— Usaram? – Killian se espanta. Mas não iria insistir, porque ele também tinha cometido uma atrocidade no passado, ao matar o próprio pai.

Danna ignora a pergunta. Continua encarando Regina.

— Vai nos deixar conhecer e conviver com o nosso neto? – ela sorri e busca apoio em Olavo, que sem senta bem perto das duas Rainhas.

— Irá permitir que vejamos o rosto de William em nosso neto? – ele pergunta.

— Creio que minha Majestade não irá se opor, assim como também não se oporá ao contato de Hileia com o neto biológico. – Killian não conseguia confiar naquela Rainha de olhar insano. As alterações de humor que havia presenciado, confirmavam algo de ruim no funcionamento da cabeça dela.

Cora se espanta com a fala do pirata. E ele percebe.

— É que o Rei Olavo e a Rainha Danna adotaram o menino. A mãe biológica é outra...assim como Regina e Emma.

Danna se sobressalta e algo lhe ocorre. Ela se levanta e assume uma careta feroz.

— O senhor veio com sua esposa Emma a mando de Regina? Sabia de William e mesmo assim veio com falsa intenção? – ela é obrigada a sentar-se pelas mãos do rei.

— Falsa intenção? Não. Emma e eu tínhamos a intenção verdadeira de saber o motivo da estadia de William em nosso reino. Viemos escondidos de Regina, logo no dia seguinte ao casamento,e...

Regina estreita os olhos e ordena numa ordem muda, que o pirata calasse a boca. A situação já estava bastante delicada para aumentar o clima de belicosidade. Ele entende. Maneia afirmativamente com a cabeça e faz uma careta cínica.

— Confesso que a chegada de William foi surpreendente e despertou nossos instintos de proteção. Eu queria apenas relembrar meus momentos passados, mas fui traída pelos seus sentimentos e o amor tomou conta de minha alma e de meu espírito. – Regina se volta para Danna.

O olhar da Rainha híbrida faiscava e esguichava ódio. Porém, em questão de milésimos de segundos, ela sorri e seu olhar muda-se radicalmente. A mudança congela o coração de Cora.

— Fizemos o teste da chama da vela da verdade e nossos sentimentos foram confirmados.

— O amor de meu filho era verdadeiro, sim. Isso nós acompanhamos por décadas. Ele morreu em seu lugar e ...

— Por que tinha de ser o coração de minha filha? Vocês devem ter conhecido milhares de corações cruéis ao longo de suas vidas. Aliás, neste grupo temos uma variedade de corações cruéis, inclusive o seu e do Rei Olavo. Ou quem come coração de criança para manter a vitalidade, não tem o coração cruel? Por que justamente o coração de Regina, que não é mais cruel?

— Sim, Cora. Todos nós temos corações perversos e cometemos perversidades...mas era uma questão de vingança contra o que ela me fez. – a voz do Rei estava baixa e triste. – Foi nossa oportunidade de revanche.

Regina concorda e não diz nada. Ela sabia exatamente o que se pode fazer quando a ideia da vingança comanda sua vida. Ela diz suavemente:

— Onde enterraram o corpo de William? Eu gostaria de levar flores e conversar com ele.

Sorrindo sem exibir os dentes e emitindo um som grosso demais e destoante de sua estatura, Danna nega com a cabeça.

— Decidimos preservar o corpo com magia em um caixão de cristal, enquanto reviramos o mundo de cabeça para baixo, em busca de um coração que suporte toda a carga de magia que o corpo dele carrega. – ela sorri com os olhos. Estende a mão e segura a mão do marido. – Ele ainda está conosco no castelo.

Suave e elegante, o Rei Olavo se levanta e depois de liberar-se do toque da esposa, oferece a mão para que Regina a pegasse. Mostra um sorriso trêmulo e nervoso.

— Estão todos convidados para um último adeus ao meu filho.

Na sala onde a esquife descasava, dois guardas vigiavam a porta, apenas para cumprir formalidades. Abrem as duas partes da imensa porta de madeira e dão passagem ao grupo.

No centro da sala, sobre uma pedra retangular descansava o caixão em cristal, onde jazia o corpo de William. Por segundos, Regina consegue rever a cena da morte de Mary, após comer a maçã envenenada.

Ela se sente mal e agarra-se ao braço de Killian, sendo prontamente amparada. Ele fazia com a propriedade de um servo fiel e vigilante.

— Filha? – Cora vai ao socorro de Regina, mas para ao receber o sinal de que estava tudo bem.

Com passos lentos e cautelosos, a bela Rainha Mills vai se aproximando do caixão transparente. Apoia as mãos abertas na superfície fria que protegia o corpo de William. Ela olha lá dentro.

Vestido em roupas vermelhas com detalhes dourados, William se mostrava como o verdadeiro príncipe daquele Reino. É quando Regina se dá conta de nunca o tinha visto com as indumentárias nobres, o que o deixava ainda mais bonito, só que menos real.

Ela toca o próprio peito e fecha os olhos. Queria recordar-se de uma atitude em determinado momento, em que seus conhecimentos haviam sido úteis para devolver o amor da vida de Mary. Consegue se lembrar de ver a enteada ajoelhada, debruçada sobre o corpo de David e exibindo seu rostinho redondo molhado pelas lágrimas do desespero.

Havia dado certo uma vez, porque David tinha acabado de morrer. Mas daria certo naquelas circunstâncias? O espaço temporal entre Velac e Storybrooke era diferente e o príncipe estava morto há sete dias.

— Em busca de um coração forte o suficiente para suportar a carga de magia que há no corpo dele. – ela murmura de si para si. Depois, olha por cima do ombro. – Poderiam tirar a tampa do caixão?

Danna dá um passo à frente para impedir aquela invasão, mas Olavo a detém de maneira carinhosa e sutil. Deveriam tentar todo procedimento que pudesse trazer William de volta ou pelo menos morrer tentando. O máximo que poderia acontecer era tudo continuar na mesma situação.

— Deixe-a, minha amada. – ele cochicha ao ouvido dela. – Ainda temos o nosso neto.

Um sorriso perverso surge nos lábios da Rainha Danna, e mesmo sendo muito discreto, é percebido pelo olhar de lince da Rainha de Copas. Mesmo fraca, ela continuava perspicaz e atenta.

Com a ajuda dos dois soldados, Killian começa a mover aquela tampa. Com cuidado, ela é retirada e todos podem observar que sobre o corpo de William, pairava uma névoa azulada, que se movia como fogo fátuo.

Regina se aproxima e inclina-se para tocar o rosto de seu marido. Acaricia seus cabelos e seus cílios longos. Continuava lindo, com as marcas que a idade havia lhe presenteado.

Gesticulando com segurança, ela afasta a proteção que poderia atrapalhar sua tentativa de retirar William das garras afiadas da senhora Morte. Sente a temperatura de seu corpo aumentar, apenas com a mera visão daquele homem. Amor, desejo, paixão e saudade.

Ela enfia a mão dentro do próprio peito e arranca seu coração. Consegue escutar alguns sons de exclamação e espanto atrás de si. Em seguida, ela divide o órgão e observa as duas metades por alguns segundos. Aquilo tinha de dar certo!

Devolve uma das metades ao seu corpo e aguarda alguns instantes para recuperar-se da pequena ação invasiva. Por fim, ela enfia a outra metade de seu coração no peito do homem morto e afasta-se para apreciar o que iria acontecer.

Em total silêncio, todos ficam na expectativa. Tensos.

Regina junta as mãos sobre o peito e aguarda. Aguarda e nada acontece naquele momento. Ela se vira devagar e busca abrigo nos braços da mãe. Ambas choram.

— Mas teremos o nosso neto...- Danna fala sem se importar se estava sendo ouvida ou não.- E ele tomará o lugar de William...

Killian chora discretamente. Caminha para a saída da sala e olha de viés, esperando por suas companheiras de viagem.

— Recoloquem a tampa. – Olavo dá a ordem e conduz a esposa para longe do caixão.

Os dois soldados apanham a tampa transparente e por ser pesada, grande e desajeitada, acabam por derrubar o objeto e ele se espatifa no chão. Todos se assustam e olham na mesma direção.

Olham, apenas para ver William inclinando a cabeça para cima em busca de oxigênio. O príncipe geme e ofega-se.

Um longo tempo, muitos beijos e abraços depois...

William está acomodado sobre a cama e está apoiado contra o corpo de Regina, ambos junto à cabeceira.

Segurando uma das mãos do príncipe, Killian não se envergonha ou se constrange ao beijar-lhe o dorso. Tenta sorrir, mas os músculos do rosto desobedecem.

— Eu poderia lidar com a perda de nossa amizade...mas jamais com a sua morte.

Estreitando os olhos como um felino bravo, William abaixa a cabeça mas mantém os olhos fixos no rosto do pirata. Não responde. É o bastante para que Killian entenda e afaste-se.

— Sofremos muito quando soubemos que você tinha...nos deixado. – Cora tenta contornar a situação constrangedora pela falta de urbanidade do príncipe.

Danna se sente compelida a tirar o filho dos braços de Regina, mas se contém. Aperta a mão do marido, como se buscasse forças para não cometer desatino algum.

— Eles precisam ficar a sós. Vamos para outro ambiente. – Olavo aponta para a porta e é o primeiro a caminhar para ela.

Sozinho no quarto e mais à vontade, o casal se abraça buscando força e palavras para serem ditas, diante de uma situação assustadora e singular.

— Não sei se pedir perdão é o suficiente para...

— Não quero ouvir pedidos de perdão, William. – Regina segura o rosto do marido. – Quero que me dê a certeza de que agora em diante não teremos segredos ou mentiras entre nós!

— Pela minha vida e pelo seu coração que está dentro do meu peito...

Regina cobre os lábios do marido de beijos, beijos, lambidas, mordidinhas e mais beijos. Ele era seu e não iria impedir seu coração de amar. Ele havia errado, mas ela estava disposta a não permitir que seu final fosse triste, apenas pelo orgulho de não perdoar.

— Vamos lutar pela nossa família. Eu lutarei por você. Você lutará por mim. Nós dois lutaremos pelo nosso bebezinho. – ela sussurra com os lábios colados aos lábios dele.

Ele sorri abertamente e suas covinhas nas bochechas se evidenciam.

— Não é somente um bebezinho, minha Rainha. São dois coraçõezinhos batendo aqui dentro. – ele acaricia a barriga deliciosa de sua deliciosa esposa.

Horas mais tarde, no silêncio de castelo quase adormecido, Danna caminha de um lado a outro. Tensa, enfurecida, irritada e indignada, em vez de sentir-se maravilhada com o despertar do filho.

— Vai abrir um sulco no soalho, minha amada.

— Olavo, você não percebe que estamos perdendo William, mais uma vez? Perdemos quando a Rainha Maldita Espalhafatosa partiu após a maldição! Perdemos quando William se transformou num Senhor das Trevas! Perdemos quando o coração dele foi esmagado para a poção! E iremos perdê-lo agora!

— Danna, ele foi despertado! Regina tirou o próprio coração e deu a metade para que nosso filho despertasse! Ela o ama!

A Rainha bate no peito e rosna com os dentes travados. Sofre uma súbita mutação, mas logo recupera a forma humana.

— Nós o amamos! Você, mesmo sem seu coração, provou-me que os sentimentos não ficam armazenados no órgão físico!

Olavo abre a mãos e encolhe os ombros. E então?

— Ela irá levar meu filho e o meu neto embora! Acredita mesmo que aquela bruxa permitirá que nos aproximemos de meu neto e meu filho? Uma vez uma bruxa, sempre será uma bruxa!

Caminhando para perto, o Rei Olavo a segura suavemente pelos ombros. A obriga a olhá-lo fixamente.

— Não poderemos espantar os dois. Temos de ser amigáveis. Caso Regina perceba que queremos nosso filho e nosso neto conosco, irá impedir nossa aproximação.

Furiosa, a pequena Rainha se liberta das mãos do marido.

— Você não percebeu, mesmo! William a ama tanto, que foi capaz de morrer por ela! William nos enganou e deu o próprio coração, sabendo que morreria! Mesmo assim, ele o fez! William não irá abandonar aquela...aquela...não irá abandonar. – Danna abraça os próprios braços. Muda a expressão do rosto – Eu o deixarei à vontade para viver o que ele pensa ser amor...mas eu vou pegar a criança para mim, tão logo nasça.

Inclinando a cabeça para o lado, Danna olha seu reflexo em uma das janelas e sorri.

— Agora, estou revitalizada, forte e não envelhecerei. Usamos o coração de um Sombrio cruel em nossa poção e estamos muito fortes. Vou atrás de Regina, aonde ela for. E se William se colocar em nosso caminho...eu o tirarei. Aquele bebê ficará comigo. – ela se vira de repente para o rei espantado. – Todo Senhor das Trevas tem a sua adaga que o controla. Onde ele esconde a dele?