Meu final feliz
21 Capítulo 21
— Não sabemos o que acontece aqui quando as luzes são apagadas. Então, eu sugiro que formemos pares especiais para que todos fiquem protegidos. – Killian sugere às companheiras no corredor onde ficavam os quartos. – Robin e eu ficaremos juntos, enquanto Verena dormirá com Belle Como será momento excepcional, solicito que rompemos o acordo de não utilizar magia. Precisamos de proteção maior do que nossas armas.
Todas concordam com o pirata. Silencioso e inerte como se fosse uma das estátuas, André os esperava decidir qual quarto iriam ocupar. Parecia não escutar a conversa ou não se importar com o teor dela.
— Estamos em um território desconhecido e poderoso, onde tudo tem vida própria. Toda cautela será pouca e teremos de usar nossas armas de defesa. – continua o pirata.
Verena e Belle concordam sem dizer nada. Apenas suas expressões confirmavam.
— Vamos nos deitar, papai. Estou com muito sono... – Robin boceja e de repente fica atenta com o som de uma flauta de Pan.
Todos olham na direção de uma sombra que se mexia no corredor. Um sátiro surge em movimentos serpenteantes e continua tocando seu instrumento musical.
— Um sátiro, papai! – Robin abraça a cintura de Killian.
— Não temam. Sou um amante, não sou guerreiro ou um violador.
Killian abaixa a cabeça mais mantém os olhos fixos na criatura.
— E vai tornar-se um eunuco, caso dê mais um passo na direção de minhas mulheres.
Fazendo uma careta de desgosto, o sátiro se afunda nas sombras e desaparece, juntamente com sua flauta de som doce e repugnante.
Noutro quarto, Regina continua com seus movimentos entediados de escovação dos longos cabelos negros. Ouve batidas na porta e sorri, mas não se esquece de esconder sua deformidade com suas madeixas.
— Pode entrar.
Dashiel abre a porta e sorri, entrando e fechando a porta logo em seguida. Não poderia deixar a porta aberta como convite às sombras do corredor. Essa lição havia aprendido bem.
— Eu vi você tirando a máscara para aquela mulher. O que pretende fazer ao se expor tanto para desconhecidos? O que queria causar?
— Não são pessoas desconhecidas, meu amor. Eu as conheço e elas a mim. Não sei de onde, quanto ou como, mas eu as conheço. – ela dá de ombros. – Apenas senti o desejo de mostrar minha monstruosidade.
— E como ela reagiu?
— Horrorizada, sentiu compaixão e piedade. Mas o que foi incrível é que não senti raiva dela. O que senti foi a presença de possibilidades e sei que eles trouxeram isso.
Dashiel se aproxima da cama e espera autorização para sentar-se ali.
— Posso pedir-lhe que não se exponha tanto? Mostrar-se para mim é completamente diferente, porque somos íntimos. Mas eles...vieram de longe...não sabemos a real intenção. E se forem simpatizantes dos rumores de Golpe de Estado?
Regina mantém a cabeça baixa e sorri.
— Amor meu, eu sei que aquele homem não é um mero capitão pirata. Verena não é uma princesa e nem a guerreira é comum. E a pequena Belle tem muita sabedoria e um peito repleto de amor, que exala cheiro. Isso sem contar com a maravilha que é aquela criança! O que é aquilo? Robin tem uma doçura incontestável e conseguiu me encher de paz e de esperança. Eu tenho a absoluta certeza de que eles vieram para quebrar a maldição. Não seja egoísta e permita que eu tenha esta chance.
Um misto de alegria e tristeza enche o peito de Dashiel. Naquele momento ele reconhece a esperança de conseguir sua liberdade e por outro lado reconhece que não era mais tão importante na vida de Regina. Ela havia encontrado substitutos para conseguir a liberdade de todos os moradores do castelo e do reino.
— Caso isso seja verdade, espero que consiga livrar-se desse peso imposto sobre suas costas.
— Já que não conhecerei o amor verdadeiro e nem terei meu final feliz, então que eu me utilize da magia para conseguir viver sem dor.
O homem se empertiga e a olha com curiosidade.
— Você sente dores?
— Sinto dores físicas, Dashiel. Todos os dias eu desperto com dores pelo corpo, anunciando que meu prazo como ser humano está acabando. Fico furiosa e começo a cometer loucuras por motivos torpes...procure me entender, meu amado. – ela levanta o queixo e estende a mão para tocar o rosto barbado de homem. – Vá descansar, amado. Deixe-me com a minha alegria momentânea.
— Posso dormir aqui com você?
Ela concorda com a cabeça e bate sobre o colchão. Sorri ao vê-lo acomodar-se na cama, como aquelas crianças que recebem a autorização dos pais para dormirem em noites de chuva, com o casal. Aquele pedido vinha apenas enriquecer ainda mais os sentimentos que enchiam sua alma escura e a faziam lembrar que ainda poderia sonhar com seu final feliz.
— O que pretende fazer com os visitantes? Como pretende lidar com eles?
— Pretendo fazer um baile. Vou pedir que André providencie tudo e envie convites para quem souber dançar e tiver roupas adequadas a um baile em meu castelo. Será uma oportunidade para que você reveja sua família, também. Sinto-me tão leve que permitirei que vá à casa de seu pai e leve o convite pessoalmente. Sei que você voltará.
Na manhã seguinte, Dashiel recebe os visitantes e os acomoda à mesa do desjejum. Delicado e gentil, pede que as serviçais assustadas providenciem a alimentação matutina.
— Regina já se alimentou e está na sala de audiências, atendendo alguns camponeses e negociantes que vieram esta manhã. Ela pediu que o senhor esteja presente nas audiências, depois de se alimentar, Capitão.
— Poderemos circular pelo castelo? – pergunta Verena recebendo um olhar intrigado de Dashiel.- É que gostaria de ver tudo...tudo...
— Aviso que poderão ver coisas inexplicáveis. Mas fiquem à vontade.
— Vocês têm biblioteca? — Belle sorri.
— Sim.
Dashiel se acomoda à mesa e sorri para a mulher que serve seu café.
— Por que você vive aqui no castelo com a Rainha?
Os olhos pesados do anfitrião deitam-se sobre o rosto do pirata. Olham-se por alguns segundos em silêncio, como se estivessem compartilhando da mesma reação sobre algum fato.
— Porque meu pai fez um acordo com ela, Capitão. Eu estou apenas cumprindo a nossa parte no acordo. – ele pisca como se estivesse sonolento.
Belos cílios escuros e longos! Killian sorri ao recordar-se da definição que havia feito para descrever quem era Dashiel, para uma Regina curiosa em saber os hábitos do belo desconhecido.
— Pretende casar-se com ela?
Desta vez quem assume uma postura de suricato, é o príncipe.
— Sou um homem casado, Capitão. Estou viúvo, mas ainda me considero casado. Por que a pergunta? Está interessado na vaga de rei?
Trocando um rápido olhar com Belle, o pirata assume uma expressão cínica.
— Ela é viúva, jovem e rica. Sou um homem descompromissado...por que não me interessaria em tornar-me um rei? Quais as qualidades dela?
— Bom...Regina é uma dama, uma mulher refinada, altiva e elegante. Instruída, adora poemas e compõe músicas. Está esforçando-se para aprender a dançar e sabe pintar telas perfeitas em óleo. Tem lindos cabelos negros que descem em cascata pelos ombros e costas...isso é encantador. Quando ela domina o corpo e não permite que a raiva controle suas emoções, nenhuma imperfeição pode ser notada.
Dashiel fica pensativo sobre o que havia acabado de falar e como se estivesse perdido em lembranças evocadas com aquela descrição.
— Então é um ótimo conjunto, exceto pela deformidade do rosto. Mas isso é relevante para um homem como eu que já viu e viveu coisas que nenhuma palavra pode descrever. Nem em seus mais fantasiosos delírios, poderá visualizar o que meus olhos já presenciaram. Então, um rostinho com uma leve cicatriz não será nada para impedir que desperte paixão e amor em mim. – ele sorri e pisca um dos olhos para Robin, que retribui.
— Está sendo deselegante e impertinente, Capitão. Não estamos numa taverna e há damas presentes.
— Nenhuma das damas está interessada em mim, Príncipe. O senhor mora aqui há tempos, é viúvo e nunca se interessou por ela. Por que está enciumado? Pensa que ela é seu animal de estimação?
— Killian! – Belle o adverte e recebe um sorriso como resposta.
Encarando o pirata com expressão de curiosidade e indignação, Dashiel se incomoda com a insistência daquele desconhecido. Cobre os lábios finos com as pontas dos dedos de uma das mãos, sem conseguir acreditar que ouvira aquela frase.
— Não sou príncipe, Capitão. Sou um oleiro e estou vivendo aqui por um acordo feito entre a Rainha e meu pai. E não penso que ela seja meu animal de estimação, porque ela é uma pessoa altiva, encantadora e sensível. Exijo que a respeite ou serei obrigado a mostrar-lhe que sua presença não será aceitável nesta casa.
O Dark One assume o espírito de Killian e ele se sente tentado a provocar ainda mais o ciúme do jovem príncipe amnésico. Tinha de trazer à tona o instinto masculino de proteção do território daquele homem escondido atrás de uma falsa aura de puritanismo.
— Aceitável, Príncipe? Você coabita com uma mulher com um corpo que enlouqueceria os deuses do Olimpo e insiste em querer convencer um homem como eu, que está apenas cumprindo um acordo com de seu pai com ela? Você é gay, por acaso?
Robin olha de um lado a outro e mantém o sorriso nos lábios não estava entendendo nada, mas sabia que falavam de Regina. As demais mulheres apenas assistiam e aguardavam algum eletrizante final para aquela discussão machista.
— Gay? E o que é isso?
Inclinando-se para frente, Killian exibe um sorriso malicioso.
— Estou afirmando que você prefere o corpo peludo do sátiro à pele macia de Regina.
Abrindo e fechando a boca como se fosse um peixe respirando, Dashiel não consegue formular uma resposta à altura daquela depravação. Sua mente vagueia e milhares de imagens desconhecidas embaralharam sua alma, numa luta feroz de emoções e lembranças que não pareciam ser suas.
— Acredite, Príncipe, eu respeito a sua opção. Apenas não respeito a sua atitude de posse. Regina é livre e irei investir para que ela fique ainda mais livre e agradecida. Sabe que uma mulher agradecida pode ser muito benevolente.
Dashiel se levanta e encara o pirata.
— Capitão, estamos falando de Regina Mills. Ela é a Rainha e Governadora deste reino, portanto, seja prudente e respeite ou poderei deixar de ser polido. Não pense que por ser um visitante ou um Dark One, tenha conseguido o meu respeito e o meu temor. Seus poderes podem ser fortes em seu reino...aqui dentro o território é meu. Modere as suas palavras. – ele aponta para a saída da sala de jantar. – Peço que o senhor não deixe Regina esperando por muito tempo na sala de audiências, porque seria deselegante.
Ficando em pé, ele se volta para Belle e Verena.
— Vou pedir a um dos serviçais para que a acompanhe em sua expedição à biblioteca. Quanto à senhora, poderei ser seu guia na visitação pelo castelo. Peço que respeitem os moradores deste lugar, porque estamos aqui há mais tempo e não gostamos de perturbação. As sombras podem fazer mais mal do que privar o mundo de luz, inclusive para Dark One.
Ele gesticula e estende a mão para que Verena o acompanhasse. Estava furioso e ultrajado com o atrevimento do pirata. Ousado! Desrespeitando a dona do castelo!
Killian não se contém e começa a rir, quando observa o casal afastando-se.
— Pegou pesado, hein?
— Ele precisa sentir-se ameaçado, Passarinho. Dashiel precisa sentir que sua zona de conforto está sendo invadida. Ficar sentindo pena de si mesmo, dentro da acomodação de prisioneiro de luxo é muito fácil. Agora, enfrentar um pirata maravilhosamente lindo e sexy como adversário, faz qualquer um dar pulos bem altos!
— É! Quando a água gelada bate na bunda, a gente costuma dar pulos bem altos!
— Robin! – os adultos falam ao mesmo tempo.
Na sala de audiência, Regina atendia um grupo de negociadores. Ela olha rapidamente por cima da cabeça deles, quando vê Killian e Robin chegarem. Parecia não estar interessada na conversa daqueles homens, embora não demonstrasse como fazia antes. Aprendera com Dashiel a exibir respeito pelo que as pessoas tinham a dizer, mesmo que não tivesse tanta importância para o momento.
Os visitantes se sentam próximos à Rainha e cumprimentam discretamente as pessoas ali presentes. A chegada de uma comitiva de nobres no reino de Oz, já estava em domínio público e muitos especulavam o motivo de sua presença naquele lugar. Eram vistos com desconfiança e temor.
Os negociantes terminam seu assunto e saem do ambiente. Um pequeno grupo de agriculturas se aproxima e apresenta o problema de disputa de um pedaço de terra cortado por um trecho do rio. Regina os ouve com paciência e desconhecendo o próprio comportamento, decide pronunciar-se.
— Você me disse que vive naquelas terras há mais de dez anos e que seu vizinho chegou a pouco mais de três anos. Alega que seus animais e sua família têm mais direitos ao uso da água do que os recém-chegados. Portanto, deixe-me dizer que não são vocês quem têm direitos sobre o uso das águas do rio, porque ele é muito mais velho que todos nós. O rio tem direito sobre nós e quando nascemos para nossas vidas medíocres, o rio já existia. – ela ajeita a máscara e por segundos sente o ímpeto de mostrar seu rosto. – Qualquer ser vivo deste reino pode utilizar-se das águas, a menos que o rio não nos permita mais. Já que vocês não se suportam e não querem mais brigar pelas águas, sugiro que revezem em seus horários.
— Mas. Majestade...
— Caso eu seja informada de que alguém cercou ou contaminou o rio para prejudicar vizinhos ou viajantes, além dos animais da região, tenha a certeza de que pagarão um preço muito alto. Não pensem que os matarei, mas o condenarei a um destino bem cruel. Vamos ver qual de nós pode ser mais mesquinho.
— Sim, Majestade.
— Agora vão comer alguma coisa e voltem para suas casas.
— Decisões inteligentes, Majestade. – comenta Killian quando não há mais pessoas na sala para o atendimento.
— Pretendo realizar um baile em meu castelo nos próximos dias. Gostaria que vocês participassem, antes de retomarem a busca pelos parentes perdidos.
— Ficaríamos honrados, Majestade.
— Eu espero não ter problemas com a presença de vocês em minha casa. Não gostaria de saber que errei em meu julgamento.
Pai e filha se entreolham.
— Não terá, Majestade.
— Espero não ter de transformar certa guerreira de pele de bronze, em uma estátua de pele bronze. Porque se sua soldada continuar estendendo os tentáculos na direção de Dashiel, serei capaz de deixar a urbanidade de lado e exibir a fera que há dentro de mim.
Descendo os degraus de onde estava o trono, Regina esboça algo que poderia ser chamado de sorriso.
— Não será necessário. Poderíamos chamá-la de Regina?
A mulher concorda com a cabeça e indica um caminho para que os três sigam. Terminam seu trajeto em um jardim florido junto a um pequeno espelho d’água.
— Dashiel ama este lugar. E eu amo quando ele decide banhar-se aqui. É algo mágico que acontece quando ele entra nessas águas...tudo fica iluminado e brilhante que me faz esquecer de que sou o que sou. Até as águas colaboram para que ele se torna ainda mais bonito e meus olhos fiquem enriquecidos com o que vejo.
Killian toca a água com a ponta dos dedos e senta-se na beirada na fonte.
— Por que o mantém aqui e não se casa com ele?
— Porque há muitos anos, eu transformei a esposa dele em uma estátua viva. Depois, eu o obriguei a viver comigo como meu escravo, e num ímpeto de ódio, arranquei o coração vivo da estátua e esmaguei diante dos olhos dele. Tenho apenas o consolo de cuidar dele para compensar o que fiz. Mas, não há como fazer com que ele me ame.
— Por que não o liberta e consegue a gratidão dele com isso?
— Ele ficará liberto quando eu me transformar completamente numa Fera. Ao sentir que está chegando momento, libertarei a todos que me serviram e passarei a viver apenas em companhia de minha irmã Zelena. O meu futuro é negro e assustador, Capitão.
— Nunca quis ter filhos?
Olhando Robin com um carinho estranho, a Rainha afirma com a cabeça.
— Tive um filho...mas nada sei sobre ele. O que sei é que não me lembro de vê-lo sair de meu corpo...porque, isso não é interessante. Porém, eu gostaria de saber sobre a filha do capitão. Que menina é essa?
Horas mais tarde, noutro ponto do castelo...
Killian conduz Robin pela mão e ambos chegam a um cômodo onde um cravo adormecia junto a uma harpa, ambos esquecidos naquele canto.
— O que é aquilo?
— É um primo do piano. Chama-se cravo, e depois da voz humana, possui o som mais lindo que alguém pode ouvir.
— Por que estamos aqui, papai? – ela liberta a mão do pirata e caminha para observar o instrumento musical.
Killian se aproxima de um espelho e toca sua superfície. Envia uma invocação à presença de Zelena e aguarda.
— Porque quero que conheça uma pessoa.
A superfície do espelho sofre uma alteração e torna-se semelhante a uma superfície aquosa, oferecendo espaço para uma mudança como se fosse uma janela.
— Hummm! Minha irmãzinha trouxe visitantes! E belos visitantes!
Robin deixa de lado sua curiosidade pelo instrumento musical e corre para conhecer a pessoa presa no espelho.
— O que você está fazendo aí? Como conseguiu entrar?
— Ora, ora! Temos uma fedelha sem compostura? E um lindo pirata com... – Zelena arregala os olhos e se pudesse fugir do espelho, teria feito. – Por que minha irmã abriu as portas para um Dark One?
— Ele é apenas meu pai, moça. – Robin exibe seu sorriso poderoso e rouba muitos minutos de atenção de Zelena. – Estamos apenas de passagem e a Rainha nos pediu para ficar alguns dias.
Sem intrometer-se na conversa das damas, o pirata apenas encara Zelena de maneira dominadora e zombeteira.
— Por que estão aqui? Vocês são perigosos...o que querem aqui??
— Somos inofensivos, moça. Queremos apenas...
— Quem é você, menina? Por que está em companhia deste homem?
Robin olha o pirata por cima do ombro e recebe autorização para responder. Ela se volta para Zelena.
— Sou Robin Elisabeth Mills Locksley Jones, ao seu dispor.
Uma expressão de puro horror surge no rosto bonito de Zelena. Ela olha a menina como se estivesse vendo a mais monstruosa mistura de criaturas fantásticas daquele castelo. Não suporta o que está diante de seus olhos, grita, urra e dissolve-se, fazendo sua imagem sumir.
Robin se assusta, corre para os braços de Killian e é protegida ali. Começa a chorar ruidosa com a criança que ainda era.
— Ela não quis me ver, papai!! Ela me abandonou de novo!!
— Não, amor. Ela se assustou com as lembranças que voltaram à cabeça. Ela não se lembrava de sua presença e tampouco poderia crer que você se apresentaria tão incrivelmente linda!
A menina esconde o rosto no pescoço do pirata e não quer mais conversar. Ambos sabem dali e Killian leva a certeza de que conseguira plantas mais uma sementinha.
Na imensa biblioteca, Belle se deixa conduzir pela maravilha dos livros. Fica tão distraída que não percebe a aproximação do serviçal. Ele chega tímido e inseguro, chamando sua atenção com uma tossida forçada.
— A senhorita também tem poderes?
— Sou normal! Meus amigos é que foram impregnados com isso.
— Será que seus amigos conseguiriam libertar nossa Rainha? Será que algum deles poderá tirar a Fera que está na alma dela? Será que o pirata poderia libertar todos os moradores deste castelo e os aldeões?
Fechando o livro que lia, Belle inspira profundamente e com muita paciência, tenta acalmar a alma do homem.
— Somente existe uma pessoa que poderá arrancar a Fera da alma dela. Porém, esta pessoa precisa apenas ser despertada para isso e reconhecer que tem amor suficiente no peito, para salvar alguém. Somente o amor verdadeiro por fazer isso e não magia de espécie alguma.
— Mas quem amaria uma Fera tão assustadora e poderosa? A Rainha nos causa medo e já ouvi rumores de que estão preparando uma revolta armada para matá-la quando o prazo final da maldição chegar. Disseram os boatos que todos os moradores do castelo, humanos ou criaturas, serão jogados em fogueiras.
O choque do medo invade o coração de Belle. Ela precisava compartilhar a informação e encontrar alguma solução rápida para combater o tempo que escorria violento pela ampulheta.
Num dos espaços do sótão do castelo, Verena se incumbia em observar todos os detalhes, soltando exclamações das mais diversas e divertidas diante de tudo que estava vendo. Estava procurando algo em específico e sua atitude incomoda Dashiel, que tentava ao máximo continuar sendo cortês com os visitantes. Mas aquela mulher estava sendo invasiva demais!
— Muito bem, senhora. O que está procurando exatamente?
— Preciso de um determinado espelho! – ela se vira bruscamente e segura o príncipe pelos ombros. – Este espelho libertará Zelena e consequentemente libertará você! Eu sou sua guardiã e fui incumbida pelo Rei Omar de sua proteção e falhei, por isso está aqui e sem suas memórias!
Dashiel se desvencilha da mulher e a encara com pavor.
— Inimigos dentro do castelo da Rainha! Quem é esse Rei Omar?
— Somos todos seus amigos, Príncipe, e viemos quebrar a maldição que Zelena criou! Tenho de tirá-la do espelho e preciso encontrá-lo para que todos retornem vivos para casa!
Aquilo era a coisa mais absurda que ele já havia ouvido entre todos os absurdos. Maldição? Outra maldição? Espelho? Guardiã? Rei e príncipe? Ele se afasta devagar e permite que a mulher continue sua busca alucinada, mas iria fazer algo para detê-la.
— Não tenho o direito de pedir isso a vocês, mas este é o meu lar, agora. – ele cochicha com o rosto próximo à parede. – Sei que vocês são fortes e que podem combater a magia. Detenham essa forasteira e sejam cuidadosos com os poderes dela.
Despreocupada com sua proteção, Verena vasculha despudoradamente todos os cantos e móveis daquele cômodo à procura de algo que se assemelhasse a um determinado espelho. Sabia que Dashiel não teria forças para agredi-la e caso ele tentasse poderia imobilizá-lo. Porém, ela não contava com a vida nas paredes do castelo da Rainha Fera.
Várias, dezenas de mãos surgem das superfícies das paredes e a imobilizam rapidamente, apesar de seus esforços e a tentativa de uso da magia. Era um misto tão grande de poderes que suas habilidades estavam reduzidas. Ela apenas grita.
— Agora, a senhora irá me dizer quem é e quem são seus amigos.
— São seus amigos e amigos da Rainha! Eles a querem libertar e eu quero libertar você! Por minha negligência, permiti que Regina tomasse posse de você e que fosse envolvido nessa maldição bizarra!
— Quem são essas pessoas, de fato?
— Parentes de Regina em outro reino! – ela grita quando uma das mãos se fecha em torno de seu pescoço. – A menina é filha de Zelena e o pirata veio apenas para salvar você, ao lado da jovem doce! Não somos párias! Queremos salvar vocês dois!
— São espiões e há rumores de golpe contra a governadora. – Dashiel se inclina para próximo do rosto de Verena. – Você e seus amigos querem usar sua magia para facilitar a nossa morte.
Verena se debate e quanto mais lutava, sente seus poderes serem sugados de sua pele. Estava sendo roubada por outras criaturas fantásticas e menos poderosas, mas unidas eram fortes.
— Olhe para mim, Dashiel de Moncaliere! Fui eu quem o salvou do desmembramento e o levou para outro reino por um portal! Eu cuidei de você por mais de vinte de dois anos, até que tivesse pronto para retornar ao seu reino e salvar o Rei Omar, sua mãe e seus súditos! Os seus inimigos são os seus irmãos! Não somos nós! Agora trate de soltar-me para que eu ache o espelho e liberte Zelena!! Eu a coloquei dentro do espelho e somente eu posso tirá-la!!
Dashiel caminha para a saída do cômodo. Olha a mulher por cima do ombro.
— Eu a quero viva. Irei investigar os outros magos e saber o que realmente querem. Quero conhecer detalhes do Golpe de Estado.
— Dashiel!!!
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