Meu final feliz
25 Capítulo 25
O Cupido entrega um espelho simples e sem adornos nas mãos do pirata, que sorri a agradece ao pequeno, entregando um dobrão de ouro e produzindo alegria súbita. Para que uma estátua iria precisar de um dobrão de ouro, dentro de um castelo enfeitiçado?
— O que faremos agora? – Belle se mostra agitada demais.
— Desacelere, Passarinho. – ele pede. Olha para Verena e sem dizer nada, ordena que ela se aproxime. – Antes que você retire Zelena de dentro do espelho, quero que me envie para a realidade onde ela está. Preciso garantir que ela virá sem problemas, porque o menos estamos precisando é de uma bruxa louca, com poderes para atrapalhar nosso trabalho aqui.
— Posso ir com você, papai?
— Você ficará aqui e ajudará Belle e Verena em minha volta.
— Não sei se isso é prudente, Capitão. Eu poderei não conseguir enviá-lo para o lugar certo e o senhor ficará preso em alguma dimensão desconhecida.
Os olhos do pirata descem à meia visão e ficam nebulosos.
— Você irá enviar-me para o lugar certo, Verena. Ou quando eu retornar, arranco seus pulmões com uma concha de sorvete. Então...comece a trabalhar de forma eficiente.
Momentos depois, uma caverna é visualizada por Killian, quando ele despenca do outro lado do espelho. Era algo rústico como a caverna onde Regina protegia Malévola, no subsolo da biblioteca da cidade. O lugar era frio e literalmente underground, quase funesto.
— Certo, certo, certo! Por onde começar a procurar a Verdinha? Caso fosse uma Dark One, eu poderia evocá-la, mas sendo apenas uma bruxa frívola e com poderes amadores, como convocar para uma conversa?
Uma risada debochada é a resposta de Zelena, que sai detrás de algumas sombras e exibe-se elegante em um vestido verde.
— Amadora, mas sempre bela! Como consegue manter o frescor de sua beleza, sem nenhum profissional aqui dentro?
— Você é tão engraçado que eu poderia mijar nas calças, de tanto rir! – ela se senta num trono que faz surgir. – Tenho meus poderes e são bem fortes aqui dentro.
— Então, por que não sai?
— Porque não posso, cavalo! Sua amiga de bronze me trancou aqui e não tenho como desfazer o feitiço dela, sua besta!
Killian fica espantado com a agressividade da mulher, entretanto, não se assusta com a atitude.
— Pois eu vim tirar você daqui para encontrarmos um meio de quebrar a maldição.
— E por que acredita que eu quero fazer isso, seu pirata imbecil?
Pirata imbecil? Cavalo? Besta? Ela estava sem criatividade com os predicados escolhidos.
— Eu imaginei que com a total transformação de Regina em uma besta fera, o castelo seria destruído com seus habitantes, o reino seria pilhado pelos salteadores, todas as joias e pertences seriam tirados daqui e tudo viraria ruína. Há forte rumores de um Golpe de Estado sendo planejado e é uma questão de tempo para acontecer.
— Blefe.
— Não. Os espiões estão vindo travestidos de camponeses e serão financiados por pessoas que têm interesse em toda a riqueza deste lugar. Regina será trucidada em uma fogueira, Dashiel será morto porque tentará defendê-la e nem mesmo os meus poderes serão fortes para combates o que está vindo. A maldição será muito maior que esta.
— Mentiroso. E minha filha?
Killian observa as unhas de sua mão.
— Robin será morta também, porque ainda é jovem e seus poderes são pequenos. Eu não terei outra alternativa a não ser aceitar minha condição de Dark One e você sabe que todos eles são volúveis e seguem a direção da melhor maré. Adoram acordos lucrativos para si.
Zelena se levanta furiosa e aproxima-se muito do pirata.
— Trouxe minha filha aqui para ser morta, maldito??
— Ela morreria de qualquer jeito antes de completar um ano de vida. – ele dá de ombros. – Eu vi o futuro dela, antes de atravessarmos o portal.
— Mentiroso! – ela grita a avança para agredir fisicamente o pirata, mas ele a congela apenas com um pequeno gesto. Apavorada, Zelena se dá conta de que está diante de um Sombrio.
Piscando pesadamente, o pirata acentua a beleza de seus olhos perversos e brilhantes.
— Vamos sair deste espelho, depois você encontrará um meio para voltarmos para casa. Vim com o objetivo de não deixar ninguém para trás, nenhum fio de cabelo, portanto, seja uma menina verde boazinha e deixe-me dar-lhe uma pulseira que somente eu poderei tirar. Não pense que cortando seu braço irá livrar-se dela, como fez naquela vez em que estava presa.
Apavorada, Zelena vê o bracelete em couro escuro ser colocado em seu pulso. Delicado, o pirata toca os cabelos ruivos da mulher, apenas pelo simples desejo em sentir a maciez daquelas madeixas espessas.
— Agora vamos sair daqui, Verdinha!
No quarto, Belle e Verena estavam atentas e aguardando o sinal do pirata para que o processo fosse revertido.
— Não tenho certeza de que conseguirei trazê-los de volta. São fortes demais para mim!
Belle apoia a mão no ombro da soldada.
— Sempre ouvi que o pirata é um sobrevivente. Por isso sugiro que consiga tirá-lo do espelho, porque caso contrário, quando ele sair de lá...e vai sair de lá...não haverá obstáculo entre vocês dois. Killian tem mais de 300 anos e está vivendo como herói há pouco mais de três anos. É um tanto discrepante, não é? Portanto, não tente provocá-lo.
Verena fecha os olhos. Sabia que sua reponsabilidade era imensa, porque a ideia de prender Zelena no espelho não tinha sido planejada. Tudo havia acontecido em um momento impensado de impulso ciumento. Portanto, deveria ser precisa ou teria de apressar sua fuga.
Instantes depois, Zelena está parada no centro do quarto, observando e sendo observada pelas outras pessoas e por uma estátua estúpida de um Cupido rechonchudo que e a olhava incrédulo. Era estranho estar de volta ao mundo naquela dimensão, onde tudo tinha forma e massa.
— E o que pretendem agora? Estou sem meus poderes! Contentes??
— Poderíamos deixar você muda, caso comece a falar demais. – Killian passa por ela e bate propositalmente seu ombro ao dela, provocando dor. – Agora, sente-se ali na cama e comece a procurar algo que desfaça sua estupidez!
— E caso eu me recuse?
Killian dá de ombros. Estava irritado e estranhamente impaciente com a situação.
— Sem problemas. Transformo você numa estátua viva e continuamos nossa pesquisa sem sua ajuda. – levanta a mão e é impedido pelo gesto de clemência da bruxa. – Devo rever minha decisão?
Silenciosa, Zelena vai sentar-se na cama e não consegue esconder sua decepção e raiva.
— Folheie os livros com cuidado, porque se destruir algum, acredito que Regina não apreciará em saber que foi obra sua. — ironiza Verena se sentando à cama, também.
Com um gesto imperativo, o pirata chama a filha para perto de si. Volta-se para Belle e diz:
— Você poderia procurar Regina e conversar um pouco com ela, Passarinho. Robin e eu iremos fazer uma visita ao vilarejo e saber mais rumores sobre a revolta golpista. – ele aponta para a bruxa na cama. – Deixo minha autorização para transformar os pés dela em raízes, caso a espertinha tente alguma coisa.
Verena acha graça na provocação e continua vasculhando os livros à procura de mais conhecimento e informação. O pirata era bizarro e falava coisa com coisa.
O dia estava chegando ao final, quando Killian recebe um cavalo de um dos cocheiros e observa que Dashiel também estava por ali, assistindo um homem preparar um animal para ele.
— Vou ao vilarejo, Príncipe! Quer nos acompanhar?
— Tenho autorização de Regina para ver minha família. Vou levar o convite para o baile.
— Vou levar minha filha para beber rum comigo em alguma taverna.
Dashiel e o cocheiro se entreolham. Não tecem comentários, mas se comunicam apenas pelo olhar. Tinham ouvido aquilo mesmo?
— Vou pernoitar na casa de meu pai. Por que não vem comigo, em vez de embebedar sua filha?
— Ver seu pai é mais divertido que embebedar minha filha? – ele coloca a menina sobre o cavalo.
Rindo, Dashiel tem de concordar com o pirata. Olha para a garota e a encontra com um sorriso infantil e traquina. Tal pai, tal filha.
— Meu pai está ensandecido pelo ouro que recebeu de Regina. Pude ver a imagem dele em sua luta contra as moedas que o seguem por toda parte e se multiplicam sem parar.
— Cara de sorte! Iremos para a taverna e depois iremos ao encontro do homem com as moedas vivas. Cuidado com os lobos-vampiros e com alguma Mandícore saída de algum livro velho.
Era noite completa, quando Dashiel é recebido por um abraço do pai. Levado para dentro da casa, ele se depara com móveis novos e ambiente luxuoso onde antes era tudo rústico.
— Fez grandes modificações aqui, hein?
— Tenho ouro, filho. Mando vir o que desejo e pronto! Comprei muitas terras, muitos animais, tenho muitos empregados e a lavoura é imensa! – o velho passa a mão pelas roupas e algumas moedas de ouro caem pelo chão, mas retornam para dentro dos bolsos.
Horrorizado, Dashiel vê pessoalmente o que somente conhecia pelas imagens vistas no espelho.
— Isso está vivo como o castelo de Regina...
O balir de um carneiro é ouvido e o bicho surge saltitante, parando ao lado do velho. Um carneiro todo feito em ouro, reluzente e vivo! A visão causa horror na alma do príncipe, que acreditava ter visto coisas bizarras no castelo. Mas aquilo...
— Dashiel, meu irmão!! – Clara surge correndo e toma o irmão nos braços. Beija-lhe diversas vezes o rosto e os cílios, afastando-se para ver melhor as mudanças. – Você é um príncipe, agora! Veja os tecidos! Seus cabelos estão mais saudáveis e sua pele é...pele de pêssego!
— O que houve com todos vocês?
— Conosco? O mesmo que aconteceu com você, meu irmão! Ficamos ricos! – ela se afasta e abre os braços. Parecia insana, também. – Sou a dona de uma frota de navios e domino o comércio de melado e rum na região! Como esperava que estivéssemos? Vivendo na miséria absoluta, enquanto você se chafurdava na riqueza com a Rainha Monstro?
— Ela...não é um monstro....- Dashiel não consegue desviar o olhar da figura monstruosa do carneiro de ouro.
Clara dá de ombros e conduz o irmão pela mão. Ele ainda observa o pai se afastar tilintando as moedas e sendo seguido pelo carneiro.
— Monstro ou não, em breve ela será deposta. Já sabe do descontentamento do povo? Nós, os comerciantes iremos depor a Rainha e comandaremos o reino. Quando estivermos no comando, colocaremos um preço pela cabeça da Fera em que ela se transformará.
— Do que está falando, Clara? Regina é um ser humano!
— Hummm! Por enquanto ela é metade humano. Mas a maldição se tornou conhecida de todos. E quem acreditava que aquilo no rosto dela era apenas uma cicatriz, já descobriu que ela matou o rei queimado, mas antes foi amaldiçoada por ele! Em breve, será deposta, presa, julgada e desmembrada. – Clara sorri. – Você ficará livre daquela demente e poderá retomar seu casamento com sua esposa!
Não poderei. Regina a matou.
— Não seja precipitada, Clara. – caminhando para longe da irmã, ele olha para a direção por onde o pai havia ido e o encontra sentado numa poltrona, tentando ler um livro, sendo atrapalhado pelas moedas que andava sobre ele como se fossem parasitas. – Você está encabeçando essa revolta golpista?
Clara sorri.
— Sou uma das líderes, sim. Estamos retirando produtos das feiras, aumentando os preços e isso está provocando fúria nas pessoas. É preciso muito dinheiro para comprar produtos que são entregues quase podres aos camponeses. Não há mais grãos e houve uma pequena praga entre os rebanhos de pequeno porte. Digamos que os líderes que querem a cabeça da Rainha, estejam criando uma crise econômica para justificar nossos atos e jogarmos toda a culpa nela. O povo é como gado: marcado e sempre feliz, além de não pensar por si.
Buscando argumentos, Dashiel se aproximada irmã e tenta sorrir.
— Regina está se humanizando com a minha presença. Estamos mais próximos e tenho descoberto que há a possibilidade de quebrarmos a maldição e salvarmos a mulher dentro daquele corpo.
A mulher acha graça e ri.
— É muito romântico, meu irmão, mas eu não pretendo salvá-la. Regina é temida agora, porém, ficará carismática caso se livre da Fera. – caminha até um móvel e abre uma gaveta, retirando um pergaminho amarelado de lá de dentro. – Veja isso! É o desenho de uma arma que poderá matar Rainha e Fera ao mesmo tempo.
— Do que está falando?? Quem você pensa que é para determinar a vida e a morte de alguém?
— A vida e a morte de um monstro, Dashiel. E você irá me ajudar com isso, porque eu quero me tornar a Governadora do Reino. Matando pessoalmente a Rainha, serei vista com respeito e temor. Começará a minha era como líder.
Incrédulo, abobalhado e sem palavras para descrever a nova irmã, Dashiel apenas a olha, esquecendo-se de que ela possuía vida.
— Esta é uma seta forjada em ouro retirado dos escombros de um velho navio, afundado por fantasmas. – Clara sorri maldosamente. – Esta peça está guardada em um de meus navios e será usada no momento oportuno, quando a Rainha estiver exposta em meio à alguma multidão. Em uma das audiências, por exemplo.
Ou em um baile. Não! Ela não deveria saber do baile!
— Mas para que o disparo seja infalível, preciso que você consiga uma única gota de sangue da Rainha Monstro, para molhar a ponta da seta. A seta irá passar por todas as pessoas em volta e acertará o coração dela. – Clara percebe que o irmão está em pânico.
— Não!! Não vou fazer isso!! Regina é um ser humano que precisa de ajuda!!
Clara esmurra o ombro do irmão.
— Caso, você se recuse a me ajudar, direi a todos que a maldição da Rainha acometeu o nosso pai e que ele deve ser caçado, preso e desmembrado!
— Não!!
— Sim!! Você fará a sua escolha, Dashiel! Será Regina ou o nosso pai! E direi que mais pessoas também foram contaminadas, como as crianças e os religiosos, incluindo nosso irmão caçula!!
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