Killian enxuga o nariz de Robin. A menina funga mais algumas vezes e mantém o beicinho, amuada e não menos fofa por isso.

— Está mais calma?

— Estou triste, papai. Viemos de tão longe para encontrar minha mãe e ela foge de mim.

— Zelena não fugiu de você, amor. Ela fugiu dela mesma.

Piscando para afugentar as lágrimas, a menina sente a voz ficar embargada.

— Mas eu somente queria que ela me pegasse no colo, papai...depois nós iriamos embora...

Trazendo a garota para mais junto do corpo, Killian tenta encontrar as palavras certas para consolar a pequena.

— Sabe, amor, Zelena está sentindo-se sozinha, assustada e está sofrendo porque perdeu o seu pai. Algumas pessoas não sabem lidar com a raiva e nem com a solidão.

Belle entra esbaforida no quarto e provoca expressões diversas em seus companheiros.

— Encontrei a biblioteca e buscava alguma alternativa em magia para quebrar a maldição, caso não consigamos despertar algo em Dashiel a tempo! – ela ofega e mantém as mãos abertas no ar. – Fui informada de que há fortes rumores de um golpe de Estado. Pessoas mais abastadas estarão usando os camponeses para a tomada do poder. Irão aguardar a proximidade da conclusão da maldição e matar a todos os moradores daqui!! Irão queimar Regina numa fogueira, tipo Inquisição!!

O silêncio torna-se sepulcral. Mas Belle o quebra.

— O rapaz que me acompanhou à biblioteca, afirmou que muitos camponeses estão vindo ao castelo não para resolver problemas de propriedades, mas para avaliar entradas e saídas. Muitos são soldados disfarçados de camponeses e espiões que estão criando mapas para facilitar a invasão e serem fulminantes. – Belle olha para os lados. – Onde está Verena? Ela se incumbiu de procurar o espelho para libertar Zelena.

— E como ela pensa encontrar um espelho num labirinto como este?

— Foi ela quem prendeu Zelena no espelho, Killian. A maldição foi lançada na casa de Regina e foi utilizado um espelho moderno. Ela usará magia para isso!

— Onde sua amiga bronzeada está, agora? Estava em companhia de Dashiel caminhando por centenas de cômodos. Acredita mesmo que ela esteja atrás de um espelho? Nossa amiga nos traiu e fugiu com Dashiel.

Belle cobre os olhos com uma das mãos.

Precisariam ser cautelosos mais do que antes. Com suavidade, Killian se levanta da cama e pede calma com gestos lentos.

— Fiquem aqui para não levantarem suspeitas. Eu vou atrás de Verena e descobrir vestígios de uma nova abertura de portal. Ele se inclina e beija os cabelos de Robin. – Sei que vocês não irão apreciar, porém, preciso sair de maneira triunfal. Gesticula e é envolvido por uma nuvem de fumaça em tom quase dourado. A cor do rum encorpado.

Às sete horas da noite o jantar é servido e Regina faz questão de estar presente. Queria a companhia daquelas pessoas, porque se sentia bem ao lado delas. Explicar não conseguiria, porém, sentia que poderia confiar nas pessoas do grupo, incluindo o pirata de lindos olhos celestes e sorriso mau.

Usando trajes mais femininos, Belle e Robin se apresentam à sala de jantar e conseguem produzir um sorriso admirado em Regina. A pequena Robin estava elegante e radiante, embora carregasse uma expressão triste em seu rostinho.

— O que a aflige, linda criança?

— Eu tive um sonho ruim.

— Tem certeza de que não é meu rosto que a assusta?

Os olhinhos a garota se fixam em Regina. Ela nega coma cabeça.

— Vi lobos se transformando em vampiros; vampiros virando cinza embaixo de luz azul; vi duas Mandícures lutando, além de ver macacos que voam. Acredita mesmo que seu rosto pode ser mais feio que isso?

— E o seu sonho foi pior do que tudo isso que viu, criança?

O silêncio é a primeira resposta.

— Existem coisas mais tristes, Majestade.

— Onde está seu lindo pai? Ele se perdeu em meu castelo? – Regina fala com entonação de quem sente o desejo em começar uma discussão.

O farfalhar de roupas em tecido grosso é ouvido e a presença do pirata é anunciada. Ele surge ao lado de Verena e a mulher era a fúria estampada, desenhada e decorada em forma de um ser humano. Quem arriscasse poderia ver fumaça saindo de suas narinas.

— Pelo visto a soldada conseguiu conhecer partes de meu castelo. E o que encontrou?

— Quartos. Muitos e lindos quartos. – ironiza Killian. – Você está especialmente deslumbrante esta noite, Majestade. O que fez? Banhou-se nas colônias perfumadas de Afrodite?

Lisonjeador. O pirata sabia como enaltecer o ego de uma mulher, mesmo que esta mulher tivesse traços de um monstro em seu rosto. O sorriso de Regina dá lugar a uma carranca, ao sentir-se desafiada e ironizada.

— Eu devo ter sido banhada nas águas da banheira podre de Hefestos, o deus deformado da forja. Soaria melhor.

— Você consegue ser irritante, Majestade. Acredita mesmo que um pirata velho como eu, iria incomodar-se com uma Fera controlada e com uma pequena cicatriz no rosto? Eu amo o universo feminino e é isso que me importa!

Regina ajeita a máscara sobre a metade de seu rosto.

— O senhor é impertinente e seguro demais para ser um simples Capitão perdido em um portal. O senhor não seria o próprio rei e estas damas seriam suas esposas? Mesmo a menina?

Ficar sem rir? Não. Belle não se contém e começa a rir.

— Desculpem-me, mas fui acometida por algumas lembranças...

— São todas minhas filhas, Majestade.

O riso de Belle é interrompido e todas olham para o pirata de olhar velho.

— Tenho muito tempo em minhas veias e já passei por reinos como a Terra do Nunca, o País das Maravilhas, a Floresta Encantada, o Reino das Águas, os Ínferos, Olimpo...sou um homem incomum e muito, muito, mas muito velho mesmo. Construí meu próprio reino e tive muitas filhas. – ele aponta para todas elas. – Robin é a minha caçula.

— E pelo visto pretende ter outros filhos e está em busca da mãe. – Regina não se altera com a informação, embora estivesse impressionada. – Lamento decepcioná-lo, mas quando eu me refiro à minha deformidade, não estou falando desta cicatriz em meu rosto e de meu olho sem íris.

Um rugido grosso e metálico eclode da garganta da rainha e ela pula sobre a mesa, tomando a todos de assalto. Não era mais Regina quem estava dentro daquele elegante vestido e coberta pelas joias. Era uma criatura de tom azulado e imensos dentes vermelhos pontiagudos, num rosto semelhante aos traços da Mandícure ruiva que os atacara na floresta. Músculos grandes enchiam os tecidos do vestidos e garras afiadas apoiavam seu corpo na posição de quadrúpede.

Empunhando sua inseparável espada, Killian se posiciona em pé diante da Rainha Fera, tendo empurrado Robin para longe dele. Suas companheiras também assumem posição de ataque e aguardam qualquer movimento daquela monstruosidade sobre a mesa.

— Viemos em paz, Rainha. – ele fala com a mão espalmada na direção dela.

— O que vocês fizeram com ela, miseráveis?? – a voz de Dashiel é ouvida e sem pudores ele avança na direção da mesa. – O que houve, Regina??

O demônio se empertiga e emite um som horrível que poderia ser identificado por um riso de escárnio. Aos poucos, as deformidades vão diminuindo e a figura esguia da Rainha vai surgindo diante dos olhos assustados. Ela ajeita a capa sobre os ombros e não se preocupa em cobrir o rosto com a máscara que havia desaparecido naquele momento.

— Não houve nada, meu amado. – toca o rosto de Dashiel. – Apenas quis oferecer a visão de minha verdadeira alma aos nossos hóspedes. Quero que eles saibam com quem estão lidando para que não me menosprezem e nem pensem que sou uma mulher melindrosa com uma cicatriz pequena na bochecha.

Dashiel se sente irritado demais com a presença daquelas pessoas em seu espaço pessoa e eles representavam uma forte ameaça. E é naquele momento que ele se dá conta de que Verena estava liberta e estava ali. Olha-a com a mais absoluta fúria.

— Acredito que agora vocês entenderam que a fera a qual me refiro...não é um ursinho peludo. É um demônio! Eu irei transformar-me em um demônio e serei caçada por isso. É tudo uma questão de tempo.

Killian guarda sua espada e volta ao seu lugar. Ainda parada do centro da sala, Robin olha Regina com a curiosidade das crianças. Sorri.

— Por que você quer assustar as pessoas?

A pergunta surte o efeito de um coice contra o peito de Regina. Não havia como resistir ao sorriso que aquela criança exibia. Era um sorriso vindo direto de seu coração e não ficava apenas nos lábios vermelhos. Regina não se altera, embora tudo o que queria era abraçar aquela pequenina e beijá-la até que ficasse com cócegas.

— Vamos relevar esta minha demonstração. – a Rainha diz. – Eu gostaria muito que meu amado Dashiel tomasse conta das convidadas, porque preciso conversar com o Capitão em particular.

— Está dedicando tempo demais a sós com ele, Regina.

A reação de Dashiel é de extremo ciúme e indignação. Seu rosto fica transtornado, mas sua elegância impede-o de agir irracionalmente. Quando Regina e Killian saem da sala, o príncipe volta seus olhos para as mulheres que haviam ficado ali.

— Não precisam dissimular, senhoras. Sou eu quem está aqui e já conheço o objetivo de sua chegada a este reino.

— Não sabe, não. – Belle rebate. – Estamos aqui para ajudar alguém de nossa família.

— Ele já sabe qual é o objetivo de cada uma de nós. – Verena se intromete na conversa. – Ele sabe que estamos aqui para resgatar Regina, Zelena e ele da maldição.

— Vocês mentem e fazem isso muito mal. – a insegurança invade a alma do príncipe. Algo não estava certo e não eram as criaturas fantásticas do castelo ou as visões extraordinárias com quem convivia diariamente. – Não irão enganar Regina oferecendo magia em troca da cura dela. Sabem que a única força que pode libertá-la é o amor. Mas quem a ama neste reino?

— A questão não é essa. A pergunta que deve ser feita é: por que a pessoa que a ama, não tem coragem para assumir para si mesma?

— Belle tem razão, Príncipe. Não há o que possamos fazer, sem que você nos ajude. Viemos com o objetivo de resgatar com o uso de força, mas a situação aqui não requer isso. – a soldada se atreve e toca o braço do homem. – Não somos golpistas ou mesmo estamos procurando riquezas. Queremos levá-los embora daqui, antes que seja tarde demais.

O som de palmas é ouvido e atrai todos os olhares na direção de um espelho grande numa das paredes da sala. Refletida ali, Zelena aplaudia com entusiasmo a cena que havia assistido.

— Isso é lindo demais! Preocupação em salvar a Rainha Fera e resgatar o lindo príncipe de olhos cor de mel! E qual seria o próximo passo? Invadir o Castelo das Esmeraldas, matar os moradores como se todos fossem bruxos e roubar todas as riquezas materiais e imateriais desta linda morada?

— Zelena? – Belle se aproxima do espelho. – Viemos em paz apenas para quebrar a maldição. Você precisa nos ajudar!

A ruiva gargalha de maneira divertida. Seu peito estava em chamas ao encontrar-se novamente com Robin, mas queria demonstrar indiferença e superioridade para não sucumbir à presença de seu fruto com o homem a quem amava, mesmo sem ser correspondida.

— O grupo de heróis veio quebrar a maldição? E como pretendem fazer isso? Há outra forma de separar a Fera e Regina, sem que seja pelo amor verdadeiro? Sabe por que escolhi o amor verdadeiro como única chave para a abertura dos grilhões de minha irmãzinha? – Zelena ri ainda mais. – Primeiro, porque o amor verdadeiro não existe. Segundo, porque o único que amava Regina, teve a alma obliterada! E terceiro: estipulei um prazo pequeno demais para o fim da maldição! Sugiro que desistam e voltem para suas vidas provincianas!

— Você os conhece? Quem são e o que querem realmente, Zelena?

Ah, como era gostoso ouvir Dashiel pronunciando seu nome! Poderia ficar com ele, depois que Regina se transformasse totalmente em Fera e fosse caçada pelos aldeões. Poderia encontrar uma forma de sair daquele espelho e tornar-se outra vez a poderosa senhora de Oz. Ficaria com Robin ao seu lado e ainda manteria um belo consorte roubado de sua irmã. Decide tentar controlar a situação.

— Vamos fazer um acordo?

— E que tipo de acordo tem em mente?

— Digamos que não tenha forças para sair daqui por méritos próprios, queridos. Proponho que encontrem o espelho original usado para me aprisionar, e depois que o encontrarem, ordenem que Verena me tire daqui. Estando do lado de fora, eu irei retirar a maldição...desde que Regina permita que eu fique com minha filha Robin e com o homem a quem ela está amando. Mas final feliz para ela? Definitivamente: NÃO!