Notas iniciais
Imaginemos Delphine Chaneac como a Rainha Danna e Billy Wirth como o Príncipe William de Velac.

— Trate de trazer meu irmão de volta, seu degenerado! – grita o mago, controlando o desejo de grudar seus dedos magros no pescoço do príncipe, até vê-lo ficar arroxeado. – Você não foi parido, pervertido, depravado! Sua mãe o retirou de algum ninho de alguma mocreia!

— Por que o senhor está gritando com meu filho? – a voz suave e serena da Rainha evoca o auto controle do velho magro. – Ele não é um degenerado ou foi retirado de algum ninho de mocreia. Ele saiu de meu ventre e foi o momento mais lindo de minha vida.

O mago bufa.

— Majestade...seu filho transformou meu irmão em uma lampreia. Faça com que ele devolva meu irmão à forma real.

Danna sorri e inclina a cabeça de lado. Olha o rosto cínico do filho e sorri.

— Você sabe que quem fez esse feitiço é o único que pode desfazê-lo. Não ironize seu aprendizado. Será muito útil quando for rei.

— Eu não sei qual é a forma real de um mago, minha mãe.

— William...

— Foi apenas uma brincadeira. – ele gesticula graciosamente e a lampreia sofre uma mutação, assumindo a forma do velho mago. – Peço desculpas ao seu irmão, Borae.

O homem se levanta e faz uma careta indefinida. Revencia a Rainha e vai sentar-se num canto da sala de estudos.

— Não torne a fazer isso, William. É algo que deixa o corpo muito doloroso e causa febre nos próximos dias. – Danna acaricia o rosto do filho. – Use seus conhecimentos para algo útil, sem crueldade...o mundo já está repleto de warlocks assassinos. Faça a diferença.

Com movimentos graciosos, a Rainha se dirige para a saída da sala. Olha de víeis por cima do ombro.

— Quando terminar de limpar e organizar a sala inteira, venha ao nosso encontro na sala do trono. E está proibido de usar truques mágicos. Use sua força física.

Passado algum tempo...

Caminhando despretensiosamente, William vai se aproximando da entrada da sala do trono. É reverenciado sutilmente pelos soldados da guarda pessoal do rei e continua sua entrada para o encontro com os pais.

A sala do trono estava estranhamente escura, recebendo as luzes bruxelantes de velas espalhadas sobre móveis. As tochas não estava, acesas. Por quê?

Cauteloso, William usa seus conhecimentos mágicos e camufla-se na escuridão. Havia adquirido com certo pirata, um estranho anel conseguido em uma ilha que não constava no mapa, que tinha a capacidade de impedir que habilidosos detectassem a presença de outro habilidoso em um mesmo recinto.

E ele observa o cenário para algo incomum.

Ajoelhados no centro da sala, o casal real parecia em transe, enquanto os dois magos horrendos liam alguma ladainha em um idioma estranho. Por longos minutos, repetiram aquelas falas e depois de um período em silêncio, gesticulam ordenando algo ao casal.

Repugnado, William observa seus pais receberem em suas mãos abertas, algo arredondado e pulsante. Começam a comer aquelas coisas cruas e escuras. Aguçando sua percepção, ele identifica que seus pais comiam corações.

Silencioso e ainda camuflado, ele se afasta dali e retorna para seu quarto. O que tinha sido aquilo? Por que os magos estavam ofertando corações para que o casal comesse? Qual era o objetivo daquilo? Certamente, era magia, mas com qual objetivo?

Precisava saber e sua curiosidade o leva para a sala de estudos. Ali, vasculha os velhos manuscritos dos magos e perde-se em sua pesquisa. Mesmo que fosse flagrado no recinto, poderia alegar que estava apenas estudando.

E é o que acontece. Os dois magos horrendos e magricelas chegam e são surpreendidos ao encontrarem William absorto em sua leitura.

— Príncipe?

— Olá, Borae. Eu estava com dúvidas e vim buscar informações aqui. Espero que não se incomodem. – ele sequer ergue os olhos.

— O senhor é nosso aluno e os livros são do acervo do reino. – o mago titubeia ao falar.

— Ouvi marujos nas docas contando sobre a Rainha da Floresta Encantada e o poder que ela tem sobre as pessoas, quando arranca o coração de seus corpos. É real?

Os magos se entreolham.

— Ela faz isso para controlar as pessoas e torná-las suas escravas.

— E por que o coração? Por que não o cérebro?

Borae sorri e torna-se assustador.

— Porque as pessoas acreditam que o coração é o guardião das emoções e dos sentimentos, além das vontades. E essa crença facilita o controle da Rainha Má.

— E ela faz o que com esses corações?

— Meu príncipe, ela tanto pode esmagar quanto apenas guardar. – o mago desfaz o sorriso.

— E comer? Ela os come? Qual é o objetivo de um ritual em que as pessoas comem corações?

Os dois magos gargalham e logo se silenciam.

— Ela tem outros meios para manter-se jovem e bela. – diz o mago que sempre permanecia calado.

Com um gesto brusco, William fecha o livro. Levanta-se e ajeita as roupas amassadas, saindo de trás da mesa de madeira rústica. Sorri com todos os dentes e acentua suas covinhas nas bochechas, deixando uma incógnita com os magos.

Momentos depois...

Sentado numa das mesas da taverna, William apenas observa a caneca com cerveja, alheio ao barulho intenso dos beberrões e jogadores.

— Vai controlar a mente da cerveja? O que ela deve fazer?

Ele sai de seu devaneio e sorri ao ver o pirata de terríveis olhos envelhecidos.

— Olá, Capitão Gancho! Pensei que já tivesse partido.

— Partiremos amanhã. Encontramos uma nova aventura e conseguiremos um imenso tesouro. – o pirata se senta sem ser convidado. – Vamos em busca da ilha dos Decapitados.

— Hummm. Deve ser um lugar pouco agradável.

— Pelo menos os habitantes não fazem perguntas tolas. Mas me diga o que estava franzindo sua testa?

William apoia as costas na cadeira e faz uma careta de repulsa. Funga o narigão algumas vezes.

— O senhor saberia me dizer por qual motivo algumas pessoas comem coração?

— Se for cozido com legumes e bem temperado...é porque têm ótimo paladar.

O conhecido sorriso de muitos dentes surge na boca do príncipe.

— E se for um coração cru e ainda pulsante? Numa sala iluminada por velas e com magos sussurrando ladainhas...- ele fala e move os dedos como se dedilhasse um instrumento invisível.

O pirata arqueia o sobrolho escuro e expressa seu cinismo.

— Eu diria que são pessoas bem malvadas, usando magia para manter a juventude e vitalidade. Quem seria essas pessoas?

Inclinando-se para frente, William estreita os olhos e toca com a ponta do dedo, o nariz longo.

— Essas pessoas são meus pais.

— IIhhh! Eu diria que vou apressar a minha saída daqui. E se eu fosse você, também sairia do palácio e de vez. Abdique do trono e deixe o encargo para qualquer um que queira conviver com comedores de coração. – o pirata aponta em volta para os beberrões e loucos na jogatina. – Faça o seu próprio reino por aqui e fuja de toda forma de magia. Toda magia tem um preço.

O pirata se levanta e bate levemente no ombro do príncipe.

— Faça um acordo com o Rei Olavo e fique cuidando do comércio e dos navios. Deixe os outros assuntos do reino para seus pais comedores de coraç... mantenha-se longe deles, antes que você também sinta anseio em ser adepto a esta prática. Fique em paz e me deseje boa viagem.

Antes que o pirata conseguisse alcançar a porta, vira-se novamente para o interior do salão, ao ouvir sua alcunha ser chamada pelo príncipe.

— O que há, velhinho?

— Coração cru e ainda palpitante. Espero que seja retirado de animais...

— Lamento, meu príncipe, mas são retirados de pequenos humanos. São de crianças.

Depois daquela informação, William se torna cada vez menos frequente nas reuniões do palácio. Não conseguia manter a proximidade com seu pais e evitava contatos físicos quando era procurado por eles. A imagem daquele ritual ainda estava latente em seus olhos e em suas lembranças.

Era difícil olhar o rosto saudável de suas pais e não se lembrar que aquilo era resultado de prática tão repugnante e apavorante. Mas até quando conseguiria esconder sua repulsa sem causar desconfiança em Olavo e em Danna?