Meu coração em suas mãos
28 Capítulo Vinte e sete

O mago dá de ombros e evita se incomodar com a arrogância do pequeno William. Aliás, não era mais um menino birrento, mas um Senhor das Trevas, carregado de tristeza e rancor.
Ia se virando para procurar em seus livros, uma receita de alguma poção que fortalecesse ainda mais o rei. Comer aquele coração infantil não tinha surtido efeito.
— A alma está corrompida...preciso de um feitiço que...
É roubado de seus pensamentos, quando uma nuvem de fumaça surge inesperadamente à sua frente. Duas pessoas se materializam ali no meio daquela sala escura.
Borae se assusta e emite um grito gutural, tentando clamar por ajuda. Atrapalha-se em suas roupas e cai sentado no chão.
— Por favor, não me machuquem! – ele pede com as mãos postas ao ar.
Killian ajuda o homem a se levantar. Depois se afasta e sorri, mostrando-se amigável.
— O que querem? – o mago olha para o homem e para a bela mulher com roupas masculinas.
— Essa é Emma e eu sou Killian. Viemos falar sobre William.
Os ombros do mago caem em sinal de tranquilidade.
— Pensei que fossem os soldados do homem que manteve meu irmão e eu como prisioneiros. – ele passa a mão pela cabeça careca. Encara o casal. – De onde vocês saíram? São bruxos?
— Viemos em paz, senhor. Precisamos apenas de algumas informações sobre William.
O mago olha para os lados e assume uma postura desconfiada.
— O que querem com meu príncipe?
Killian ergue o queixo e exibe sua arrogância de pirata. Precisava intimidar o mago.
— Essa bela jovem veio em paz. Mas eu aprecio um confronto belicoso. – ele sorri maldosamente.
Assustado, o mago coça a cabeça. Estaria acontecendo aquilo mesmo? Ou seria alguma alucinação causada pelo excesso de bebida? Seu vício o estava enlouquecendo?
— Vocês são reais ou estão apenas em minha imaginação?
Rapidamente, Emma usa seu conhecimento de ladra e aproveita-se da situação.
— Talvez sejamos sua consciência. O que bebeu? Usou drogas?
O mago não tem certeza do que poderia responder. Estaria conversando consigo mesmo? Ele sorri abobalhado.
— Estou cansado e meu corpo está produzindo alucinações...
— Está sozinho mesmo. Converse com suas alucinações. – Emma se encosta numa das mesas. Faz um pequeno gesto e cria uma minúscula chama na ponta do indicador. A assopra e a apaga. – William é um Senhor das Trevas, criado por Ambrógio.
O mago dá de ombros. Começa a folhear um livro imenso
— Você sabe que sim. Por que a pergunta?
— Por que ele não consegue salvar o pai da decrepitude?
Borae bate a mão com força sobre as páginas do livro.
— Dark One não sabe tudo! E a alma do rei está contaminada por rituais que não deveria ter feito! Agora, ele irá murchar!
Emma e Killian se entreolham. Tinham de insistir.
— Somente o coração de volta ao peito o fará viver e voltar a ser “normal”? – ela cria aspas invisíveis.
Bebendo mais um gole de um liquido esverdeado, o mago continua folheando o livro.
— Sabe que não. – ele fala rápido.
— Por que o príncipe atravessaria um portal em busca de algo que não salvará o pai? – Killian entra na conversa. Gesticula e desaparece indo reaparecer noutro ponto da sala. Ainda poderia usar aquele poder por mais quatro vezes, se quisesse se livrar dele depois. – A cura está no conhecimento da Rainha Má? O que mais contribuirá para salvar o rei?
Parando sua procura nas páginas do livro, o mago caminha até uma prateleira e começa a ler os rótulos de vidros.
— O coração infantil derretido na poção irá durar até a próxima lua cheia. Caso William não retorne, a situação do rei ficará muito séria. Será que ele sentirá dor? Não poderá de mover...deve ser horrível ficar aprisionado dentro do corpo mumificado...
Emma corre na direção do mago e segura seu pulso fino. Ele a encara de maneira serena.
— Você não me assusta. É um delírio febril!
— Como a Rainha Má poderá ajudar o Rei Olavo? Qual é a magia que ela possui que salvará a vida do rei?
O mago começa a rir. Passa a mão pela cabeça outra vez e depois apanha um vidro com escamas verdes. Mas Emma estapeia a mão dele e o vidro vai espatifar-se longe dali.
— O príncipe se casou com a Rainha Má! – ela fala com os dentes travados.
Um grito agudo como o crocitar de um corvo.
— Ele não fez isso! Não pode fazer isso, mesmo que a ame! Ele sabe! – o mago aponta o dedo ossudo para Emma. Vira-se de costas e vai recolher as escamas no chão. Olha para Killian. – William ama os pais, também!
— Mas ele se casou com a Rainha Má! E não pretende retornar!
Crispando as mãos, o mago rosna fino.
— Ele tem de voltar! O nosso reino e a nossa sobrevivência dependem dele. Caso o rei Olavo morra, nossa Rainha ficará desamparada e teremos de recomeçar a fugir! Aqui, todos estamos protegidos! Sem o Rei e sem o Príncipe...sucumbiremos. E vocês dois também irão comigo.
Emma se agacha na frente do homenzinho patético e alucinado.
— A cura está no conhecimento da Rainha Má? O que mais contribuirá para salvar o rei? – Emma repete a pergunta. – Responda ou não sairemos mais de sua cabeça.
O mago coça as frontes. Precisava parar de consumir aquela bebida deliciosa, porque estava afetado suas emoções e comprometia seus estudos.
— O coração da Rainha Demônio! – ele se levanta num salto hábil e corre para uma das mesas. Apanha um pergaminho delicado e o abre suavemente para não destruir o papiro. Aponta para as letras. – A poção que descobrimos para quebrar o valor dos rituais e devolver a vitalidade a juventude ao soberano. Aqui, veja! Além das ervas, do sangue de menarca de uma menina, cogumelos raros, ouro velho naufragado...veja!
— O que quer que vejamos? – Killian se irrita
— Toda magia gira em torno de corações, meu caro. Preciso do coração da pessoa mais cruel e bela que a vítima conhece. Um coração forte, negro e poderoso! Em suma: o príncipe deve trazer o coração da Rainha Má!
A porta se abre a toma a todos de assalto. Era o gêmeo Murnae que aparece de repente.
— O que está havendo aqui? Quem são vocês? Estranhos não podem entrar na sala de magias! Soldados!
Rapidamente, Killian agarra a cintura da esposa e ambos desaparecem do lugar.
— Quem eram eles? – o outro mago se aproxima do irmão e fica furioso ao ver a condição deplorável em que Borae se encontrava. Outra vez. – Está drogado de novo?
Borae gesticula desdenhosamente.
— Meus delírios febris. Eu estava conversando com minhas alucinações.
— Suas alucinações? E eu também posso ver as suas alucinações? – o mago vê um alforje preto no chão e aquilo atrai sua atenção.
Na sala do trono...
— Um belo homem com roupas de couro e um gancho no lugar da mão, junto a uma mulher loira, lindíssima e com roupas masculinas. Eles se transportaram numa nuvem de fumaça.
Danna se volta furiosa para Borae. O homem estava bêbado demais para entender a situação e sua gravidade.
— Consegue se lembrar o que disse a eles?
— Falamos sobre o rei...o coração perdido...a viagem de William...e sobre a poção que interromperá o processo de decrepitude do rei. – o mago espreme os olhos. – Eu sempre converso comigo mesmo e eles se movimentavam rápido...o homem se materializou na minha frente. Eram meus delírios!
— Não eram seus delírios, seu imbecil! – a Rainha grita. – Eles são espiões e vieram buscar alguma informação para algum proveito! E se eles foram mandados pela Rainha Regina? Dizem as línguas ligeiras, que o Capitão matou o próprio pai a mando da Rainha! E se eles vieram para cá, por terem descoberto a missão real de William?
Murnae ajuda o irmão a acomodar-se melhor na cadeira. Sente vontade bater a cabeça dele no chão, até que acabe a ressaca.
A Rainha segura a gola da roupa de Murnae.
— Declare caça ao casal! O Capitão deve ser imobilizado por flechas embebidas em tinta de lula. Depois que ele estiver paralisado, arranque o coração dele e o esmague. Mas eu quero a mulher viva! Ela é bonita demais para morrer. Eu a quero para procriação com Olavo ou com William! Diga ao General que você irá acompanhar os soldados nesta caça! Avise aos meus súditos que temos um inimigo em nossas terras e que...- ela pensa alguns segundos. – Diga a eles...que o casal veio para matar William, Olavo e eu...porque...porque...porque a Rainha Regina quer tomar o nosso trono. Agora, vá!
Danna aperta o alforje entre os dedos. Sem o feijão, eles não conseguiriam partir tão rapidamente. Teriam de encontrar outro meio de fuga e não seriam beneficiados pelo tempo.
No quarto da taverna, Emma e Killian procuram desesperadamente pelo pequeno alforje onde estava protegido o segundo feijão.
— Como você pôde perder o feijão? Temos de retornar e impedir que Regina seja atacada!
— Eu sei que temos de retornar com urgência! Estava comigo e quando me agarrou com violência lá no castelo, a bolsa deve ter caído! Acha que eu queria perder o feijão? – grita Emma, ajoelhada e olhando debaixo da cama. – Teremos de retornar lá!
— Não. – Killian para e fica pensativo. – A esta altura já encontraram a bolsa ou já puseram vigilância em todo o perímetro do castelo. E vigilância com magia.
Emma se levanta e ajeita a madeixa de cabelos que estava desarrumada.
— O que sugere?
— Lembra-se da vez em que subimos pelo pé de feijão? Lá em cima tem um castelo e deve haver mais feijões, mesmo que sejam ressecados.
Massageando as frontes, Emma tenta encontrar outro meio. Antes de conseguir falar, vê a porta do quarto ser aberta por Hileia.
— Não sei o que vocês fizeram no castelo, mas os boatos voam nesta cidade. A guarda real está atrás de vocês e com a ordem de matar. Terão de sair daqui e não podem ser visto.
— Perdemos o feijão que abriria o portal para nossa cidade. – Emma fala impaciente.
Hileia fecha a porta atrás de si e fica estalando os dedos, como se quisesse lembrar-se de algo. Expira e fica pensativa.
— Vou levá-los para um lugar mais seguro. Quero que me deem algumas horas e vou fazer perguntas. – ela gesticula e abre a porta do quarto. Olha o corredor e pede que o casal a siga.- Vocês seguirão pelo corredor de uma passagem secreta, sempre em frente e sairão numa caverna na praia. Fiquem lá e vou atrás de vocês.
A tarde na cidade se torna agitada. A notícia sobre um provável atentado contra a Rainha e o Rei, além da vida de William estar em risco, apesar de ser um Senhor das Trevas. Mas se o casal estava com esse intuito, certamente tinham alguma arma de magia poderosa que ceifasse a vida do príncipe.
Era quase noite, quando Hileia chega ao castelo.
— O Capitão era o único amigo de William. Por que ele iria querer matar o príncipe?
Danna estava impaciente.
— Tudo o que sei é que eles são uma ameaça. Fizeram perguntas sobre a missão de William e tenho medo de que sejam enviados de Regina. E se ela descobriu que William precisa tirar o coração dela?
O queixo de Hileia cai e uma expressão de espanto se fixa em seu rosto rechonchudo.
— Droga! É isso! Além de resgatar o coração de Olavo, eu exigi que me trouxesse o coração de Regina!
— Para quê?
— Para a poção que irá salvar Olavo e devolver nossa juventude! O coração negro de alguém cruel, com quem convivemos.
— Você não conviveu com Regina! E coração negro por coração negro, por que não usa um dos gêmeos? Ou por que não encontra algum homem mal pelo caminho, quando sai em busca de corações infantis em outras cidades?
Danna gesticula com veemência.
— Eu quero o coração de Regina! E pronto!
— Não irá funcionar a sua poção, porque vocês não conviveram com ela! E pronto!
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