça! Então, evoque a sujeira que estiver escondida aí dentro e vamos descobrir quem protege Dashiel, porque Regina está correndo risco. Essa pessoa ou coisa que protege Dashiel pode acreditar que Regina e Zelena são ameaças...então, teremos outra maldição. Sugiro que levantem essas bundas brancas e venham comigo descobrir um meio de tirar o fantasma do esconderijo. – Belle fecha o livro e sai da cabine.

Killian e Emma se entreolham.

— Ela é bem convincente.

— Precisamos avisar Regina...

— Não, amor. Dashiel está na casa dela agora e ele não pode me ver, ou deixaria de confiar em Regina. Poderíamos aproveitar a ausência dele e investigarmos o loft. Será que se eu rodar meu punho, consigo nos transportar numa fumaça da cor de rum encorpado?

Emma empurra o pirata para fora da cabine e o obriga a subir os degraus mais rápido.