Era uma vez, um homem solitário. Um pescador eremita que vivia numa praia paradisíaca, totalmente isolado de outros seres humanos. Seus contatos aconteciam nas luas cheias, quando um navio vinha até aquele lugar para buscar algumas iguarias que o homem solitário fabricava.

Ele vivia apenas para si e para o mar. Do mar tirava seu sustento e com o mar ele conversava em momentos de quase insanidade. E foi do mar que ele tirou o seu maior tesouro.

Numa noite, descobriu nas areias da praia, uma criatura nua. Era uma fêmea incomum, isenta de pelos e com imensos olhos que ficavam afastados do nariz pequeno. Tinha apenas três dedos na mão grande e possuía joelhos humanos abaixo das coxas, e mais joelhos traseiros na região das canelas. Em vez de pés, surgiam formas semelhantes às mãos. Uma cauda pontiaguda com a da arraia complementava seu estranho aspecto.

Mas a criatura era suave, doce e mansa. Dias depois de encontrada, tornara-se amiga e amável, preocupando-se muito com o seu salvador. E sem reservas, tornam-se amigos.

A criatura feminina sempre trazia presentes ao seu salvador, tirados do fundo do mar, encontrados nas profundezes do oceano em navio naufragados.

No começo eram presentes simples, mas com o passar do tempo, tesouros começaram a ser trazidos à tona. Tudo cuidadosamente guardado pelo homem, em uma caverna no interior da ilha.

Ele a ensinou a falar sua língua, a cantar, a dançar e a vestir-se com a graciosidade feminina. Sempre respeitando sua condição de ser fantástico. Nada havia entre eles como macho e fêmea.

Um dia, ela lhe pediu dois presentes: queria trazer seus dois protetores, que a haviam salvado do ataque de piratas, jogando-a ao mar. Ela queria libertá-los de sua prisão numa ilha distante. E foi atendida.

E trouxe aqueles dois homens horrendos, lisos como salamandras e com orelhas pontiagudas. Assustados e submissos, conquistaram a confiança e a amizade do pescador. Estavam em uma estranha, mas feliz família.

Em seu segundo pedido, a fêmea pediu que o pescador lhe trouxesse uma criança humana. Tendo construído um barco forte, ele parte para o reino mais próximo dali e consegue comprar a criança de moradores de rua. Uma bela criança em troca de peças de ouro, tiradas do mar.

E o que a criatura feminina queria com a criança? Numa noite enluarada, seus dois horrendos protetores realizaram um ritual e retiraram o coração vivo e pulsante do corpo da criança. Para horror do pescador, o coração foi devorado pela fêmea. A criança morta fora enterrada num canto qualquer da ilha.

Naquela mesma noite, a criatura se transformou em uma linda mulher de pele rosada e imensos olhos expressivos, que rapidamente conquistaram o coração do pescador. Ele havia descoberto o amor e sabia que para manter sua linda amada sem viçosa e forte, deveria alimentá-la nas luas cheias, com corações pulsantes infantis.

O tempo se arrastou e o pescador foi acumulando todas as riquezas trazidas por sua amada, dando-lhe em troca a fonte de sua juventude. Ocorre, que ele ficou mais velho e ousou aceitar a oferta de usar o mesmo elixir usado pela amada.

Percebeu que aquilo lhe fazia bem e que poderia ter um futuro poderoso naquele lugar e ao lado de sua pequena e estranha família.

Construíram, usando suas mãos e a magia dos irmãos horrendos, uma imensa residência em pedras, suntuosa e pomposa para qualquer rei. Passaram a oferecer abrigo a quem quisesse morar naquela praia, tornando a região próspera e conhecida, mas em troca de devoção à família proprietária do lugar.

Muitas famílias de pescadores, agricultores, pessoas de diversos ofícios e até moradores de rua fugiram da miséria em seus reinos e das condições sub-humanas a que eram submetidos e foram servir ao casal que agora se denominava Velac. Nome retirado de um camafeu encontrado num navio afundado, transformado pelos ricos corais.

E a cidade foi sendo criada sob as regras dos auto intitulados Rei Olavo e sua Rainha Danna, aconselhados pelos irmãos magos. Criou-se um exército de terra e de mar para a defesa do reino, uma frota de navios mercantes e outros benefícios para tornar o Reino de Velac em um lugar próspero e poderoso.

Mas ainda faltava algo valioso: um herdeiro. A Rainha Danna jamais daria à luz e o Rei Olavo queira sua amada sempre em pleno estado de felicidade. E foi naquele verão, que um menino veio ser entregue aos braços da Rainha e ela o batizou de William, cujo nome significa protetor corajoso ou aquele que deseja proteger.

O menino cresceu sem ter fronteiras. Poderia ser visto no castelo, nas ruas, no mar, nas colinas ou cavernas, convivendo com pessoas de todas as origens e credos. Por ser livre e atrevido, o menino era amado e protegido por todos os seus súditos, que lhe abriam as portas de suas casas para que entrasse e saísse de onde quisesse e quando quisesse.

E o menino cresceu. Foi instruído como se deve instruir um príncipe e um homem decente que devesse acrescentar ao meio onde vivia. E William foi educado assim. Era valente, curioso e com forte senso de justiça.

Tornou-se um príncipe e recebeu lições para se tornar forte com o conhecimento dos dois magos, protegidos do casal real. William deveria se tornar um conhecedor de magia poderosa, mas aquilo lhe causava pavor e repulsa.

E como tudo o que é oculto sempre acaba sendo revelado, a verdadeira face da Rainha foi revelada. Mesmo amando seus pais, William vai se afastando dele e convivendo de maneira mais próxima com seus súditos e amigos fora dos muros do palácio.

Mas os ventos, um dia, pararam de me contar a história de William. Sei que ele ainda existe, mas não é mais ele. E toda a história será conhecida, quando você que está segurando este manuscrito, ler todas as páginas que escrevi.”

Regina termina a leitura da introdução do livro e o fecha. O resumo era idêntico às narrativas de seu amigo morador do espelho. Todos paravam no mesmo estágio da vida de William. O que teria acontecido a ele, depois que a maldição os havia afastado? Como William poderia não existir mais e ainda existir? Quem seria responsável por matar William, embora o tivesse deixado vivo naquele corpo? O que aquilo queria dizer? Tinha de pensar com calma e encontrar uma solução para ajudar William e descobrir o mistério da vida dele.

Tudo poderia ficar para o dia seguinte. Apaga a luz e fecha a porta, deixando o lugar com seus fantasmas. Sozinho no escritório, um Sombrio invisível se aproxima da mesa e olha a capa do livro, com desdém e nojo. Furioso, William apoia sua mão sobre o livro e o reduz a cinzas. Sua fúria faz fortalecer seus sentimentos sobre sua missão e seu dever com seus pais.

Na manhã seguinte...

Regina chega à delegacia logo pela manhã. Queria encontrar Emma antes que ela saísse para suas diligencias pela cidade.

— Quer um chocolate? – ela coloca o copo sobre a mesa de Emma.

— Olá, Regina! Como está?

— Estou muito feliz com minha família reunida. Ainda estamos nos acostumando a nos encontrar pelos cômodos da casa. Deixei Henry tomando café com minha mãe.

Emma sorri contente.

— Ele me pediu para ficar uns dias com vocês. Está curioso em conhecer a avó e o seu hóspede. Aliás, quem não está curioso sobre seu hóspede?

Regina se senta. Cruza as pernas de maneira elegante e inspira profundamente.

— Emma, consultei o espelho que pertenceu à Rainha Ravenna. Sidney Glass o presenteou a mim e nunca tive coragem de usá-lo, exceto por ontem.

— Mesmo? E o que o fofoqueiro lhe contou?

— Perguntei sobre a família Velac. Mas o que eu precisava saber, ele não soube me dizer. Depois, Belle me trouxe um manuscrito que encontrou em sua biblioteca e ali está a história completa do “ Reino que surgiu do mar” – Regina usa os dedos para colocar aspas imaginárias no título do livro. – Quero ler mais, noutra ocasião.

Emma esfrega as mãos e segura o copo com chocolate. Bebe um gole e depois encara Regina, com curiosidade.

— E quais informações obteve?

— A história de William deixa de ser contada pelos ventos, num período depois que lancei a maldição sobre meu reino. O livro e o espelho disseram que ele deixou de existir, mas continua existindo sem ser ele.

— Enigma?

— Esses livros e espelhos gostam disso. Mas o espelho me deu um nome. O autor ou autora da morte de parte da alma de William. – Regina abre sua bolsa e retira um minúsculo bloco de anotações. – Veja este nome.

Inclinando-se para apanhar o bloco, Emma estreita os olhos e lê por várias vezes o que estava escrito ali.

— O que é isso? O que significa?

— O nome de quem supostamente dividiu a alma de William e roubou-lhe as lembranças.

— E será que este alguém ainda está no Reino de Velac?

Regina alarga um sorriso e assume uma expressão alegre.

— Poderia ir até lá e investigar...

— Não posso fazer isso, Emma. Jamais deixarei William sozinho e abandonado, outra vez. Jamais!

Erguendo uma das sobrancelhas, a loira imita uma expressão muito utilizada pelo marido. A convivência a estava habituando a imitá-lo.

— Está sugerindo que eu vá? Lamento, Regina, mas também não poderei fazer isso. Não há outra pessoa a quem confie esta tarefa?

— Pensei que gostaria de descobrir informações, uma vez que estava disposta a manter William detido para interrogá-lo. Além disso, aceitou disputar a guarda legal dele, na justiça. E sei que você não está confortável com a presença dele aqui, desde que Gold espalhou pela cidade a notícia de que sentiu a aura poderosa de magia.

Emma entrega o bloco de anotações para Regina. Espreme os lábios e levanta as sobrancelhas, como se lamentasse o que iria dizer.

— Gold me disse que levou Killian e William para o casarão da colina. Lá tirou o coração de meu Killian, para forçar William a revelar-se. Então, William apresentou o coração que havia tirado de Belle. Chantagem trocada.

Cobrindo a boca com as pontas dos dedos de uma das mãos, Regina se mostra espantada com a novidade.

— Conversei com Killian sobre isso e fiquei sabendo que foi tudo um blefe de William. Ele trucou sem cartas e Gold acreditou. Seu namorado fez uma ilusão de ótica e conseguiu enganar um poderoso Senhor das Trevas.

— Como Gold teve coragem? Ele está obcecado por uma verdade em que somente ele acredita.

— Ele está confuso e furioso com a chegada de William. Gold não está sabendo lidar com o esquecimento. As pessoas daqui se esqueceram de ter medo dele e passaram a ter medo de William e de Cora. Há boatos de que sua mãe é a responsável pela vinda do príncipe, e que os dois estariam agindo para acabar com a conhecida serenidade de Gold.

Regina começa a rir. Levanta-se e prepara-se para sair.

— Onde vai?

— Vou dar um soco no queixo de Rumple. Ele não tem o direito de espalhar boatos perigosos contra pessoas que amo.

— Eu já dei um soco nele. – Emma fala sem se preocupar se havia sido ouvida ou não. Volta sua atenção para seus relatórios e antes de reiniciar sua leitura, escreve num papel o nome que trazido por Regina.

Naquele mesmo tempo, na casa das Mills...

Zelena termina de organizar o quarto de sua mãe, usando de suas habilidades físicas e deixando de lado sua magia. Estava tentando ocupar seu tempo naquela semana, até que a reforma em sua academia de ginástica, terminasse.

— Bom, menos um. – ela vai para o quarto de Robin e verifica a arrumação feita, aproveitando-se e deixando seu toque de mãe.

Segue pelo corredor e quando passa em frente a porta do quarto de William, deixa-se conduzir pela curiosidade. Queira fazer uma travessura e abre a porta do cômodo, apresentando aos seus olhos o espaço pessoal dado ao homem.

Parada na porta, Zelena apenas observa a organização do lugar e aprecia o cheiro que emanava dali. O homem era um chato! Por isso estava se dando tão bem com Regina. Outra chata em organização.

Entra no quarto e olha em volta. Mas o lugar não estava deserto como ela acreditava estar. Do closet vinham vozes e uma delas pertencia ao namorado de sua irmã. Alguém estava com ele na casa e era outro homem.