Num cômodo elegante e sombrio de um castelo, uma jovem aia arrumava os lindos cabelos negros de sua Rainha.

— Vou falar algo, mas a senhora precisa me prometer que não me transformará em inseto.

Regina acha graça. Para de pintar os lábios e olha a imagem da menina no espelho.

— E quem iria arrumar meus cabelos com tanto cuidado e criatividade. Pode falar.

— Majestade, por que a senhora não avança em seus desejos pelo desconhecido da estrada?

Regina se vira na cadeira e encara a jovem.

— O que está sugerindo?

— A senhora sabe que ele sobe as colinas para visitar o mosteiro. Então, em vez de fingir encontros casuais, por que não o convida para subir na carruagem?

As sobrancelhas delineadas de Regina se levantam em espanto.

— Está se saindo bem atrevida, hein? Ele pode me rejeitar.

— Claro que não! Olhe-se no espelho! A senhora é linda! Ele vai se sentir lisonjeado!

— E se ele espalhar detalhes sobre mim? Eu terei de matá-lo.

A menina gargalha.

— A senhora sabe quem ele realmente é. E caso não confie nele, poderá apagar as lembranças dele. O importante é que a senhora acabará com sua curiosidade.

Sorrindo e sentindo seu rosto queimar, Regina se volta para o espelho e continuar seu delicado trabalho de pintura dos lábios. A ideia da garota não era ruim e merecia ser analisada com carinho.

E naquela mesma tarde...

William continua caminhando pela estrada e ainda pensativo em sua conversa com os monges, quase não percebe o som dos cascos dos cavalos vindo em sua direção. Afasta-se e vai para o canto da estrada, abrindo caminho para os temíveis Cavaleiros Negros da Rainha. Se eles estavam lá, certamente a temível e assustadora Rainha também estava.

Ele para e fica aguardando a aproximação da carruagem escura e sua escolta armada. Porém, a carruagem não passa. Ela para no meio da estrada.

O coração de William começa a bater dentro de sua cabeça. Então, ele descobre que possuía coração em diversas partes de seu corpo.

Uma cortina é aberta na janela da porta da carruagem e um rosto lindo e bem maquiado surge sorridente. Que sorriso era aquele? Ou ela estaria rosnando?

— Olá, rapaz! Sempre perdido por aqui? Devo pensar que é coincidência ou posso acreditar que você é um espião.

Colocando as mãos às costas, William procura expressar serenidade e confiança.

— Uso este caminho para retornar mais rápido à estrada. Apenas venho do mosteiro, Majestade.

— Vai entrar para a vida eclesiástica?

Ele alarga seu sorriso de muito dentes. Regina sente seu corpo queimar.

— Deixei crianças órfãs lá e venho sempre trazer mantimentos para os monges.

— E onde está sua comitiva? O Rei Olavo permite que você transite sozinho e sem seguranças? Há ladrões nesta floresta. – ela mantém o sorriso. Sorria com os olhos e com a alma.

— A senhora sabe quem sou?

— Claro que sei. Nada e nem ninguém passa incólume em meu território. – ela abre a porta da carruagem. – Venha, aceite tomar uma taça de vinho comigo e vamos conversar.

Momentos mais tarde, num cômodo aconchegante do castelo de Regina...

Ela sorri e brinca com os longos cabelos escuros do jovem príncipe. O homem era firme, bem talhado e possuía o frescor da juventude, o que muito agradava os instintos de perversidade da Rainha. Mas naquele instante, tudo o que a mulher exalava era ternura e paixão.

— Por que não se casou ainda? Seu pai não encontrou a noiva certa?

— Eu sou um espírito indomável.

Regina acaricia o ombro nu de seu novo amante.

— Não ceda a casamentos arranjados. Fiz isso e fui uma pessoa tão infeliz, a ponto de deixar meu coração enegrecer.

Apoiando-se sobre o cotovelo, William se ajeita na cama.

— Você conheceu meus pais?

— Apenas de nome e sobrenome.

O rosto do rapaz sofre uma mudança brusca.

— Você é uma mulher envelhecida que usa de truques para manter-se jovem?

— Não. Eu tenho a alma velha pela dor e pela raiva, mas sou jovem. Talvez eu seja alguns anos mais velha que você.

— Então, não se enamorou pelo meu pai a ponto de disputá-lo com minha mãe?

Ela gargalha. O menino era divertido e direto.

— Quem lhe disse essa sandice? Eu tive meu grande amor sim, mas minha mãe o matou. Depois, tive de me casar com o Rei Leopoldo e fui enterrada viva. Tive a chance de conhecer outro homem que havia sido destinado a mim, numa fuga da realidade, mas fui covarde para chegar até ele. – Regina ajeita o lençol e esconde seus seios pequenos. – Nunca me interessei pelo seu pai. Ele não me excita. É um pedaço de carne sem tempero.

Um sorriso sem graça surge na boca do rapaz. Ele se inclina e beija os lábios quentes de Regina.

— Você sabe que tipo de criatura é minha mãe?

— Nada sei sobre sua mãe. Eu apenas me incomodo com quem me incomoda. Seu reino não me oferece o menor risco. Mas por que quer falar sobre isso?

— Curiosidade. – outro sorriso ilumina a boca do príncipe. Sensual e lento, acomoda-se sobre o corpo de Regina e ela o recebe com desejo e interesse.

E durante toda aquela tarde e em outras tardes depois, o encontro entre a Rainha e seu novo consorte acontece alheio a qualquer mudança no mundo externo. Encontros apaixonados e gulosos, perigosos para a chance do nascimento de um novo amor.

Mas há sentimentos e emoções maiores do que aqueles que nascem entre lençóis. E um desses sentimentos nasceu no coração de William.

Num determinado dia, ao retornar de uma viagem comercial em um dos navios da frota de seu reino, William se depara com a total desolação na Floresta Encantada. Somente a vida rica da fauna e da flora ainda continuava por lá. Nenhum sinal de vida entre os camponeses e tampouco sinais de vida dentro do castelo de Regina. Tudo silencioso, abandonado e deixado para trás como se as pessoas sequer tivessem tempo de organizar seus pertences.

— Foi a maldição que a Rainha Má criou. – disse Borae, admirado com a visita do príncipe naquela tarde. – O que você encontrou lá, foi o resultado da vingança dela contra a enteada. O ódio da Rainha a deixou cega e ela amaldiçoou todo o seu reino. Somente o espaço protegido dentro daquela bolha que você viu, é que permaneceu livre da maldição. Todos foram para outro reino.

— Por que Regina faria isso? A troco de quê?

— Ela odeia a enteada e a caçou por muitos anos. A menina cometeu um erro infantil e foi punida por anos, sendo perseguida pelas forças da Rainha. Regina se uniu a poderes do mal e criou a maldição...

— Tinha fama de perversidade, mas não era cruel! Eu convivi com ela e éramos amantes!

— William, meu rapaz! Tudo o que diziam sobre ela, é verdade! Saiba que ela matou o próprio pai para conseguir realizar a fórmula da maldição!

— Isso não é verdade...

O homem segura os ombros de seu príncipe e o força a retornar à realidade.

— Sou um mago, meu querido. Somos informados pelas forças da natureza, todas as vezes que algo grandioso é realizado. É verdade, assim como é verdade que ela roubava o coração de seus inimigos, apenas para esmagá-los ou controlá-los. Ela é um verdadeiro demônio, frio e que não pode sentir amor. Todos os atos dela são gerados por meio de ganância e ódio, para obter vantagens pessoais.

— Não pode ser...

Borae se inclina na direção do príncipe largado no banco e acaricia sua cabeça, consolando-o.

— Foi melhor assim, filho. E fico feliz pelo fato de que você estava longe no momento da maldição ou seria gravemente afetado pelo ocorrido. Não sabemos se todos estão vivos ainda ou como estão ao atravessarem um portal. E para que a retire de vez de seus pensamentos, saiba que Regina sequer se recorda dos traços de seu rosto. Você era apenas mais um jovem que frequentava o leito daquele demônio e a única diferença é que ela não teve tempo de transformá-lo em inseto e esmagá-lo sob o salto do sapato.