Meu coração em suas mãos
2 Capítulo Um
Notas iniciais

— Trate de trazer meu irmão de volta, seu degenerado! – grita o mago, controlando o desejo de grudar seus dedos magros no pescoço do príncipe, até vê-lo ficar arroxeado. – Você não foi parido, pervertido, depravado! Sua mãe o retirou de algum ninho de alguma mocreia!
— Por que o senhor está gritando com meu filho? – a voz suave e serena da Rainha evoca o auto controle do velho magro. – Ele não é um degenerado ou foi retirado de algum ninho de mocreia. Ele saiu de meu ventre e foi o momento mais lindo de minha vida.
O mago bufa.
— Majestade...seu filho transformou meu irmão em uma lampreia. Faça com que ele devolva meu irmão à forma real.
Danna sorri e inclina a cabeça de lado. Olha o rosto cínico do filho e sorri.
— Você sabe que quem fez esse feitiço é o único que pode desfazê-lo. Não ironize seu aprendizado. Será muito útil quando for rei.
— Eu não sei qual é a forma real de um mago, minha mãe.
— William...
— Foi apenas uma brincadeira. – ele gesticula graciosamente e a lampreia sofre uma mutação, assumindo a forma do velho mago. – Peço desculpas ao seu irmão, Borae.
O homem se levanta e faz uma careta indefinida. Revencia a Rainha e vai sentar-se num canto da sala de estudos.
— Não torne a fazer isso, William. É algo que deixa o corpo muito doloroso e causa febre nos próximos dias. – Danna acaricia o rosto do filho. – Use seus conhecimentos para algo útil, sem crueldade...o mundo já está repleto de warlocks assassinos. Faça a diferença.
Com movimentos graciosos, a Rainha se dirige para a saída da sala. Olha de víeis por cima do ombro.
— Quando terminar de limpar e organizar a sala inteira, venha ao nosso encontro na sala do trono. E está proibido de usar truques mágicos. Use sua força física.
Passado algum tempo...
Caminhando despretensiosamente, William vai se aproximando da entrada da sala do trono. É reverenciado sutilmente pelos soldados da guarda pessoal do rei e continua sua entrada para o encontro com os pais.
A sala do trono estava estranhamente escura, recebendo as luzes bruxelantes de velas espalhadas sobre móveis. As tochas não estava, acesas. Por quê?
Cauteloso, William usa seus conhecimentos mágicos e camufla-se na escuridão. Havia adquirido com certo pirata, um estranho anel conseguido em uma ilha que não constava no mapa, que tinha a capacidade de impedir que habilidosos detectassem a presença de outro habilidoso em um mesmo recinto.
E ele observa o cenário para algo incomum.
Ajoelhados no centro da sala, o casal real parecia em transe, enquanto os dois magos horrendos liam alguma ladainha em um idioma estranho. Por longos minutos, repetiram aquelas falas e depois de um período em silêncio, gesticulam ordenando algo ao casal.
Repugnado, William observa seus pais receberem em suas mãos abertas, algo arredondado e pulsante. Começam a comer aquelas coisas cruas e escuras. Aguçando sua percepção, ele identifica que seus pais comiam corações.
Silencioso e ainda camuflado, ele se afasta dali e retorna para seu quarto. O que tinha sido aquilo? Por que os magos estavam ofertando corações para que o casal comesse? Qual era o objetivo daquilo? Certamente, era magia, mas com qual objetivo?
Precisava saber e sua curiosidade o leva para a sala de estudos. Ali, vasculha os velhos manuscritos dos magos e perde-se em sua pesquisa. Mesmo que fosse flagrado no recinto, poderia alegar que estava apenas estudando.
E é o que acontece. Os dois magos horrendos e magricelas chegam e são surpreendidos ao encontrarem William absorto em sua leitura.
— Príncipe?
— Olá, Borae. Eu estava com dúvidas e vim buscar informações aqui. Espero que não se incomodem. – ele sequer ergue os olhos.
— O senhor é nosso aluno e os livros são do acervo do reino. – o mago titubeia ao falar.
— Ouvi marujos nas docas contando sobre a Rainha da Floresta Encantada e o poder que ela tem sobre as pessoas, quando arranca o coração de seus corpos. É real?
Os magos se entreolham.
— Ela faz isso para controlar as pessoas e torná-las suas escravas.
— E por que o coração? Por que não o cérebro?
Borae sorri e torna-se assustador.
— Porque as pessoas acreditam que o coração é o guardião das emoções e dos sentimentos, além das vontades. E essa crença facilita o controle da Rainha Má.
— E ela faz o que com esses corações?
— Meu príncipe, ela tanto pode esmagar quanto apenas guardar. – o mago desfaz o sorriso.
— E comer? Ela os come? Qual é o objetivo de um ritual em que as pessoas comem corações?
Os dois magos gargalham e logo se silenciam.
— Ela tem outros meios para manter-se jovem e bela. – diz o mago que sempre permanecia calado.
Com um gesto brusco, William fecha o livro. Levanta-se e ajeita as roupas amassadas, saindo de trás da mesa de madeira rústica. Sorri com todos os dentes e acentua suas covinhas nas bochechas, deixando uma incógnita com os magos.
Momentos depois...
Sentado numa das mesas da taverna, William apenas observa a caneca com cerveja, alheio ao barulho intenso dos beberrões e jogadores.
— Vai controlar a mente da cerveja? O que ela deve fazer?
Ele sai de seu devaneio e sorri ao ver o pirata de terríveis olhos envelhecidos.
— Olá, Capitão Gancho! Pensei que já tivesse partido.
— Partiremos amanhã. Encontramos uma nova aventura e conseguiremos um imenso tesouro. – o pirata se senta sem ser convidado. – Vamos em busca da ilha dos Decapitados.
— Hummm. Deve ser um lugar pouco agradável.
— Pelo menos os habitantes não fazem perguntas tolas. Mas me diga o que estava franzindo sua testa?
William apoia as costas na cadeira e faz uma careta de repulsa. Funga o narigão algumas vezes.
— O senhor saberia me dizer por qual motivo algumas pessoas comem coração?
— Se for cozido com legumes e bem temperado...é porque têm ótimo paladar.
O conhecido sorriso de muitos dentes surge na boca do príncipe.
— E se for um coração cru e ainda pulsante? Numa sala iluminada por velas e com magos sussurrando ladainhas...- ele fala e move os dedos como se dedilhasse um instrumento invisível.
O pirata arqueia o sobrolho escuro e expressa seu cinismo.
— Eu diria que são pessoas bem malvadas, usando magia para manter a juventude e vitalidade. Quem seria essas pessoas?
Inclinando-se para frente, William estreita os olhos e toca com a ponta do dedo, o nariz longo.
— Essas pessoas são meus pais.
— IIhhh! Eu diria que vou apressar a minha saída daqui. E se eu fosse você, também sairia do palácio e de vez. Abdique do trono e deixe o encargo para qualquer um que queira conviver com comedores de coração. – o pirata aponta em volta para os beberrões e loucos na jogatina. – Faça o seu próprio reino por aqui e fuja de toda forma de magia. Toda magia tem um preço.
O pirata se levanta e bate levemente no ombro do príncipe.
— Faça um acordo com o Rei Olavo e fique cuidando do comércio e dos navios. Deixe os outros assuntos do reino para seus pais comedores de coraç... mantenha-se longe deles, antes que você também sinta anseio em ser adepto a esta prática. Fique em paz e me deseje boa viagem.
Antes que o pirata conseguisse alcançar a porta, vira-se novamente para o interior do salão, ao ouvir sua alcunha ser chamada pelo príncipe.
— O que há, velhinho?
— Coração cru e ainda palpitante. Espero que seja retirado de animais...
— Lamento, meu príncipe, mas são retirados de pequenos humanos. São de crianças.
Depois daquela informação, William se torna cada vez menos frequente nas reuniões do palácio. Não conseguia manter a proximidade com seu pais e evitava contatos físicos quando era procurado por eles. A imagem daquele ritual ainda estava latente em seus olhos e em suas lembranças.
Era difícil olhar o rosto saudável de suas pais e não se lembrar que aquilo era resultado de prática tão repugnante e apavorante. Mas até quando conseguiria esconder sua repulsa sem causar desconfiança em Olavo e em Danna?
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