Meu coração em suas mãos
23 Vinte e Dois

— Como consegue se fazer mais linda a cada manhã?
Regina sorri e ajeita os cabelos arrepiados. Vai até o noivo e consegue se encaixar junto ao peito dele, entre seus braços. Ela cabia direitinho naquele espaço!
Ah, e como ele amava aquilo! Seu peito se rasgava quando via aproximação do fim de seus dias, naquela cidade. Iria partir e deixaria para trás, um rastro de tristeza, além de levar o remorso para o resto de seus dias que seriam intermináveis e horrendos com sua dor.
Como era difícil dividir-se entre dois amores! Não era justo com nenhuma das partes, mas sua lealdade deveria gritar mais alto. Porém, a quem deveria lealdade maior? Por que deveria ser assim? Uma vida por outra vida? Não era o correto!
— Eu a amo demais...
— Mais algumas horas e será por muitas décadas a nossa união. – Regina levanta o rosto e sorri. – Já conseguiu nos imaginar bem velhinhos, rabugentos e impliquentos?
— Não. – ele a ergue nos braços e a protege, como se pudesse evitar a desgraça. Sua mente recua no tempo e ele se recorda das palavras de Gold sobre perder tudo o que amava e ser afastado da mulher amada. Sem se conter, ele começa a chorar.
Regina se move e desce dos braços dele, procurando alguma maneira de acalmar aquele choro que não era de ansiedade ou nervosismo pela proximidade do casamento. Algo ruim estava perfurando a alma do seu homem.
— Pode me dizer o que há com você?
— Não...não posso...
— Pensa em seus pais?
— Não consigo deixar de pensar neles...minha lealdade...meu juramento de amor...
Ela segura o rosto dele entre as mãos. Beija-lhe os lábios e os cílios. Queria ser forte o suficiente para conseguir carregá-lo e embalar seu corpo como se faz com crianças assustadas.
— Eu amo você tanto...tanto...tanto...que meu peito dói fisicamente. Minha alma ferve por este amor...
— Também o amo, William. Não vou perder você e nem deixá-lo partir. Você me cativou e agora é responsável por mim, assim como sou por você.
Aquele seria o grande dia de Regina. Ela estava feliz e faria de tudo para manter aquela felicidade.
Horas mais tarde, linda em seu vestido lilás, Regina se olha no espelho para admirar-se. Ao seu lado, todas as mulheres de sua família. Exceto por Zelena, adormecida em um hospital.
— Gostaria que Zelena...
— Ela vai despertar, tia. E ficará feliz quando souber do seu casamento.
— Você está linda demais! – Mary ajeita pela milésima vez alguma coisa no vestido da madrasta.
Cora a observa com um olha quase invejoso. Sua menina preferida, sua filha tão amada e protegida. Casando-se com alguém que havia despertado o amor não somente em Regina. Eles seriam felizes? Regina merecia ser feliz, depois de ter mandado matá-la?
— O colar que William me deixou. Onde está? – Regina olha para os lados e vê Emma apanhar a caixa de veludo escuro, vindo imediatamente colocá-lo. – É lindo!
— Muito mesmo! – Emma termina de travar o fecho. – Está pronta?
Regina pisca várias vezes e tenta controlar o sorriso. Confirma apenas com um movimento de cabeça. Recebe um beijo e um abraço da mãe, elegante em sua postura e vestimenta. Não seria uma mãe de noiva comum. Aliás, nenhuma delas era comum.
Quando a porta do salão nobre se abre e a canção da noiva começa a ser tocada, os convidados particulares se levantam e fixam sua atenção na belíssima mulher sendo trazida pelo filho orgulhoso e imponente.
Henry está feliz. Conduz sua Rainha e sua mãe e a iria entregar ao homem que a fizera sonhar com dias melhores, deixando as lágrimas pelo ladrão Robin, para trás. Nenhuma surpresa deveria atrapalhar aquele dia tão especial para todos de todos os reinos: o casamento da Rainha Mills.
No altar ricamente ornamentado no palco, o Dr. Archie aguardava para celebrar aquela união. Parecia muito mais nervoso do que o belo noivo, elegante em sua vestimenta de gala e em sua postura de nobre. Ao lado deles, os membros da família de Regina aguardavam a sua aproximação.
Mary não continha o choro de emoção. David e Killian fingiam ser fortes, mas não conseguiam vencer a sensação maravilhosa e vitoriosa de presenciar o final feliz escrito pela própria Regina. Ao lado deles, Cora e Robin não se mostravam tão felizes assim e convencidas de que aquele casamento seria realmente o final que Regina havia sonhado. Emma apenas sorria.
A cerimônia vai caminhando lentamente para selar uma união, que estava provocando desconforto em algumas pessoas, mas que enchia o coração de Regina com a certeza de que sua busca tinha chegado ao fim.
— Quando eu não acreditava em mais nada, você surgiu. Hoje, vivo um momento realmente especial, descobrindo que amar enriquece a vida, e que a vida pode ser verdadeiramente feliz. Iremos percorrer juntos um caminho e poderemos acreditar que tudo será maravilhoso, e qualquer que seja a situação, estarei sempre ao seu lado. Porque descobri que o amo. – Regina entrega o microfone para William.
Ele segura o objeto e fixa os olhos nele. Alguns segundos depois, ele encara Regina e seu olhar não o deixaria mentir. O amor escoava pelos seus olhos.
— Só tenho uma vida, e nessa vida só tenho um amor: você! Mas sei que mesmo que tivesse mais vidas, você continuaria sendo meu único e verdadeiro amor. Ao seu lado, eu quero a eternidade. O meu coração é a sua morada, guarde-me também no seu, pois esse é o meu lugar.
O Dr. Archie recebe o microfone e anuncia a formação oficial de um novo casal. Os convidados aplaudem, enquanto Regina e William se abraçam e trocam o beijo que coroaria o início ou o fim de um relacionamento.
A festa acontece do lado de fora do salão nobre. Todos estavam convidados sem distinção.
— Finalmente Storybrooke terá um príncipe legítimo. Não a farsa que é seu pai. – a voz de Gold provoca um pequeno sobressalto em Emma, que apanhava uma taça com ponche. – Mas ele vai provocar lágrimas. Quando pretendem ir ao Reino de Velac?
— Partiremos o quanto antes. Precisamos encontrar informações.
— Por favor, Emma, faça isso rápido. Estou morrendo literalmente e quero ver nossa cidade livre, antes de partir. – ele se afasta e vai se misturando às outras pessoas, saindo do campo de visão da xerife.
A tristeza de Gold invade e impactua a alma de Emma. Ela sente a verdade naquelas palavras e naquele olhar. Era estranho ver a derrota em um homem como aquele.
— Você está bem, amor?
— Precisaremos abrir o portal ao amanhecer.
Enquanto o novo casal dançava e sorria pelo momento feliz, num canto afastado da multidão, Cora apenas observava. Seu coração estava pesado e inconformado com aquela situação, gritando a quem quisesse ouvir que não seria algo que teria um bom desfecho.
Não deveria estar ali, testemunhando a felicidade alheia. Vira as costas e vai para o hospital, conversar com Zelena. Mesmo que não fosse ouvida, queria alguém para expor sua frustração e tristeza.
Os convidados permanecem dançando e divertindo-se até a madrugada, mas o casal real, como estava sendo chamado, se retira para seus dias de convivência particular, num trecho do litoral de um dos reinos anexados.
Era manhã, quando Emma e Killian chegam ao bosque. Precisavam de um lugar afastado para abrirem o portal, sem nenhum empecilho inesperado.
— Você está se parecendo com uma piratinha, nestas roupas.
— Não posso aparecer com jeans e jaqueta de couro, do outro lado do portal.
Killian segura a mão de sua esposa amada e troca um sorriso com ela. Atira o feijão no chão e aguarda a abertura daquele portal sufocante, com poder de atração que provocava dores pelo corpo. O portal surge e os traga para outro reino.
Neste mesmo momento, Regina termina seu café da manhã e vai acertar os detalhes de sua bagagem para as férias de lua de mel.
— Dê um beijo em Robin quando ela acordar, mãe.
Cora apenas faz uma menção de sorriso e aceita a incumbência.
— Poderia chamar William, enquanto termino de organizar meus cosméticos na valise?
— Tudo bem. Irei permanecer em meu quarto depois, porque passei a noite em claro. – Cora beija a testa da filha. – Façam ótima viagem.
Cora é impetuosa e senhora de si.
Desde que se tornara Rainha, mantinha em sua mente a inutilidade de pedir licença para entrar nos lugares que queria conhecer. Aquele seria um momento a ser aproveitado e estar a sós com o único homem que tivera coragem de minimizar seu amor por Gold, em seu coração.
Abre a porta do quarto e procura William nas proximidades. Entra e fecha a porta atrás de si, sorrindo por conseguir ter alguns minutos de privacidade. Caminha alguns passos e ouve múrmuros vindos do closet. E é para lá que ela vai, na esperança de encontrá-lo numa situação desprevenida e íntima.
E ela o encontra, de fato.
Em pé, no centro do closet, havia um homem alto e vestido com a famigerada capa com capuz, uniforme dos Senhores das Trevas. Cora fica paralisada e sem possibilidades de reagir, devido sua atual fraqueza.
O homem a olha por cima do ombro e sorri. É William exibindo a pele metalizada, típica dos Sombrios.
A mulher se vira para sair, mas vê o homem se materializar-se diante de seu corpo e a impedir de correr. Com um gesto suave, ele a paralisa de imediato.
— Queria estar a sós comigo, Cora? Agora você está bem íntima do seu belo genro. – ele retira o capuz e a olha com ternura. – Peço apenas que não ouse se insinuar sexualmente para mim ou terei de matá-la, como fiz com tantas outras pessoas.
Ele gesticula novamente e assume a bela forma do príncipe de Velac.
— Não vim destruir sua cidade, causar o caos ou roubar os privilégios dos homicidas e parricidas deste lugar. – ele une as mãos em gesto de humildade, como se estivesse em prece. – Por grande amor eu vim em busca de salvação e mergulhei no mais profundo abismo de agonia e indecisão.
Cora tenta mover os músculos. Quer gritar, mas sua voz se recusa a sair.
— Vou levar Regina para longe e resolver o que me foi imposto como missão. Quando eu abrir meu portal e passar por ele, Zelena irá despertar com ou sem o beijo de amor verdadeiro; Robin será liberta da praga que roguei sobre ela; Gold terá o coração de volta e ainda com uma carga de sobrevida que coloquei...e você, não poderá revelar meu segredo, ainda. Mas depois que eu partir, poderá gritar a todos que Gold estava certo quando defendeu a tese da presença de outro Sombrio na cidade.
Ele toca o rosto bonito da Rainha de Copas e inclina-se para frente. Beijá-la demoradamente os lábios finos e sente o prazer fugaz que a alma dela, exala.
— Sinto muito, mas o que terei de fazer, irá corroer a minha alma pela eternidade. Por amor eu sobrevivi e por amor...eu morrerei.
Um gemido gutural é tudo o que sai da garganta de Cora.
— Caso tenha aproveitado a presença de Regina, ótimo. Porque será a última vez que a verá. – ele muda o tom de voz. – Tenho de ir, porque minha esposa me aguarda. Mas para evitar que você aborte a minha missão, vou modificar um pouco a sua forma de preencher seu espaço no mundo. Não se preocupe...voltará a ser a mesma pessoa arrogante e desagradável de sempre, assim que eu partir. Adeus!
Pouco tempo depois, o carro guiado por Regina está entrando na rodovia que os levaria para um litoral distante, em outro reino anexado a Storybrooke. Deixam a cidade principal para trás.
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