Meu conto nao e de fadas
1 Capítulo 1 - A história de Keylli
Notas iniciais
Edu ou Ramon?
Os olhos azuis do Edu têm o poder de me hipnotizar, sem contar com aquele sorriso... Edu sempre abre um belo sorriso e me faz rir até do que não tem graça.
As palavras do Ramon me encantam e fazem o meu coração acelerar. Seus carinhos são bons e sinto sua sinceridade no olhar.
Edu ou Ramon?
Acho que... Não vivo sem nenhum dos dois. Espero que um dia, eu consiga fazer a escolha certa.
Capítulo I
A História de Keylli
Oi, o meu nome é Keylli D'waise. Sou uma pessoa muito doce, sou tão doce que se me espremerem sai mel (risos). Bem, a minha história é um pouco diferente da história de qualquer outra garota de 21 anos. Eu tinha tudo nessa vida, ou quase tudo. Meu pai era vice-presidente de uma empresa alimentícia e ganhava super bem.
Eu, minha mãe e meus dois irmãos, tínhamos uma vida de luxo, como de um conto de fadas com final feliz, aqui em nossa cidadezinha do interior. Mas agora, tudo mudou... Meu pai faleceu no ano passado e minha mãe desde então ficou muito doente. Ela vivia como uma rainha e não sabe trabalhar com nada! Se bem que a idade dela também não a ajuda a conseguir um emprego.
Meus irmãos... Ah eles são novinhos ainda. Um tem oito aninhos e o outro tem doze. Como vocês puderam perceber, só sobrei eu. Eu sou a filha-irmã mais velha que posso trabalhar para sustentar a família.
Ah e não pensem vocês que eu precisei colocar currículo de lugar em lugar em busca de trabalho. O presidente da empresa alimentícia em que meu pai trabalhava, me ofereceu um emprego como cortesia. Nossa! Que senhor gentil! Gentil uma ova! Com a pensão que ele nos dá, mal conseguimos sobreviver devido as grandes dívidas que temos.
Meu pai trabalhou para ele por tantos anos, acho que no mínimo ele deveria ter mais consideração por nós. Mas já que infelizmente esse não é o caso, deixa eu voltar para o meu serviço. Trabalho como "Cobaia experimentadora", ou seja, sou eu quem tenho que provar os produtos para saber se estão bons para o consumo ou não. Pode?
Tchau gente! Tenho que ir... Foi bom falar com vocês!
Keylli escreveu este pensamento em seu blog pelo celular.
A empresa onde ela trabalhava, era grande, muito bonita, fachada com vidraças azuis, oito andares, elevadores... Era bastante luxuosa, exceto no setor da moça. Esse local tinha iluminação precária, caixas de papelão e de madeira empilhadas por toda parte, e a limpeza não era realizada diariamente como nos outros setores. Resumindo... Esse setor era considerado o mais baixo da empresa, apesar de ser de extrema importância.
Para piorar o estado, o uniforme usado naquela área, era uma camiseta azul bem comprida, calça preta larga e boné branco.
Keylli se revoltava com isso, pois mesmo com a dívida que sua família tinha, ela queria ter um emprego melhor lá dentro. Achava muita falta de consideração ter que passar por situações tão constrangedoras, sem contar com a constante perseguição à qual sofria todos os dias.
A bela jovem ainda mexia em seu celular, quando foi surpreendida por um dos supervisores do departamento na qual trabalhava.
— Senhorita D'waise, posso saber o que estava fazendo ao invés de trabalhar? – quis saber o homem moreno, de estatura mediana, que aparentava ter trinta e poucos anos, aproximando-se dela e falando num tom calmo.
— Oi Ricardinho, tudo bem com o senhor? Eu só estava... – a moça tentou explicar assustada, logo sendo interrompida por Lorena, a loira alta que se achava gostosa, que também era supervisora daquele setor.
— Toma Keylli, você tem que experimentar este ovo aqui. Veja se está bom para o consumo. – ordenou a supervisora mal-humorada, entregando-lhe o produto.
— Mas ele está cru! — reclamou a jovem surpresa, arregalando os olhos.
— É cru mesmo, minha filha! Você acha que os ovos já chegam à casa das pessoas, cozidos, fritos ou batidos? – Lorena debochou, arrancando risadas de Ricardinho.
"Isso não é emprego, é humilhação"! – pensou a funcionária enojada, tendo seu pensamento interrompido.
— Anda logo com isso Keylli! É pra hoje. — ordenou Ricardinho.
A garota olhou para aquele ovo com a maior cara de nojo. Sentindo-se humilhada, o rachou na ponta de uma mesa próxima a ela, levantou a cabeça e engoliu o conteúdo de uma só vez. Sem a casca, é claro.
— Ele está ótimo! — informou sentindo repulsa, correndo para o banheiro para vomitar.
Ricardinho que observava atentamente a cena, comentou: — Caramba, imagina se estivesse ruim?!
— Ai, ai, acho que o Daniel nunca imaginou que a filhinha dele terminaria assim. É lamentável! Esse é um emprego para gente fraca igual a ela. — Lorena disse num tom de superioridade, admirando as longas unhas de acrigel que estavam lindamente decoradas.
Keylli ouviu a tudo o que diziam, escondida atrás de uma porta. A moça se sentiu envolvida por um forte sentimento de tristeza. Com o coração apertado, concluiu que as coisas ali ficavam cada vez piores e esta situação já estava insustentável.
Ela precisou de alguns segundos para se recompor. Respirou fundo sem conseguir disfarçar a aparência cabisbaixa, porém conseguiu controlou o choro.
— Keylli, meu amor, você esta aí? O presidente quer te ver lá na sala dele. — comunicou o supervisor.
— Será que você vai ser demitida? — Lorena riu com sarcasmo.
— Tomara! – torceu a jovem fula da vida.
Bastante revoltada e de saco cheio de tudo o que vinha passando, ela foi à sala do homem de poder. Chegando lá, bateu três vezes na porta.
— Entre! – autorizou o patrão.
— Oi, bom dia! O que o senhor quer comigo? — estranhou a moça.
— Bom dia minha jovem! Sente-se. – o presidente a esperou se acomodar de frente para ele e comunicou satisfeito: — Agora nossa empresa também vai fabricar chicletes.
— É? Legal! — Keylli disse sem dar a mínima.
— Como você é de suma importância para que nossos produtos cheguem com qualidade às lojas, você será a primeira a experimentar. Pegue! — ordenou tirando do bolso de seu terno, um chiclete e o entregando à moça.
Ao desembrulhar a goma, ela rebateu assustada: — Mas... Mas isso está seco! Como alguém vai querer comprar um troço desses?
O chiclete que o presidente tirou do bolso para dar à Keylli, estava todo ressecado e meio duro. Percebendo a fisionomia de aflição da funcionária, ele a tranquilizou.
— Pode comer minha filha, é assim mesmo. Ele está em processo de produção.
Keylli colocou o chiclete na boca e começou a mastigá-lo bastante contrariada, mas não se calou diante desse fato.
— Aposto que meu pai não precisava fazer isso. É humilhante trabalhar nessa área, e olha quem me deu esse emprego? Logo quem dizia que era amigo do papai. — protestou revoltada com essa situação.
— Olha menina, tenha mais respeito! Você tem sorte de que eu por ser amigo do seu pai, não deixei sua família desamparada. Já tem o seu emprego, o que mais você quer?
— Emprego? Eu tenho um emprego? – ironizou indignada, pondo-se de pé. — Esse emprego é tão legal que eu não quero ser demitida. Eu me demito!
Keylli fez uma bola de chiclete, debruçou-se sobre a mesa e a estourou na cara do velho empresário.
— Nossa! Não sabia que dava pra fazer bolinha. — ela debochou com um sorrisinho sarcástico, para logo após se retirar e bater a porta com toda força.
O presidente, é claro, não gostou nada dessa atitude e ficou resmungando sentado em sua confortável cadeira.
— É, ela não se parece em nada com o Daniel. Que garotinha malcriada!
Ao sair da empresa sentindo-se muito triste e quase sem esperança, a jovem moça foi embora caminhando por uma rua reta, repleta de árvores altas. Enquanto caminhava, encolhia-se de frio sentindo na pele aquela brisa gelada. Ela parecia estar perdida em meio aos seus pensamentos.
Após alguns minutos de caminhada, enfim chegou em casa e foi logo contar a novidade à sua mãe, que estava sentada no sofá da sala, desanimada, desarrumada e abatida.
— O que foi minha filha? – perguntou Norma preocupada.
— Mamãe, eu me demiti. – Keylli informou com firmeza, erguendo a cabeça com a intenção de demonstrar segurança em sua decisão.
— O quê?! Filha, como assim? — a mãe ajeitou-se no sofá, pasma com a notícia.
— Eu não aguentava mais! — ela passou a mão pela testa, sentindo-se exausta. — Aquilo era uma humilhação, debochavam de mim o tempo inteiro. – explicou ressentida.
— Mas e agora? Como vai ser? – preocupou-se a mulher.
— Calma, eu já pensei em tudo. – Keylli afirmou agachando em sua frente e pegando em suas mãos tentando tranquilizá-la. — Nesse tempo em que eu trabalhei lá, consegui juntar um bom dinheiro e...
— E...? — Norma levantou as sobrancelhas.
— Uma parte dele vou deixar com a senhora e meus irmãos, dá pra sobreviverem por um tempo. – encolheu os ombros continuando: — E a outra parte, eu vou usar pra ir para a cidade.
— Para a cidade? O que você vai fazer na cidade, Keylli? – contestou Norma.
— Lá as oportunidades são maiores. – a moça ficou de pé afastando-se da mãe uns centímetros. — Eu vou conseguir um emprego melhor e ganhar mais. Quando tiver o suficiente, eu juro que volto. Prometo enviar dinheiro pra vocês todo mês. — explicou Keylli.
— Não posso te deixar ir. — discordou a mãe, fazendo gesto negativo com a cabeça.
— É preciso, mãe. – ela bateu o pé de leve no chão. — Aqui não temos nenhuma chance. Tudo vai melhorar. – aproximou-se, pegou em suas mãos novamente e pediu com voz doce: — Confia em mim.
Dona Norma resistiu um pouco à decisão da filha, mas no final acabou aceitando, pois percebeu que essa era mesmo a melhor alternativa para família.
— Eu... Eu não concordo com isso, mas... Confio em você. – acariciou seu rosto e suplicou: — Se cuida minha filhinha.
— Tá bom, mamãe. – olhou em seus olhos. — Te amo!
— Também te amo, amor!
Mãe e filha se abraçaram emocionadas.
Dois dias depois, bem cedinho, Keylli partiu para a cidade. Ela preferiu ir de ônibus pois a passagem de avião era bem mais cara e ela precisava economizar seu dinheiro.
Já dentro da condução, colocou seu fone nos ouvidos (escutava a música "Cedo ou tarde" da banda NX Zero), e com a cabeça apoiada na janela fechada, respingada pela fina chuva que caía, pensava na mãe, no pai e nos irmãos.
"O mais difícil de estar longe, é conviver com a saudade. Faço isso pela minha família que amo demais, mas tenho muito medo". – arfou preocupada. "Ah papai, porque o senhor se foi? Com você, eu me sentia protegida e não teria que passar por nada disso".
Durante a longa viagem, ela deixou lágrimas escorrerem por seu rostinho meigo várias vezes, mas mantinha o seu foco, sua concentração e principalmente o seu coração, voltados à sua família. Isso que a dava forças para prosseguir em sua complicada jornada.
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