Meu coração em suas mãos
9 Capítulo Oito

Regina abre a porta de um dos quartos e apresenta o cômodo aos olhos de William. Apoia a mão nas costas dele e o conduz para dentro do cômodo. Percebe a insegurança do homem.
— Providenciarei algumas roupas para que possa tirar essas doações do hospital. – Zelena provoca o que poderia ser chamado de sorriso, na boca do homem. – Vamos, Robin.
A garota queria permanecer ali e fazer perguntas, mas é empurrada para fora do quarto, saindo insubmissa.
— Vou preparar um jantar para as boas-vindas. – Cora sorri sem exibir os dentes. Olha para Regina e pisca um dos olhos.
A porta é fechada e o casal fica sozinho naquele espaço. Com movimentos lentos, William vai para a cama e senta-se ali, começando a acariciar o colchão e o edredom macio.
— Está com fome?
— Não, senhora. – ele solta os cabelos e massageia a nuca, rodando a cabeça para massagear o pescoço. – Posso tomar um banho?
Regina sorri e estende a mão. Por segundos, ela fica com a mão estendida até que William a segura com delicadeza.
— Vou ensinar você a usar as modernidades de nosso reino. Enquanto você se banha, providenciarei roupas e...
— É verdade que fui seu consorte ou a senhora inventou tudo aquilo para me salvar da cadeia?
Espalmando a mão sobre o colo, a Rainha alarga um sorriso em sua boca bonita e vermelha.
— Não inventei nada, William. A lembrança veio em um sonho e fiquei muito feliz em saber que poderia proteger você.
— Proteger-me? Então, eu estava correndo perigo ao ser preso?
— Não! Apenas ficaria em uma cela fria, comida ruim, cama dura e suja, muitas e muitas e muitas perguntas. As mesmas perguntas até que você entrasse em contradição. Então, tudo recomeçaria e ficaria cansativo. Não ajudaria na recuperação de sua memória. – ela sorri e torna-se ainda mais bonita.
Após o jantar, todas se recolhem aos seus quartos, exceto Regina que queria dar atenção ao seu hóspede. Queria conversar para evocar lembranças e conseguir provocar um incômodo na alma dele, até que recordasse de seu passado.
Pelo menos ela acreditava nisso.
— Está confortável?
— Conseguiu as roupas rapidamente. – ele passa a mão pela calça de moletom.
— Usei algumas habilidades minhas. – Regina se senta na cama, ao lado de William. – Recebemos uma visita de alguém que conheceu você na juventude. Lembra-se de Killian Jones, o Capitão Gancho?
— Esse capitão me conheceu?
— Um pirata bem versátil, corajoso e atrevido. Veio ver você, mas minha mãe pediu que voltasse amanhã. O dia foi agitado demais para todos nós.
— Obrigado por cuidar de mim. Não tem medo?
— Medo? E o que você poderia fazer contra a minha família? Somos todas pupilas de um Senhor das Trevas e temos poderes que o deixariam impressionado.
William inspira profundamente, fecha os olhos e inclina a cabeça para trás. Parecia cansado ou ainda drogado. De repente, encara Regina.
— Por que se incomodaram com minhas joias? Por que as queriam tirar de mim?
— Bem...quando uma pessoa é levada a um hospital, existe vários exames que precisam ser feitos e com equipamentos que ficam danificados quando o paciente está com joias pelo corpo.
Com movimentos lerdos, William se levanta da cama e é observado pelos olhos atentos de Regina. Ela se preocupa e se encanta com aquele homem.
— Eu sonhei muito nesses dias e pude ver cenas nítidas, como se fossem lembranças e não apenas sonhos. – ele anda vagarosamente pelo quarto. – Vi dois homens magros, carecas e horrendos...eles me mostravam pérolas coloridas e diziam algo sobre um livro...falaram sobre minhas joias...também pude ver um túnel com luzes giratórias arroxeadas e devo ter ido na direção delas.
— Um portal. Você entrou por um portal diferente do portal que conheci. Lembra-se de onde estava antes de entrar pelo portal?
Ele fica pensativo. Diz:
— A sala estava iluminada por tochas. Não possuía esta claridade...as paredes não eram lisas e brancas como estas...eram pedras rústicas.
— O seu castelo?
— Meu castelo? Eu não morava em castelo.
— Como sabe que não? – Regina se inclina para frente e sua posição acentua o seu decote. Percebe imediatamente a movimentação ligeira dos olhos do homem para aquela parte de seu corpo. E se o provocasse sensualmente? Como iria reagir? Poderia até recordar de momentos agradáveis! Ela sorri de sua maldade.
Ele ergue os braços e esconde as mãos atrás da cabeça. Desvia o olhar do decote de Regina, mas os olhos teimavam em voltar ao ponto de partida. Sabendo que não resistiria, ele vira de costas.
— Tenho imagens de uma sala grande, com muitas mesas rudes e muitas pessoas animadas, que riam, cantavam...embora eu não ouça o som. E vejo uma mulher grande, corpulenta e de seios fartos, sorrindo para mim e servindo um prato com cozido. – ele solta um riso sonoro.
— E quem é ela?
— Quando vejo o rosto dela, parece que ouço a palavra “filho”. Não poderia ser minha mãe, já que sou um príncipe.
Também saindo da cama, Regina vai até William e segura o braço dele, novamente o conduzindo para o descanso.
— O Dr. Archie é um ótimo profissional que cuida da mente das pessoas. Ele virá todos os dias conversar com você e ajudá-lo a recordar suas memórias. Confie em mim, porque desta vez eu não o abandonarei e nem prosseguirei meu caminho sem você.
Tudo estava silencioso na casa, horas depois.
Nenhum som se atrevia a fazer-se presente e todos ali estavam entregues ao sono oferecido pelo sopro de Morpheu. Exceto por William, que estava em pé, olhando a noite lá fora.
Depois de ter certeza de tudo estava adormecido, inclusive as ondas do mar serenas e sem movimentos, ele gesticula e desaparece do quarto, materializando-se no meio da rua principal da cidade, de onde se via as silhuetas escuras dos navios ao longe.
Olha em volta e começa seu passeio, observando as construções, as placas, familiarizando-se com as modernidades e esquisitices daquele reino. Queria saber tudo sobre aquele território e seus habitantes, seus costumes e mais detalhes sobre a proteção da cidade.
Já era madrugada, quando se depara em frente a loja de quinquilharias do Sr. Gold. Para em frente à vitrine e consegue captar toda a vibração da magia existente naquele nicho. Sorri de si para si e identifica a presença de um esconderijo de um Dark One, ou Sombrio, como gostava de chamar. Era a mesma vibração que a caverna de Ambrógio emanava.
O som de um motor chega aos seus ouvidos e ele imediatamente identifica o que seria aquela traquitana. Sua magia rapidamente produz conhecimento sobre aquele objeto móvel, barulhento e iluminado. Não queria ser visto e some no meio do nada, retornando para seu quarto na mansão das Mills.
Era manhã e Regina mal havia chegado à Prefeitura, quando recebe a informação de que o Sr. Gold a queria ver. E antes que pudesse tomar alguma decisão, vê o homenzinho irritado e mal-humorado invadir sua sala.
— Bom dia, Rumple! Por que me honra com sua visita? – ela sorri.
— O que você sabe sobre aquele homem que veio pelo portal? Você conseguiu sentir algo incomum na aura dele?
Regina se espanta com a pergunta. Faz uma careta engraçada.
— Eu o conheci há décadas e é um homem comum. Foi meu amigo próximo quando eu era Rainha.
— Você não tinha amigos, Regina. Não tente me enrolar! Quem é ele?
— Certo. – ela retira as luvas e vai desenrolando o cachecol. – Ele era meu amante. Tivemos um breve affaire antes da maldição tomar todo o nosso reino.
O advogado rosna:
— Quero saber se ele tem poderes? Quero saber o grau de magia no corpo dele? Ele foi treinado? Você deixou magia no corpo dele? O protegeu de alguma forma?
— Ora, por que isso, Rumple?
O homem estava muito irritado mesmo.
— Alguém muito poderoso esteve próximo à minha loja durante a noite e eu senti uma presença quando fui abri-la hoje pela manhã. Caminhando por algumas ruas durante a cobrança de aluguel, senti a mesma presença nas calçadas, ruas e portas das casas. Ninguém nesta cidade tem aquela aura...então, deduzi que o seu hóspede é alguém incomum e perigoso!
As sobrancelhas de Regina se estreitam. Ela cruza os braços diante do peito numa atitude defensiva. Franze o nariz ao falar:
— Ele esteve dormindo a noite toda. Fui duas vezes ao quarto dele e o vi deitado, ressonando e apagado pelas drogas que recebeu no hospital. Posso afirmar que a tal figura poderosa não é meu hospede. E eu não o protegi com magia alguma, quando transei com ele, naquele tempo. Pouco me importava com o que iria acontecer com ele, depois que saía de minha cama.
— Não foi aberto outro portal antes ou depois da chegada desse homem, Regina! Não temos outro estranho em nossa cidade, exceto pelo seu hóspede. Eu quero ter contato com ele! Exijo isso pela segurança de nossa cidade ou vou provocar um tumulto ao criar alguma história sobre o desconhecido.
Regina vai até a porta da sala e a abre, apontando a saída para o Sr. Gold.
— Rumple, o meu hóspede está numa casa com três das mais poderosas bruxas que você conhece, porque você nos treinou, exceto por Robin. Acredita que não sentiríamos a presença de outro mago dentro de nossa própria casa?
— Eu quero confrontá-lo e caso eu descubra que ele é um warlock, pessoalmente vou entregá-lo à população sob a acusação de ameaça.
— Faça isso, Rumple. Mas por ora, deixe-me trabalhar e trate de cuidar das cobranças de seus alugueis e de sua família. Agora, saia!
Aquela visita incomoda a alma de Regina. Para garantir a segurança de William, ela pede que Cora e Zelena aumentem a proteção de magia em torno da casa para evitar que algum cidadão mais exaltado queira se manifestar com negatividade. Discretamente, pede para que Killian retorne à casa para conversar e alertar o hóspede sobre os riscos que a cidade e seus cidadãos ofereciam.
Calado, absorto em um trabalho simples, William passa o rastelo pela grama e vai juntando as folhas caídas. Interrompe seu trabalho quando observa a aproximação de um homem jovem, trajando roupas escuras e modernas. O reconhece ao ver o gancho no lugar de uma das mãos.
— Olá, companheiro!
William sorri. Larga o rastelo e vai na direção do visitante, tomando-o num abraço fraterno
— Pelo jeito, vejo que me vê como alguém familiar! – Killian retribui o abraço. – Há quanto tempo!
Afastando o pirata do corpo, William mantém as mãos prendendo os ombros do amigo.
— Pensei que o tinha perdido. Você está exatamente como em nosso último encontro, quando me disse que iria para a Ilha dos Decapitados.
— Fico feliz em ser a única lembrança em sua mente. É uma honra!
— Eu pensei que tinha perdido você e chorei muito.
— Não perdeu, companheiro. Enquanto vocês viviam suas vidas depois da maldição, eu estava preso em uma redoma de magia, vivendo ao lado de Cora, mãe de Regina. Foram vinte e oito anos ao lado de um ouriço gigante.
— Por que eu somente me lembro de você, Capitão? – William se mostra triste.
Killian sorri e apoia a mão no ombro do outro homem.
— Talvez porque nos amávamos como irmãos. Poderíamos conversar um pouco?
Olhando por cima do ombro, William acena para Robin que estava sentada na varanda, folheando um livro que não prendia sua atenção.
— Regina me pediu para não sair da casa. Disse que os habitantes daqui estão temerosos com minha presença. Cora e Zelena fizeram uma redoma de magia para evitar intrusos e ceder poucas permissões de entrada.
— Então, vamos conversar aqui mesmo. – Killian envolve os ombros do amigo em um abraço e ambos caminham na direção da casa. – Você ainda está incrivelmente lindo!
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